{"id":504,"date":"2010-10-20T09:25:53","date_gmt":"2010-10-20T12:25:53","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/10\/um_ponto_de_vista_sobre_o_abor\/"},"modified":"2010-10-20T09:25:53","modified_gmt":"2010-10-20T12:25:53","slug":"um_ponto_de_vista_sobre_o_abor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/10\/20\/um_ponto_de_vista_sobre_o_abor\/","title":{"rendered":"Um ponto de vista sobre o aborto"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span><br \/>\n<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"plantar_arvore_texto_aborto_sxc_1313320_20123736.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/plantar_arvore_texto_aborto_sxc_1313320_20123736.jpg\" width=\"500\" height=\"335\" class=\"mt-image-none\" \/><br \/>\nO aborto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o moral ou religiosa. \u00c9 uma quest\u00e3o m\u00e9dica e cient\u00edfica. E se h\u00e1 uma raz\u00e3o para ele ser uma quest\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 essa: ser um problema de sa\u00fade p\u00fablica, de sa\u00fade da mulher. E \u00e9 uma vergonha ver nossos candidatos a presidente abrindo concess\u00f5es e compactuando com cren\u00e7as que colocam em risco a vida das mulheres.<br \/>\nEu n\u00e3o sou m\u00e9dico e talvez devesse ficar quieto quanto ao assunto, mas acho que a ci\u00eancia pode contribuir para esse debate, desmistificando a divindade da vida.<br \/>\nDe tudo aquilo que a teoria da evolu\u00e7\u00e3o nos ensinou sobre a vida, e ela nos ensinou muita coisa, uma eu considero extremamente importante. Que a ontologia imita a filogenia. Essas duas palavras complicadas querem dizer simplesmente que o desenvolvimento da vida imita a evolu\u00e7\u00e3o da vida, e que quando o embri\u00e3o e o feto de qualquer esp\u00e9cie est\u00e1 se desenvolvendo, ele passa por est\u00e1gios que lembram formas ancestrais daquela esp\u00e9cie. \u00c9 a teoria da recapitula\u00e7\u00e3o. Quer um exemplo? Durante o nosso desenvolvimento, no final do primeiro m\u00eas de gesta\u00e7\u00e3o, os fetos humanos possuem arcos branquiais, como os peixes.<br \/>\nUma outra semelhan\u00e7a \u00e9 o pr\u00f3prio zigoto, a primeira c\u00e9lula do corpo, formada pela uni\u00e3o do espermatoz\u00f3ide com o \u00f3vulo. Assim como a vida na Terra teria surgido de uma c\u00e9lula, cada nova vida tamb\u00e9m surge de uma c\u00e9lula.<br \/>\nMas como surgiu a primeira celular?<br \/>\nOs fil\u00f3sofos gregos acreditavam que a origem era divina, e por isso n\u00e3o se preocupavam com o &#8216;como&#8217; a vida apareceu e se contentavam apenas em classific\u00e1-la em &#8216;bichinhos&#8217; e &#8216;plantinhas&#8217;. Mesmo hoje em dia, acredito que a f\u00edsica conhe\u00e7a melhor o que acontece com o in\u00edcio do universo do que a biologia o que acontece com o in\u00edcio da vida. Ainda assim, sabemos o suficiente para desmistificar o fen\u00f4meno: existem evidencias suficientes para mostrar que as primeiras c\u00e9lulas n\u00e3o tinham membrana plasm\u00e1tica, fruto de uma bioqu\u00edmica de lip\u00eddeos complexa e que apareceu muito depois na evolu\u00e7\u00e3o do metabolismo.<br \/>\nAs teorias mais aceitas atualmente, n\u00e3o apontam mais para uma &#8216;sopa primordial&#8217; feita de molecular org\u00e2nicas formadas por descargas el\u00e9tricas em atmosferas de metano e CO2, mas sim para a origem de um c\u00f3digo gen\u00e9tico primordial a base de adenina (uma das bases nitrogenadas que formam o DNA), que tem estrutura qu\u00edmica simples e \u00e9 encontrado em TODO o universo. O suporte para esse c\u00f3digo gen\u00e9tico, que no DNA &#8216;moderno&#8217; \u00e9 um &#8216;esqueleto&#8217; de a\u00e7\u00facar e fosfato seria, acreditem, a superf\u00edcie de cristais de argila. Parece que no final das contas a B\u00edblia n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o equivocada ao dizer: &#8220;E formou o Senhor Deus o homem do barro da terra&#8221; (Gen 3, 7).