{"id":572,"date":"2011-03-04T13:52:21","date_gmt":"2011-03-04T16:52:21","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/03\/o_carnaval_do_seculo_xviii_-_p\/"},"modified":"2011-03-04T13:52:21","modified_gmt":"2011-03-04T16:52:21","slug":"o_carnaval_do_seculo_xviii_-_p","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/03\/04\/o_carnaval_do_seculo_xviii_-_p\/","title":{"rendered":"O carnaval do s\u00e9culo XVIII &#8211; parte 1"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"venicemask_841940_31459336.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/venicemask_841940_314593361.jpg\" width=\"500\" height=\"642\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\n<em>&#8220;Foi a grande \u00e9poca do carnaval veneziano, que era o mais longo e teatral de toda a europa. O uso das mascaras era obrigat\u00f3rio em toda a cidade, de dia e de noite.. a partir de outubro at\u00e9 a 4a feira de cinzas, com um breve intervalo para o Natal. Mo in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII foram acrescentados mais 15 dias ao carnaval, pr\u00f3ximos ao dia da ascens\u00e3o. (&#8230;) As m\u00e1scaras emprestavam uma pretens\u00e3o aceit\u00e1vel de anonimato, em uma cidade que unia um drama intenso a uma grande falta de privacidade pessoal. As m\u00e1scaras alteram os c\u00f3digos de qualquer intera\u00e7\u00e3o humana, amarrando os significantes habituais do entendimento , da aceita\u00e7\u00e3o, do desd\u00e9m ou da desconfian\u00e7a. Nada \u00e9 certo, e assim tudo parece ser permitido.&#8221;<br \/>\n<\/em><br \/>\nDepois de ler <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21559632\/casanova:+muito+alem+de+um+grande+sedutor\/?franq=284021\">&#8216;Casanova, muito al\u00e9m de um grande sedutor&#8217;<\/a>, tive que repensar minha opini\u00e3o sobre a mais particular das cidades do mundo. Veneza para mim sempre foi sin\u00f4nimo de pombos e sujeira, diferente da imagem rom\u00e2ntica das g\u00f4ndolas que a maior parte das pessoas tem. Mas uma cidade que faz quase 6 meses de carnaval por ano? Merece todo o meu respeito.<br \/>\nQuem nunca ouviu falar de Casanova? Acontece que o livro foge ao clich\u00ea, n\u00e3o se limita as fa\u00e7anhas amorosas do conquistador e d\u00e1 uma aula de hist\u00f3ria e psicologia. Pra come\u00e7ar, ele nem teve tantas mulheres assim:<br \/>\n<em><br \/>\n&#8220;Casanova recorda ter tido experi\u00eancias sexuais com muito mais do que 100 mulheres &#8211; algo entre 122 e 136, a depender de como se conta determinado grupo, e tamb\u00e9m das experi\u00eancias consumadas pela metade &#8211; al\u00e9m de um punhado de homens. A hist\u00f3ria da sua vida sexual vai desde o dia em que perdeu a virgindade, aos 17 anos, e continua pelos outros 35 anos que abrangem suas mem\u00f3rias&#8221;<\/em>.<br \/>\nSe voc\u00ea acha esse n\u00famero impressionante, poder\u00e1 se surpreender com os n\u00fameros dispon\u00edveis em trabalhos cient\u00edficos dessa \u00e1rea. Casanova era antes de tudo, e principalmente, um apaixonado:<br \/>\n<em><br \/>\n&#8220;De todos os aspectos  sensoriais de seus escritos, foi o romance o que mais o divertiu, confundiu e enervou. Para meros n\u00fameros, para a pornografia ou o avesso do bom gosto, deve-se procurar em outras bandas, em Sade ou nos infatig\u00e1veis lordes Lincoln e Byron&#8221;<\/em><br \/>\n<em><br \/>\n&#8220;Uma vez mais, Casanova insiste que se tratava de amor verdadeiro, e n\u00e3o s\u00f3 de desejo: &#8216;Pobre de quem pensa que os prazeres de V\u00eanus muito valem, a menos que venha de dois ora\u00e7\u00f5es que se amam e estejam em perfeita harmonia'&#8221;<\/em><br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"Casanova_ritratto_blog.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/Casanova_ritratto_blog.jpg\" width=\"350\" height=\"486\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/>Al\u00e9m das mulheres, Casanova se interessava por viagens, pol\u00edtica, dinheiro e&#8230; comida.