{"id":93,"date":"2006-09-25T17:57:00","date_gmt":"2006-09-25T20:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2006\/09\/o-indeterminismo-biologico\/"},"modified":"2006-09-25T17:57:00","modified_gmt":"2006-09-25T20:57:00","slug":"o-indeterminismo-biologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2006\/09\/25\/o-indeterminismo-biologico\/","title":{"rendered":"O (in)determinismo biol\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/1600\/acre.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/320\/acre.0.png\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">A chegada em Rio branco impressionou pelo cheiro de terra molhada e o barulho de grilos em pleno aeroporto. Na manh\u00e3 seguinte, pela janela do hotel se via floresta por todos os lados.<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 as 10 da manh\u00e3 nenhum pesquisador da UFAC tinha feito contato conosco. Como t\u00ednhamos apenas dois dias, comecei a ficar preocupado com a produtividade e utilidade da visita. A gente da cidade grande, que nem eu, t\u00eam pressa.<\/p>\n<p>Depois de muito tempo consegui falar com o ex-coordenador da p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o, dr. Alejandro Gonzales, um cubano com doutorado na antiga URSS, mas que se apaixonou pelo Acre. Um pouco mais tarde conseguimos finalmente falar com o Dr. Foster Brown, um americano que lecionava no Rio, mas se que tamb\u00e9m se apaixonou pelo Acre e hoje vive aqui, estudando queimadas e, acreditem, dando palestras para os militares da ABIN. Por \u00faltimo, falamos com a dr. Annelise, uma ga\u00facha, que, adivinhem, se apaixonou pelo acre, e hoje est\u00e1 gr\u00e1vida de 6 meses dele.<\/p>\n<p>Essa terra parece despertar muitas paix\u00f5es. Na pra\u00e7a principal da cidade, um monumento com uma bandeira enorme diz &#8220;h\u00e1 mais de 100 anos, brasileiros esquecidos por sua p\u00e1tria, lutaram a a revolu\u00e7\u00e3o para defender o Acre dos invasores&#8221;. Mas porque essa terra hoje parece ser feita apenas por pessoas de fora? <span style=\"font-weight:bold\">Por que os acreanos da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o na universidade?<\/span><\/p>\n<p>\u00c9 meu segundo dia aqui e me lembrei do Puruzinho, da sensa\u00e7\u00e3o diferente de tempo que temos na cidade grande, e que, mesmo sem entrar na floresta, sentimos aqui. O tempo aqui \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Mas a gente sabe que o tempo <span style=\"font-style:italic\">n\u00e3o \u00e9 <\/span>diferente, ent\u00e3o o que \u00e9? S\u00e3o as pessoas?<\/p>\n<p>Estou lendo esse livro muito legal que fala (questionando) da &#8220;ideologia do determinismo biol\u00f3gico&#8221;. Que no s\u00e9culo XIX a ci\u00eancia e a sele\u00e7\u00e3o natural ajudaram a sustentar uma ideologia de que a sociedade hier\u00e1rquica era um &#8220;fen\u00f4meno natural&#8221;, j\u00e1 que cada um de n\u00f3s se distingue nas suas habilidades fundamentais por causa das nossas &#8220;diferen\u00e7as inatas&#8221;, diferen\u00e7as essas que s\u00e3o biologicamente herdadas.<\/p>\n<p>O livro aponta estudos que mostram que cerca de 60% das crian\u00e7as filhas de trabalhadores de &#8220;colarinho azul&#8221;, permanecem sendo trabalhadoras do colarinho azul e 70% dos filhos de trabalhadores de &#8220;colarinho branco&#8221;, seguem sendo de colarinho branco. Para eles, geralmente as crian\u00e7as de frentistas de postos de gasolina, pedem dinheiro emprestado enquanto filhos de magnatas do petr\u00f3leo emprestam.<\/p>\n<p>Mas isso justifica uma ideologia do determinismo biol\u00f3gico? N\u00e3o, ela justamente contraria. As crian\u00e7as n\u00e3o conseguem sair do seu meu devido a seus fatores inatos ou a hierarquia hist\u00f3rica? Nenhum cientista duvida mais que \u00e9 devido a segunda alternativa. E o ambiente, hist\u00f3rico e natural, passam a ser o fator determinante.