{"id":876,"date":"2011-10-06T08:49:09","date_gmt":"2011-10-06T11:49:09","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=876"},"modified":"2011-10-06T08:49:09","modified_gmt":"2011-10-06T11:49:09","slug":"qualquer-gato-vira-lata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/10\/06\/qualquer-gato-vira-lata\/","title":{"rendered":"Qualquer gato vira-lata"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">Assisti <em><strong>&#8216;Qualquer Gato Vira-Lata (tem uma vida sexual mais saud\u00e1vel que a nossa)&#8217;<\/strong><\/em>. Uma gra\u00e7a o filme. Aqui, chegou a passar da marca de 1.000.000 de espectadores nos cinemas (a pe\u00e7a hom\u00f4nima de <em>Juca de Oliveira<\/em> j\u00e1 havia levado mais de 1.000.000 de pessoas aos teatros), mas eu achei que faltou aquele &#8216;burburinho&#8217;. Como o gerado por <em><strong>&#8216;Ele n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o afim de voc\u00ea&#8217;<\/strong> <\/em>ou por <em><strong>&#8216;Big Bang Theory&#8217;<\/strong><\/em>. Sim, porque o filme \u00e9 um tipo de <strong><em>&#8216;BBT&#8217;<\/em><\/strong> da biologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o, na verdade eu entendo porque n\u00e3o houve burburinho. Assistindo o filme parecia at\u00e9 que estava assistindo uma filmagem do VQEB. E como o tipo de coisa que eu escrevo aqui gera pol\u00eamica, porque o filme n\u00e3o haveria de gerar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pol\u00eamica?! N\u00e3o sei se \u00e9 a palavra correta. Descren\u00e7a, talvez seja uma palavra melhor. Desconfian\u00e7a, melhor ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As pessoas resistem tanto, tanto, mas tanto mesmo, a aceitar a nossa natureza animal e a amoralidade da natureza. E as regras que ambos imp\u00f5em.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;N\u00e3o existem regras para o amor! \u00c9 preciso respeito acima de tudo. As rela\u00e7\u00f5es sempre v\u00e3o ser \u00fanicas, porque cada pessoa tem uma bagagem diferente, costumes, valores diferentes. O interessante \u00e9 tentar deixar de ser ego\u00edsta, ser mais parceiro, ser mais amigo. Mas o fato de que toda rela\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fanica faz com que n\u00e3o existam regras&#8221;<\/em> foram un\u00e2nimes em afirmar os atores do elenco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o importa se nossos instintos de 1 milh\u00e3o de anos digam outra coisa, n\u00e3o importa se nossas mudan\u00e7as hormonais digam outra coisa, n\u00e3o importa se nossa anatomia diga outra coisa. As pessoas preferem negar essas influencias castradoras at\u00e9 a morte. Ou at\u00e9 o div\u00f3rcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sim, porque se n\u00e3o existem regras para o amor, certamente existem para o desamor. Ou \u00e9 isso que as estat\u00edsticas mostram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No Brasil, de 1940 at\u00e9 1990, o percentual de pessoas divorciadas, na popula\u00e7\u00e3o em geral, aumentou 15 vezes (IBGE). O percentual de div\u00f3rcios era de 1:9 em 1985, 1:4 em 1995 e se aproximou de 1:2 em 2005 (nos Estados Unidos o percentual \u00e9 de 60% e na Inglaterra de 40%). Mais de 50% dos div\u00f3rcios \u00e9 causado por problemas financeiros (Instituto Gallup), 33% dos casais brigam com freq\u00fc\u00eancia por dinheiro e 7,5% brigam sempre por esse motivo (H2R Pesquisas Avan\u00e7adas). Al\u00e9m do dinheiro, a curiosidade e a fofoca tamb\u00e9m levam ao fim dos relacionamentos. Mais de 60% dos brasileiros checam o perfil do(a) namorado(a) em redes sociais (TNS Research), com o percentual subindo para 70% quando se trata do(a) ex. No fim de 2009, um em cada cinco processos da Divorce-Online trazia a palavra &#8216;Facebook&#8217; nos autos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Olha, eu n\u00e3o estou fazendo propaganda pr\u00f3 ou contra coisa nenhuma. Simplesmente me impressiona que, contra todas as evid\u00eancias, biol\u00f3gicas e estat\u00edsticas, as pessoas continuam achando que o modelo de relacionamento inventado menos de 1 s\u00e9culo atr\u00e1s \u00e9 o que deve ser. E que se n\u00e3o for, a culpa \u00e9 nossa, como se dependesse da nossa vontade. Ou do amor. <strong>Quando se trata de relacionamento, h\u00e1 muito pouco livre arb\u00edtrio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Queriamos ser bonzinhos, respeitadores, \u00e9ticos, morais, altruistas, mas somos s\u00f3 humanos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso tamb\u00e9m n\u00e3o significa que eu seja determinista, como meus amigos cientistas gostam de pensar que eu sou. Os posts do blog que tratam do assunto (veja por exemplo &#8216;A evolu\u00e7\u00e3o da moda &#8211; <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/01\/a_evolucao_da_moda_-_parte_i\/\">parte I<\/a> e <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/01\/a_evolucao_da_moda_-_parte_ii\/\">parte II<\/a>) quase sempre s\u00e3o motivados por conversas de bar entre cientistas, tem argumenta\u00e7\u00e3o respaldada por diversas refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas, divertem, mas