{"id":457,"date":"2010-05-25T05:07:27","date_gmt":"2010-05-25T08:07:27","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/05\/terminei_de_ler_o_andar_do_beb\/"},"modified":"2010-05-25T05:07:27","modified_gmt":"2010-05-25T08:07:27","slug":"terminei_de_ler_o_andar_do_beb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/05\/25\/terminei_de_ler_o_andar_do_beb\/","title":{"rendered":"Terminei de ler&#8230; O andar do b\u00eabado"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"DSC01075.JPG\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/DSC010751.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"mt-image-none\" \/><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><em><br \/>\n&#8220;Alguns anos atr\u00e1s, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o n\u00famero 48. Orgulhoso por seu feito, ele revelou a teoria que o levou \u00e0 fortuna.<\/em> &#8220;Sonhei com o n\u00famero 7 por 7 noites consecutivas&#8221;<em>, disse,<\/em> &#8220;e 7 vezes 7 \u00e9 48&#8221;<br \/>\nO primeiro par\u00e1grafo de <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21600970\/andar+do+bebado,+o:+como+o+acaso+determina+nossas+vidas\/?franq=284021\">O Andar do B\u00eabado<\/a> de Leonard Mlodinow da um exemplo de qu\u00e3o grande \u00e9 a nossa capacidade de abstrair a realidade em prol da nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade.<br \/>\n<strong>Se voc\u00ea acha que uma coisa \u00e9, ent\u00e3o ela ser\u00e1, n\u00e3o importa que ela n\u00e3o seja.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEntre os bons livros que tenho lido nos \u00faltimos tempos, esse \u00e9 o que eu mais recomendaria, para um maior n\u00famero de pessoas. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 cientista, jogador e futebol, analista da bolsa de valores, advogado, jornalista, m\u00e9dico ou professor. Ao contr\u00e1rio do que prega Kardec, o acaso existe sim, e al\u00e9m de ser um fator determinante nas nossas vidas, \u00e9 provavelmente o que menos pessoas conseguem entender.<br \/>\nMas Leonard consegue te explicar sem nenhuma equa\u00e7\u00e3o, em 90% do tempo sem nenhuma f\u00f3rmula, ainda que use bastante n\u00fameros. Mas s\u00e3o n\u00fameros interessant\u00edssimos e nada daquela chatice de dados e urnas (ainda que sim, esteja cheio de dados e urnas nos exemplos do livro).<br \/>\nPor exemplo, voc\u00ea sabia que a an\u00e1lise matem\u00e1tica das demiss\u00f5es de t\u00e9cnicos ap\u00f3s o fracasso de seus times, em todos os grandes esportes, mostrou que, em m\u00e9dia, elas n\u00e3o tiveram nenhum efeito no desempenho da equipe?<br \/>\nO maior desafio \u00e0 compreens\u00e3o do papel da aleatoriedade na vida \u00e9 o fato de que, embora os princ\u00edpios b\u00e1sicos dela surjam da l\u00f3gica cotidiana, muitas das consequ\u00eancias que se seguem a esses princ\u00edpios provam-se contraintuitivas. Que em qualquer s\u00e9rie de eventos aleat\u00f3rios, h\u00e1 uma grande probabilidade de que um acontecimento extraordin\u00e1rio (bom ou ruim) seja seguido, em virtude puramente do acaso, por um acontecimento mais corriqueiro.<br \/>\nOutro ponto important\u00edssimo  levantado por Leonar \u00e9 a import\u00e2ncia da quantidade de informa\u00e7\u00f5es. Enquanto a falta pode levar \u00e0 concorr\u00eancia entre diferentes interpreta\u00e7\u00f5es, o excesso pode diferenciar o vencedor.  Se os detalhes que recebemos em uma hist\u00f3ria se adequarem \u00e0 imagem mental que temos de alguma coisa, ent\u00e3o, quanto maior o n\u00famero de detalhes, mais real ela parecer\u00e1 (isso porque consideraremos que ela seja mais prov\u00e1vel, muito embora o ato de acrescentarmos qualquer detalhe do qual n\u00e3o tenhamos certeza a torne menos prov\u00e1vel)<br \/>\nO livro ainda faz pouco das pseudo-ci\u00eancias que tentam ignorar o acaso. No caso da astrologia, o exemplo veio da Roma Antiga:<br \/>\n<em>&#8220;C\u00edcero, (&#8230;) Irritado com o fato de que, apesar de ilegal em Roma, a astrologia ainda continuasse viva e popular, (&#8230;)observou que [quando] An\u00edbal (&#8230;) trucidouum ex\u00e9rcito romano (&#8230;), abatendo mais de 60 mil de seus 80 mil soldados.