{"id":476,"date":"2010-07-22T00:23:36","date_gmt":"2010-07-22T03:23:36","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/07\/as_metaforas_cientificas_no_di\/"},"modified":"2010-07-22T00:23:36","modified_gmt":"2010-07-22T03:23:36","slug":"as_metaforas_cientificas_no_di","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/07\/22\/as_metaforas_cientificas_no_di\/","title":{"rendered":"As met\u00e1foras cient\u00edficas no discurso jornal\u00edstico"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"darkness_1271962_30845345.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/darkness_1271962_308453451.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\nHoje dei uma palestra sobre Escrita Criativa em Ci\u00eancia na III Escola Tem\u00e1tica de Qu\u00edmica da UFRJ cujo tema era Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica. Na palestra anterior a minha, um aluno perguntou que ferramentas poderiam ser utilizadas para sensibilizar o p\u00fablico da presen\u00e7a da ci\u00eancia no nosso dia-a-dia.<br \/>\nUma poss\u00edvel resposta para essa pergunta foi dada pelo nosso colega blogueiro e f\u00edsico da USP-Ribeir\u00e3o <a href=\"http:\/\/comciencias.blogspot.com\/\">Osame Kinouche<\/a>, com a psic\u00f3loga Ang\u00e9lica Mandr\u00e1, no \u00f3timo artigo &#8220;Met\u00e1foras cient\u00edficas no discurso jornal\u00edstico&#8221;. Meus amigos jornalistas deveriam adorar. Quando conversei com eles pela primeira vez sobre esse assunto, no I EWCLiPo, fiquei pasmo: era \u00f3bvio e eu nunca tinha pensado a respeito.<br \/>\nO que s\u00f3 torna a percep\u00e7\u00e3o deles mais genial: existem dezenas de termos utilizados na linguagem formal e informal cuja etimologia \u00e9 cient\u00edfica.<br \/>\nAs mais f\u00e1ceis de reconhecer s\u00e3o termos da geometria Euclidiana como <em>Ponto<\/em> de vista; <em>Linha<\/em> de racioc\u00ednio; Tra\u00e7ar um <em>paralelo<\/em>; Analisar por outro <em>\u00e2ngulo<\/em>; <em>Volume<\/em> de conhecimentos; <em>Plano<\/em> pessoal; <em>C\u00edrculo<\/em> de amizades e <em>Tri\u00e2ngulo<\/em> amoroso.<br \/>\n\u00c9 verdade que o oposto tamb\u00e9m \u00e9 verdadeiro, e os cientistas se aproveitam de termos coloquiais com forte apelo imag\u00e9tico\/sensorial para criar express\u00f5es cient\u00edficas que possuem forte carga metaf\u00f3rica: <em>barreira<\/em> entr\u00f3pica, <em>relevo<\/em> de energia, <em>po\u00e7o<\/em> de potencial, <em>ru\u00eddo<\/em> branco, <em>paisagem<\/em> rugosa, <em>rede<\/em> cristalina, <em>buraco<\/em> negro, super<em>cordas<\/em>. Termos mais simples como &#8220;carga&#8221;, &#8220;corrente&#8221;, &#8220;fio&#8221;, &#8220;press\u00e3o&#8221;, &#8220;resist\u00eancia&#8221;, &#8220;campo&#8221; etc. tamb\u00e9m s\u00e3o etimologicamente anteriores ao seu uso cient\u00edfico.<br \/>\nAlgumas vezes a comunica\u00e7\u00e3o tem ru\u00eddo e as met\u00e1foras n\u00e3o funcionam bem. E com conseq\u00fc\u00eancias relativamente s\u00e9rias para o aprendizado de alguns conceitos em f\u00edsica: as palavras &#8220;acelera\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;for\u00e7a&#8221;, &#8220;peso&#8221;, &#8220;trabalho&#8221;, &#8220;energia&#8221;, &#8220;calor&#8221;, tem sentidos coloquiais diferentes do t\u00e9cnico. Ou voc\u00ea n\u00e3o sabia que o que chamamos de &#8216;peso&#8217; na verdade \u00e9 a &#8216;massa&#8217; de um corpo, e que o peso mesmo \u00e9 a resultante da a\u00e7\u00e3o da gravidade nessa massa?! E dai?! Voc\u00ea pode dizer. Bom, voc\u00ea pode achar que isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia, mas d\u00e1 um n\u00f3 na cabe\u00e7a dos alunos tanto no ensino m\u00e9dio quanto  depois na faculdade de f\u00edsica. E n\u00f3s j\u00e1 temos problemas suficientes para <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/10\/quem_tem_medo_da_fisica.php\">formar todos os f\u00edsicos que o Brasil precisa<\/a>.