{"id":465,"date":"2010-07-06T03:36:54","date_gmt":"2010-07-06T06:36:54","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/07\/a_logica_da_raiva\/"},"modified":"2010-07-06T03:36:54","modified_gmt":"2010-07-06T06:36:54","slug":"a_logica_da_raiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/07\/06\/a_logica_da_raiva\/","title":{"rendered":"A l\u00f3gica da raiva"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"\u00c9 assim que voc\u00ea fica quando est\u00e1 brava\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/127744_6416_rage1.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"mt-image-none\" \/><br \/>\n<span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;A raiva \u00e9 parte da biologia b\u00e1sica da esp\u00e9cie humana. Ela aparece espontaneamente na inf\u00e2ncia, est\u00e1 distribu\u00edda universalmente entre culturas, em todos os indiv\u00edduos e tem uma base neural esp\u00e9cie-espec\u00edfica.&#8221;<\/em><br \/>\nAssim come\u00e7a o artigo que eu vou comentar hoje. Quando voc\u00ea \u00e9 cientista, nada do que serve de acalento para a maior parte das pessoas funciona. Florais de Bach, mantras, massagem hol\u00edstica&#8230; nada disso ameniza a mente racional. Bom, \u00e9 verdade que Rivotril funciona mesmo nos cientistas. Mas antes de partir pras drogas pesadas, a gente procura consolo na sabedoria de bilh\u00f5es de anos da sele\u00e7\u00e3o natural.<br \/>\nNa tentativa de explicar biologicamente a raiva, os cientistas procuraram primeiro compreender qual seria o prop\u00f3sito da raiva: para que ela teria sido selecionada pela sele\u00e7\u00e3o natural? A resposta, vejam s\u00f3, \u00e9 que ela teria evoluido como ferramenta de barganha, para resolver conflitos de forma favor\u00e1vel para a pessoa com raiva.<br \/>\nComo assim?<br \/>\nTodo ser humano d\u00e1 um determinado valor ao pr\u00f3prio bem estar e tamb\u00e9m ao bem estar alheio. E \u00e9 claro, est\u00e1 disposto a investir uma certa quantidade de tempo e de recursos (de energia) nesses bem estares (o pr\u00f3prio e o alheio). A raiva seria um &#8216;incentivo&#8217; (ou como veremos melhor, uma amea\u00e7a) para que o &#8216;pr\u00f3ximo&#8217; desse mais valor ao bem estar da pessoa com raiva, as vezes at\u00e9 mesmo em detrimento do dele pr\u00f3prio.<br \/>\nO quanto n\u00f3s dever\u00edamos nos preocupar com o bem estar do pr\u00f3ximo (ou o bem estar alheio) com rela\u00e7\u00e3o ao nosso pr\u00f3prio?<br \/>\nEu j\u00e1 tratei aqui sobre quest\u00f5es de <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/06\/vai-encarar.php\">agressividade<\/a>, e como podemos calcular o valor do altru\u00edsmo e da ajuda. Certamente essa resposta depende do que est\u00e1 (ou se h\u00e1) em jogo, mas alguns fatores variam de forma esperada, sempre. Um deles \u00e9 o grau de parentesco (que voc\u00ea pode ler mais <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/01\/sangue-do-meu-sangue.php\">aqui<\/a>).<br \/>\n<em>&#8220;Os seres humanos possuem sistemas cognitivos que buscam pistas de grau de parentesco, e &#8216;recalibram&#8217; suas a\u00e7\u00f5es altru\u00edsticas de acordo com essas evid\u00eancias.&#8221;<\/em><br \/>\nSe um amigo pede para eu ir at\u00e9 a Barra da Tijuca buscar os ingressos para ele ir a um show numa 6a feira as 5 da tarde pela linha Amarela, eu n\u00e3o vou. Mas j\u00e1 se for a minha irm\u00e3&#8230;<br \/>\nA raiva faz parte de um outro sistema cognitivo, que \u00e9 o sistema de barganhas. Como podemos convencer algu\u00e9m a ser altru\u00edsta conosco se ele n\u00e3o \u00e9 nosso parente?