{"id":439,"date":"2010-02-04T19:59:18","date_gmt":"2010-02-04T22:59:18","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/02\/foi_por_medo_de_aviao\/"},"modified":"2010-02-04T19:59:18","modified_gmt":"2010-02-04T22:59:18","slug":"foi_por_medo_de_aviao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/02\/04\/foi_por_medo_de_aviao\/","title":{"rendered":"&quot;Foi&#8230; por medo&#8230; de avi\u00e3o&#8230;&quot;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\">\n<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"aviao_takeoff_1207911_67279103.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/aviao_takeoff_1207911_672791031.jpg\" width=\"500\" height=\"281\" class=\"mt-image-none\" \/><br \/>\nEm <em>&#8216;O brilho eterno de uma mente sem lembran\u00e7as&#8217;<\/em>, <em>Clementine<\/em>, depois de anos de relacionamento com <em>Joel<\/em>, resolve apag\u00e1-lo, literalmente, de sua mem\u00f3ria. As angustias que um despertava no outro, vivendo juntos ou separados, eram insuport\u00e1veis e eles se submeteram a um tratamento experimental no c\u00e9rebro para bloquear as mem\u00f3rias que tinham um do outro.<br \/>\nDois artigos publicados esse m\u00eas nas prestigiosas revistas <em>Nature<\/em> e <em>Science<\/em> mostram que a ci\u00eancia est\u00e1 cada vez mais perto de fazer com que <em>Joel<\/em> possa bloquear, sen\u00e3o a mem\u00f3ria de <em>Clementine<\/em>, a rea\u00e7\u00e3o de angustia a lembran\u00e7a dela.<br \/>\nEu j\u00e1 falei <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/07\/de-olhos-bem-fechados.php\">aqui<\/a> sobre drogas que podem induzir a perda do medo, mas elas tem o &#8216;pequeno&#8217; inconveniente de interferir com a s\u00edntese prot\u00e9ica no c\u00e9rebro de humanos. Mas esses novos artigos demonstram uma abordagem n\u00e3o invasiva, ou seja, sem drogas, que pode se tornar revolucionaria e mania nos consult\u00f3rios de psican\u00e1lise.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2006\/09\/por-que-as-pessoas-sentem-medo.php\">Aprender a ter medo<\/a> pode ser importante adaptativamente. Um dos maiores especialistas do mundo em mem\u00f3ria, o neurocientista <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/09\/izquierda-ou-direita.php\">Ivan Izquierdo<\/a>, diz que de todas as nossas emo\u00e7\u00f5es, a \u00fanica que realmente sabemos que \u00e9 capaz de estimular a nossa mem\u00f3ria \u00e9 o medo. O medo tamb\u00e9m pode ser ensinado atrav\u00e9s do &#8216;reflexo incondicionado&#8217; de Pavlov. \u00c9 quando ratos tomam um choque depois de ouvir o som de um apito e aprendem a temer o apito. O medo \u00e9 medido atrav\u00e9s de uma resposta involunt\u00e1ria e inata (que no caso dos ratos \u00e9 ficar completamente im\u00f3vel).<br \/>\nA mem\u00f3ria pode ser de diferentes tipos e no caso de uma mem\u00f3ria do medo, v\u00e1rios tipos est\u00e3o envolvidos: a mem\u00f3ria declarativa (aquela que \u00e9 ativada por palavras e outros s\u00edmbolos), a emotiva e a inconsciente (que gera, por exemplo, a resposta motora ao medo). Elas est\u00e3o localizadas em diferentes regi\u00f5es do c\u00e9rebro, mas s\u00e3o fixadas contempor\u00e2neamente em um processo \u00fanico e definitivo chamado de <strong>consolida\u00e7\u00e3o<\/strong>. No entanto, novos resultados de experimentos com bloqueadores qu\u00edmicos tem mostrado que a mem\u00f3ria \u00e9 fixada, constru\u00edda, de novo, todas as vezes que ela \u00e9 acessada (toda vez que nos lembramos daquilo), em um processo chamado de <strong>reconsolida\u00e7\u00e3o<\/strong>.