<br \/>\n<em>&#8220;O sentido do olfato, desempenha um papel nada pequeno nos prazeres de V\u00eanus. Para os homens [humanidade], fazer sexo \u00e9 como comer, e comer \u00e9 como fazer sexo: \u00e9 nutri\u00e7\u00e3o&#8230; e da mesma forma como sempre existe um prazer diferente quando se experimenta diversos molhos <\/em>[rago\u00fbts]<em>, o mesmo acontece com o jogo do amor\/orgasmo <\/em>[la jouissance amoureuse]<em>. Embora o efeito possa parecer o mesmo no in\u00edcio, aprende-se que toda mulher \u00e9 uma experi\u00eancia \u00fanica&#8221;<\/em><br \/>\nPara a neurocientista Mar\u00edlia Zaluar, essa aproxima\u00e7\u00e3o com a comida faz sentido: <em>&#8220;Comparar as mulheres a molhos, mesmo que franceses, me parece meio grotesco. Mas pensando no ponto de vista biol\u00f3gico ele est\u00e1 coberto de raz\u00e3o. Ambas atividades utilizam os mesmos circuitos neuronais ligados \u00e0 recompensa e ao prazer&#8221;.<\/em><br \/>\nToda a sedu\u00e7\u00e3o come\u00e7ava com um jantar. <em>&#8220;M.M. serviu-lhe uma refei\u00e7\u00e3o, acompanhada de champanhe ros\u00e9 <\/em>oeil de perdrix<em>, em pratos mantidos quentes sobre \u00e1gua fervente&#8221;<\/em><br \/>\nO detalhe \u00e9 que M.M. era uma freira: <em>&#8220;Uma religiosa (&#8230;) gostaria que o senhor a conhecesse&#8230; ela n\u00e3o deseja obrig\u00e1-lo a falar com ela antes de v\u00ea-la, por isso vai dar-lhe o nome de uma dama que poder\u00e1 acompanh\u00e1-lo at\u00e9 a sala de visitas [para ser apresentado a ela]. Ent\u00e3o, se [o senhor quiser], esta mesma religiosa lhe dar\u00e1 o endere\u00e7o de um cassino aqui em Murano; onde poder\u00e1 encontr\u00e1-la sozinha, na primeira hora da noite, na data que o senhor indicar. O senhor poder\u00e1 ficar e cear com ela ou ent\u00e3o sair um quarto de hora depois, caso tenha compromissos.&#8221;<\/em><br \/>\nParece que freiras libertinas era algo comum naquela \u00e9poca. Os conventos de Veneza que inclu\u00edam escolas, academias de m\u00fasica e hospitais de interna\u00e7\u00e3o (assim como ordens contemplativas confinadas), eram muito diferentes do conceito moderno de convento. <em>&#8220;Essas mulheres eram primeiro lugar venezinas; em segundo, crist\u00e3s.&#8221;<\/em> M.M. era uma mulher politicamente forte e seu padrinho era o embaixador da Fran\u00e7a. Que, criam, era um cardeal.<br \/>\nO s\u00e9culo XVIII me pareceu, apesar das m\u00e1scaras 6 meses por ano, mais honesto. O hipocrisia visava atender aos nossos instintos animais, n\u00e3o ao contr\u00e1rio (fingir n\u00e3o ter instintos para acatar uma vida moral e altru\u00edsta).<br \/>\n<em>&#8220;O <strong>Cicisbeo<\/strong>, ou &#8216;<\/em>cavaliere servente<em>&#8216;, na tradi\u00e7\u00e3o dos cavaleiros medievais, cortejava uma dama de mais idade, normalmente de alta posi\u00e7\u00e3o social. Alguns consideravam isso coma a prote\u00e7\u00e3o de sua honra, e dizia-se que as mulheres tratavam aqueles homens como a seus cabeleireiros: eles tinham acesso privilegiado aos seus <em>boudoirs<\/em>, aos mexericos e tamb\u00e9m a um pouco mais. Outros eram aceitos pelos maridos e pela sociedade veneziana como parceiros sexuais e rom\u00e2nticos das mulheres envolvidas. Casanova foi criado em uma cidade onde muitas mulheres desfrutavam certa liberdade sexual, e por isso bem \u00e0 frente de seu tempo. (&#8230;) uma \u00e9poca que deu maior \u00eanfase \u00e0 ideia da sexualidade feminina do que aquela que a sucedeu. E as mulheres de toda a Europa ficavam alertas (&#8230;) diante de um viajante veneziano como Casanova, com todo o seu saber e experi\u00eancia em quest\u00f5es de sexo: ele seria considerado mais cort\u00eas, galante e sexualmente efici\u00eante do que seus pares&#8221;.<br \/>\n<\/em><br \/>\nE n\u00e3o apenas os modernos P.A. eram permitidos, como o conceito de prostitui\u00e7\u00e3o era, digamos, flex\u00edvel.