{"id":524,"date":"2011-02-09T00:50:13","date_gmt":"2011-02-09T03:50:13","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/02\/desmaiando_de_chatice\/"},"modified":"2011-02-09T00:50:13","modified_gmt":"2011-02-09T03:50:13","slug":"desmaiando_de_chatice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/02\/09\/desmaiando_de_chatice\/","title":{"rendered":"Desmaiando de chatice"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"student_sleep_sxc_1094329_72034532.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/student_sleep_sxc_1094329_720345321.jpg\" width=\"350\" height=\"467\" class=\"mt-image-none\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\nEnquanto preparo o programa de aulas para o semestre que se inicia, me pego perdido em pensamentos: ser\u00e1 que foram boas aulas? Ser\u00e1 que os alunos gostaram?<br \/>\nBom&#8230; essas duas perguntas n\u00e3o s\u00e3o complementares, porque dado que uma, nada garante a outra. E nada pode garantir que todos os alunos gostar\u00e3o de uma aula, como j\u00e1 falei brevemente <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/08\/ao_mestre_com_carinho.php\">aqui<\/a>.<br \/>\nEnt\u00e3o me pergunto a \u00fanica pergunta que posso responder: ser\u00e1 que eu gostei?<br \/>\nRevejo o programa, revejo algumas aulas, revejo algumas atividades.<br \/>\nSim, gostei de muita coisa. Mas n\u00e3o, n\u00e3o gostei de muitas coisa tamb\u00e9m. Tivemos tantas aulas&#8230; chatas!<br \/>\nEu coordeno 3 disciplinas. O que quer dizer que monto o programa (com a contribui\u00e7\u00e3o de outros professores) e supervisiono as aulas. Dou v\u00e1rias aulas tamb\u00e9m, mas atualmente as disciplinas quase sempre envolvem mais de um professor. Na maior parte das vezes, por ser o entendido, especialista no assunto. Mas algumas outras vezes, porque justamente na falta de um especialista, sobrou pr&#8217;aquele pobre coitado falar do que ningu\u00e9m mais queria falar.<br \/>\nOutra caracter\u00edstica das disciplinas \u00e9 a presen\u00e7a de alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o dando aulas. Muitas vezes porque s\u00e3o muito bons e s\u00e3o, eles pr\u00f3prios, os especialistas nas diferentes \u00e1reas, e n\u00e3o o docente respons\u00e1vel. Mas v\u00e1rias vezes apenas para cumprir os pr\u00e9-requisitos da bolsa da CAPES.<br \/>\nOs pr\u00f3prios alunos tamb\u00e9m d\u00e3o aulas. Bem, na verdade n\u00e3o s\u00e3o aulas, s\u00e3o semin\u00e1rios, que n\u00e3o s\u00e3o exatamente aulas, mas que eles acabam apresentando como se fossem. Confuso? \u00c9 exatamente isso que os semin\u00e1rios dos alunos s\u00e3o.<br \/>\nEnt\u00e3o temos um pouco de tudo nas aulas. E apesar dessa ser uma possibilidade enriquecedora, o que temos \u00e9 confus\u00e3o. Quase caos!<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 como requerer o mesmo conhecimento, o mesmo esfor\u00e7o ou a mesma habilidade natural para todos os professores. E muito menos para os alunos.<br \/>\nAlguns professores s\u00e3o claramente melhor que outros. N\u00e3o s\u00f3 no conte\u00fado espec\u00edfico, mas principalmente no jeito de dar aula. Pode ser fruto de uma estrat\u00e9gia pensada, com resolu\u00e7\u00e3o de problemas, planejando cuidadosamente a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento ou o que vai chamar aten\u00e7\u00e3o ou motivar os alunos. Outras vezes s\u00e3o &#8216;naturais&#8217;. N\u00e3o precisam fazer nenhum esfor\u00e7o para manter aten\u00e7\u00e3o dos alunos. S\u00e3o encantadores de serpentes, sedutores de massas. \u00c9 lindo ver um &#8216;natural&#8217; dar aula. Mas s\u00e3o t\u00e3o raros quanto os dedicados do in\u00edcio do par\u00e1grafo.<br \/>\nA maior parte dos professores acha que o que eles tem para ensinar \u00e9 t\u00e3o importante que o aluno n\u00e3o faz mais que a obriga\u00e7\u00e3o de prestar aten\u00e7\u00e3o e aprender. Talvez um dia tenha sido assim, mas n\u00e3o \u00e9 mais. Hoje o professor tem que concorrer com MTV, cinema 3D, videogame, Vampiros, facebook e Google. O principal erro deles \u00e9 n\u00e3o selecionar informa\u00e7\u00e3o. D\u00e3o um monte de artigos para os alunos lerem, esperando que eles depreendam as coisas corretas, sem ter preparado eles pra isso. E esse, os 10 artigos, \u00e9 s\u00f3 um exemplo. Mas eles podem fazer isso com qualquer coisa, at\u00e9 mesmo com uma pergunta em sala de aula, daquelas que com a escassez ou excesso de informa\u00e7\u00e3o que foi dado, apenas ele, professor que fez a pergunta, e ningu\u00e9m mais, tem como saber a resposta.S\u00e3o de uma chat\u00edce infinita. E as aulas, de desmaiar.