{"id":605,"date":"2011-05-09T08:24:04","date_gmt":"2011-05-09T11:24:04","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/05\/molho_de_tomate_e_a_origem_da\/"},"modified":"2011-05-09T08:24:04","modified_gmt":"2011-05-09T11:24:04","slug":"molho_de_tomate_e_a_origem_da","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/05\/09\/molho_de_tomate_e_a_origem_da\/","title":{"rendered":"Molho de tomate e a origem da vida"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\">\nEu adoro cozinhar. E a minha especialidade \u00e9 molho de tomate. Herdei da minha av\u00f3 e aprimorei com minhas tias italianas. Mod\u00e9stia a parte, \u00e9 um espet\u00e1culo. Hoje, enquanto dava a \u00faltima fervida antes iniciar o longo processo de apura\u00e7\u00e3o a frio, vi elas l\u00e1, lindas, algumas &#8216;<em>c\u00e9lulas de Benard<\/em>&#8216;. Bom, n\u00e3o eram exatamente como deveriam ser, mas com &#8216;um pouco de muita boa vontade&#8217;, podia-se at\u00e9 imaginar que, nas condi\u00e7\u00f5es ideais, elas apareceriam, pra enfeitar o meu molho de tomate.<br \/>\nMas acho que, al\u00e9m da emo\u00e7\u00e3o da despedida de hoje, eu me emocionei com o fato de, finalmente, entender o que s\u00e3o as <em>&#8216;c\u00e9lulas de Benard&#8217;<\/em> e porque elas s\u00e3o t\u00e3o importantes.<br \/>\nN\u00e3o se preocupe se voc\u00ea nunca ouviu falar sobre isso, \u00e9 justamente o que eu vou explicar aqui.<br \/>\nEm 1997, quando eu come\u00e7ava o doutorado no Instituto de Biof\u00edsica da UFRJ, fiz uma disciplina incr\u00edvel, chamada &#8216;Filosofia da Ci\u00eancia&#8217;, onde tive, entre muitas, uma aula incr\u00edvel com um f\u00edsico chamado <em>Paulo Bisch<\/em>, que tinha estagiado no laborat\u00f3rio do grande qu\u00edmico <em>Ilya Prigogine<\/em>, que tinha ganho o pr\u00eamio Nobel pelos seus estudos em termodin\u00e2mica e pela descoberta das estruturas dissipativas.<br \/>\nSe voc\u00ea \u00e9 como os meus alunos e n\u00e3o sabe quais s\u00e3o as leis da termodin\u00e2mica, pode dar uma olhada <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/02\/por-que-meu-quarto-esta-sempre-desarrumado.php\">aqui<\/a> e <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/04\/quanto-tempo-faz.php\">aqui<\/a> e <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/11\/criatividade-ou-anarquia.php\">aqui<\/a>, mas o que voc\u00ea precisa saber mesmo \u00e9 que elas s\u00e3o leis fundamentais do universo. E se alguma coisa vai contra as leis da termodin\u00e2mica, ent\u00e3o essa coisa tem problemas.<br \/>\nMuito bem, acontece que a &#8216;vida&#8217; \u00e9 uma dessas coisas que aparentemente vai contra as leis da termodin\u00e2mica. Mais precisamente, contra a segunda lei da termodin\u00e2mica, porque n\u00f3s somos seres altamente organizados e que &#8216;ganhamos&#8217; organiza\u00e7\u00e3o ao longo do tempo, enquanto tudo no universo &#8216;perde&#8217; organiza\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. Como isso \u00e9 poss\u00edvel? Com um gasto muito grande de energia. Assim, desorganizamos ainda mais o universo, para que possamos nadar contra a corrente nos mantendo altamente organizados.<br \/>\nAbre par\u00eanteses: j\u00e1 sei, voc\u00ea n\u00e3o entendeu. Olha, eu n\u00e3o vou te enganar, n\u00e3o d\u00e1 pra entender de primeira mesmo. \u00c9 um trem pouco intuitivo e dif\u00edcil. Tem que ler mais coisas a respeito. N\u00e3o desista. Fecha par\u00eanteses.<br \/>\nBom, apesar de voc\u00ea n\u00e3o ter entendido direito, explicar como a vida se encaixa na 2a lei da termodin\u00e2mica foi relativamente f\u00e1cil. Mas outras coisas pareciam n\u00e3o se encaixar de jeito nenhum. Uma delas s\u00e3o as c\u00e9lulas de Benard.<br \/>\n<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"BenardConvection.gif\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/BenardConvection1.gif\" width=\"300\" height=\"275\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\nNa verdade as c\u00e9lulas de Benard s\u00e3o apenas um exemplo dos &#8216;sistemas est\u00e1veis afastados do equil\u00edbrio termodin\u00e2mico&#8217;, que era o que mais intrigava o Prigogine. As &#8216;c\u00e9lulas&#8217; que voc\u00eas est\u00e3o vendo s\u00e3o pequenos redemoinhos de \u00e1gua em uma placa. O que o Prigogine chama de &#8216;afastado do equil\u00edbrio termodin\u00e2mico&#8217; significa que tem uma fonte de calor, como o fogo da boca do fog\u00e3o, esquentando alguma coisa, como a placa de petri com \u00e1gua, ou a minha panela de molho de tomate. Sem fonte de calor, mesmo dois corpos tenha inicialmente uma temperatura diferente, o corpo mais quente vai passar calor para o corpo mais frio at\u00e9 que os dois fiquem com a mesma temperatura. Isso \u00e9 o equil\u00edbrio termodin\u00e2mico. Mas com a fonte de calor&#8230; o corpo mais quente passar calor para o corpo mais frio, mas eles nunca chegam na mesma temperatura.