{"id":482,"date":"2010-09-06T08:08:31","date_gmt":"2010-09-06T11:08:31","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/09\/fazendo_mais_pelo_portugues_qu\/"},"modified":"2010-09-06T08:08:31","modified_gmt":"2010-09-06T11:08:31","slug":"fazendo_mais_pelo_portugues_qu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/09\/06\/fazendo_mais_pelo_portugues_qu\/","title":{"rendered":"Fazendo mais pelo portugu\u00eas que os portugueses"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\">\nO VQEB embarcou para a \u00c1frica em numa aventura educacional. Comandados pela capit\u00e3 Cristine Barreto, fomos para Mo\u00e7ambique treinar a &#8216;tropa de elite&#8217; que vai escrever o material did\u00e1tico para os p\u00f3los da Universidade Aberta do Brasil em Mo\u00e7ambique.<br \/>\nMas um estrangeiro em Maputo, a trabalho, pode muito bem n\u00e3o ver \u00c1frica alguma. Um bom hotel, bons restaurantes&#8230; e a \u00c1frica mesmo nem apareceria. Mas ela est\u00e1 nos detalhes. Alguns, como o aeroporto s\u00e3o detalhes chocantes, principalmente depois da troca de avi\u00f5es em Johanesburgo, cujo aeroporto, reformado para a copa ou n\u00e3o, parece uma esta\u00e7\u00e3o espacial. O pre\u00e7o da conex\u00e3o a internet (USD 5,00 por hora) tamb\u00e9m \u00e9 um detalhe que carrega muita informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas com um olhar atento, voc\u00ea v\u00ea a \u00c1frica quando conversa com o motorista de t\u00e1xi, com a gar\u00e7onete do Zambea e com os professores para os quais demos aulas. Ai vemos a \u00c1frica de verdade. E, como o Brasil, ela \u00e9 cheia de contrastes.<br \/>\nSorrisos lindos e tecidos coloridos (Capulanas) contrastam com ruas mal iluminadas e constru\u00e7\u00f5es depreciadas. <em>&#8220;N\u00e3o se constr\u00f3i nada em Mo\u00e7ambique desde que os portugueses foram embora&#8221;<\/em> nos contou Orlando, o dono da reprografia da universidade, enquanto nos dava uma carona no seu carro verde, depois de um dia de aula, quando n\u00e3o consegu\u00edamos, de jeito algum, um t\u00e1xi para nos buscar. O &#8216;Zouk&#8217;, ou &#8216;Passada&#8217; como \u00e9 chamado l\u00e1, toca em cada esquina, em rodas de adultos, jovens, crian\u00e7as ou idosos que est\u00e3o jogando cartas, batendo papo ou bebendo xidibandota (um destilado caseiro feito com &#8216;o que quer que seja&#8217; e que, segundo os relatos, j\u00e1 causou muitas mortes &#8211; provavelmente porque n\u00e3o removem direito o metanol que deveria sair na primeira destila\u00e7\u00e3o) contrasta com uma incid\u00eancia de HIV superior a 15% na popula\u00e7\u00e3o adulta (dados do INE\/MZ).<br \/>\nAcredito tamb\u00e9m que o maior desafio para implementar o ensino a dist\u00e2ncia em Mo\u00e7ambique tamb\u00e9m est\u00e1 nos detalhes. \u00c9 claro que a falta de infra-estrutura \u00e9 um problema (enquanto est\u00e1vamos l\u00e1, um aeroporto no norte do pa\u00eds estava parado sem pousos ou decolagens h\u00e1 3 dias, porque, simplesmente, n\u00e3o conseguiam fazer chegar combust\u00edvel at\u00e9 l\u00e1), assim como as diferen\u00e7as culturais (o tempo em Mo\u00e7ambique parece fluir mais devagar&#8230; um jeito baiano de viver a vida). Mas apesar desses desafios serem grandes, eles s\u00e3o \u00f3bvios, certamente do conhecimento dos respons\u00e1veis pela implementa\u00e7\u00e3o desse projeto, e a solu\u00e7\u00e3o para esses problemas \u00e9 simples. Pode ser cara, porque construir estradas, importar equipamentos de laborat\u00f3rios, instalar cobertura 3G para internet pode ser muito caro, mas \u00e9 simples. Uma vez que se decide e se obt\u00e9m os recursos em pouco tempo tudo pode estar resolvido.<br \/>\nMas alguns detalhes que inicialmente passam desapercebidos, se revelam problemas bem mais graves e de solu\u00e7\u00e3o muito mais complexa, do que construir estradas, hospitais e escolas.