{"id":472,"date":"2010-07-10T22:22:10","date_gmt":"2010-07-11T01:22:10","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/07\/um_vampiro_um_lobisomem_um_sac\/"},"modified":"2010-07-10T22:22:10","modified_gmt":"2010-07-11T01:22:10","slug":"um_vampiro_um_lobisomem_um_sac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/07\/10\/um_vampiro_um_lobisomem_um_sac\/","title":{"rendered":"Um vampiro, um lobisomem, um saci-perer\u00ea"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/eclipse-poster-movie.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"eclipse-poster-movie.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/eclipse-poster-movie-thumb-460x690-529181.jpg\" width=\"460\" height=\"690\" class=\"mt-image-right\" style=\"float: center;margin: 0 0 20px 20px\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border:0 0 5px 5px\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">Aaaaawwwwwmmmmnnnn&#8230; Minha amiga Leila, 36 anos, p\u00f3s-doutorado em Gen\u00e9tica, geme no cinema ao ver Taylor Lautner, o ator que faz o lobisomen Jacob Black, tirar a camisa no filme Eclipse. Ela e mais outras 332 meninas, v\u00e1rias com suas m\u00e3es, pareciam estar apenas por esse motivo. Mas quando no dia seguinte, s\u00e1bado a noite, eu estava guiando na estrada pra S\u00e3o Pedro da Aldeia e ouvi quase 1h de debate na BandNewsFM, com psic\u00f3logas, pedagogas e jornalistas sobre os &#8216;efeitos&#8217; da saga nos adolescentes, eu achei que tinha de fazer alguma coisa.<br \/>\nEu n\u00e3o vou criticar o filme. Particularmente, como fantasia e amor imposs\u00edvel, o &#8216;<a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/6\/172783\/dvd+o+feitico+de+aquila\/?franq=284021\">Feit\u00ed\u00e7o de \u00c1quila<\/a>&#8216; \u00e9 imbat\u00edvel. E c\u00e1 pra n\u00f3s, a Michele Pfeiffer virando lobo \u00e9 bem mais legal.<br \/>\nMas o que eu poderia fazer de \u00fatil com todo esse af\u00e3 em torno da saga &#8216;<a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21567814\/colecao+stephenie+meyer:+crepusculo,+lua+nova,+eclipse+e+amanhecer\/?franq=284021\">Crep\u00fasculo<\/a>&#8216;? Explicar a bioqu\u00edmica por tr\u00e1s do mito do Vampiro e do Lobisomem, \u00e9 claro. Sou ou n\u00e3o sou NERD?!<br \/>\nVoc\u00eas j\u00e1 devem ter ouvido falar da Hipertricose Lanuginosa Cong\u00eanita, aquela doen\u00e7a que deixa a pessoa com o corpo TODO coberto de pelos. Sim, ela poderia ter sido a origem do mito do lobisomem, mas o problema \u00e9 que ela \u00e9 muito rara e existem apenas 50 casos documentados no mundo. Se hoje com a internet ainda \u00e9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m com essa doen\u00e7a, imagina na idade m\u00e9dia.<br \/>\nUm candidato mais forte para a origem do mito s\u00e3o as &#8216;Porfirias&#8217;, um conjunto de doen\u00e7as que afetam uma via metab\u00f3lica important\u00edssima para o organismo, porque produz um dos principais componentes do sangue: o <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/09\/a-posteriori.php\">Heme<\/a>.<br \/>\nDigo um conjunto de doen\u00e7as porque \u00e9 mesmo: se for ao site da <a href=\"http:\/\/www.porfiria.org.br\/\">&#8216;Associa\u00e7\u00e3o brasileira de porfiria&#8217;<\/a> poder\u00e1 aprender mais sobre cada uma delas. Na verdade isso acontece porque a via metab\u00f3lica que sintetiza o heme tem 8 etapas e dependendo de qual etapa apresentar problema, a porfiria ser\u00e1 uma diferente.<br \/>\nUma via metab\u00f3lica tem rea\u00e7\u00f5es em cadeia, em sequ\u00eancia, onde o produto da primeira rea\u00e7\u00e3o serve de mat\u00e9ria prima para a segunda. Se d\u00e1 um problema na primeira rea\u00e7\u00e3o, o produto n\u00e3o \u00e9 consumido pela segunda e se acumula. Apesar de simples, o problema \u00e9 grande.<br \/>\nVou usar os nomes das enzimas, porque assim meus alunos v\u00e3o poder usar esse texto pra estudar, mas voc\u00ea, que n\u00e3o tem aula de biof\u00edsica comigo, vai entender de mesmo jeito, e nem vai achar chato.<br \/>\nVoc\u00ea se lembra do Ciclo de Krebs, n\u00e3o \u00e9?! Vai, desse todo mundo se lembra nas aulas de biologia do ensino m\u00e9dio. A Glicose dos alimentos \u00e9 quebrada em pequenos peda\u00e7os chamados de Piruvato, que depois viram um composto super vers\u00e1til chamado Acetil-CoA, que pode entrar em um ciclo que permite tirar dessa mol\u00e9cula v\u00e1rios el\u00e9trons para depois gerarem ATP (a moeda energ\u00e9tica da c\u00e9lula) na famosa &#8216;cadeia transportadora de el\u00e9trons&#8217;.