s\u00e3o sempre rejeitados pelas mesmas pessoas que levantaram as hip\u00f3teses inicialmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Claro, cientistas est\u00e3o acostumados a testas suas hip\u00f3teses com o rigor do m\u00e9todo cient\u00edfico, e apresentam forte resist\u00eancia a toda forma de ci\u00eancia que n\u00e3o segue esse modelo. Mas em algumas situa\u00e7\u00f5es, outras metodologias podem ser aceitas com quase tanta confian\u00e7a. A epidemiologia n\u00e3o segue o m\u00e9todo cient\u00edfico e auxilia enormemente na preven\u00e7\u00e3o, tratamento e cura de doen\u00e7as. A evolu\u00e7\u00e3o por sele\u00e7\u00e3o natural n\u00e3o pode ser avaliada pelo m\u00e9todo cient\u00edfico mas nem por isso existe qualquer d\u00favida quanto ao valor dela (bom, a n\u00e3o se entre os criacionistas). Estudar o comportamento humano do ponto de vista zool\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 uma novidade e foi assunto de um livro incr\u00edvel, publicado na d\u00e9cada de 60 e que eu acabei de ler: &#8216;<a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/39754\/macaco+nu,+o\/?franq=284021\"><strong><em>O macaco nu<\/em><\/strong><\/a>&#8216; de <em>Desmond Morris<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/10\/qualquer-gato-vira-lata\/img_1705\/\" rel=\"attachment wp-att-877\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-877\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/10\/IMG_1705.jpg\" alt=\"\" width=\"345\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/10\/IMG_1705.jpg 345w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/10\/IMG_1705-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/10\/IMG_1705-300x400.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/10\/IMG_1705-150x200.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 345px) 100vw, 345px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sexo, agress\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o, est\u00e1 tudo l\u00e1. Mas em uma das muitas passagens brilhantes do livro, <em>Desmond<\/em> sugere um pequeno conjunto de regras, que aplicamos em muitas situa\u00e7\u00f5es. Veja:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Assim, em qualquer dessas esferas &#8211; pintura, escultura, desenho, m\u00fasica, canto, dan\u00e7a, gin\u00e1stica, jogos, esportes, escrita, discurso -, nos prosseguiremos, para nossa satisfa\u00e7\u00e3o pessoa e ao longo de toda vida, complicadas e especializadas formas de explora\u00e7\u00e3o e de experimenta\u00e7\u00e3o. Por meio de um treino elaborado, tanto os executantes quanto os assistentes somos capazes de sensibilizar a nossa capacidade de responder ao imenso potencial explorat\u00f3rio que nos \u00e9 oferecido por tais atividades. Se pusermos de parte as fun\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias dessas atividades (ganhar dinheiro, criar prest\u00edgio etc), elas representam biol\u00f3gicamente quer o prolongamento da na vida adulta das nossas brincadeiras infantis, quer a aplica\u00e7\u00e3o das &#8216;regras da brincadeira&#8217;, aos sistemas de informa\u00e7\u00e3o-comunica\u00e7\u00e3o dos adultos.<\/em><br \/>\n<em> Essas regras podem resumir-se assim: <\/em><\/p>\n<ol>\n<li><em>investigar o desconhecido at\u00e9 que este se torne conhecido; <\/em><\/li>\n<li><em>impor repeti\u00e7\u00e3o r\u00edtmica daquilo que \u00e9 conhecido; <\/em><\/li>\n<li><em>variar essa repeti\u00e7\u00e3o de todas as maneiras poss\u00edveis e imagin\u00e1veis; <\/em><\/li>\n<li><em>selecionar as varia\u00e7\u00f5es mais satisfat\u00f3rias para as desenvolver \u00e0 custa dos outros; <\/em><\/li>\n<li><em>combinar essas varia\u00e7\u00f5es entre si de todas as formas poss\u00edveis; <\/em><\/li>\n<li><em>fazer tudo isso pelo simples gosto de fazer, como fim, e n\u00e3o como meio.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Esses princ\u00edpios aplicam-se de um extremo ao outro da escala, quer se treate de uma crian\u00e7a que brinca na areia, que de um compositor que trabalha numa sinfonia.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Podem n\u00e3o ser regras bonitas, mas nos ajudaram a sobreviver por 1 milh\u00e3o de anos. Achar que elas n\u00e3o servem para mais nada e n\u00e3o nos ajudam mais, \u00e9 t\u00e3o ing\u00eanuo quanto achar que elas s\u00e3o determin\u00edsticas e que vivemos apenas de acordo com elas, sem influ\u00eancia da nossa raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vivemos em conflito. Vivemos tentando gerenciar o conflito. Viver isso \u00e9 melhor do que viver fingindo que n\u00e3o \u00e9 assim. Talvez voc\u00ea at\u00e9 se divirta mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assisti &#8216;Qualquer Gato Vira-Lata (tem uma vida sexual mais saud\u00e1vel que a nossa)&#8217;. Uma gra\u00e7a o filme. Aqui, chegou a passar da marca de 1.000.000 de espectadores nos cinemas (a pe\u00e7a hom\u00f4nima de Juca de Oliveira j\u00e1 havia levado mais de 1.000.000 de pessoas aos teatros), mas eu achei que faltou aquele &#8216;burburinho&#8217;. 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