{"id":594,"date":"2011-08-16T00:44:44","date_gmt":"2011-08-16T03:44:44","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/08\/quadriciclo_da_universidade\/"},"modified":"2011-08-16T00:44:44","modified_gmt":"2011-08-16T03:44:44","slug":"quadriciclo_da_universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/08\/16\/quadriciclo_da_universidade\/","title":{"rendered":"Quatro apoios"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"mesa_518561_16143427.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/mesa_518561_161434271.jpg\" width=\"375\" height=\"500\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\n<em>&#8220;Cada descoberta e cada inven\u00e7\u00e3o levam a transfer\u00eancia de poder e a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos, portanto a medo, desconfian\u00e7a, resist\u00eancia e atraso.&#8221;<\/em> diz o soci\u00f3logo italiano Domenico de Masi.<br \/>\nO artigo <em>&#8220;<a href=\"http:\/\/www.itamaraty.gov.br\/sala-de-imprensa\/selecao-diaria-de-noticias\/midias-nacionais\/brasil\/o-globo\/2011\/08\/15\/raizes-do-atraso-brasileiro-artigo-wanderley-de\">Ra\u00edzes do atraso brasileiro<\/a>&#8220;<\/em> do professor Wanderley de Souza no jornal O Globo de ontem (15\/08\/2001) procura mostrar os obst\u00e1culos para se fazer inova\u00e7\u00e3o no Brasil, mas, na minha opini\u00e3o, deixa de mencionar um problema fundamental, um conflito conhecido na vida de todas as pessoas, mas velado na ci\u00eancia brasileira: o choque de gera\u00e7\u00f5es.<br \/>\nApesar de velado, esse conflito \u00e9 antigo.<br \/>\n<em>&#8220;O principal papel do instituto (de Biof\u00edsica da UFRJ) foi o de mobilizar apoios, governamentais e n\u00e3o-govemamentais, vencer resist\u00eancias internas e externas dentro do espa\u00e7o em que deveria legitimar-se e sobretudo, por interm\u00e9dio de seu fundador, o professor Carlos Chagas Filho, criar categorias que hoje constituem tradi\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia brasileira, mas que nem sempre estiveram ali.&#8221;<br \/>\n<\/em><br \/>\nEsse depoimento foi dado pelo professor Paulo G\u00f3es Filho na abertura da autobiografia do professor Carlos Chagas Filho, fundador do Instituto de Biof\u00edsica da UFRJ, a primeira institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria a fazer pesquisa cient\u00edfica. O livro se chama <em>&#8216;<a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/96918\/aprendiz+de+ciencia,+um\/?franq=284021\">Um aprendiz da ci\u00eancia<\/a>&#8216;<\/em>.<br \/>\n<em>&#8220;(&#8230;) tendo sido Raul Leit\u00e3o da Cunha nomeado ministro da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, chamou-me ao seu gabinete para me perguntar o que eu achava que deveria ser feito por nossa universidade. Respondi-lhe que a primeira coisa seria o estabelecimento do tempo integral, particularmente para as c\u00e1tedras fundamentais. A seguir, propus a ele que se organizassem institutos de ensino e pesquisa nas v\u00e1rias disciplinas b\u00e1sicas. Era este um assunto que eu havia discutido com professores da Universidade de S\u00e3o Paulo, sendo que, na ocasi\u00e3o, fui uma minoria esmagada. Leit\u00e3o da Cunha perguntou-me quais os institutos que deviam ser criados imediatamente. F\u00edsica, qu\u00edmica e matem\u00e1tica seriam os primeiros, com a responsabilidade de neles se ministrar o ensino dessas mat\u00e9rias