<br \/>\nA sa\u00edda acha pelos cientistas para minimizar essa confus\u00e3o n\u00e3o ajuda em nada a aproximar a ci\u00eancia do cidad\u00e3o leigo. Eles criam neologismos radicais, com um m\u00ednimo de sentido metaf\u00f3rico: <em>quark<\/em>, <em>pr\u00f3ton<\/em>, <em>entropia<\/em>, <em>entalpia<\/em>, <em>fractal<\/em>, <em>quasar<\/em> etc. Mas mesmo assim, esses termos acabam chegando metaforicamente a linguagem comum, como j\u00e1 acontece com <em>entropia<\/em> (como met\u00e1fora para desordem) e <em>fractal<\/em> (como met\u00e1fora para organiza\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios n\u00edveis). N\u00e3o \u00e9 um barato?!<br \/>\nPara voc\u00eas terem uma id\u00e9ia, numa an\u00e1lise do n\u00famero de vezes que os termos &#8216;p\u00eandulo&#8217; (f\u00edsica cl\u00e1ssica) e &#8216;buraco negro&#8217; (f\u00edsica moderna) s\u00e3o utilizados metaforicamente em aproximadamente 50% dos textos jornal\u00edsticos dos portais da Folha de S\u00e3o Paulo, do Estado de S\u00e3o Paulo e do G1 (<a href=\"http:\/\/arxiv.org\/abs\/1006.1128\">confira o artigo<\/a> para ver os n\u00fameros exatos).<br \/>\nO uso desses termos tamb\u00e9m demonstra que o uso metaf\u00f3rico de termos t\u00e9cnicos cient\u00edficos serve para aumentar o potencial de express\u00e3o criativa do cidad\u00e3o comum, ou mesmo um reconhecimento mais correto do mundo que o cerca, porque amplia ou expande a sua compreens\u00e3o: termos como &#8220;for\u00e7as pol\u00edticas&#8221;, &#8220;equil\u00edbrio de poder&#8221;, &#8220;fonte de atrito&#8221;, &#8220;tens\u00e3o social&#8221;, sugerem a vis\u00e3o mecanicista da sociedade como uma m\u00e1quina, que remete a f\u00edsica cl\u00e1ssica determin\u00edstica de Newton. No entanto, muitos desses fen\u00f4menos n\u00e3o tem nada de determin\u00edsticos. E a medida que aumenta a compreens\u00e3o dos cientistas de fen\u00f4menos n\u00e3o lineares, como aqueles governados pela teoria do Caos, novos termos que expressam mais corretamente a incerteza relacionada aos fen\u00f4menos, como &#8220;efeito borboleta&#8221;, se incorporam a linguagem e permitem a representa\u00e7\u00e3o mais correta dessas id\u00e9ias.<br \/>\nIsso \u00e9 muito importante porque, como dizem os autores, <em>&#8220;Nosso repert\u00f3rio metaf\u00f3rico n\u00e3o apenas limita nossa capacidade de falar sobre tais sistemas, mas afeta nossa maneira de conceb\u00ea-los e interagir com eles.&#8221;<\/em><br \/>\nOsame e Ang\u00e9lica terminam concluindo que o pensamento, o ato da cogni\u00e7\u00e3o, \u00e9 metaf\u00f3rico e usamos met\u00e1foras para compreender um conte\u00fado-alvo abstratos a partir de um conte\u00fado-origem concreto. Ao enriquecer o repert\u00f3rio conceitual da popula\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edficas produzem novas met\u00e1foras no discurso comum, que permitem a melhor descri\u00e7\u00e3o de sistemas complexos como os sistemas sociais e econ\u00f4micos.<br \/>\nSe voc\u00ea se interessa por ci\u00eancia e por divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o pode deixar de ler.<br \/>\nPS: E olhem s\u00f3, apesar de eu ter conversado apenas um pouco com um e outro tempos atr\u00e1s pelo grande interesse que o assunto me despertou, ainda ganhei uma men\u00e7\u00e3o nos agradecimentos. Obrigado!\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje dei uma palestra sobre Escrita Criativa em Ci\u00eancia na III Escola Tem\u00e1tica de Qu\u00edmica da UFRJ cujo tema era Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica. 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