{"id":474,"date":"2010-07-15T23:52:08","date_gmt":"2010-07-16T02:52:08","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/07\/terminei_de_ler_o_manuscrito_d\/"},"modified":"2010-07-15T23:52:08","modified_gmt":"2010-07-16T02:52:08","slug":"terminei_de_ler_o_manuscrito_d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/07\/15\/terminei_de_ler_o_manuscrito_d\/","title":{"rendered":"Terminei de ler&#8230; O Manuscrito de Mediavilla"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"manuscrito_mediavilla.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/manuscrito_mediavilla1.jpg\" width=\"500\" height=\"666\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/>Na verade terminei de ler esse livro no ano passado, mas foi nesse final de semana que o meu grande amigo <a href=\"http:\/\/www.confrariadaboacompanhia.blogspot.com\/\">Milton<\/a> me presenteou com a c\u00f3pia que ele pr\u00f3prio tinha me emprestado para ler.<br \/>\nEu tenho que confessar que tenho um pouco de preconceito contra cientistas sociais. Fui quase fulminado quando disse isso em uma palestra na Fiocruz semanas atr\u00e1s. N\u00e3o tenho nada contra eles como pessoas, mas sim contra suas hip\u00f3teses serem cient\u00edficas.<br \/>\nO &#8220;<a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/40926\/manuscrito+de+mediavilla,+o\/?franq=284021\">Manuscrito de mediavilla<\/a>&#8221; \u00e9 o segundo romance escrito pelo professor da USP Isaias Pessotti, que \u00e9 psiquiatra e estuda a hist\u00f3ria da loucura. E \u00e9 um dos livros que eu gostaria de escrever. Mais ainda do que o seu primeiro romance, &#8220;<a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/6626\/aqueles+caes+malditos+de+arquelau\/?franq=284021\">Aqueles malditos c\u00e3es do arquelau<\/a>&#8220;, que eu dei de presente para o <a href=\"http:\/\/butecodoedu.blogspot.com\/\">Edu<\/a> depois de ler. Atualmente \u00e9 t\u00e3o, t\u00e3o dif\u00edcil encontr\u00e1-los a venda. Ambos s\u00e3o passados na it\u00e1lia, contam aventuras dignas de Dan Brown em &#8216;<a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/232854\/codigo+da+vinci,+o\/?franq=284021\">O c\u00f3digo da Vinci<\/a>&#8216;, mas com a diferen\u00e7a que os investigadores s\u00e3o todos amigos que, entre uma visita a um sebo de livros do &#8216;medievole&#8217; no Piemonte e um antigo claustro no Lombardia, eles param para almo\u00e7ar nos lugares mais interessantes, com o autor descrevendo os menus, pedidos, receitas e vinhos que todos provam. Vejam um exemplo:<br \/>\n<em>&#8220;- Posso levar as folhas para casa? Perguntei.<br \/>\n&#8211; Basta que voc\u00ea n\u00e3o as  aproveite para embrulhar peixes ou mariscos. Tenho que pass\u00e1-las a outros e Patr\u00edzia, por exemplo, n\u00e3o gosta de peixes.<br \/>\nO olhar verde-musgo de Clara se iluminou.<br \/>\n&#8211; Por falar em mariscos, porque n\u00e3o vamos almo\u00e7ar? Penso num lindo <\/em>risotto al frutti di mar<em>e, na periferia. Em <\/em>Affori,<em> por exemplo.<br \/>\nAlberto deu-lhe um olhar severo.<br \/>\n&#8211; Como voc\u00ea ousa propor tal coisa? S\u00f3 voltaremos depois de tr\u00eas da tarde! Ali\u00e1s, um excelente hor\u00e1rio, para quem costuma sair daqui depois das sete da noite. Mas n\u00e3o<br \/>\ne parece correto que uma pesquisadora descumpra seu hor\u00e1rio de trabalho, por um <\/em>risotto<em>. Seria diferente se o fizesse por um belo fil\u00e9 peixe-espada, com molho muito suave de atum, nata batida e alcaparras, ao lado de um Tocay geladinho. Sugiro o jardim do <\/em>Sette Lune<em> em frente ao parque <\/em>Litta<em>.&#8221;<\/em><br \/>\nEla ainda adiciona, ao final da p\u00e1gina 139, que tomaram um delicioso <em>Grumello<\/em> durante o almo\u00e7o. Uma del\u00edcia!<br \/>\nMas n\u00e3o foi o mist\u00e9rio, a aventura ou o festival gastron\u00f4mico que me fizeram escrever esse artigo. Isaias descreve, no personagem de Vitt\u00f3rio, o que para mim s\u00e3o as grandes virtudes de um chefe de departamento de uma institui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.