{"id":486,"date":"2011-02-25T11:10:58","date_gmt":"2011-02-25T14:10:58","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/02\/para_que_precisamos_de_biomarc\/"},"modified":"2011-02-25T11:10:58","modified_gmt":"2011-02-25T14:10:58","slug":"para_que_precisamos_de_biomarc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/02\/25\/para_que_precisamos_de_biomarc\/","title":{"rendered":"Para que precisamos de biomarcadores?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"malcheiroso_180344_2143.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/malcheiroso_180344_21431.jpg\" width=\"350\" height=\"467\" class=\"mt-image-none\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<strong><br \/>\n<em>&#8220;Quando o dano est\u00e1 feito, at\u00e9 um tolo pode perceb\u00ea-lo.&#8221;<\/em> <\/strong><br \/>\nN\u00e3o canso de repetir essa frase de <em>Homero<\/em>. Especialmente para mim mesmo.<br \/>\nEla me faz lembrar uma outra frase, mas essa eu n\u00e3o sei quem disse: &#8220;Se nosso c\u00e9rebro fosse simples a ponto de podermos compreend\u00ea-lo, jamais conseguir\u00edamos compreend\u00ea-lo&#8221;<br \/>\nQue por sua vez me leva a palestra do <em>Richard Dawkins<\/em> no TED <a href=\"http:\/\/www.ted.com\/talks\/richard_dawkins_on_our_queer_universe.html\"><em>&#8220;Queerer than we can suppose. The strangeness of Science&#8221;<\/em><\/a> ou <strong>&#8220;Mais esquisito do que n\u00f3s podemos supor. A estranheza da ci\u00eancia&#8221;<\/strong>, que voc\u00eas n\u00e3o podem perder.<br \/>\nEle, por sua vez, estava citando <em>J.B.S. Haldane<\/em>, que uma vez disse <em>&#8220;The universe is not only queerer than we suppose but queerer than we can suppose.&#8221;<\/em> (<strong>&#8220;O universo n\u00e3o \u00e9 apenas mais esquisito do que supomos, \u00e9 mais esquis\u00edto do que podemos supor&#8221;<\/strong>)<br \/>\nEita, j\u00e1 escrevi 4 cita\u00e7\u00f5es a at\u00e9 agora n\u00e3o disse ao que vim. Espero que n\u00e3o tenham se cansado e ido embora.<br \/>\nVeja, os ecotoxicologistas, mas acredito que tamb\u00e9m os ec\u00f3logos e os toxicologistas, ainda n\u00e3o se convenceram disto. De nada disso! <strong>Parece que quanto mais complexo tornarmos o problema, quanto menos pessoas puderem compreend\u00ea-lo, quanto mais equipamentos caros precisarmos para avaliar o problema, melhor \u00e9 o problema.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9, ou n\u00e3o deveria ser, assim.<br \/>\n<em>Robert Aumman<\/em> diz que a compreens\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno complexo, mas que usa 3 elementos: <strong>rela\u00e7\u00e3o, abrang\u00eancia (unidade) e simplicidade.<\/strong> Para compreendermos alguma coisa, precisamos ser capazes de relacion\u00e1-la com outras, que nos s\u00e3o familiares. Ela precisa ser aplic\u00e1vel em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, quanto mais situa\u00e7\u00f5es, melhor ser\u00e1 a nossa compreens\u00e3o. E finalmente, ela precisa ser simples!<br \/>\nMas nem tudo \u00e9, ou pode ser, simples.<br \/>\nA teoria da gravita\u00e7\u00e3o universal \u00e9 simples. Massa, dist\u00e2ncia e BUM! Voc\u00ea tem a gravidade. Mas esses tais de biomarcadores&#8230; gente&#8230; que coisa complicada! Eu trabalho com eles, h\u00e1 muitos anos, e s\u00e3o t\u00e3o poucos os que podemos dizer que realmente entendemos.