Aborto: um direito de todas

“Direito de escolher quando e se quer ser mães, quantos filhos ter e com quem ter esses filhos”. Essa frase destaco do site da organização não-governamental Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA).
Hoje, o Supremo Tribunal Federal (STF) começou o segundo dia da audiência pública – o primeiro foi terça – para debater com especialistas a interrupção da gravidez de fetos sem cérebro, anomalia chamada de anencefalia. Uma terceira audiência pode acontecer no dia 4 de setembro – ouvi no rádio que queriam adiar para o ano que vem!
No Brasil, o aborto é considerado crime exceto em caso de estupro ou risco para a mãe. Agora, se discute se o aborto de bebês anencéfalos pode ser legal, pois eles não conseguem viver por muito tempo. A maioria falece em poucos dias – 25% vivem mais que dez dias. Sem contar que é um sofrimento os pais esperarem nove meses nascer um nenê que irá falecer com certeza. Na maioria dos países Europeus Ocidentais – como Suíça, Itália e Inglaterra – e no Canadá e Estados Unidos, o aborto é legalizado.
Recentemente, conversei com Guacira César de Oliveira, socióloga e diretora do CFEMA, que falou sobre uma pesquisa do aborto. Para quem não sabe, a ONG dá assessoria para políticos entenderem diversas questões e direitos femininos. O site da organização disponibiliza dados de um estudo da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ele mostra o resultado de 20 anos de pesquisa sobre o tema. Fiquei chocada com o resultado – leia mais completo aqui:

  • Estima-se que foram induzidos 1,5 milhões de abortos em 2005 ou 7,2% do total de mulheres em idade reprodutiva fizeram a prática;
  • A maioria das mulheres que abortam possuem entre 20 e 29 anos. Possuem união estável, até oito anos de estudo, trabalham, são católicas, possuem pelo menos um filho e usuam contraceptivos;
  • Do total de abortos induzidos na adolescência, há uma concentração de 75% na faixa etária de 17 a 19 anos;
  • 73% das jovens entre 18 e 24 anos cogitam a possibilidade do aborto antes de optar por manter a gravidez;
  • Entre 44,9% e 91,6% do total de mulheres com experiência de aborto induzido declaram-se católicas; entre 4,5% e 19,2%, espíritas; 2,6% e 12,2%, protestantes;
  • Mais de 70% de todas as mulheres que decidem abortar vivem uma relação considerada estável ou segura;
  • Apenas entre 9,5% e 29,2% de todas as mulheres que abortam não tinham filhos;
  • Entre 9,3% e 19% que abortam apresentam sinais de infecção;
  • Apenas 2,5% das adolescentes tiveram a gravidez de um relacionamento eventual;
  • Houve melhora de auto-estima em todos os grupos de adolescentes entre a primeira e a última entrevista no período de um ano, mais acentuadamente no grupo de adolescentes que induziram o aborto do que as que tiveram o filho;
  • Quase todas as mulheres do estudo foram processadas pela prática do aborto após denúncias sofridas durante o processo de hospitalização.

Claro que sair por aí legalizando o aborto aos sete ventos não resolve todos os problemas relacionados ao assunto. Primeiro, deve-se ouvir as mulheres. O que nós realmente pensamos – sem hipocrisia, veja os dados. Em segundo, fornecer educação decente nas escolas. Depois, realizar campanhas sobre a importância dos métodos contraceptivos, incluindo onde conseguir com atendimento digno e explicações dos médicos. Por fim, legalizar o aborto. Nem que seja como alguns países desenvolvidos fazem. O primeiro é gratuito, os seguintes devem ser pagos.
Teoricamente, nós vivemos em um estado laico – desprovido de influência religiosa. Nem o povos antigos da China, Índia e Pérsia eram contra o aborto – leia aqui. Seria, realmente, democrático se ele fosse legalizado. Quem quer, faz. Os contra não são obrigados a realizar. É melhor abortar ou criar um filho sem vontade, amor, respeito, carinho, educação e dignidade?