para todos os cursos da universidade. (&#8230;) [e depois] Criar o Instituto de Biof\u00edsica, que teria fun\u00e7\u00e3o de implantar a pesquisa na Faculdade de Medicina e trazer para o nosso meio os m\u00e9todos f\u00edsicos que despontaram nos centros maiores depois da Segunda Guerra Mundial, e o desenvolvimento dos m\u00e9todos eletr\u00f4nicos.Leit\u00e3o da Cunha aquiesceu imediatamente&#8221;<\/em><br \/>\nO livro do professor Chagas \u00e9 uma fonte de sabedoria. E muitas vezes, quando o presente \u00e9 incerto, muitas vezes \u00e9 bom voltar a fonte, aos princ\u00edpios b\u00e1sicos das coisas, porque com passar dos anos, as hist\u00f3rias chegam a n\u00f3s um pouco distorcidas.<br \/>\nO tempo entre a posse do professor Chagas Filho como catedr\u00e1tico de F\u00edsica Biol\u00f3gica na faculdade de Medicina da ent\u00e3o Universidade do Brasil em 23 de novembro de 1937 e a funda\u00e7\u00e3o do Instituto de Biof\u00edsica em 17 de dezembro de 1945 (oito anos depois) d\u00e3o uma id\u00e9ia da resist\u00eancia encontrada para as id\u00e9ias de Chagas Filho. At\u00e9 mesmo pelo pr\u00f3prio Leit\u00e3o da Cunha, que era o respons\u00e1vel pelo curso de anatomia patol\u00f3gica e foi o primeiro chefe de Carlos Chagas Filho na universidade, quando este dava aulas de hematologia 3 vezes por semana, em 1934.<br \/>\n<em>&#8220;O jovem professor est\u00e1 consciente de que \u00e9 o \u00fanico voto contra?&#8221;<\/em> perguntou Leit\u00e3o da Cunha a Carlos Chagas Filho ao final de uma sess\u00e3o da congrega\u00e7\u00e3o quando todos os professores pleiteavam por benef\u00edcios. Chagas os intitulava de os <em>&#8220;Bar\u00f5es da Faculdade de Medicina&#8221;<\/em>.<br \/>\n<em>&#8220;Evandro passou-me v\u00e1rios telegramas para Paris, onde eu me encontrava, s\u00f3 tendo desistido do seu intento de n\u00e3o entregar o meu pedido (de demiss\u00e3o de Manguinhos) depois de uma longa conversa telef\u00f4nica em que eu lhe expus a minha firme decis\u00e3o de assumir a cadeira na faculdade. Impeliam-me nesse sentido, entre outros, dois motivos principais: a possibilidade de discutir com alunos a mat\u00e9ria ao meu encargo e, principalmente, a inten\u00e7\u00e3o de implantar a pesquisa fundamental na universidade, segundo o modelo de atividade que aprendera no Instituto Oswaldo Cruz.&#8221;<\/em><br \/>\nVejam que enquanto encontrava resist\u00eancia para estabelecer a atividade cient\u00edfica na Faculdade de Medicina, encontrava tamb\u00e9m resist\u00eancia para exercer a atividade did\u00e1tica vinda de Manguinhos, principalmente de seu irm\u00e3o, Evandro Chagas:<br \/>\n<em>&#8220;A raz\u00e3o principal dessa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se poderia jamais pesquisar na universidade e que eu me esterilizaria no Simples exerc\u00edcio de atividades did\u00e1ticas.&#8221;<\/em><br \/>\nHoje, <em>&#8220;Ensino, Pesquisa e extens\u00e3o&#8221;<\/em> s\u00e3o o trip\u00e9 que sustenta a universidade como institui\u00e7\u00e3o, de forma que \u00e9 quase inimagin\u00e1vel pensar que um dia j\u00e1 estiveram separadas.<br \/>\nPor isso a minha estranheza quando vejo o professor Wanderley de Souza, titular do Instituto de Biof\u00edsica Carlos Chagas Filho, onde eu tamb\u00e9m tenho o privil\u00e9gio de exercer a atividade de professor e pesquisador, protestar contra a realiza\u00e7\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o na universidade.