{"id":584,"date":"2011-04-05T20:12:01","date_gmt":"2011-04-05T23:12:01","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/04\/a_invecao_da_morte\/"},"modified":"2011-04-05T20:12:01","modified_gmt":"2011-04-05T23:12:01","slug":"a_invecao_da_morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/04\/05\/a_invecao_da_morte\/","title":{"rendered":"A inven\u00e7\u00e3o da morte"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"cyanobacteria2_brmma.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/cyanobacteria2_brmma1.jpg\" width=\"500\" height=\"420\" class=\"mt-image-right\" style=\"float: right;margin: 0 0 20px 20px\" \/><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">Quando a <em>Nina Simone<\/em> diz <em>&#8220;Ev&#8217;rytime we say goodbye, I die a little&#8221;<\/em> (na verdade as palavras s\u00e3o de <em>Cole Porter<\/em>, mas ficam muito melhores na voz da <em>Nina<\/em>, n\u00e3o \u00e9?!) \u00e9 uma met\u00e1fora, mas n\u00e3o est\u00e1 longe da realidade. A morte \u00e9 t\u00e3o complicada quanto a vida. Ela \u00e9 certa, mas \u00e9 dif\u00edcil de determinar e de prever. Mais ainda de explicar.<\/p>\n<p>A morte \u00e9 uma vari\u00e1vel discreta (morreu\/n\u00e3o morreu) e n\u00e3o cont\u00ednua (vivo\/pouco morto\/muito morto\/ morto). E a morte \u00e9 definitiva. Ent\u00e3o o que \u00e9 que est\u00e1 dizendo a <em>Nina<\/em>?<br \/>\n\u00c9 que a morte pode acontecer em escalas diferentes. Assim como temos diferentes n\u00edveis de organiza\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica (c\u00e9lula, tecido, \u00f3rg\u00e3o, organismo) para o qual podemos atribuir vida, tamb\u00e9m podemos dizer que houve morte. De certa forma, at\u00e9 mesmo a extin\u00e7\u00e3o \u00e9 a morte de uma esp\u00e9cie.<br \/>\nA morte \u00e9 sempre a mesma, mas n\u00e3o ter\u00e1 o mesmo significado, ou as mesmas conseq\u00fc\u00eancias, dependendo do n\u00edvel em que acontece.<br \/>\nA morte celular, que os cientistas chamam de apoptose, \u00e9 um dos principais mecanismos da vida. Sem ela n\u00e3o poder\u00edamos moldar as partes do nosso corpo durante o desenvolvimento. Da mesma forma que um escultor tira um pouco de argila daqui e coloca ali, os genes controlam &#8216;m\u00e3os invis\u00edveis&#8217;, que tiram as c\u00e9lulas de um lugar para que possam aparecer outras c\u00e9lulas em outro. Uma das &#8216;m\u00e3os&#8217;, a que tira a argila, s\u00e3o as prote\u00ednas que se chamam &#8216;caspazes&#8217;. Elas funcionam em rea\u00e7\u00f5es em cadeia, que chamamos de cascatas, apesar de se parecerem muito mais com aquelas cascatas de <em>Champagne<\/em> (onde os copos est\u00e3o um em cima do outro fazendo uma torre e ao transbordar o copo de cima, voc\u00ea enche os que est\u00e3o embaixo) do que com uma cachoeira. Quando chega um sinal dizendo que aquela c\u00e9lula precisa sair dali, as caspazes recebem esse sinal e disparam a cascata de rea\u00e7\u00f5es que culmina na fragmenta\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas, material gen\u00e9tico e, eventualmente, da morte da c\u00e9lula. Quando ent\u00e3o a c\u00e9lula morre e a membrana tamb\u00e9m se fragmenta, s\u00e3o liberados sinais que servem para outras c\u00e9lulas fazerem o mesmo.<br \/>\n<strong>Abre par\u00eanteses<\/strong>. A <em>&#8220;m\u00e3o que constr\u00f3i&#8221;<\/em>, seriam prote\u00ednas que controlam o ciclo celular, a divis\u00e3o de uma c\u00e9lula em duas (que viram quatro, e depois oito&#8230;), mas isso \u00e9 uma outra hist\u00f3ria. <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><br \/>\nA morte celular tamb\u00e9m \u00e9 a nossa principal defesa contra os tumores. Se uma c\u00e9lula sofre uma muta\u00e7\u00e3o, um dano no seu DNA, e esse dano n\u00e3o pode ser consertado, ent\u00e3o as caspazes entram novamente em a\u00e7\u00e3o, e levam a c\u00e9lula maligna para a forca.<br \/>\nEnt\u00e3o, em n\u00edvel celular, a morte \u00e9 boa? Poder\u00edamos dizer que sim. No m\u00ednimo irrelevante, porque n\u00e3o h\u00e1 perda de material gen\u00e9tico. Todas as c\u00e9lulas do nosso corpo tem o mesmo DNA (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/04\/neuronios_que_perdem_cromossom.php\">ou quase<\/a>). Se uma morre, ainda que o seu DNA n\u00e3o permane\u00e7a, as c\u00e9lulas vizinhas tem o mesmo material gen\u00e9tico. E pra vida, \u00e9 isso o que importa.