<br \/>\nAinda que possa parecer longo, vale a pena ler o texto que transcrevo:<br \/>\n<em>&#8220;Outra raz\u00e3o era uma qualidade rara em gente da nossa laia: com toda a sua alta reputa\u00e7\u00e3o e o sucesso de suas publica\u00e7\u00f5es, ela n\u00e3o se envaidecia: era uma disc\u00edpula de Pietro Vittori, que a tinha orientado desde os anos da gradua\u00e7\u00e3o at\u00e9 o p\u00f3s-doutorado. Cada disc\u00edpulo de Vittori tinha algumas marcas, inconfund\u00edveis: a consci\u00eancia<br \/>\nde que sempre \u00e9 preciso saber mais, de que a virtude n\u00e3o est\u00e1 no que se sabe, mas na busca devotada do saber, al\u00e9m de um inflex\u00edvel senso de justi\u00e7a.<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nMas \u00e9ramos muito respeitados pela &#8220;qualidade acad\u00eamica&#8221; do que faz\u00edamos. Parte<br \/>\ndesse respeito era devida a outro motivo. Toda a Universidade sabia que o nosso Departamento jamais apoiaria qualquer iniciativa que n\u00e3o fosse a melhor para &#8220;os fins, impessoais, da institui\u00e7\u00e3o&#8221;, como dizia Vittori. Isso nos alijava das posi\u00e7\u00f5es de decis\u00e3o. Por isso, nosso Departamento era o mais respeitado, mas era tamb\u00e9m o mais pobre.<br \/>\nIsso n\u00e3o do\u00eda: t\u00ednhamos at\u00e9 uma certa compaix\u00e3o pelos que lutavam por posi\u00e7\u00f5es de chefia ou de dire\u00e7\u00e3o. Quando a busca do poder importa mais que a busca do saber, as universidades morrem. Assim ensinava Vittori.<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nTalvez, de todos n\u00f3s, o mais visado fosse Pietro Vittori, o diretor. Ele proclamava aos quatro ventos que a transmiss\u00e3o do saber, a forma\u00e7\u00e3o dos estudantes, era a raz\u00e3o maior da Universidade. Dizia que isso era algo extremamente s\u00e9rio e, por isso mesmo, n\u00e3o era assunto para novatos que, ap\u00f3s a formatura, n\u00e3o responderiam pelas consequ\u0308\u00eancias das &#8220;revolu\u00e7\u00f5es&#8221; que propunham. Achava que os alunos precisam distinguir entre o poder que contestam e a autoridade intelectual de seus mestres. Que o direito de contestar a universidade, se adquire cumprindo seu papel nela, o dever social de estudar com seriedade, no caso dos alunos. Mais ainda, dizia que a Universidade n\u00e3o tem poderes a serem disputados: ela tem, isso sim, compromissos e o maior deles, supremo, \u00e9 com a raz\u00e3o, a racionalidade. Que os cargos universit\u00e1rios s\u00e3o deveres sociais ou institucionais, e n\u00e3o posi\u00e7\u00f5es de poder. Para ele, a ambi\u00e7\u00e3o por tais cargos como posi\u00e7\u00f5es de mando era marca dos que estariam mais felizes fora da universidade. Tanto mais h\u00e1beis no jogo do poder, quanto med\u00edocres no saber. Por esse caminho, pode-se concluir que os med\u00edocres n\u00e3o s\u00e3o raros.<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nUma vez, ele explicou a Alberto como entendia a fun\u00e7\u00e3o de diretor do Departamento.<br \/>\n&#8211; Um diretor deve ser um chefe. Algu\u00e9m que assume decis\u00f5es e que responde pessoalmente por elas. Ele quase soletrou o pessoalmente.<br \/>\n&#8211; E os docentes?<br \/>\n&#8211; Cada um deles pode tomar as decis\u00f5es que quiser, desde que responda, pessoalmente, por cada uma delas. Somos todos adultos, respons\u00e1veis, n\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Mas o Conselho \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o deliberativo&#8230;<br \/>\n&#8211; &#8230;que pode destituir-me da dire\u00e7\u00e3o em qualquer momento. Mas sou eu que assino pessoalmente as decis\u00f5es, assumo pessoalmente o \u00f4nus de responder por elas em primeira pessoa. Portanto, \u00e9 justo que eu tenha o poder de decidir. \u00c9 c\u00f4modo decidir anonimamente em grupo e depois delegar a responsabilidade da execu\u00e7\u00e3o, agora pessoal, ao diretor.<br \/>\nA conversa era serena e polida. Vittori e Alberto eram amigos, acima de tudo. Por isso Alberto podia ser franco:<br \/>\n&#8211; Mas uma decis\u00e3o democr\u00e1tica deve ser majorit\u00e1ria&#8230;<br \/>\n&#8211; Nisso voc\u00ea se engana, meu caro: a maioria pode representar a intoler\u00e2ncia, at\u00e9 a prepot\u00eancia. Ou voc\u00ea acha que a m\u00e1-f\u00e9, quando \u00e9 de muitos, se torna pureza?