{"id":425,"date":"2010-01-14T00:04:17","date_gmt":"2010-01-14T03:04:17","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/01\/terminei_de_ler_gomorra\/"},"modified":"2010-01-14T00:04:17","modified_gmt":"2010-01-14T03:04:17","slug":"terminei_de_ler_gomorra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/01\/14\/terminei_de_ler_gomorra\/","title":{"rendered":"Terminei de ler&#8230; Gomorra"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"DSC00890.JPG\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/DSC008901.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\nVira e mexe, quando quero argumentar o ponto de vista &#8216;biol\u00f3gico&#8217; de alguma coisa, geralmente depois do 3o chopp em uma mesa de buteco, acabo recorrendo as EEE, ou Estrat\u00e9gias Evolutivamente Est\u00e1veis. Esse conceito \u00e9 muito \u00fatil para mostrarmos a natureza amoral da natureza. N\u00e3o tem o &#8216;certo&#8217; e o &#8216;errado&#8217;. Tem o que d\u00e1 certo e o que d\u00e1 errado evolutivamente (ou seja, a longo prazo).<br \/>\nPara mim, o melhor exemplo \u00e9 o do traficante carioca. Algu\u00e9m conhece algum traficante com 80 anos? Pois \u00e9, eles podem ter sucesso a curto prazo, mas a longo, a estrat\u00e9gia de resolver os problemas atirando n\u00e3o \u00e9 boa. Sempre ter\u00e1 algu\u00e9m atirando mais que (e em) voc\u00ea.<br \/>\nA essa altura voc\u00ea j\u00e1 deve estar se perguntado o que isso tem a ver com o livro. <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21467230\/gomorra\/?franq=284021\"><em>&#8220;Gomorra&#8221;<\/em><\/a>, de <em>Roberto Saviano<\/em> \u00e9 o romance de um jornalista infiltrado na m\u00e1fia napolitana, a terr\u00edvel e tem\u00edvel Camorra. Depois de ler <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/1470894\/elite+da+tropa\/?franq=284021\">&#8220;Elite da Tropa&#8221;<\/a>, que eu terminei no final do ano passado, fiquei com aquela sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;Meu Deus, quem manda no Rio s\u00e3o os grandes traficantes de drogas&#8221;. S\u00f3 que depois de ler <em>Gomorra<\/em>, voc\u00ea fica com a sensa\u00e7\u00e3o de que a m\u00e1fia napolitana manda no mundo todo, devido a seus longos bra\u00e7os, que atravessam as fronteiras da it\u00e1lia para dezenas de pa\u00edses, com neg\u00f3cios l\u00edcitos e il\u00edcitos nos 5 continentes.<br \/>\nAgora voc\u00ea deve estar se perguntando o que isso tem a ver com Biologia. Bom, a primeira coisa a ver \u00e9 com o cientista. Primeiro que \u00e9 important\u00edssimo para um cientista ler coisas que n\u00e3o sejam apenas artigos cient\u00edficos. A prosa de Saviano \u00e9 bastante interessante. O ritmo, a forma como ele relata os fatos sem envolvimento, ou com tanto envolvimento que chega a comover. Depois, porque mostra pra gente quando estamos perto da maluquice, j\u00e1 que mesmo lendo uma reportagem sobre a m\u00e1fia napolitana, nossos c\u00e9rebros n\u00e3o est\u00e3o desligados da ci\u00eancia. Nunca! \u00c9 um trabalho <em>non stop<\/em>, 24h por dia, 7 dias por semana.<br \/>\nAtirem a primeira pedra os meus leitores cientistas, ou futuros cientistas, que foram assistir <em>Avatar<\/em> e n\u00e3o ficaram analisando cient\u00edficamente c-a-d-a u-m dos elementos do filme. Eu sei, coisa de Nerd.<br \/>\nUm trecho de Gomorra fala exatamente do comportamento dos <em>boss<\/em>, ou dos chefes dos cl\u00e3s, que sabem que ser\u00e3o presos ou mortos muito cedo, mas mesmo assim trabalham, lutam e matam para comandar. Correto? Mau? \u00c9tico? Talvez o mais importante \u00e9 que n\u00e3o \u00e9, certamente, uma EEE, como fica claro no trecho a seguir:<br \/>\n<em>&#8220;Poucos dias depois da pris\u00e3o do primog\u00eanito do cl\u00e3, seu rosto arrogante encarando as c\u00e2meras da TV gira pelos celulares de centenas de rapazes e mo\u00e7as das escolas de <\/em>Torre Annunziata, Quarto, Marano<em>. Gestos de mera provoca\u00e7\u00e3o, de banal agressividade entre adolescentes. \u00c9 verdade. Mas <\/em>Cosimo<em> sabia. Por isso precisava agir daquele jeito para ser reconhecido como chefe, para tocar o cora\u00e7\u00e3o das pessoas. (&#8230;) <\/em>Cosimo<em> representa claramente o novo empres\u00e1rio