<br \/>\nBom, isso tudo foi pra dizer que o primeiro composto da via metab\u00f3lica da s\u00edntese do Heme, \u00e9 a Succinil-CoA, que \u00e9 um dos compostos intermedi\u00e1rios do ciclo de Krebs. Juntamos esse composto com o amino\u00e1cido Glicina e temos o primeiro produto intermedi\u00e1rio: o \u00e1cido delta-aminolevul\u00ednico (ou ALAd).<br \/>\nDepois o ALAd \u00e9 desidratado, perde duas mol\u00e9culas de \u00e1gua e vira um composto de nome bem estranho: porfobilinog\u00eanio. Esse composto possui um an\u00e9l pirr\u00f3lico, que nada mais \u00e9 do que um pent\u00e1gono de carbonos com um nitrog\u00eanio na ponta (olha a figura).<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"pirrol.gif\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/imagens\/pirrol.gif\" width=\"69\" height=\"99\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><br \/>\nBom, na pr\u00f3xima etapa (que \u00e9 dividida em duas) formamos um c\u00edrculo de an\u00e9is pirr\u00f3licos. Juntamos 4 porfobilinog\u00eanio para formar o uroporfirinog\u00eanio III  (primeiro o I e depois o III). Eu arriscaria dizer que esse \u00e9 o composto chave, porque ele j\u00e1 tem cara de <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/09\/a-posteriori.php\">Heme<\/a>, s\u00f3 falta colocar o \u00e1tomo de ferro l\u00e1 dentro.<br \/>\nE isso \u00e9 feito na seguinte ordem: uroporfirinog\u00eanio III vira coproporfirinog\u00eanio III, que vira protoporfirinog\u00eanio III, que vira protoporfirina III, que ganha o Fe2+ e vira Heme. Foram oito rea\u00e7\u00f5es mesmo, confere?<br \/>\nBom, o 5o est\u00e1gio, que \u00e9 quando o uroporfirinog\u00eanio III vira coproporfirinog\u00e9nio III. Essa rea\u00e7\u00e3o \u00e9 feita por uma enzima chamadade Uroporfirinog\u00eanio descarboxilase, mas vamos chamala de UROD que \u00e9 como todo mundo chama. Essa etapa \u00e9 crucial porf\u00edria (a doen\u00e7a, caso voc\u00ea j\u00e1 tenha se embaralhado com tantos nomes) e para os nossos vampiros e lobisomens da idade m\u00e9dia.<br \/>\nO trabalho das enzimas \u00e9 meio chato. Elas s\u00e3o aqueles funcion\u00e1rios que aparecem em linhas de produ\u00e7\u00e3o apertando parafusos, como num filme do Orson Welles, mas como elas sabem s\u00f3 fazer isso, elas em geral fazem muito bem. Bom, isso sem ningu\u00e9m atrapalhar. Bom, as vezes a UROD vem com um defeito de f\u00e1brica, uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que pode ser passada de pai para filho, e ai n\u00e3o h\u00e1 o que fazer: ela n\u00e3o consegue &#8216;apertar os parafusos&#8217; direito e ai teremos Porfiria. As enzimas geralmente s\u00e3o mais chatas com exclusividade do que as mulheres e s\u00f3 o coproporfirinog\u00e9nio III, e apenas ele, pode seguir na via metab\u00f3lica para virar Heme.<br \/>\nMas como eu disse antes, essas doen\u00e7as gen\u00e9ticas s\u00e3o sempre raras (porque as muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o raras) e dificilmente podem dar origem a qualquer mito que seja. O que mais, que n\u00e3o seja gen\u00e9tico, pode atrapalhar a UROD?<br \/>\nA resposta \u00e9 Dioxina. Ah, <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rnam\/2010\/06\/dioxina.php\">voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 dioxina<\/a>? \u00c9 um composto org\u00e2nico muito t\u00f3xico que ficou famoso por causa do &#8216;Agente Laranja&#8217; usado na guerra do Vietn\u00e3 para desfolhar as florestas e mais recentemente por ter sido usado como arma no atentado ao candidato a presidente da Ucr\u00e2nia em 2004 Victor Yushchenko.<br \/>\nAl\u00e9m da dioxina ser t\u00f3xica, ela est\u00e1 muito mais difundida no ambiente do que as muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas. A mais famosa \u00e9 o TCDD. Esse composto quando entra na c\u00e9lula \u00e9 ativa uma via metab\u00f3lica especial, chamada de AhR (lembre-se de Arght!) cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 mandar para o xixi todas essas porcarias org\u00e2nicas que entram no nosso corpo. O AhR faz isso, nesse caso, em parte, atrav\u00e9s de um composto chamado CYP1a2, e \u00e9 ai que mora o perigo.