<br \/>\n<em><br \/>\n&#8220;(A m\u00e3e de Casanova) Zanetta Farussi, uma comediante pequena, orgulhosa e de uma beleza nada convencional, segundos os cr\u00edticos da \u00e9poca, trabalhava profissionalmente com teatro numa \u00e9poca em que isso significava, para uma mulher, ter uma carreira dupla. Embora nem todas as atrizes fossem prostitutas ou cortes\u00e3s, n\u00e3o se tinha d\u00favida de que as mulheres dispostas a se submeter aos olhares voyeur\u00edsticos no palco tamb\u00e9m haveriam de favorecer seu p\u00fablico em recintos mais \u00edntimos, em troca de bons contratos e do nome em destaque no programa.&#8221;<\/em><br \/>\nPara Robin Baker, <em>&#8220;a prostitui\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 quase uma marca universal das sociedades humanas. Antropologicamente, s\u00f3 4% das sociedas diz n\u00e3o a prostitui\u00e7\u00e3os. As restantes reconhecem que ela existe. \u00c9 dif\u00edcil, por\u00e9m, mesmo nestas sociedades, estimar o n\u00famero de mulheres que em alguma \u00e9poca da sua vida se prostituiram. As estimativas existentes (h\u00e1 10 anos) apontam para menos de 1% na Gr\u00e3-Bretanha no fim dos anos 80, e para 25% em Adis-Abeba, na Eti\u00f3pia, em 1974. Tais estimativas, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o fi\u00e1veis e pecam por defeito. Mais mulheres que essas praticaram algumas vezes a prostitui\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Na realidade, h\u00e1 v\u00e1rios graus de prostitui\u00e7\u00e3o. Em princ\u00edpio, \u00e9 dif\u00edcil tra\u00e7ar a linha divis\u00f3ria entre a tradicional prostituta que se vende por dinheiro e uma mulher comum vivendo uma rela\u00e7\u00e3o permanente que se deixa inseminar a troco de ajudas, prote\u00e7\u00e3o e presentes&#8221;.<\/em><br \/>\nA prostitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 disseminada por todo o mundo animal:<em> &#8220;Para que a Borboleta macho tenha oportunidade de acasalar, tem de encontrar primeiro um exame de mosquitos, de apanhar um, de o envolver na seda das suas gl\u00e2ndulas salivares, e depois de encontrar uma f\u00eamea e oferecer-lhe o presente. Se encontrar, enquanto ela desenrola o presente e come o mosquito, permite que ele acasale. Quanto maior for a prenda, o mosquito, mais tempo ela leva a comer, mais tempo tem o macho para inseminar, maior \u00e9 o n\u00famero de espermatoz\u00f3ides que ele introduz, e, consequentemente, mais \u00f3vulos fertiliza. Acabada a sess\u00e3o, a f\u00eamea espera que um novo macho a venha alimentar e inseminar. Em algumas esp\u00e9cies as f\u00eameas s\u00e3o t\u00e3o bem sucedidas como prostitutas, que nunca precisam ir a procura de alimento&#8221;.<\/em><br \/>\nAl\u00e9m de ser um modo de vida, a prostitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 uma estrat\u00e9gia reprodutiva muito bem sucedida. Nenhuma outra atividade exp\u00f5e a mulher a uma quantidade t\u00e3o grande de espermas competidores, o que garante que o vencedor do premio da fecunda\u00e7\u00e3o, era possu\u00eda um esperma altamente especializado para a &#8216;guerra&#8217;, caracter\u00edstica que seria transmitida a todos os seus descendentes machos.<br \/>\nMas quer ver o mais curioso? Fa\u00e7a as contas e se considerarmos os valores conservadores de que 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial nasce de prostitutas, ent\u00e3o precisar\u00edamos recuar na nossa \u00e1rvore geneal\u00f3gica em torno de 7 gera\u00e7\u00f5es para encontrarmos um parente que tenha sido gerado por uma delas. E isso poderia muito bem ter sido no s\u00e9culo XVIII de Casanova.<br \/>\nSe a <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/03\/ti-ti-ti_a_fofoca_como_instrum.php\">fofoca \u00e9 uma estrat\u00e9gia de ensino<\/a>, como eu publiquei no texto anterior, ent\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21559632\/casanova:+muito+alem+de+um+grande+sedutor\/?franq=284021\">o livro de Ian Kelly sobre Casanova<\/a> \u00e9 uma \u00f3tima oportunidade para aprender psicologia e hist\u00f3ria.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Foi a grande \u00e9poca do carnaval veneziano, que era o mais longo e teatral de toda a europa. 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