{"id":945,"date":"2011-12-24T19:14:12","date_gmt":"2011-12-24T22:14:12","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=945"},"modified":"2011-12-24T19:14:12","modified_gmt":"2011-12-24T22:14:12","slug":"jesus-ciencia-arte-restauracao-afrescos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2011\/12\/24\/jesus-ciencia-arte-restauracao-afrescos\/","title":{"rendered":"Jesus e a ci\u00eancia da arte da restaura\u00e7\u00e3o de Afrescos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;A maior parte das pessoas, quando v\u00ea uma representa\u00e7\u00e3o qualquer pintada em uma parede, chama de &#8216;<\/em>Affresco<em>&#8216;. Uma pintura na parede, a \u00f3leo, tempera, acr\u00edlica ou cera, \u00e9 somente um mural. &#8216;<\/em>Affresco<em>&#8216; \u00e9 oooooutra coisa&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/12\/201507_1841095480862_1644815613_1741197_4271464_o.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-950\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/12\/201507_1841095480862_1644815613_1741197_4271464_o-545x361.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"361\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Minha querida amiga <em>Francesca Radiciotti<\/em> \u00e9 restauradora. A visita que fiz ao canteiro de obras de uma igreja na pequena vila de Sermoneta na Lazio em 2010, al\u00e9m de uma tarde agradabil\u00edssima (me d\u00e1 \u00e1gua na boca s\u00f3 de lembrar do Carpaccio de Buffalla com Azeite de Oliva de primeira prensada) foi uma aula de hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;A t\u00e9cnica dos afrescos \u00e9 antiqu\u00edssima, nascendo na It\u00e1lia com os afrescos romanos, e terminando (a n\u00e3o ser por um epis\u00f3dio nost\u00e1lgico do facismo) no s\u00e9c XIX. Os afrescos s\u00e3o encontrados quase exclusivamente na It\u00e1lia (tamb\u00e9m no oriente m\u00e9dio, mas apenas afrescos bizantinos). Mesmo aqueles encontrados em outros lugares, foram feitos por um italiano ou por um bizantino. A particularidade est\u00e1 na execu\u00e7\u00e3o de uma t\u00e9cnica genial, respons\u00e1vel pela sua conserva\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias de hoje: \u00e9 o \u00fanico caso onde a cor \u00e9 aplicada na parede sem o uso de um fixador (prot\u00e9ico, oleoso, acr\u00edlico etc..), mas aproveitando a rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da carbonata\u00e7\u00e3o do cimento para fixar, para sempre, o pigmento simplesmente dilu\u00eddo em \u00e1gua&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">At\u00e9 ent\u00e3o, tinha para mim que restauradores eram artistas. E artistas, como sabemos, s\u00e3o a ant\u00edtese dos cientistas. Ser\u00e1 que s\u00e3o mesmo? Ou um artista tamb\u00e9m \u00e9 um cientista? Veja a explica\u00e7\u00e3o, sempre da <em>Radiciotti<\/em>, que se segue:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;O processo qu\u00edmico \u00e9 id\u00eantico \u00e0quele da forma\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rmores coloridos, onde o \u00f3xido de ferro e v\u00e1rios outros metais de cores variadas s\u00e3o englobados no material carbonato durante a sua forma\u00e7\u00e3o. Sobre o reboco \u00famido, formado de areia e cimento (hidr\u00f3xido de c\u00e1lcio) e \u00e1gua, s\u00e3o espalhados os pigmentos (mas s\u00f3 aqueles adequados, ou seja, que resistem ao ambiente fortemente alcalino) dilu\u00eddos em \u00e1gua. Durante de secagem, ou seja, da evapora\u00e7\u00e3o do H2O, o hidr\u00f3xido de c\u00e1lcio reage com o oxig\u00eanio do ar e forma CaCO2, englobando dentre de si o pigmento, fixando ele para sempre sempre. \u00c9 o \u00fanico caso onde o pigmento n\u00e3o est\u00e1 aderido a superf\u00edcie (a parede) por um fixador aderente, mas sim &#8216;dentro&#8217; da pr\u00f3pria superf\u00edcie (de novo, a parede), formando com ela uma unidade, da mesma forma que uma pedra colorida&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu estou lendo o interessant\u00edssimo &#8216;<a href=\"http:\/\/el2.me\/914d\">Proust foi um neurocientista<\/a>&#8216;, presente da minha amiga neurocientista Silvana Allodi, que fala de como alguns artistas, mesmo sem conhecimento cient\u00edfico, apenas (sic) da natureza humana, anteciparam a ci\u00eancia e algumas das mais modernas e atuais teorias cient\u00edficas. Ser\u00e1 que a antitese n\u00e3o \u00e9 verdadeira? Ou ser\u00e1 que os artistas, mais que os alquimistas, foram os primeiros qu\u00edmicos, antecipando a ci\u00eancia que estava por nascer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;\u00c9 por isso que o pintor tinha t\u00e3o pouco tempo para pintar. (&#8230;) A pintura tinha que ser feita velozmente (&#8230;) ou a obra poderia se tornar apenas p\u00f3. \u00c9 uma t\u00e9cnica que n\u00e3o admite erros e hesita\u00e7\u00e3o. O tra\u00e7o deve ser conciso e decidido. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apagar nada (a n\u00e3o ser colocando todo o reboco a baixo e recome\u00e7ando do zero). A grandeza do artista pode ser vista ainda na medida das por\u00e7\u00f5es de reboco pintado: quanto maior o afresco, mais r\u00e1pido foi o artista (o da capela Sistina de Michelangelo \u00e9\u00a0 enorme!) O artista que pintava &#8216;a fresco&#8217; era o melhor de todos (o mais capaz e o mais bem pago), porque deveria saber quando o reboco estava pronto para ser pintado e quando deveria suspender a pintura: eram in\u00fameras vari\u00e1veis com a massa, a espessura do reboco (os romanos\u00a0 chegavam a fazer 9 camadas de reboco), o microclima do ambiente etc\u2026. Mais que arte, era uma ci\u00eancia!