<br \/>\n&#8211; Penso numa decis\u00e3o discutida&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu jamais impedi que voc\u00eas discutam meus projetos. N\u00e3o decido nada sem discutir com voc\u00eas todos. Conven\u00e7am-me de que eles s\u00e3o errados ou inconvenientes e eu os modifico ou abandono. A discuss\u00e3o deve buscar racionalmente a verdade, como diria Abelardus, e n\u00e3o servir apenas de \u00e1libi para a prepot\u00eancia das maiorias. Ser democr\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 curvar-se ao n\u00famero de votos. \u00c9 submeter honestamente as pr\u00f3prias id\u00e9ias \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o dos outros e saber render-se a uma argumenta\u00e7\u00e3o convincente&#8230; Que pode ser a da minoria, ou a de um s\u00f3, por que n\u00e3o?<br \/>\nAlberto co\u00e7ou o queixo:<br \/>\n&#8211; O que acontece quando a opini\u00e3o da maioria \u00e9 a mais acertada? A mais&#8230; convincente?<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, nem precisa ser majorit\u00e1ria, Alberto. Entre uma minoria que pensa certo e uma maioria que erra, prefiro seguir a minoria.<br \/>\n&#8211; Mas como saber o que \u00e9 pensar certo?<br \/>\n&#8211; Seguramente o certo n\u00e3o \u00e9, necessariamente, o que uma dada maioria pensa. Poder se decide pelo voto; acerto, n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; E ent\u00e3o?<br \/>\n&#8211; O que \u00e9 certo, no caso do nosso Departamento, ou do Instituto, por exemplo, \u00e9 o que, num dado momento, \u00e9 moralmente l\u00edcito, traz benef\u00edcio ao grupo, contribui para os fins, impessoais, da institui\u00e7\u00e3o. A quem responde, cabe a decis\u00e3o. A discuss\u00e3o serve para corrigir as distor\u00e7\u00f5es dos crit\u00e9rios pessoais de quem deve decidir. No caso, eu.<br \/>\n&#8211; Isso n\u00e3o \u00e9 meio autorit\u00e1rio?<br \/>\n&#8211; Seria, se o poder de decidir n\u00e3o fosse delegado. O Conselho pode retirar essa delega\u00e7\u00e3o quando quiser. O poder, sim, pertence ao Conselho, que o delega ou retira, conforme a vontade da maioria.<br \/>\n&#8211; Agora vale a maioria? Por qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; \u00c9 \u00f3bvio, Alberto. Agora, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a do acerto ou erro de uma decis\u00e3o. Agora se trata de atribuir o poder. \u00c9 uma quest\u00e3o de for\u00e7a. \u00c9 o exerc\u00edcio da for\u00e7a. A decis\u00e3o pode at\u00e9 ser errada: acerto n\u00e3o se decide por voto. Maioria \u00e9 uma express\u00e3o de for\u00e7a, Alberto. E a for\u00e7a, raramente acompanha a racionalidade.<br \/>\n&#8211; Numa democracia o direito de opinar deve ser irrestrito, disse Alberto, cruzando os bra\u00e7os. Era o jeito dele quando decidia levar uma discuss\u00e3o at\u00e9 o fim.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o deixemos que os pacientes do Policl\u00ednico ou os presos de San Vittore decidam como deve ser conduzido o hospital ou o pres\u00eddio. Ou, que os alunos, benefici\u00e1rios transit\u00f3rios da Universidade, resolvam como deve ser o ensino, a pesquisa, o estatuto. Eles n\u00e3o responder\u00e3o pelos efeitos de tais decis\u00f5es, ap\u00f3s a formatura. Alunos,<br \/>\npacientes e presos s\u00e3o sempre maioria, nessas diferentes institui\u00e7\u00f5es, como voc\u00ea sabe, meu caro.<br \/>\n&#8211; Eu disse: direito de opinar, professor.<br \/>\n&#8211; Pelo gosto de opinar? Ou para decidir?<br \/>\nN\u00e3o sei como a conversa terminou. Conto isso para mostrar como funcionava o Departamento. E \u00e9 bom que se diga: Pietro Vittori tinha sido eleito pela quarta vez consecutiva para a Diretoria. Por unanimidade!<br \/>\nEstilos \u00e0 parte, confi\u00e1vamos nele. Na sua dedica\u00e7\u00e3o &#8220;aos fins, impessoais, da institui\u00e7\u00e3o&#8221;. E no seu rigoroso senso de justi\u00e7a.&#8221;<\/em><br \/>\nLindo, de novo, n\u00e3o \u00e9?<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na verade terminei de ler esse livro no ano passado, mas foi nesse final de semana que o meu grande amigo Milton me presenteou com a c\u00f3pia que ele pr\u00f3prio tinha me emprestado para ler. 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