<br \/>\nE aqui voc\u00ea, leitor, pode ficar zangado comigo, porque o que eu vou dizer \u00e9 meio <em>&#8216;rem\u00e9dio amargo&#8217;<\/em>: duro de engolir. Mas para a natureza, quem voc\u00ea \u00e9 e todas as coisas legais que voc\u00ea fez na vida, mesmo se voc\u00ea tiver sido <em>Shakespeare<\/em> ou <em>Mozart<\/em>, n\u00e3o importam. Porque tudo que voc\u00ea j\u00e1 fez, j\u00e1 passou, e o que importa, \u00e9 o que est\u00e1 por vir. E para lidar com o que est\u00e1 por vir, voc\u00ea precisa de genes, de genes novos. O que importa s\u00e3o os genes que voc\u00ea deixa para a sua pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Para arrumar genes novos, voc\u00ea precisa arrumar um(a) parceiro(a) pra trocar genes, o que os cientistas chamam de reprodu\u00e7\u00e3o sexuada, mas voc\u00ea pode conhecer por v\u00e1rios outros nomes, nem t\u00e3o cient\u00edficos assim. Sem um parceiro(a), a gente n\u00e3o consegue reproduzir. At\u00e9 porque, n\u00e3o valeria a pena, mas essa tamb\u00e9m \u00e9 uma outra hist\u00f3ria. O que importa dessa discuss\u00e3o aqui \u00e9 que sob est\u00e1 \u00f3tica, a c\u00e9lula em si, mesmo organismo organismo como um todo, n\u00e3o \u00e9 importante: o importante s\u00e3o os genes dentro dele.<br \/>\nBom, e parece que \u00e9 isso mesmo. Desde de que <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/07\/dawkins_uma_desilusao.php\"><em>Dawkins<\/em><\/a> publicou <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21259660\/gene+egoista,+o\/?franq=284021\"><em>&#8220;O gene ego\u00edsta&#8221;<\/em><\/a> em 1976 essa \u00e9 a <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2006\/11\/as-travessuras-dos-genes-egoistas.php\">teoria dominante<\/a>. Nossos organismos s\u00e3o apenas m\u00e1quinas para propagar nossos genes.<br \/>\nEnt\u00e3o a morte, aquela que importaria, \u00e9 a morte do organismo, porque ai seus genes se perderiam, pelo menos se ele n\u00e3o conseguisse reproduzir primeiro. Se morrem apenas algumas c\u00e9lulas, tudo bem, porque as outras continuam tendo os seus genes. <strong>Voc\u00ea n\u00e3o morre &#8216;um pouco&#8217;, mas s\u00f3 algumas partes de voc\u00ea morrem. E isso faz de voc\u00ea quem voc\u00ea \u00e9.<\/strong><br \/>\nMas nesse ponto surge uma pergunta inevit\u00e1vel, ainda que estejamos sempre t\u00e3o preocupados com a morte que nunca paremos realmente para pensar na l\u00f3gica dela: porque se dar ao trabalho de reproduzir para &#8216;escapar&#8217; da morte, se poder\u00edamos apenas sobreviver?<br \/>\n<strong>Abre par\u00eanteses:<\/strong> Sim, porque d\u00e1 um trabalh\u00e3o reproduzir. Voc\u00ea n\u00e3o pensa no trabalho que d\u00e1 porque n\u00e3o \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o trabalhando milh\u00f5es de anos a fio para desenvolver o processo, e porque, no final das contas, reproduzir \u00e9 gostoso. Mas voc\u00ea j\u00e1 pensou que \u00e9 gostoso simplesmente para que voc\u00ea se d\u00ea ao trabalho? Essa hist\u00f3ria tamb\u00e9m vai ficar para outro dia, porque agora eu tenho que voltar para a minha pergunta original. <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><br \/>\nA teoria do gene ego\u00edsta n\u00e3o explica porque n\u00f3s morremos, ou porque devemos morre, ou mesmo porque existe morte. Mas deu a pista.<br \/>\nOs genes usam seus organismos para competirem uns com os outros. Desenham organismos que sejam eficientes para competir por abrigo, alimento, parceiros reprodutivos e ingressos para a final do campeonato. <strong>Mas essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica forma dos genes competirem uns com os outros. Eles podem competir diretamente!<\/strong> Essa competi\u00e7\u00e3o pode se dar de v\u00e1rias formas, mas hoje s\u00f3 vamos falar de uma, a mais importante, aquela com um material gen\u00e9tico parasito, que nem organismo tem: os V\u00edrus.<br \/>\nA a morte \u00e9 uma brilhante solu\u00e7\u00e3o para um problema complexo: os parasitas.