<br \/>\nA nova Constitui\u00e7\u00e3o de 2004 diz que &#8220;Na Rep\u00fablica de Mo\u00e7ambique, a l\u00edngua portuguesa \u00e9 a l\u00edngua oficial&#8221; e o ministro da educa\u00e7\u00e3o de l\u00e1 se orgulha de ter feito pelo l\u00edngua portuguesa na \u00c1frica, mais que os pr\u00f3prios portugueses. Afinal, na \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o apenas 6% da popula\u00e7\u00e3o falava portugu\u00eas e agora chegam a 40% (dados do INE\/MZ).<br \/>\nMas ser\u00e1 que falam mesmo?<br \/>\nNa primeira miss\u00e3o de treinamento, os professores perceberam que para serem bem compreendidos, tinham que falar mais devagar. A solu\u00e7\u00e3o para encontrar o ritmo certo era, muitas vezes, deixar que os pr\u00f3prios alunos lessem os trechos de textos que seriam discutidos na aula. Mas mesmo com o jeito baiano de ser, o ritmo as vezes era lento demais. A ficha quando o motorista de um dos t\u00e1xis que tomamos nos levou ao &#8216;mercado&#8217; (que s\u00e3o camel\u00f4s espalhados por todas as cal\u00e7adas das ruas do centro da cidade) para procurarmos um adaptador para as estranh\u00edssimas tomadas de 3 pinos originais da \u00c1frica do Sul e utilizadas no nosso hotel. Ele gritava &#8216;tomadas, tens tomadas?&#8217; mas fora isso, entend\u00edamos pouco, muito pouco do que ele falava. Isso porque, de verdade, ele falava pouco, muito pouco portugu\u00eas. Sua primeira l\u00edngua, como fomos descobrir depois \u00e9 a primeira l\u00edngua de muitos maputenses, \u00e9 o Xichangana.<br \/>\nNo dia seguinte, durante a aula, notei que os professores usavam muitos pronomes demonstrativos, como &#8216;esse&#8217;, &#8216;isso&#8217; ou &#8216;aquilo&#8217;, numa clara demonstra\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio restrito. Perguntei ent\u00e3o qual era a primeira l\u00edngua de cada um deles e apenas 1 em 10 respondeu portugu\u00eas. Echuwabo, Chope, Xichangana&#8230; entre 10 alunos, t\u00ednhamos 8 l\u00ednguas diferentes! Em Mo\u00e7ambique todo, s\u00e3o mais de 40 idiomas (dados do INE\/MZ).<br \/>\nO Brasil \u00e9 um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais, mas mesmo quando fui para o Lago do Puruzinho, escondido num recanto do Rio Madeira, na divisa entre os estados de Rond\u00f4nia e do Amazonas, podia falar exatamente a mesma l\u00edngua, e exatamente da mesma forma, que em casa, no Rio de Janeiro. A l\u00edngua \u00e9 um instrumento fundamental de integra\u00e7\u00e3o nacional e acredito que apesar de n\u00e3o representar nenhuma das l\u00ednguas nativas, Mo\u00e7ambique s\u00f3 tem a lucrar como na\u00e7\u00e3o com o uso do portugu\u00eas nas escolas e na universidade.<br \/>\nE esse \u00e9 um objetivo que justifica a nossa busca por estrat\u00e9gias para capacitar esses docentes a produzir aulas a distancia que sejam instigantes, claras, objetivas, atraentes e corretas, num idioma que n\u00e3o \u00e9 o deles.<br \/>\n<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"IMG_0012.JPG\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/IMG_00121.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"mt-image-none\" \/><br \/>\n<em>PS: Enquanto escrevo esse texto, com um pouco mais de uma semana de atraso, uma revolta popular explode em Maputo, pelas ruas por onde passei h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo, deixando centenas de feridos e um aperto no meu cora\u00e7\u00e3o. O desafio n\u00e3o para de aumentar. <\/em>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O VQEB embarcou para a \u00c1frica em numa aventura educacional. Comandados pela capit\u00e3 Cristine Barreto, fomos para Mo\u00e7ambique treinar a &#8216;tropa de elite&#8217; que vai escrever o material did\u00e1tico para os p\u00f3los da Universidade Aberta do Brasil em Mo\u00e7ambique. Mas um estrangeiro em Maputo, a trabalho, pode muito bem n\u00e3o ver \u00c1frica alguma. 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