<br \/>\nE \u00e9 isso que acontece quando voc\u00ea esquenta a \u00e1gua pra fazer caf\u00e9 ou ch\u00e1: perto do fogo est\u00e1 mais quente e perto da superf\u00edcie est\u00e1 mais fria (ou menos quente) at\u00e9 que&#8230; a \u00e1gua come\u00e7a a ferver. N\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 o calor que sobre pela coluna de \u00e1gua. A \u00e1gua mais quente \u00e9 menos densa e sobe para a parte de cima da coluna d&#8217;\u00e1gua (dentro da penala, ou chaleira). J\u00e1 a \u00e1gua da superf\u00edcie \u00e9 mais fria e densa, e desce para o fundo da panela. Forma-se ent\u00e3o um movimento de convec\u00e7\u00e3o (a \u00e1gua sempre desce por um lado e sempre sobe pelo outro). \u00c9 literalmente uma &#8216;cachoeira&#8217; de \u00e1gua menos quente e um &#8216;geiser&#8217; de \u00e1gua mais quente, que se alimentam um do outro: quando o geiser chega a superf\u00edcie da coluna d&#8217;\u00e1gua, passa calor para o ar e a \u00e1gua esfria. Esfria o suficiente para aumentar a sua densidade e precipitar na cachoeira que leva at\u00e9 o fundo da panela, onde o calor do fogo esquenta a \u00e1gua at\u00e9 ela perder densidade e subir no &#8216;geiser&#8217; e repetir o processo. Vistos de cima, as &#8216;cachoeiras&#8217; est\u00e3o nos centros das c\u00e9lulas, a parte mais escura, e os &#8216;geisers&#8217; est\u00e3o nas extremidades das c\u00e9lulas.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/files\/2011\/08\/celulas%20de%20benard.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" alt=\"celulas de benard.jpg\" src=\"http:\/\/174.143.250.21\/vqeb\/assets_c\/2011\/05\/celulas de benard-thumb-500x333-64668.jpg\" width=\"500\" height=\"333\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><\/a><br \/>\nA regularidade dessas estruturas impressionou os qu\u00edmicos e f\u00edsicos da \u00e9poca. Como poderia um sistema fora do equil\u00edbrio gerar ordem? Isso parecia ir contra a 2a lei da termodin\u00e2mica. Mas na verdade n\u00e3o ia, porque na verdade a forma\u00e7\u00e3o das &#8216;c\u00e9lulas de Benard&#8217; permitia que mais calor fosse transferido, e mais rapidamente, da \u00e1gua para o ar. Ou da fonte para o ar atrav\u00e9s da \u00e1gua. Foi ent\u00e3o que Prigogine teve a grande saca\u00e7\u00e3o: quando um sistema fora de equil\u00edbrio (como a \u00e1gua dentro da chaleira sobre o fogo para fazer caf\u00e9) alcan\u00e7a um momento cr\u00edtico, a ordem aparece para permitir uma troca de calor mais eficiente entre os dois sistemas. Ele chamou esse fen\u00f4meno de &#8216;auto-organiza\u00e7\u00e3o&#8217; e as estruturas ordenadas de &#8216;estruturas dissipativas&#8217; porque elas permitem que o sistema dissipe, transfira, mais calor para o meio.<br \/>\nEntender isso, o que eu s\u00f3 fiz anos depois, foi uma vit\u00f3ria. Mas para mim, j\u00e1 depois daquela aula, tudo tinha mudado. Deus estava definitivamente morto. Havia caido, para mim, o \u00faltimo basti\u00e3o da magia. N\u00e3o havia mais um &#8216;por que&#8217; ou um &#8216;para que&#8217; a vida tinha sido criada. A vida \u00e9 uma estrutura dissipativa auto-organizada em um ponto cr\u00edtico do sistema termodinamicamente aberto do nosso planeta. Que, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, e respeitada a licen\u00e7a po\u00e9tica, pode ser considerada uma chaleira cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 dissipar a energia vinda do sol. E, como todo estrutura dissipativa, o seu aparecimento \u00e9 inevit\u00e1vel, dado que o sistema chegue ao ponto cr\u00edtico.<br \/>\nDepois dai, deixo com Darwin, no trecho final do belo filme &#8216;Cria\u00e7\u00e3o&#8217;, que terminei de assistir hoje.<br \/>\n<em>&#8220;\u00c9 da guerra da natureza, da fome e da morte, a coisa mais sublime que somos capazes de conceber, a saber, ou seja, a produ\u00e7\u00e3o dos animais superiores, adv\u00e9m. H\u00e1 grandeza nesta forma de ver a vida, que enquanto este planeta foi girando de acordo com a lei fixa da gravidade, a partir de um in\u00edcio muito simples, infinitas formas as mais belas e as mais maravilhosas, evoluiram e continuam evoluindo.&#8221;<\/em>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu adoro cozinhar. E a minha especialidade \u00e9 molho de tomate. Herdei da minha av\u00f3 e aprimorei com minhas tias italianas. Mod\u00e9stia a parte, \u00e9 um espet\u00e1culo. Hoje, enquanto dava a \u00faltima fervida antes iniciar o longo processo de apura\u00e7\u00e3o a frio, vi elas l\u00e1, lindas, algumas &#8216;c\u00e9lulas de Benard&#8216;. 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