<br \/>\nO CYP1A2 \u00e9 capaz de interferir na via metab\u00f3lica do Heme, naquele 5o passo fundamental, convertendo o uroporfirinog\u00eanio III em uroporfirina III ao inv\u00e9s de coproporfirinog\u00eanio III. Se pelo menos as enzimas n\u00e3o fossem t\u00e3o espec\u00edficas&#8230; poder\u00edamos fazer alguma coisa com esse composto, mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o podemos e a uroporfirina III come\u00e7a a se acumular no f\u00edgado e na pele, causando todos os sintomas da porf\u00edria:<\/p>\n<ul>\n<li>Anemia profunda &#8211; que levava as pessoas a uma dieta de carne, muitas vezes crua, e at\u00e9 mesmo sangue<\/li>\n<li>Fotosensibilidade &#8211; uroporfirina absorve a luz do sol, mas depois n\u00e3o sabe o que fazer com a energia, por isso ela produz radicais livres que atacam o tecido da pele, causando manchas e feridas. Causava ainda despigmenta\u00e7\u00e3o da pele e sangramentos nos olhos e gengivas<\/li>\n<li>Hirsutismo &#8211; pra minimizar o efeito da luz, o corpo responde produzindo pelos nos locais mais expostos e normalmente desprotegidos, como as costas das m\u00e3os, as bochechas e testa<\/li>\n<\/ul>\n<p>Desses sintomas para o mito, realmente n\u00e3o precisa muito, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nResta ainda uma pergunta. Mas se a Dioxina foi criada pelo homem na era industrial, como ela poderia afetar as pessoas na idade m\u00e9dia? Acontece que a TCDD n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica subst\u00e2ncia a ativar os mecanismos de biotransforma\u00e7\u00e3o do AhR (lembra, o arght!) e a iniciar a produ\u00e7\u00e3o do CYP1A2. Outros compostos como o benzopireno, o BaP, que se formam simplesmente com a queima de carv\u00e3o e madeira (t\u00e1 cheio de BaP na carne de churrasco que a gente come, no cigarro que alguns fumam e na fuma\u00e7a de carro que todos respiramos) tamb\u00e9m ativam. E muito.<br \/>\nNa idade m\u00e9dia as pessoas cozinhavam com fornos a lenha dentro de casa, e a concentra\u00e7\u00e3o de Hidrocarbonetos poliarom\u00e1ticos, a classe de compostos que ativam o AhR e da qual o BaP faz parte, devia ser alta o suficiente para induzir muitos casos de uroporfiria. Ent\u00e3o parece que por causa dos fornos a lenha da idade m\u00e9dia, hoje em dia temos que conviver com os gemidos das adolescentes por monstros criados pela polui\u00e7\u00e3o. Menos o Saci Perer\u00ea.<br \/>\nPS: Se voc\u00ea se interessou a ponto de querer saber mais, pode acompanhar esse &#8220;<a href=\"http:\/\/www.thelancetstudent.com\/2010\/03\/19\/lancet-seminar-porphyrias\/\">Lancet Student Seminar: Porphyria<\/a>&#8221; ou esse artigo da Scientific American <a href=\"http:\/\/www.scientificamerican.com\/article.cfm?id=born-to-the-purple-the-st\">&#8220;Born to be purple&#8221;<\/a>. Ambos em ingl\u00eas.<\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Toxicology+and+applied+pharmacology&amp;rft_id=info%3Apmid%2F11384210&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Protection+of+the+Cyp1a2%28-%2F-%29+null+mouse+against+uroporphyria+and+hepatic+injury+following+exposure+to+2%2C3%2C7%2C8-tetrachlorodibenzo-p-dioxin.&amp;rft.issn=0041-008X&amp;rft.date=2001&amp;rft.volume=173&amp;rft.issue=2&amp;rft.spage=89&amp;rft.epage=98&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Smith+AG&amp;rft.au=Clothier+B&amp;rft.au=Carthew+P&amp;rft.au=Childs+NL&amp;rft.au=Sinclair+PR&amp;rft.au=Nebert+DW&amp;rft.au=Dalton+TP&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=\">Smith AG, Clothier B, Carthew P, Childs NL, Sinclair PR, Nebert DW, &amp; Dalton TP (2001). Protection of the Cyp1a2(-\/-) null mouse against uroporphyria and hepatic injury following exposure to 2,3,7,8-tetrachlorodibenzo-p-dioxin. <span style=\"font-style: italic\">Toxicology and applied pharmacology, 173<\/span> (2), 89-98 PMID: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/11384210\">11384210<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aaaaawwwwwmmmmnnnn&#8230; Minha amiga Leila, 36 anos, p\u00f3s-doutorado em Gen\u00e9tica, geme no cinema ao ver Taylor Lautner, o ator que faz o lobisomen Jacob Black, tirar a camisa no filme Eclipse. Ela e mais outras 332 meninas, v\u00e1rias com suas m\u00e3es, pareciam estar apenas por esse motivo. 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