<br \/>\nA bioqu\u00edmica, termo que eu aqui uso no seu sentido etimol\u00f3gico, se formou a partir de uma qu\u00edmica pr\u00e9-bi\u00f3tica dentro de compartimentos rochosos de Sulfito de ferro no fundo do oceano. Ao que parece, as primeiras &#8216;c\u00e9lulas&#8217; n\u00e3o eram de vida livre e tinham uma casca de pedra.<br \/>\nA ontogenia recapitula a filogenia. Ate hoje, todas as formas de vida que conhecemos s\u00e3o feitas de c\u00e9lulas (bom, isso pode causar arrepios nos vir\u00f3logos, mas n\u00e3o vou entrar nesse m\u00e9rito agora). E o que todas as c\u00e9lulas tem em comum \u00e9 que s\u00e3o compartimentos, isolados do meio externo atrav\u00e9s de uma membrana semiperme\u00e1vel. E atrav\u00e9s dessa membrana, possuem os mesmos tipos de gradientes que existem (e existiram) no fundo do oceano Hadeano (a era geol\u00f3gica em que a Terra se resfriou), por bilh\u00f5es de anos, h\u00e1 bilh\u00f5es de anos.<br \/>\nExistem muitas evidencias que a vida surgiu no fundo do mar, em condi\u00e7\u00f5es bem simples: um gradiente de eletricidade, que passava de um l\u00edquido hidrotermal reduzido (rico em el\u00e9trons) atrav\u00e9s de uma fina crosta terrestre para um oceano oxidado (que n\u00e3o quer dizer exatamente com oxig\u00eanio, o que n\u00e3o era ocaso, mas sim &#8216;pobre&#8217; em el\u00e9trons); um gradiente de pr\u00f3tons do mesmo l\u00edquido hidrotermal que era alcalino para o oceano que era \u00e1cido e, finalmente, tamb\u00e9m um gradiente de calor, onde algo com 60oC passavam do l\u00edquido hidrotermal para o oceano.<br \/>\nS\u00f3 isso? Bom, mais umas duas ou tr\u00eas coisas, mas isso era o fundamental.<br \/>\nA ontogenia repete a filogenia. O animado repete o inanimado. O conceito \u00e9 que fen\u00f4menos complexos podem ser explicados por sub-fen\u00f4menos mais simples. Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma id\u00e9ia antiga, um princ\u00edpio descrito, vejam s\u00f3, por um monge, no s\u00e9culo XIV. Bom, \u00e9 verdade que <em>Guilherme de Occam<\/em> era monge, mas naquela \u00e9poca, em que os poderosos dominavam har\u00e9ns gigantescos, e apenas os primog\u00eanitos tinham &#8216;direito&#8217; a se casar, um segundo filho n\u00e3o tinha muita op\u00e7\u00e3o, por lei ou por disponibilidade de parceiras, para se casar, restando apenas o monast\u00e9rio.<br \/>\nMas como eu ia dizendo, o principio da economia da natureza,  ou <strong>&#8216;navalha de Occam&#8217; <\/strong>como ficou conhecido, foi muito bem enunciado por <em>Einstein<\/em>: &#8220;as coisas devem ser o mais simples poss\u00edvel. Mas n\u00e3o mais simples ainda&#8221;, e diz que sim, as coisas que vemos como complexas s\u00e3o frutos de coisas simples, porque a natureza \u00e9 econ\u00f4mica (porque energia, a moeda da natureza) \u00e9 uma coisa &#8216;cara&#8217;. E vai CONTRA a principal id\u00e9ia da religi\u00e3o: de que algo complexo, como a vida e o ser humano, teria de vir de algo ainda mais complexo: Deus.<br \/>\nDuas palestras do TED que assisti recentemente, <a href=\"http:\/\/www.ted.com\/talks\/george_whitesides_toward_a_science_of_simplicity.html\">essa<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.ted.com\/talks\/lang\/eng\/murray_gell_mann_on_beauty_and_truth_in_physics.html\">essa<\/a>, argumentam muito e muito bem em favor da simplicidade como fonte de complexidade.<br \/>\nMas eu n\u00e3o espero que meus leitores leiam o excelente artigo de <em>Martin &amp; Russel<\/em> que est\u00e1 anexo, ou que se debrucem sobre os escritos de <em>Prigogine<\/em> para se convencerem, ou apenas acreditarem, que a vida \u00e9 uma inevitabilidade termodin\u00e2mica e n\u00e3o h\u00e1 nada de divino nisso.<br \/>\nUma vez me pediram para escrever sobre aborto e eu tenho certeza que n\u00e3o era esse o tipo de resposta que estavam esperando. Mas eu guardei essa resposta para o final. Para mim, o principal argumento para convencer os religiosos da n\u00e3o divindade da vida, vem da freq\u00fc\u00eancia com que os abortos naturais acontecem. Sim, porque abortos naturais s\u00e3o causados por Deus, n\u00e3o s\u00e3o?