do Sistema. A imagem da nova burguesia desvinculada de qualquer freio, movida pela absoluta vontade de dominar todo o territ\u00f3rio do mercado, de meter a m\u00e3o em tudo. N\u00e3o renunciar a nada. Fazer uma escolha n\u00e3o significa limitar o pr\u00f3prio campo de a\u00e7\u00e3o, privar-se de outras possibilidades. N\u00e3o para quem considera a vida como um espa\u00e7o onde se pode conquistar tudo, mesmo correndo o risco de perder tudo. Significa, inclusive, levar em conta a possibilidade de ser preso, de acabar mal, de morrer. Mas n\u00e3o significa renunciar. Querer tudo e mais e o quanto antes. \u00c9 esta a for\u00e7a e o atrativo que <\/em>Cosimo Di Lauro<em> personifica. Afinal, se todos, mesmo os mais zelosos com a pr\u00f3pria seguran\u00e7a, terminam na gaiola da aposentadoria, se todos, mais cedo ou mais tarde, se descobrem tra\u00eddos e terminam com uma bab\u00e1 polonesa, por que morrer de depress\u00e3o \u00e0 procura de um trabalho tedioso? Por que se acabar num <\/em>part-time<em> atendendo telefone? (&#8230;) <\/em>Ernst Ju\u0308nger<em> diria que a grandeza est\u00e1 sujeita \u00e0 tempestade. (&#8230;) Quem diz que isso \u00e9 amoral, que n\u00e3o pode haver vida sem \u00e9tica, que a economia possui limites e regras a serem seguidas, \u00e9 simplesmente quem n\u00e3o conseguiu comandar, quem foi exclu\u00eddo do mercado. A \u00e9tica \u00e9 o limite do perdedor, a prote\u00e7\u00e3o do destronado, a justificativa moral para aqueles que n\u00e3o conseguiram jogar tudo e conquistar tudo.&#8221;<br \/>\n<\/em><br \/>\nSe n\u00e3o \u00e9 uma EEE, podemos ter certeza que a longo prazo, n\u00e3o mais existir\u00e1. Talvez seja o \u00fanico al\u00edvio queteremos ao livro. O resto \u00e9 s\u00f3 soco no estomago, como esse trecho mostrou.<br \/>\nMais adiante, Roberto fala daquele sentimento que todo pesquisador tamb\u00e9m experimenta em alguma momento, quando tem dados que s\u00e3o suficientes para causar estranheza, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para tirar uma conclus\u00e3o s\u00f3lida. Veja:<br \/>\n<em><br \/>\n&#8220;Muitos diziam que o SISDE (Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o e de Seguran\u00e7a Democr\u00e1tica) era o \u00fanico respons\u00e1vel pela pris\u00e3o. O SISDE tinha intervindo, confirmaram as for\u00e7as policiais, mas sua presen\u00e7a em Secondigliano era dif\u00edcil, dificilima de acreditar. Sinais de alguma coisa que se aproximava muito da hip\u00f3tese que seguiam alguns rep\u00f3rteres, ou seja, a de que o SISDE tivesse pago sal\u00e1rio a diversas pessoas da regi\u00e3o em troca de informa\u00e7\u00e3o ou de n\u00e3o-interfer\u00eancia; eu tinha realmente ouvido isso em peda\u00e7os de conversa de bar. Homens que tomavam caf\u00e9 ou cappuccino com croissants pronunciavam frases do tipo:<\/em><br \/>\n&#8216;J\u00e1 que voc\u00ea recebe dinheiro de James Bond&#8230;&#8217;<br \/>\n<em>Ouvi duas vezes, naqueles dias, refer\u00eancias furtivas ou alusivas a 007, um fato muito pequeno e ris\u00edvel para dele se tirar qualquer conclus\u00e3o, mas tamb\u00e9m muito incomum para passar despercebido.&#8221;<\/em><br \/>\nA diferen\u00e7a \u00e9 que os jornalistas geralmente n\u00e3o pagam com suas carreiras por um palpite ou uma opini\u00e3o infundada, enquanto os cientistas&#8230;<br \/>\nMas o melhor (quer dizer, o pior) est\u00e1 no \u00faltimo cap\u00edtulo &#8216;A terra dos fogos&#8217;, onde ele denuncia com incr\u00edvel riqueza de detalhes e grande corre\u00e7\u00e3o, os <em>Business<\/em> que se tornaram os dep\u00f3sitos clandestinos de lixo. Um crime ecol\u00f3gico e civil que eu acredito que bi\u00f3logo ou n\u00e3o, cientista ou n\u00e3o, ningu\u00e9m ficar\u00e1 insens\u00edvel.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vira e mexe, quando quero argumentar o ponto de vista &#8216;biol\u00f3gico&#8217; de alguma coisa, geralmente depois do 3o chopp em uma mesa de buteco, acabo recorrendo as EEE, ou Estrat\u00e9gias Evolutivamente Est\u00e1veis. Esse conceito \u00e9 muito \u00fatil para mostrarmos a natureza amoral da natureza. N\u00e3o tem o &#8216;certo&#8217; e o &#8216;errado&#8217;. 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