<br \/>\nDepende do nosso poder de barganha, que se resume, basicamente, em duas coisas com nomes estranhos, mas significados muito familiares: <strong>formidabilidade<\/strong> e <strong>conferibilidade<\/strong>. No ingl\u00eas, de onde vem a nomea\u00e7\u00e3o, os dois termos n\u00e3o s\u00e3o utilizados com os significados mais usuais do portugu\u00eas, mas sim no sentido de &#8216;impor dificuldades&#8217; e &#8216;conceder benef\u00edcios&#8217;, respectivamente. <strong>Assim, quanto mais &#8216;formid\u00e1vel&#8217; uma pessoa \u00e9, mais dificuldades ela \u00e9 capaz de impor a voc\u00ea (e n\u00e3o \u00e9 que as vezes \u00e9 assim mesmo?!).<\/strong><br \/>\nEntre outras coisas que podem ser levadas em conta pelo mesmo &#8216;sistema de barganhas&#8217; est\u00e3o a agress\u00e3o, a reciprocidade e as externalidades. Essas suposi\u00e7\u00f5es todas precisam se apoiar em um suposto sistema computacional do c\u00e9rebro humano que seja capaz de:<\/p>\n<ul>\n<li>Avaliar as consequ\u00eancias de um ato para si mesmo<\/li>\n<li>Avaliar as consequ\u00eancias de um ato nos outros<\/li>\n<li>Relacionar e avaliar as consequ\u00eancias dos atos em ambos<\/li>\n<\/ul>\n<p>E essas avalia\u00e7\u00f5es tem de levar em conta todos os fatores que relacionamos at\u00e9 agora (raiva, agressividade, parentesco, formidabilidade e conferibilidade, al\u00e9m de externalidades n\u00e3o previstas) juntos. Isso quer dizer que \u00e9 f\u00e1cil atribuir um valor ao medo que temos de uma agress\u00e3o isoladamente, mas e se o risco de agress\u00e3o se apresentasse quando uma pessoa querida est\u00e1 envolvida, ou em uma situa\u00e7\u00e3o de &#8216;tudo ou nada&#8217;, ou ainda com um aparente parceiro, mas que cometeu uma grande trai\u00e7\u00e3o? Os valores, os pesos que damos a cada vari\u00e1vel, bem podem mudar. E mudam!<br \/>\n<em>&#8220;Existem muitas evid\u00eancias de que esse &#8216;sistema de avalia\u00e7\u00e3o da barganha&#8217; existe nos humanos como parte de uma intrincada arquitetura neural e toma parte ativa nos nossos processo de tomada de decis\u00e3o.&#8221;<\/em><br \/>\nMas como poder\u00edamos influenciar no valor que a outra pessoa d\u00e1 ao nosso &#8216;bem estar&#8217; em uma situa\u00e7\u00e3o de conflito, quando ela est\u00e1 computando a barganha? \u00e9 ai que a raiva entra! A raiva \u00e9 a nossa ferramenta para &#8216; entrar&#8217; no sistema nervoso do outro e modificar as prioridades dele para que atendam mais as nossas pr\u00f3prias.<br \/>\nAcontece que a raiva por si s\u00f3 provavelmente n\u00e3o tem poder suficiente para modificar a perspectiva alheia. Ou voc\u00ea nunca ouviu aquela frase, principalmente dos seus pais, no auge da sua raiva: <em>&#8220;Vai ter dois trabalhos, ficar puto e desficar&#8221;<\/em> (Bom, meu pai n\u00e3o falava palavr\u00e3o, mas ele dizia,<em> &#8220;Claro filho, voc\u00ea pode ir na festa, mas eu n\u00e3o vou te emprestar o carro&#8221;<\/em>).<br \/>\nPara n\u00e3o arriscar o desperd\u00edcio de energia da raiva, a pessoa irritada faz uso de duas outras ferramentas, essas sim, muito mais poderosas: o potencial para <strong>infligir custos<\/strong> no oponente, ou o seu potencial para <strong>retirar benef\u00edcios<\/strong> que s\u00e3o esperados.<br \/>\n<em>&#8220;Claro meu amor, voc\u00ea n\u00e3o precisa concordar comigo, mas hoje n\u00e3o vai ter sacanagem pra voc\u00ea&#8221; <\/em>diz a minha irm\u00e3 para o marido dela (mas tudo bem, ele \u00e9 Franc\u00eas).