<br \/>\n<strong>Abre par\u00eanteses, de novo: <\/strong>Vou ter que deixar pra falar disso de novo outro dia, e pe\u00e7o desculpas a voc\u00eas por estar deixando tantas coisas de lado hoje, mas o meu espa\u00e7o, e o tempo e a paci\u00eancia de voc\u00eas, \u00e9 curto, e eu preciso chegar no meu destino. <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 como vencer a competi\u00e7\u00e3o com os parasitas sobrevivendo, por isso a gente morre, deixando o corpo cheio de parasitas pra l\u00e1, e criando um novo corpo para o nosso material gen\u00e9tico (com a ajuda de um parceiro(a) de alta qualidade, e de prefer\u00eancia um sistema imune diferente do nosso). Um processo muito estudado na f\u00edsica, chamado &#8216;<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/07\/como_saber_quando_alguma_coisa.php\">resili\u00eancia<\/a>&#8216;. O furo na teoria estava no fato dessas coisas todas que eu falei: apoptose, caspazes, modelagem no desenvolvimento, resili\u00eancia&#8230; serem encontrados apenas em organismos superiores: os eucariotos. Mas os v\u00edrus s\u00e3o muito mais antigos, ent\u00e3o porque a morte teria aparecido s\u00f3 nos eucariotos? Mas ela, a senhora com a foice na m\u00e3o, \u00e9 mais antiga que os eucariotos, \u00e9 foi isso que <em>Nick Lane<\/em>, um dos descobridores, conta no artigo anexo.<br \/>\nOs organismos mais antigos da Terra, as cianobact\u00e9rias, cujos f\u00f3sseis remontam h\u00e1 3,8 bilh\u00f5es de anos, possuem um grupo de prote\u00ednas chamadas metacaspazes, disparam processos de apoptose em situa\u00e7\u00f5es de estresse, principalmente durante infec\u00e7\u00f5es virais. Antes dos v\u00edrus se reproduzirem e romperem a c\u00e9lula liberando mais part\u00edculas virais para contaminar outras c\u00e9lulas, a cianobact\u00e9ria se mata. Um ato nobre, voc\u00eas n\u00e3o acham? Mas muito antinatural. Na natureza n\u00e3o tem essa coisa de &#8216;ser bonzinho&#8217; e &#8216;n\u00e3o cobi\u00e7ar a mulher do pr\u00f3ximo&#8217;. \u00c9 cada um por si! E um organismo unicelular n\u00e3o pode fazer como a <em>Nina Simone<\/em> e <em>&#8216;morrer s\u00f3 um pouco&#8217;<\/em>. Ent\u00e3o como explicar um organismo unicelular que ativa morte celular programada? A explica\u00e7\u00e3o de Lane est\u00e1 na alta redund\u00e2ncia do pool gen\u00e9tico de uma flora\u00e7\u00e3o de fito e bacterioplancton. As cianobact\u00e9rias s\u00e3o unicelulares, mas nunca est\u00e3o sozinhas. Quando as condi\u00e7\u00f5es ambientais s\u00e3o favor\u00e1veis, elas se reproduzem muito, em um curto intervalo de tempo, produzindo uma popula\u00e7\u00e3o enorme, um &#8216;bloom&#8217;, ou flora\u00e7\u00e3o. Por isso, os organismos nesses <em>blooms<\/em> s\u00e3o praticamente clones, e, assim, da mesma forma que uma c\u00e9lula em um organismo multicelular entra em apoptose para que o organismo se livre de um c\u00e2ncer, uma cianobact\u00e9ria entra em morte celular para livrar a flora\u00e7\u00e3o de uma virose. A c\u00e9lula morre, mas a flora\u00e7\u00e3o morre s\u00f3 um pouquinho.<br \/>\nA morte pode n\u00e3o ser definitiva, dependendo da escala em que observamos. Mas o problema de se morrer um pouquinho, \u00e9 que pode-se continuar morrendo muitas vezes, por muito tempo. E isso n\u00e3o \u00e9 bom. <\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Nature&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1038%2F453583a&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Marine+microbiology%3A+Origins+of+Death&amp;rft.issn=0028-0836&amp;rft.date=2008&amp;rft.volume=453&amp;rft.issue=7195&amp;rft.spage=583&amp;rft.epage=585&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nature.com%2Fdoifinder%2F10.1038%2F453583a&amp;rft.au=Lane%2C+N.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">Lane, N. (2008). Marine microbiology: Origins of Death <span style=\"font-style: italic\">Nature, 453<\/span> (7195), 583-585 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1038\/453583a\">10.1038\/453583a<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a Nina Simone diz &#8220;Ev&#8217;rytime we say goodbye, I die a little&#8221; (na verdade as palavras s\u00e3o de Cole Porter, mas ficam muito melhores na voz da Nina, n\u00e3o \u00e9?!) \u00e9 uma met\u00e1fora, mas n\u00e3o est\u00e1 longe da realidade. A morte \u00e9 t\u00e3o complicada quanto a vida. 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