<br \/>\nOs alunos reclamam e com raz\u00e3o. Ou&#8230; n\u00e3o reclamam, e fazem o mais f\u00e1cil: v\u00e3o embora e n\u00e3o assistem a aula.<br \/>\nSim, tamb\u00e9m v\u00e3o embora das aulas boas, mas por outras raz\u00f5es, que certamente incluem vagabundagem, mas que n\u00e3o v\u00eam ao caso aqui.<br \/>\n<strong>Abre par\u00eanteses:<\/strong> as salas de aulas est\u00e3o cada vez mais vazias. Quando o professor faz chamada e \u00e9 exigente com assiduidade e pontualidade, a sala pode at\u00e9 estar cheia, mas as mentes est\u00e3o vazias. E quando ele \u00e9 muito exigente na prova, os olhos at\u00e9 ficam grudados no quadro negro, aquele artefato antigo, ou no projetor multim\u00eddia, os cadernos podem at\u00e9 estar cheios, de anota\u00e7\u00f5es, mas as mentes continuam vazias. De um jeito ou de outro, as salas de aulas est\u00e3o vazias e isso \u00e9 um perigo. <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><br \/>\nOs professores podem ser novos, mas os m\u00e9todos de ensino s\u00e3o t\u00e3o, t\u00e3o velhos. Na <a href=\"http:\/\/vodpod.com\/watch\/1194613-uma-palestra-imperdvel-de-luli-radfahrer-sobre-educao-2-0?u=nepomuceno&amp;c=nepomuceno\">palestra do <em>Luli Radfaher<\/em><\/a> ele menciona a parabola de <em>Simon Paper,<\/em> que fala do professor que adormeceu h\u00e1 200 anos e quando acordou encontrou a escola&#8230; exatamente igual. Chata.<br \/>\nPor que ser\u00e1? Porque ser\u00e1 que nada mudou na escola nos \u00faltimos 200 anos? Sim, porque quem acha que datashow \u00e9 um grande avan\u00e7o tecnol\u00f3gico se engana. O \u00faltimo grande avan\u00e7o tecnol\u00f3gico na escola, nas palavras do <em>Cristovam Buarque,<\/em> foi o quadro negro (inventando em 1781), que permitiu que as aulas fossem ministradas para 40 e n\u00e3o mais 4 pessoas.<br \/>\nA resposta, na minha experi\u00eancia, \u00e9 que, apesar daqueles exemplos rom\u00e2nticos do &#8216;professor que mudou a sua vida&#8217;, os alunos que ficam na escola e se tornam professores n\u00e3o s\u00e3o os melhores alunos e nem s\u00e3o os que tem mais iniciativa; s\u00e3o os que tiram boas notas porque s\u00e3o bons de imita\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que imitando os professores ganham boas notas, e achando isso legal, se tornam eles tamb\u00e9m professores.<br \/>\nDeve ser isso. Qual \u00e9 a outra explica\u00e7\u00e3o para tantos professores chatos? E tantos alunos com aulas chatas? Sim, porque os alunos podem ser muito cr\u00edticos na hora de questionar a estrat\u00e9gia did\u00e1tico-pedag\u00f3cia do professor, mas na hora que ele tem que dar uma aula&#8230; faz igualzinho. O que com falta de experi\u00eancia, quer dizer PIOR!<br \/>\nNa sua grande maioria, as aulas dos alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o as piores. Desculpem, vou refrasear, s\u00e3o as aulas mais chatas.<br \/>\nMas pode ser que eu esteja errado e haja outra explica\u00e7\u00e3o. A aula talvez tenha que ser chata mesmo. O nosso c\u00e9rebro tem um esquema impresso no seu hardware e \u00e9 o mesmo pra todo mundo. E \u00e9 feito para aprender coisas muito diferentes de matem\u00e1tica. Talvez por isso, os professores preparam aulas h\u00e1 s\u00e9culos da mesma forma. E os alunos, quando convidados a prepararem uma aula, fazem a mesma coisa. O que torna a aula chata ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o formato da aula ou o conte\u00fado, \u00e9 o fato que hoje, na universidade, o aluno est\u00e1 ali mas gostaria de estar em outro lugar.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto preparo o programa de aulas para o semestre que se inicia, me pego perdido em pensamentos: ser\u00e1 que foram boas aulas? Ser\u00e1 que os alunos gostaram? Bom&#8230; essas duas perguntas n\u00e3o s\u00e3o complementares, porque dado que uma, nada garante a outra. 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