<br \/>\nO per\u00edodo de <strong>reconsolida\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 relativamente curto (em ratos e humanos, de at\u00e9 6h), mas durante esse per\u00edodo, a mem\u00f3ria pode ser relaxada, flexibilizada, alterada, manipulada e outros -adas que voc\u00ea queira. Passado esse per\u00edodo, a mem\u00f3ria \u00e9 fixada e n\u00e3o pode mais ser modificada. Por\u00e9m, se tiver sido modificada, o efeito, segundo o artigo da <em>Nature<\/em>, \u00e9 bastante duradouro, sendo observados mesmo ap\u00f3s 1 ano da <strong>reconsolida\u00e7\u00e3o<\/strong>.<br \/>\nA maior parte dos tratamentos contra ansiedade \u00e9 baseada em um processo chamado de <strong>extin\u00e7\u00e3o<\/strong>: o contexto amedrontador \u00e9 apresentado, mas sem o agente do medo. A teoria diz que depois de repetir esse processo muitas e muitas vezes, o medo desaparece. E desaparece mesmo. S\u00f3 que na maioria dos casos, n\u00e3o para sempre, com grandes chances de retorno ap\u00f3s o final do tratamento.<br \/>\nSegundo os autores, a <strong>extin\u00e7\u00e3o<\/strong> s\u00f3 \u00e9 eficiente se conduzida durante o processo de <strong>reconsolida\u00e7\u00e3o<\/strong>. \u00c9 importante acessar a mem\u00f3ria amedrontadora, para que o novo processo de contextualiza\u00e7\u00e3o seja disparado. <strong>E s\u00f3 ent\u00e3o podemos alterar a mem\u00f3ria.<\/strong><br \/>\nEstou com a sensa\u00e7\u00e3o que falta um exemplo. Fiquei aqui pensando no que eu poderia usar que n\u00e3o fossem os quadrados azuis e verdes do experimento descrito no artigo, medindo como resposta ao medo a varia\u00e7\u00e3o na condutividade el\u00e9trica da pele. E ai lembrei do <em>Belchior<\/em> e do medo de avi\u00e3o que fez com que ele pegasse na m\u00e3o da menina, me dando assim os dois argumentos que eu precisava para construir um bom exemplo: o contexto amedrontador &#8211; avi\u00e3o; e a resposta inata ao medo &#8211; segurar na m\u00e3o.<br \/>\nO medo de avi\u00e3o \u00e9 mais que bom, \u00e9 um \u00f3timo exemplo. \u00c9 um medo intuitivo forte, porque o medo de altura \u00e9 inato e todos n\u00f3s o dividimos; mas ao mesmo tempo irracional, porque todo mundo sabe que \u00e9 o meio de transporte mais seguro que existe e as estat\u00edsticas mostram que a chance de voc\u00ea morrer em um acidente a\u00e9reo \u00e9 de 1:1.600.000 (menor que a de morrer atingido por um raio), o que significa que voc\u00ea pode viajar de avi\u00e3o todos os dias durante 26.000 anos sem que nada lhe aconte\u00e7a. <strong>E ainda assim, a gente tem medo!<\/strong><br \/>\nEu, por exemplo, n\u00e3o tinha medo de avi\u00e3o at\u00e9 que comecei a andar muito neles. Mas tudo come\u00e7ou mesmo quando assisti um programa que mostrava que \u00e9 durante a decolagem e a aterrissagem que a maior parte dos pouqu\u00edssimos acidentes acontecem. Agora, todas as vezes que o avi\u00e3o decola, eu n\u00e3o chego a segurar na m\u00e3o de quem est\u00e1 do lado, mas as minhas m\u00e3os suam frio, que \u00e9 outro sinal inato de medo.<br \/>\n\u00c9 um medo que eu controlo tranquilamente. Mas se o Belchior n\u00e3o, ent\u00e3o minha sugest\u00e3o \u00e9 que ele fosse ao psic\u00f3logo pra tentar uma <strong>terapia de extin\u00e7\u00e3o<\/strong>, mostrando, por exemplo, filmes de v\u00e1rias e v\u00e1rias viagens de avi\u00e3o onde as pessoas partiram integras e chegaram integras aos seus destinos.<br \/>\nMas o artigo diz que a <strong>terapia de extin\u00e7\u00e3o <\/strong>s\u00f3 funciona se houver antes uma exposi\u00e7\u00e3o ao medo e uma recupera\u00e7\u00e3o da resposta a ele. Ent\u00e3o, antes de come\u00e7ar a <strong>extin\u00e7\u00e3o<\/strong>, antes de come\u00e7ar a mostrar as viagens que s\u00e3o bem sucedidas, \u00e9 preciso mostrar uma viagem mal sucedida. S\u00f3 depois de ver um avi\u00e3o caindo, pegando na m\u00e3o da psic\u00f3loga, a mem\u00f3ria amedrontadora ter\u00e1 sido acessada, dando inicio ao <strong>per\u00edodo de reconsolida\u00e7\u00e3o.