<br \/>\nA maior parte dessas transa\u00e7\u00f5es \u00e9 mais efetiva se ficam no campo da amea\u00e7a. Ou seja, s\u00f3 com a rea\u00e7\u00e3o de raiva sendo suficiente para mudar o comportamento alheio para atender as demandas do indiv\u00edduo, sem ter que partir para a agress\u00e3o ou para a priva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsso porque todo esse &#8216;teatro&#8217; \u00e9 baseado, principalmente, na vis\u00e3o que a pessoa tem do seu pr\u00f3prio potencial de barganha. Se essa percep\u00e7\u00e3o estiver muito equivocada, ningu\u00e9m vai dar aten\u00e7\u00e3o a ela, ou ningu\u00e9m vai recusar nada a ela. Mas se essa percep\u00e7\u00e3o estiver apenas um pouco descalibrada, ent\u00e3o o conflito pode ser perigoso.<br \/>\n<strong>Abre Par\u00eanteses:<\/strong>Ali\u00e1s, esse parece ser o \u00fanico por\u00e9m desse excelente artigo, o grupo de indiv\u00edduos estudado \u00e9 quem avaliou a sua pr\u00f3pria propens\u00e3o a raiva, em um question\u00e1rio com perguntas do tipo: <em>Voc\u00ea tem o pavio curto? Ainda que voc\u00ea n\u00e3o aja, voc\u00ea tem vontade de dar um murro na cara das pessoas? Voc\u00ea nunca arreda o p\u00e9 de uma discuss\u00e3o?<\/em> <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><br \/>\nMas \u00e9 isso mesmo que os modelos comportamentais modernos mostram: <strong>que s\u00e3o as pessoas com maior poder de barganha que efetivamente se enraivecem com mais facilidade.<\/strong> Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 &#8216;blefe&#8217; no &#8216;sistema&#8217; de raiva.<br \/>\n<strong>Abre Par\u00eanteses:<\/strong> uma conhecida teoria de blefe no sistema de raiva \u00e9 o &#8216;efeito napole\u00e3o&#8217;, onde os indiv\u00edduos tentariam compensar a perda de poder de barganha da sua baixa estatura colocando for\u00e7a nos seus acessos de raiva. <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, pessoas que possuem um grande capacidade de machucar ou de causar priva\u00e7\u00f5es nos outros, acabam esperando melhor tratamento dos outros, e ficam com raiva facilmente quando n\u00e3o recebem. Aposto que voc\u00ea conhece algu\u00e9m assim, n\u00e3o conhece?<br \/>\nMas assim como em outros programas neurocognitivos, n\u00e3o existem evid\u00eancias de que os seres humanos conhe\u00e7am as bases para o funcionamento desse processo ou ajam de forma consciente. Eles simplesmente conhecem seus efeitos na motiva\u00e7\u00e3o e no comportamento. E usam e abusam deles.\n<\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Proceedings+of+the+National+Academy+of+Sciences+of+the+United+States+of+America&amp;rft_id=info%3Apmid%2F19666613&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Formidability+and+the+logic+of+human+anger.&amp;rft.issn=0027-8424&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=106&amp;rft.issue=35&amp;rft.spage=15073&amp;rft.epage=8&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Sell+A&amp;rft.au=Tooby+J&amp;rft.au=Cosmides+L&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">Sell A, Tooby J, &amp; Cosmides L (2009). Formidability and the logic of human anger. <span style=\"font-style: italic\">Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 106<\/span> (35), 15073-8 PMID: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/19666613\">19666613<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A raiva \u00e9 parte da biologia b\u00e1sica da esp\u00e9cie humana. Ela aparece espontaneamente na inf\u00e2ncia, est\u00e1 distribu\u00edda universalmente entre culturas, em todos os indiv\u00edduos e tem uma base neural esp\u00e9cie-espec\u00edfica.&#8221; Assim come\u00e7a o artigo que eu vou comentar hoje. 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