&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E ela continua &#8220;<em>Voc\u00ea pode se perguntar para que tanto trabalho: porque n\u00e3o simplesmente aderir a tinta na superf\u00edcie? N\u00e3o era s\u00f3 porque a t\u00e9cnica aumentava em muito a durabilidade das pinturas, mas principalmente porque um reboco pintado dessa maneira, refletia e refratava a luz em uma maneira impressionante. Talvez somente subindo nos balc\u00f5es pr\u00f3ximos ao teto da Capela Sistina para compreender verdadeiramente: Michelangelo trabalhava os afrescos de uma maneira tal que ao final a mat\u00e9ria parecia se desmaterializar e transformar-se em luz pura. E portanto, esp\u00edrito puro, qualquer coisa de sobrenatural&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sobrenatural, para mim, era o talento desses homens. A dificuldade era enorme. Eram montados andaimes e o artista passava muitas e muitas horas deitado pr\u00f3ximo ao teto, desenhando e pintando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando chegaram a <em>Sermoneta<\/em>, os restauradores come\u00e7aram os testes para fazer a restaura\u00e7\u00e3o. Pequenas \u00e1reas da pintura s\u00e3o tratadas com diferentes subst\u00e2ncias qu\u00edmicas para identificar qual pode ter a melhor resposta (veja a foto abaixo). Foi ai que tiveram uma surpresa: riscos que sugeriam uma figura que n\u00e3o era a figura aparente. Enquanto o desenho mostrava a manga da vestimenta de nossa senhora, mas as incis\u00f5es sugeriam a presen\u00e7a de uma m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/12\/incisioni.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-952\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/12\/incisioni-545x408.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"408\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Haveria algu\u00e9m riscado o sagrado afresco? Muito pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Uma das formas de se transportar para a parede o desenho preparado antecipademente, era riscar no reboco fresco as formas que seriam pintadas. Nem sempre foi assim. Essa pr\u00e1tica \u00e9 usada desde o renascimento, mas antes disso, os romanos e os bizantinos desenhavam diretamente as figuras com pincel. N\u00e3o \u00e9 preciso que haja riscos para que seja um afresco. Mas se os riscos est\u00e3o l\u00e1&#8230; com certeza \u00e9 um&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse caso, os riscos eram uma evid\u00eancia mais marcante da presen\u00e7a de um afresco do que a pintura aparente. Algu\u00e9m, ainda muito tempo atr\u00e1s, resolvera pintar um mural em cima do afresco verdadeiro e original. O esp\u00edrito humano \u00e9 t\u00e3o poderoso quando as intemp\u00e9ries mais duras e, com certeza, muito mais r\u00e1pido. Mas apenas as incis\u00f5es n\u00e3o bastavam como evid\u00eancia e era preciso mais para ter certeza de qual era o desenho original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8221; \u00c9 quando entram em cena os cientistas da restaura\u00e7\u00e3o: os qu\u00edmicos, f\u00edsicos e bi\u00f3logos que determinam as causas da degrada\u00e7\u00e3o da obra de arte. Nesse caso coletamos uma amostra do reboco para an\u00e1lise estratigr\u00e1fica no microsc\u00f3pio \u00f3ptico de polariza\u00e7\u00e3o, de camadas finas e opacas, para determinar a composi\u00e7\u00e3o mineral\u00f3gica dos extratos de cores (e descobrir se o que havia sob a pintura era verdadeiramente um afresco) e a posi\u00e7\u00e3o estratigr\u00e1fica\u00a0relativa (para verificar se o que havia sobre era uma pintura a \u00f3leo). Outra op\u00e7\u00e3o seria fazer uma FTIR (espectrofotogrametria) para analisar a composi\u00e7\u00e3o dos fixadores org\u00e2nicos que mostram que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 em frente a um afresco, mas simplesmente a frente de um mural&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As an\u00e1lises mostraram que realmente havia um afresco sob a pintura a \u00f3leo e come\u00e7ou ent\u00e3o o trabalho art\u00edstico de restaura\u00e7\u00e3o. Minha amiga \u00e9 uma artista! Aos poucos as m\u00e3os de Maria Madalena aos p\u00e9s de um Jesus crucificado foram aparecendo, como na figura abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/12\/incisioni-2.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-951\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/12\/incisioni-2-545x361.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"361\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O resultado desse bel\u00edssimo trabalho de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e habilidade art\u00edstica, voc\u00eas viram na imagem que abre esse texto. Lindo, avassalador!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Tudo fica mais bonito quando se sabe a ci\u00eancia que est\u00e1 por tr\u00e1s.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A maior parte das pessoas, quando v\u00ea uma representa\u00e7\u00e3o qualquer pintada em uma parede, chama de &#8216;Affresco&#8216;. Uma pintura na parede, a \u00f3leo, tempera, acr\u00edlica ou cera, \u00e9 somente um mural. &#8216;Affresco&#8216; \u00e9 oooooutra coisa&#8221; \u00a0 Minha querida amiga Francesca Radiciotti \u00e9 restauradora. 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