<br \/>\nQuer dizer, entendemos os mecanismos. A biologia molecular (quando aquelas letrinhas ACGT do DNA viram uma prote\u00edna) e entendemos a bioqu\u00edmica (quando todas aquelas prote\u00ednas fazem alguma tarefa em um ciclo ou processo), mas quando tentamos entender PORQUE ou PARA QUE elas fazem isso ou aquilo&#8230; o problema fica complicado demais.<br \/>\nJ\u00e1 tentou entender porque uma garota \u00e9 capaz de passar horas e horas em uma loja de sapatos? Ou um cara horas e horas discutindo sobre carros? \u00c9 a mesma complica\u00e7\u00e3o: n\u00e3o d\u00e1 pra entender!<br \/>\nPor favor, n\u00e3o me entendam mal, eu sei que DNAs e prote\u00ednas n\u00e3o fazem nada com raz\u00e3o ou prop\u00f3sito. Usei os termos mais no sentido de &#8216;causa&#8217; e &#8216;consequencia&#8217;. Por\u00e9m, mesmo essas coisas complicadas, que talvez jamais consigamos entender ou prever, acabam levando a coisa que podemos observar mais facilmente: um sintoma de doen\u00e7a, um cheiro ruim de esgoto no rio.<br \/>\nN\u00e3o precisa de p\u00f3s-doutorado. \u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil que at\u00e9 um tolo percebe. E \u00e9 isso que a palestra do Dawkins fala. Nosso c\u00e9rebro foi desenhado (no sentido de evoluiu) para compreender fen\u00f4menos do mundo vis\u00edvel, aud\u00edvel e palp\u00e1vel. E para tomar decis\u00f5es levando em considera\u00e7\u00e3o muitas vari\u00e1veis, medindo a import\u00e2ncia de cada uma delas em diferentes contextos, algumas vezes de forma inconsciente, e em outras, levando em conta par\u00e2metros emocionais (n\u00e3o-racionais). As coisas continuam sendo complicadas, mas em algumas escalas, ordens de grandeza, nosso c\u00e9rebro est\u00e1 equipado para compreend\u00ea-las.<br \/>\nAcho que a escala dos biomarcadores de polui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma delas. Se voc\u00ea coloca peixes em um rio contaminado com esgoto e depois de meses de an\u00e1lises, milhares de reais, horas de trabalho, an\u00e1lises qu\u00edmicas e estat\u00edsticas, tudo consegue concluir \u00e9 que aquele rio estava contaminado com esgoto, ent\u00e3o existe algum problema ai.<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9: se os biomarcadores s\u00f3 forem t\u00e3o bons quanto nossos olhos e narizes, por\u00e9m muito mais caros e trabalhosos, ent\u00e3o fiquemos com os olhos e narizes!<br \/>\nCome\u00e7o a acreditar que n\u00e3o poderemos, nunca, nem mesmo com os &#8216;omics&#8217;, explicar os complexos mecanismos atrav\u00e9s dos quais os efeito de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, os antigos contaminantes que ainda est\u00e3o presentes (como DDTs, PCBs e HPAs), os novos contaminantes como as nanopart\u00edculas e os f\u00e1rmacos, associados a variantes gen\u00e9ticas entre esp\u00e9cies e indiv\u00edduos, est\u00e1gios do desenvolvimento, idade, g\u00eanero, doen\u00e7as e acrescidos da presen\u00e7a de parasitos e influ\u00eancia de varia\u00e7\u00f5es ambientais; prever o que vai levar um organismo a desenvolver um tumor e outro n\u00e3o, ap\u00f3s uma exposi\u00e7\u00e3o no ambiente.<br \/>\nAcho que como ecotoxicologistas, estamos fadados a sermos os tolos que explicam depois, com um n\u00edvel de detalhamento sem precedentes na hist\u00f3ria, o dano logo depois dele acontecer.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quando o dano est\u00e1 feito, at\u00e9 um tolo pode perceb\u00ea-lo.&#8221; N\u00e3o canso de repetir essa frase de Homero. 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