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o temos que perguntar: o que ser\u00e1 que acontece no ambiente amaz\u00f4nico para que, 100 anos depois da revolu\u00e7\u00e3o acreana, as pessoas de l\u00e1 continuem fora das universidades?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/1600\/crianca.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"float:right;cursor:pointer;margin:0 0 10px 10px\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/320\/crianca.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a>O clima quente era a resposta preferida dos europeus para justificar a &#8220;pregui\u00e7a&#8221; e o &#8220;sub-desenvolvimento&#8221; dos povos ind\u00edgenas das Am\u00e9ricas e da \u00c1frica. Mas isso j\u00e1 est\u00e1 totalmente ultrapassado. <span style=\"font-weight:bold\">Voc\u00eas j\u00e1 leram &#8220;Armas, Germes e a\u00e7o&#8221;? <\/span>\u00c9 um livro interessant\u00edssimo. Ele conta estudos que mostram, por exemplo, que abor\u00edgines australianos, quando tem o mesmo treinamento em l\u00f3gica que os descendentes de europeus, conseguem, em m\u00e9dia, se sa\u00edrem melhor na obten\u00e7\u00e3o de empregos. Sugerindo, mesmo, que os abor\u00edgines s\u00e3o mais inteligentes. Eles apenas foram menos treinados nas tarefas que n\u00f3s julgamos desenvolvidas.<\/p>\n<p>A resposta da biologia moderna para esse problema, assim como para todos os outros, s\u00e3o os genes. <span style=\"font-weight:bold\">Tudo estaria nos genes. Estaria? <\/span>Se estudarmos bem o genoma humano vamos descobrir qual o gene que faz os Amazonenses n\u00e3o se chegarem a universidade? N\u00e3o \u00e9 bem assim. Essa \u00e9 na verdade a resposta de alguns bi\u00f3logos modernos que ganham montes de dinheiro com os projetos genomas.<\/p>\n<p>A capacidade de observar o ambiente, aprender com ele e modifica-lo para se adequar a nossas necessidades, \u00e9 uma das nossas capacidades inatas que nos faz humanos. Ora, se observar, aprender e modificar s\u00e3o capacidades inatas e \u00e9 justamente isso o que faz um cientista, ent\u00e3o a ci\u00eancia \u00e9 uma das nossas capacidades inatas. <span style=\"font-weight:bold\">Somos todos cientistas!<\/span><\/p>\n<p>Ent\u00e3o porque em \u00e1reas onde a natureza \u00e9 t\u00e3o exuberante, o treinamento em l\u00f3gica \u00e9 menos eficiente?<\/p>\n<p>A verdade pode ser que o ambiente exuberante pode ser tamb\u00e9m amea\u00e7ador. <span style=\"font-weight:bold\">E nesse ambiente amea\u00e7ador n\u00e3o h\u00e1 &#8220;tempo&#8221; para o treinamento em l\u00f3gica.<\/span> Sobreviver \u00e9 a ordem do dia. Cada dia. Todo dia.<\/p>\n<p>A inevitabilidade da luta pela sobreviv\u00eancia em um ambiente in\u00f3spito deixa a busca de alternativas para compreender e modificar o ambiente em segundo plano.  Ficar pensando a melhor forma de produzir mandioca pode significar perder a \u00e9poca do plantio e morrer de fome. Ent\u00e3o&#8230; todo mundo planta, ningu\u00e9m pensa e a vida continua. Aqui tudo \u00e9 natural.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui eu fa\u00e7o diferen\u00e7a&#8221; foi a resposta de um dos &#8220;estrangeiros&#8221; que conheci no Acre. &#8220;\u00c9 por isso que eu estou aqui&#8221;. Apesar do ambiente in\u00f3spito n\u00e3o inspirar o treinamento em l\u00f3gica, esse treinamento pode fazer toda a diferen\u00e7a para essas popula\u00e7\u00f5es, respeitadas suas tradi\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os genes que fazem toda a diferen\u00e7a, \u00e9 a escola!<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chegada em Rio branco impressionou pelo cheiro de terra molhada e o barulho de grilos em pleno aeroporto. Na manh\u00e3 seguinte, pela janela do hotel se via floresta por todos os lados. Mas at\u00e9 as 10 da manh\u00e3 nenhum pesquisador da UFAC tinha feito contato conosco. 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