<br \/>\n<em>&#8220;Em todos os pa\u00edses, a produ\u00e7\u00e3o de patentes resulta da atividade de pesquisa, desenvolvimento e inova\u00e7\u00e3o praticada nas empresas. A t\u00edtulo de exemplo, cabe mencionar que apenas 4% das patentes depositadas nos EUA s\u00e3o provenientes de suas universidades. (&#8230;) o Sistema Brasileiro de Ci\u00eancia e Tecnologia foi montado ao longo de v\u00e1rios anos para dar apoio \u00e0 pesquisa b\u00e1sica, e o fez com sucesso. Este sistema n\u00e3o foi e n\u00e3o se encontra preparado para lidar com o setor empresarial.&#8221;<\/em><br \/>\nCorret\u00edssimo em suas duas afirma\u00e7\u00f5es, Wanderley discorda da pol\u00edtica do governo, que atrav\u00e9s de movimentos como a &#8216;Lei do Bem&#8217; e &#8216;Lei da Inova\u00e7\u00e3o&#8217;, estimulam a universidade a comandar, ou encabe\u00e7ar, a inova\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<br \/>\nA quest\u00e3o,para n\u00f3s, \u00e9 que se nos EUA pode ser daquele jeito, aqui n\u00e3o. A pol\u00edtica econ\u00f4mica dos \u00faltimos 20 anos, assim como a cultura trabalhista brasileira, nunca estimularam o empreendedorismo. Ainda hoje, um aluno de qualquer disciplina tem de procurar um MBA depois de se formar, porque s\u00e3o rar\u00edssimos os cursos (fora dos curr\u00edculos de economia e administra\u00e7\u00e3o) que ensinem a preparar um plano de neg\u00f3cios. O resultado \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 como exigir de uma ind\u00fastria intermedi\u00e1ria inexistente que lidere a marcha pela inova\u00e7\u00e3o. A &#8216;<em>inteligenzia<\/em>&#8216; brasileira, aquela capaz de interpretar e aplicar o conhecimento cient\u00edfico produzido no Brasil e no mundo est\u00e1 na universidade. Foi criada e \u00e9 mantida pela sociedade brasileira. E \u00e9 por esses motivos, entre outros, que ela precisa liderar movimento pela inova\u00e7\u00e3o e empreendedorismo no pa\u00eds.<br \/>\n\u00c9 claro que precisamos rever nossa lei de patentes. Assim como nossa pol\u00edtica econ\u00f4mica de juros altos e nossa cultura social de funcionalismo p\u00fablico. Mas tamb\u00e9m dever\u00edamos rever nosso modelo de ci\u00eancia e tecnologia, baseado no paradigma da ci\u00eancia b\u00e1sica e ci\u00eancia aplicada do p\u00f3s-guerra, para uma abordagem mais moderna que, curiosamente, remete a atividade de aplica\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia de <em>Louis Paster<\/em> no S\u00e9c XIX, onde a busca de solu\u00e7\u00f5es para problemas aplicados leva ao desenvolvimento de fundamentos da ci\u00eancia. Uma hist\u00f3ria muito bem contada no livro &#8216;<em>O Quadrante Pasteur<\/em>&#8216;.<br \/>\n<strong>Esta na hora da universidade evoluir e se apoiar em um quadrip\u00e9 de &#8220;ensino, pesquisa, extens\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong>. Mas n\u00e3o acredito que essa mudan\u00e7a convenha ou interesse aos <em>&#8216;Bar\u00f5es da Ci\u00eancia&#8217;<\/em> do Brasil de hoje.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Cada descoberta e cada inven\u00e7\u00e3o levam a transfer\u00eancia de poder e a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos, portanto a medo, desconfian\u00e7a, resist\u00eancia e atraso.&#8221; diz o soci\u00f3logo italiano Domenico de Masi. 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