<br \/>\nEstimasse que 15 a 20% das gesta\u00e7\u00f5es terminem em abortos espont\u00e2neos, aqueles que acontecem antes da vig\u00e9sima semana de gravidez. Mas o n\u00famero pode ser muito maior. Primeiro porque eles podem acontecer tamb\u00e9m depois da 20a semana, mas ai n\u00e3o recebem mais o nome de &#8216;aborto&#8217;: s\u00e3o natimortos ou \u00f3bitos fetais tardios. E depois, porque um percentual desconhecido acontece mesmo antes da 4a semana de gesta\u00e7\u00e3o, em casos que a mulher nem mesmo sabe que est\u00e1 gr\u00e1vida e o aborto pode se passar por um ciclo menstrual um pouco mais dolorido. Com isso, <strong>os abortos espont\u00e2neos podem chegar a 50% das gesta\u00e7\u00f5es! Provavelmente a causa mortis mais freq\u00fcente da humanidade!<\/strong><br \/>\nOs abortos espont\u00e2neos ainda s\u00e3o respons\u00e1veis por 15% dos casos de morte materna por aborto (os abortos induzidos s\u00e3o respons\u00e1veis por 85%).<br \/>\nHomens e mulheres tem estrat\u00e9gias reprodutivas diferentes, ainda que colaborem para alcan\u00e7ar um objetivo comum. Mas \u00e9 prov\u00e1vel que por essas diferen\u00e7as, os homens se preocupem mais com o risco de perderem suas parceiras do que com o risco de perderem uma gesta\u00e7\u00e3o por aborto: espont\u00e2neo ou induzido.<br \/>\nAposto que nenhum dos carolas que protesta contra o aborto induzido e a santidade da vida viu sua mulher se esvaindo em sangue por um aborto espont\u00e2neo.<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Philosophical+Transactions+of+the+Royal+Society+B%3A+Biological+Sciences&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1098%2Frstb.2002.1183&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=On+the+origins+of+cells%3A+a+hypothesis+for+the+evolutionary+transitions+from+abiotic+geochemistry+to+chemoautotrophic+prokaryotes%2C+and+from+prokaryotes+to+nucleated+cells&amp;rft.issn=0962-8436&amp;rft.date=2003&amp;rft.volume=358&amp;rft.issue=1429&amp;rft.spage=59&amp;rft.epage=85&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Frstb.royalsocietypublishing.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1098%2Frstb.2002.1183&amp;rft.au=Martin%2C+W.&amp;rft.au=Russell%2C+M.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">Martin, W., &amp; Russell, M. (2003). On the origins of cells: a hypothesis for the evolutionary transitions from abiotic geochemistry to chemoautotrophic prokaryotes, and from prokaryotes to nucleated cells <span style=\"font-style: italic\">Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 358<\/span> (1429), 59-85 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1098\/rstb.2002.1183\">10.1098\/rstb.2002.1183<\/a><\/span><br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Pan+Am+J+Public+Health&amp;rft_id=info%3A%2F&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Mortalidade+por+causas+relacionadas%0D%0Aao+aborto+no+Brasil%3A+decl%C3%ADnio+e%0D%0Adesigualdades+espaciais&amp;rft.issn=&amp;rft.date=2000&amp;rft.volume=7&amp;rft.issue=3&amp;rft.spage=168&amp;rft.epage=172&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Bruno+Gil+de+Carvalho+Lima&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Clinical+Research%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">Bruno Gil de Carvalho Lima (2000). Mortalidade por causas relacionadas<br \/>\nao aborto no Brasil: decl\u00ednio e<br \/>\ndesigualdades espaciais <span style=\"font-style: italic\">Pan Am J Public Health, 7<\/span> (3), 168-172<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aborto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o moral ou religiosa. \u00c9 uma quest\u00e3o m\u00e9dica e cient\u00edfica. E se h\u00e1 uma raz\u00e3o para ele ser uma quest\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 essa: ser um problema de sa\u00fade p\u00fablica, de sa\u00fade da mulher. 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