<\/em> &#8220;Todos os romanos que ca\u00edram em Canas teriam, por acaso, o mesmo hor\u00f3scopo?&#8221;<em>, perguntou? <\/em>&#8220;Ainda assim, todos tiveram exatamente o mesmo fim&#8221;.<br \/>\nMas acho que Leonard encontrar\u00e1 tamb\u00e9m bastante resist\u00eancia, porque ele acaba com muitas das estat\u00edsticas dos esportes. Todos eles! Veja essa passagem e imagine como se aplicaria ao campeonato brasileiro:<br \/>\n<em>&#8220;Se um dos times for [55%] melhor que o outro (&#8230;), ainda assim o time mais fraco vencer\u00e1 uma melhor de 7 jogos cerca de 40% das vezes (&#8230;). E se o time superior for capaz de vencer seu oponente em 2 de cada 3 partidas, em m\u00e9dia, o time inferior ainda vencer\u00e1 uma melhor de 7 cerca de uma vez a cada 5 disputas. (&#8230;). Assim, as finais dos campeonatos esportivos podem ser divertidas e empolgantes, mas o fato de que um time leve o trof\u00e9u n\u00e3o serve como indica\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel de que realmente \u00e9 o melhor time do campeonato.: <\/em><br \/>\nQue foi claramento o que aconteceu com o Flamengo no Brasileiro e com o Botafogo no Estadual. \ud83d\ude09<br \/>\nMas a sacaneada mais bacana est\u00e1 nos m\u00e9dius:<br \/>\n&#8220;<em>[em uma roleta] O trabalho do apostador \u00e9 simples: adivinhar em qual compartimento cair\u00e1 a bolinha. A exist\u00eancia de roletas \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o bastante boa de que n\u00e3o existem m\u00e9diuns leg\u00edtimos, pois emMonte CarIo, se apostarmos USD 1,00 em um compartimento e a bolinha cair ali, a casa nos pagar\u00e1 USD 35,00 (al\u00e9m do USD 1,00 que apostamos). Se os m\u00e9diuns realmente existissem, n\u00f3s os ver\u00edamos em lugares assim, rindo, dan\u00e7ando e descendo a rua com carrinhos de m\u00e3o cheios de dinheiro, e n\u00e3o na internet, com nomes do tipo Zelda Que Tudo Sabe e Tudo V\u00ea, oferecendo conselhos amorosos 24h, competindo com os outros 1,2 milh\u00f5es de m\u00e9diuns da internet.&#8221;<\/em><br \/>\nMas falando mais s\u00e9rio, o livro \u00e9 uma aula de matem\u00e1tica, hist\u00f3ria, estat\u00edstica e ci\u00eancias. Ele explica o &#8216;Triangulo de Pascal&#8217;, as &#8216;Provas de Bernoulli&#8217;, o &#8216;Teorema \u00c1ureo&#8217;, o surreal &#8216;Teorema dos pequenos n\u00fameros&#8217;, a &#8216;Distribui\u00e7\u00e3o Normal&#8217; e o &#8216;Teorema do Limite Central&#8217;. E de forma que a gente entende.<br \/>\nUm fato que me chamou aten\u00e7\u00e3o, porque relacionei com a educa\u00e7\u00e3o e com a avalia\u00e7\u00e3o de alunos, \u00e9 ilustrado abaixo:<br \/>\n<em>&#8220;Um diretor de empresa que tenha 60% de anos de sucesso, deve apresentar 60% de sucessos em um Periodo de 5 anos (que seriam aproximdamente 3)? Na verdade n\u00e3o! <\/em>(vai ler o livro pra ver a explica\u00e7\u00e3o!) <em>Na verdade \u00e9 mais prov\u00e1vel que 2\/3 dos diretores tenham um resultado mais guiado pelo acaso do que pelas suas habilidade. Nas palavras do matem\u00e1tico Bernoulli: <\/em>&#8220;N\u00e3o dever\u00edamos avaliar as a\u00e7\u00f5es humanas com base nos resultados:&#8221;. <em>E sim nas suas habilidades<\/em><br \/>\n<\/em><br \/>\nUm dos monstros da estat\u00edstica praticamente desconhecido do p\u00fablico geral e louvado no livro \u00e9 Bayes. Esse monge jamais publicou um \u00fanico artigo cient\u00edfico e provavelmente realizou seu trabalho para satisfa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Bayes desenvolveu a probabilidade condicional em uma tentativa de resolver o problema: como podemos inferir a probabilidade subjacente a partir da observa\u00e7\u00e3o?<br \/>\nOu como traduziu Leonard: <em>&#8220;Se um medicamento acabou de curar 45 dos 60 pacientes num estudo cl\u00ednico, o que isso nos informa sobre a chance de que funcione no pr\u00f3ximo paciente?