<\/strong> S\u00f3 ai os filmes teriam efeito na flexibiliza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do desastre que despertava a rea\u00e7\u00e3o de segurar na m\u00e3o dela. Da pr\u00f3xima vez que ele viajar com a menina, o gesto de pegar na m\u00e3o ser\u00e1 volunt\u00e1rio, e n\u00e3o uma resposta incondicionada.<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"1244854783_brilhoeternoposter04.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/1244854783_brilhoeternoposter04.jpg\" width=\"300\" height=\"445\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\nJ\u00e1 o artigo da <em>Science<\/em> diz que essa extin\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona para todo mundo, porque eles identificaram que pessoas que possuem uma muta\u00e7\u00e3o em uma \u00fanica letra do DNA do gene <em>BNDF<\/em>, um fator de crescimento de c\u00e9lulas do c\u00e9rebro mas que tamb\u00e9m est\u00e1 envolvido com comportamentos relacionados com ansiedade, n\u00e3o s\u00e3o suscet\u00edveis a extin\u00e7\u00e3o. E est\u00e3o fadados a viver sempre com medo de <em>Joel<\/em> ou de <em>Clementine<\/em>.<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Nature&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1038%2Fnature08637&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Preventing+the+return+of+fear+in+humans+using+reconsolidation+update+mechanisms&amp;rft.issn=0028-0836&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=463&amp;rft.issue=7277&amp;rft.spage=49&amp;rft.epage=53&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nature.com%2Fdoifinder%2F10.1038%2Fnature08637&amp;rft.au=Schiller%2C+D.&amp;rft.au=Monfils%2C+M.&amp;rft.au=Raio%2C+C.&amp;rft.au=Johnson%2C+D.&amp;rft.au=LeDoux%2C+J.&amp;rft.au=Phelps%2C+E.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=\">Schiller, D., Monfils, M., Raio, C., Johnson, D., LeDoux, J., &amp; Phelps, E. (2009). Preventing the return of fear in humans using reconsolidation update mechanisms <span style=\"font-style: italic\">Nature, 463<\/span> (7277), 49-53 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1038\/nature08637\">10.1038\/nature08637<\/a><\/span><br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science+%28New+York%2C+N.Y.%29&amp;rft_id=info%3Apmid%2F20075215&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=A+Genetic+Variant+BDNF+Polymorphism+Alters+Extinction+Learning+in+Both+Mouse+and+Human.&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Soliman+F&amp;rft.au=Glatt+CE&amp;rft.au=Bath+KG&amp;rft.au=Levita+L&amp;rft.au=Jones+RM&amp;rft.au=Pattwell+SS&amp;rft.au=Jing+D&amp;rft.au=Tottenham+N&amp;rft.au=Amso+D&amp;rft.au=Somerville+L&amp;rft.au=Voss+HU&amp;rft.au=Glover+G&amp;rft.au=Ballon+DJ&amp;rft.au=Liston+C&amp;rft.au=Teslovich+T&amp;rft.au=Van+Kempen+T&amp;rft.au=Lee+FS&amp;rft.au=Casey+BJ&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">Soliman F, Glatt CE, Bath KG, Levita L, Jones RM, Pattwell SS, Jing D, Tottenham N, Amso D, Somerville L, Voss HU, Glover G, Ballon DJ, Liston C, Teslovich T, Van Kempen T, Lee FS, &amp; Casey BJ (2010). A Genetic Variant BDNF Polymorphism Alters Extinction Learning in Both Mouse and Human. <span style=\"font-style: italic\">Science (New York, N.Y.)<\/span> PMID: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/20075215\">20075215<\/a><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em &#8216;O brilho eterno de uma mente sem lembran\u00e7as&#8217;, Clementine, depois de anos de relacionamento com Joel, resolve apag\u00e1-lo, literalmente, de sua mem\u00f3ria. As angustias que um despertava no outro, vivendo juntos ou separados, eram insuport\u00e1veis e eles se submeteram a um tratamento experimental no c\u00e9rebro para bloquear as mem\u00f3rias que tinham um do outro. 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