8 comentários em “Aborto: um direito de todas”

  1. Acabei de ler o texto de um amigo que fala sobre um projeto de lei que pretende estabelecer cota racial para empresas. Aí, saio do texto dele e chego no seu.
    Eu fico sinceramente abismado com os rumos políticos que o Brasil toma. É a velha mania do Estado, herança de dias mais militares talvez, de tentar empurrar goela abaixo as posições pessoais de nossos digníssimos.
    Kant teria orgulho do Brasil, pq aqui, sua ética universalista é instituída por lei.
    Shame…

  2. Com certeza este assunto é polêmico e mexe com princípios diversos. Mas o único que deve prevalecer é o bem-estar do ser, enquanto gerado e após a gestação. Bem-estar resumi-se em qualidade de vida, que é dignidade. Atualmente, vemos por aí todo tipo de desrespeito à vida das nossas crianças, por ex., arremesso de criancinhas pela janela dos edifícios. Crimes muito mais bárbaros, chocantes e revoltantes. Algum ser nasce para ter este tipo de fim? Não, não e não. Vamos parar com a hiprocrisia, com o romantismo barato… nunca vi nenhuma mulher abortar por hobby, sempre foi uma decisão extrema, de última instância. Até hoje projetos preventivos, de cuidado com a vida foram um fracasso total. A educação é o calcanhar de aquiles desta sociedade catatônica. O mundo atual exige medidas práticas, e o aborto de um bebê anencéfalo é antes de tudo uma prova de amor e respeito a dignidade do ser, da existência.
    RF

  3. Aborto foisempre um tema controvérsio e polêmico.
    Nós humanos não temos o direitode tirar a vidade outrém por qualquer circunstancia seja, e o feto já é uma vida.
    Sou contra o aborto.

  4. “Se os homens ficassem grávidos, o aborto seria um sacramento” (Florynce Kennedy). Mais uma vez, a maldita hipocrisia e a mania de “eu não gosto, portanto você não pode”, estão querendo tapar o Sol com uma peneira… Como você bem nota: quem quer, faz, com proibição e tudo… E, mais uma vez, aponta na direção correta: somente legalizar o aborto não é “solução”. Esses fetos abortados não deveriam nem ter sido gerados.
    Mas, no caso particular da anencefalia, querer chamar o resultado da gestação de “ser humano” seria cômico, se não fosse trágico…
    @Thiago: (…)herança de dias mais militares talvez(…) Errou redondamente, amigo!… Quando um Brigadeiro, Chefe do EMFA, constatou que mais da metade dos candidatos a recrutas estavam sendo dispensados por defeitos congênitos ou provocados por subnutrição, e propôs um programa de controle de natalidade, “O Pasquim” ridicularizou, dizendo que “o Brigadeiro queria mandar na f*** dos brasileiros”… (por falar nisso, a ditadura durou de 64 a 85; desde então 23 anos se passaram… com direito a “Constituição Cidadã” e o escambau… está mais do que na hora de mudar o disco!…)

  5. Renata, eu concordo com você, aborto é sempre (ou quase) última instância. Além de arriscado para a saúde é perigoso para a liberdade e, invariavelmente, traumatizante.
    A legalização se faz necessária para que a mulher possa ter acompanhamento médico e psicológico sem o estresse extra causado pelo medo de processo ou cadeia.
    Liverig, um feto sem cérebro é uma vida da mesma forma que um câncer é uma vida. É um corpo estranho sendo sustentado parasitariamente pelo hospedeiro. Na hora em que for separado (através de nascimento), morre.
    O cérebro é a vida. Não adianta ter coração, fígado e rins sem cérebro.
    Sou pró-escolha. Só faz quem quer! Eu não gosto que fumem, mas não quero proibir o cigarro. Eu não quero, eu não fumo.
    O que nós precisamos não é de mais leis, mas sim de educação.

  6. Isso aí Igor!!! Sinceramente, não sei como perdem tempo ainda discutindo esse assunto. Se o cérebro é vital para o desenvolvimento do ser, para a vida propriamente, não há o que discutir. Um homem vive mutilado, mas sem o cérebro…

  7. Exatamente! Trata-se de uma ação traumatizante para os pais, principalmente à mãe.
    No caso do bebê sem cérebro, ele pode doar os órgãos para outros que necessitem, não? Ao menos, pode fazer uma família mais feliz.

  8. Você diz tudo nos dois últimos parágrafos.
    Educação é tudo e é a falta dela um dos principais motivos da gravidez indesejada.
    E é claro que é preciso liberar. Ter ou não ter um filho é uma escolha que passa sim por inúmeras questões emocionais, materiais, e muitas outras… Mais ainda se há deteccão de um problema genético durante a gestação. Ter ou não ter um filho é direito individual e intransferível. Numa interpretação avessa, eu diria que até o texto bíblico é mais coerente, já que deixa ao homem o livre-arbítrio.
    Bjs, bom fim de semana, e inté!

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