{"id":560,"date":"2011-01-19T22:42:50","date_gmt":"2011-01-20T01:42:50","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/01\/a_natureza_humana\/"},"modified":"2011-01-19T22:42:50","modified_gmt":"2011-01-20T01:42:50","slug":"a_natureza_humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/01\/19\/a_natureza_humana\/","title":{"rendered":"A natureza humana"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"Plaza Major, 2a feira a noite, chovendo\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/IMG_07381.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">Na semana passada estava jantando com uma amiga em Madrid (<strong><em>&#8216;Muito chique!!!&#8217; <\/em><\/strong>diria a <em>Petra Gil<\/em>) e conversando sobre a inevitabilidade das falhas de car\u00e1ter humano. Uma em particular, enquanto quantidades cavalares de <em>Pata Negra<\/em> e <em>Tempranillo<\/em> eram consumidas.<br \/>\nPenso constantemente sobre isso. A id\u00e9ia de que o homem \u00e9 &#8216;bom&#8217; por natureza e que a &#8216;moral&#8217; pode ser imposta aos nossos instintos de sobreviv\u00eancia sem um alto custo me faz arrepiar. Ou melhor, me faz rir. <strong>A natureza humana n\u00e3o \u00e9 boa. <\/strong>E ainda que essa seja talvez a nossa melhor caracter\u00edstica, aquela que nos faz t\u00e3o divertidos, tem tanta gente que n\u00e3o acha isso bom.<br \/>\nFalhamos, todos. E falharemos, ainda. E quanto mais assumirmos compromissos de ano novo que agridam fortemente os nossos instintos, em pro do politicamente correto ou moralmente adequado, mais falharemos.<br \/>\n<strong>Abre par\u00eanteses: <\/strong>As manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade para com as v\u00edtimas da maior cat\u00e1strofe natural que o pa\u00eds j\u00e1 enfrentou n\u00e3o me comovem. Quase me preocupam! Talvez sejam elas as falhas de car\u00e1ter. Algo como a exce\u00e7\u00e3o para justificar a regra, que \u00e9 o fato que vou para o trabalho todos os dias, pelas linhas amarelas e vermelha  no Rio de Janeiro, olhando o mar de favelas que se estende at\u00e9 a onde a vista alcan\u00e7a. As casas em \u00e1reas de risco podem ser observadas de qualquer ponto do Rio de Janeiro. De alguns, at\u00e9 mesmo por diferentes \u00e2ngulos. Mas ningu\u00e9m (inclusive eu) faz nada at\u00e9 que o mundo venha abaixo. O que mais me preocupa \u00e9 que daqui a pouco v\u00e3o dizer que \u00e9 culpa do &#8216;aquecimento global&#8217;, das &#8216;mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8217;, e continuar pensando em alguma outra coisa que n\u00e3o podemos medir com precis\u00e3o, para justificar n\u00e3o fazer nada quanto aos par\u00e2metros super precisos que podemos medir todos os dias: 5 milh\u00f5es de pessoas vivendo em \u00e1reas de risco no Brasil com o est\u00edmulo, aval ou a coniv\u00eancia das autoridades. <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><br \/>\n<strong>Luto por uma defini\u00e7\u00e3o mais humana de natureza humana. Que acolha as suas falhas, que seja mais amoral.<\/strong><br \/>\nPensei nisso ainda na semana passada, no Rio, quando li o comovente ensaio de <em>Fernanda Torres<\/em> na Veja Rio de 5 de Janeiro. Come\u00e7a assim:<br \/>\n<em>&#8220;O homem \u00e9 uma realidade finita, que existe por sua pr\u00f3pria conta e risco. O homem irrompe no mundo e depois \u00e9 que se define, mas no princ\u00edpio, ele \u00e9 nada. Ele n\u00e3o ser\u00e1 nada at\u00e9 o que fizer de si mesmo: logo, n\u00e3o h\u00e1 natureza humana, porque n\u00e3o h\u00e1 Deus para conceb\u00ea-la. Esse \u00e9 o primeiro princ\u00edpio do existencialismo, tido equivocadamente como uma filosofia negativa, de ang\u00fastia e do fracasso. N\u00e3o! \u00c9 uma teoria que afirma que o homem est\u00e1 lan\u00e7ado e entregue ao determinismo do mundo, que pode tornar poss\u00edveis ou imposs\u00edveis as suas iniciativas. Essa conting\u00eancia \u00e9 a liberdade na rela\u00e7\u00e3o do homem com o mundo. O acaso \u00e9 quem tem a \u00faltima palavra.&#8221;<\/em><br \/>\nO come\u00e7o n\u00e3o \u00e9 dela. \u00c9 a abertura da pe\u00e7a <strong>&#8220;Viver sem tempos mortos&#8221;<\/strong> de <em>Fernanda Montenegro<\/em>, onde ela vive <em>Simone de Beauvoir<\/em>. O texto da <em>Fernanda<\/em> \u00e9 comovente, como eu disse, mas um pouco amb\u00edguo, sem deixar claro a sua op\u00e7\u00e3o pela cren\u00e7a no Deus do acaso.