<\/em><br \/>\nNovamente, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o f\u00e1cil. Assim como eu que j\u00e1 fiz umas duas disciplinas de estat\u00edstica Bayesiana garanto a voc\u00eas: Bayes \u00e9 demais, mas \u00e9 dif\u00edcil demais.<br \/>\nPara Leonard, uma das pequenas contradi\u00e7\u00f5es da vida \u00e9 o fato de que, embora a medi\u00e7\u00e3o sempre traga consigo a incerteza, esta raramente \u00e9 discutida quando medi\u00e7\u00f5es s\u00e3o citadas:<br \/>\n<em>&#8220;Se uma policial de tr\u00e2nsito um tanto exigente diz ao juiz que, segundo o radar, voc\u00ea estava trafegando a 60km\/h numa rua em que a velocidade m\u00e1xima permitida \u00e9 de 55km\/h, voc\u00ea provavelmente ser\u00e1 multado, ainda que as medi\u00e7\u00f5es de radares com frequ\u00eancia apresentem varia\u00e7\u00f5es de muitos quil\u00f4metros por hora.&#8221;<br \/>\n<\/em><br \/>\nAh&#8230; um cap\u00edtulo a parte \u00e9 o papel do acaso na avalia\u00e7\u00e3o de vinhos (tamb\u00e9m tem um sobre vodcas e outro sensacional sobre o efeito placebo da glicosamida), mas esses s\u00e3o t\u00e3o bons que merecer\u00e3o um post a parte<br \/>\nFinalmente ele aborda a quest\u00e3o com a qual inicia o livro: nossa habilidade para reconherce padr\u00f5es, chamada de Heur\u00edstica. Para Leonard,<em> &#8220;Buscar padr\u00f5es e atribuir-lhes significados faz parte da natureza Humana&#8221;.<\/em>A heur\u00edstica \u00e9 muito \u00fatil, mas assim como nosso modo de processar informa\u00e7\u00f5es \u00f3pticas pode levar \u00e0s ilus\u00f5es \u00f3pticas, a heur\u00edstica tamb\u00e9m pode levar a erros sistem\u00e1ticos. Ou erros de vieses.<br \/>\n<em> &#8220;Todos n\u00f3s utilizamos a heur\u00edstica e padecemos de seus vieses. E o que \u00e9 pior, temos o costume de avaliar equivocadamente o papel do acaso em nossas vidas, tomando decis\u00f5es comprovadamente prejudiciais aos nossos interesses.&#8221;<\/em><br \/>\nUm desses exemplos \u00e9 a &#8216;Fal\u00e1cia da Boa Fase&#8217;, experimentada por atletas de qualquer esporte (mas principalmente os mais assistidos); mas o mais chocante \u00e9 o &#8216;Vi\u00e9s da confirma\u00e7\u00e3o&#8217;.<br \/>\n<em>&#8220;Quando estamos diante de uma ilus\u00e3o &#8211; ou em qualquer momento em que tenhamos uma nova ideia -, em vez de tentarmos provar que nossas ideias est\u00e3o erradas, geralmente tentamos provar que est\u00e3o corretas.&#8221;<\/em><br \/>\nEssa tendenciosidae representaria um grande impedimento \u00e0 nossa tentativa de nos libertarmos da interpreta\u00e7\u00e3o err\u00f4nea da aleatoriedade. Como afirmou o fil\u00f3sofo Francis Bacon em 1620,<br \/>\n<em>&#8220;a compreens\u00e3o humana, ap\u00f3s ter adotado uma opini\u00e3o, coleciona quaisquer inst\u00e2ncias que a confirmem, e ainda que as inst\u00e2ncias contr\u00e1rias possam ser muito mais numerosas e influentes, ela n\u00e3o as percebe, ou ent\u00e3o as rejeita, de modo que sua opini\u00e3o permane\u00e7a inabalada&#8221;.<br \/>\n<\/em><br \/>\nSe o acaso \u00e9 inevit\u00e1vel e a sorte \u00e9 fundamental, ent\u00e3o o diferencial pode n\u00e3o ser o talento (ainda que ele seja necess\u00e1rio), mas a persistencia.<br \/>\n<em>&#8220;O primeiro <\/em>Harry Potter,<em> de <\/em>J.K. Rowling<em>, foi rejeitado por nove editores e o manuscrito de <\/em>&#8220;A firma&#8217;<em>, de <\/em>John Grisham<em> s\u00f3 atraiu o interesse de editores depois que uma c\u00f3pia pirata que circulava em Hollywood lhe rendeu uma oferta de US$600 mil pelos direitos para a produ\u00e7\u00e3o do filme.<\/em><br \/>\nComo observou Thomas Edison<em> &#8220;muitos dos fracassos da vida ocorrem com pessoas que n\u00e3o perceberam o qu\u00e3o perto estavam do sucesso no momento em que desistiram!&#8221;<\/em><br \/>\nN\u00e3o deixem de ler, absolutamente!\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Alguns anos atr\u00e1s, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o n\u00famero 48. 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