<br \/>\nTalvez quisesse, fico imaginando, apesar de saber que tentar decifrar a &#8216;inten\u00e7\u00e3o do autor&#8217; de um texto \u00e9 o caminho mais r\u00e1pido para a incompreens\u00e3o do mesmo. Olhei de novo a abertura da pe\u00e7a. <strong>\u00c9 isso, a <em>Fernanda Torres<\/em> est\u00e1 certa. <em>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o ou porqu\u00ea. N\u00e3o existe l\u00f3gica ou justi\u00e7a suprema nos julgando. Deve-se aceitar que \u00e9 assim e pronto&#8221;<\/em>. \u00c9 <em>Sartre<\/em> quem est\u00e1 errado!<\/strong><br \/>\nEu tamb\u00e9m n\u00e3o sou, nem grande f\u00e3, nem grande conhecedor de filosofia. Meus leitores sabem que sou um guerreiro, mas tamb\u00e9m um escravo, da ci\u00eancia. Tento controlar minha \u00e2nsia por desconstruir <em>Sartre<\/em>, mas n\u00e3o consigo. \u00c9 que para negar Deus, ele nega a exist\u00eancia de uma natureza humana, que teria sido moldada por Ele, mas que na verdade \u00e9 inequ\u00edvoca, apesar de ter sido moldada por bilh\u00f5es de anos de sele\u00e7\u00e3o natural.<br \/>\nUm cirurgi\u00e3o que abre um paciente n\u00e3o precisa procurar todas as vezes aonde est\u00e1 o f\u00edgado, porque o f\u00edgado est\u00e1 no mesmo lugar em todos os pacientes. Assim come\u00e7a o <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/12\/acabei_de_ler_the_red_queen.php\">&#8216;Rainha Vermelha&#8217;<\/a>, um dos grandes livros que j\u00e1 li na vida, e que fala justamente da exist\u00eancia de uma natureza humana como base para as nossas grandes, importantes e fundamentais diferen\u00e7as.<br \/>\nNegar essa natureza humana, herdada em parte dos nossos parentes primatas (gorilas, bonomos, chimpanz\u00e9s) mas tamb\u00e9m dos coelhos, serpentes, peixes, fungos e bact\u00e9rias; em prol de uma filosofia onde o homem \u00e9 capaz de fazer de si o que puder, \u00e9 negar a teoria da evolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o resisto ao impulso egoc\u00eantrico de reescrever <em>Sartre<\/em>. Ainda que reescreva s\u00f3 (s\u00f3?!) <em>Fernanda Montenegro<\/em>:<br \/>\n<strong>&#8220;O homem \u00e9 uma realidade finita, que existe por sua pr\u00f3pria conta e risco. O homem irrompe no mundo e depois \u00e9 que se define, se o acaso contribuir, ou pelo menos n\u00e3o atrapalhar. Mas no princ\u00edpio, ele \u00e9 apenas homem. E o que fizer de si mesmo poder\u00e1 ou n\u00e3o permanecer. H\u00e1 uma natureza humana que n\u00e3o foi concebida por Deus, mas sim pela sele\u00e7\u00e3o natural (e a deriva g\u00eanica tamb\u00e9m). Esse n\u00e3o \u00e9 exatamente o primeiro princ\u00edpio do existencialismo, tido equivocadamente como uma filosofia negativa, de ang\u00fastia e do fracasso. Talvez porque afirma que o homem est\u00e1 lan\u00e7ado e entregue ao determinismo do mundo, quando a teoria do Caos j\u00e1 provou que n\u00e3o h\u00e1 tal coisa como o determinismo, e o mais prov\u00e1vel \u00e9 que a autora quisesse sugerir com essa frase que o homem est\u00e1 lan\u00e7ado a sua pr\u00f3pria sorte, sem a a ajuda do mundo, o que pode tornar poss\u00edveis ou imposs\u00edveis as suas iniciativas. Essa conting\u00eancia \u00e9 a liberdade na rela\u00e7\u00e3o do homem com o mundo. O acaso \u00e9 quem tem a \u00faltima palavra.&#8221;<\/strong><br \/>\nE para n\u00e3o parar por ai, reescrevo a pr\u00f3pria <em>Fernanda Torres<\/em> ao citar <em>Jorge Mautner: &#8220;A maior prova de que o acaso existe, \u00e9 que ele acontece.&#8221;<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada estava jantando com uma amiga em Madrid (&#8216;Muito chique!!!&#8217; diria a Petra Gil) e conversando sobre a inevitabilidade das falhas de car\u00e1ter humano. Uma em particular, enquanto quantidades cavalares de Pata Negra e Tempranillo eram consumidas. Penso constantemente sobre isso. A id\u00e9ia de que o homem \u00e9 &#8216;bom&#8217; por natureza e que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":553,"featured_media":561,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[80,235,262,560,570,882,1186,1281],"class_list":["post-560","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-amoral","tag-catastrofes","tag-ciencia","tag-fernanda","tag-filosofia","tag-montenegro","tag-sartre","tag-torres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/553"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=560"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/media\/561"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}