Dinheiro traz felicidade!

A ciência comprova. Esta semana o blog está bombando de coisas bombásticas – pegou a piada infame? Bom, vamos direto ao assunto. Não sou materialista – mas claro que adoro uma roupa maravilhosa de bom caimento e viajar pelo mundo. Quem disse a frase do título para mim foram pesquisadores sobre tema e entrevistados para uma matéria publicada na revista New Scientist.
Com o título “Why the world is a happier place” – Por que carambolas o mundo é um lugar mais feliz? -, o texto explica que os países que já tinham suas economias relativamente desenvolvidas como Dinamarca e Espanha continuam felizes da vida. Mas países pobretões, como o Brasil e a Índia, e ex-soviéticos como a Ucrânia e Eslovênia estão mais felizes do que há 25 anos.
O resultado faz parte do estudo World Values Survey (WVS), realizado todo ano pelo pesquisador Ron Inglehart, que analisou 1400 pessoas de 52 países. Desde 1981, a felicidade aumentou em mais de 45 países. O equipe do estudo acredita que o crescimento econômico só traz mais felicidades para países que tem ou tinham PIB per capita inferior a US$ 12.000.
No livro “A ciência da felicidade”, da psicóloga russa Sonja Lyubomirsky, especialista na área, explica que se você já é rico, um pouco mais de dinheiro não irá te fazer mais feliz. Agora, quem não tinha emprego, onde morar, meio de transporte adequado, estudo, comida, segurança, enfim… Ao conseguir um de cada ou “tudo” isso – o mínimo necessário para viver ou a chamada “qualidade de vida” – será infinitamente mais feliz.
Países latino-americanos e asiáticos muitas vezes aparecem no topo da lista da felicidade. Os pesquisadores dizem que isso acontece devido aos valores pessoais, familiares, orgulho nacional (hã?), generosidade e compaixão. A matéria afirma que nós, pobres da América Latina e da Ásia, consideramos o coletivo infinitamente mais importante que o individual. Daí a felicidade.
O livro “A ciência da felicidade” afirma que um pouco dela é genética. Acho que 40%. Outros 10% vêem do meio – a tal da “qualidade de vida” – e o resto é psicológico. Logo, ser feliz só depende de você. Daí a expressão “felicidade interior”. Quer um conselho meu? Basta seguir aqueles manuais de alto ajuda que as dicas dos cientistas são as mesmas. Faça exercício físico, seja bondoso, tenha amigos e família por perto, cultive um passa-tempo, tente não ficar martelando os problemas, deixe a mania de perseguição que já estará no caminho. “Don’t worry, be happy”, assovie a música! E, aproveite o final de semana!
Ah, leia a matéria completa aqui, em inglês. Veja mais sobre o livro ali, também em inglês. Achei, aqui, um site sobre Felicidade Interna Bruta (FIB), em português.

6 comentários em “Dinheiro traz felicidade!”

  1. Legal o post Isis!!!
    Costumo dizer que dinheiro só não traz felicidade para quem não sabe gastá-lo!!! Hahaha… E podendo conciliá-lo com amor etc e tal… é a felicidade plena!

  2. Olá Isis,
    essa estória de dinheiro X felicidade é um nó! Essa relação implica inúmeras variáveis como, por exemplo:
    – comparação feita pelos membros de um mesmo grupo entre eles. Essa variável vem gerando inúmeros estudos, porque, desde a década de 1980, pesquisas na área de Psicologia Social da Felicidade têm demonstrado que a riqueza percebida conta muito mais do que a riqueza real. E a riqueza percebida é constituída, em parte, pela comparação que fazemos entre nós e os outros que pertencem ao nosso mesmo extrato social.
    – características de personalidade individual como Introversão/Extroversão, resiliência, otimismo, etc., contam pontos na hora das pessoas avaliarem a própria felicidade. E é dessa forma que as pesquisas desse tipo são feitas, por meio de auto-relatos.
    – como a matéria diz, aspectos culturais como coletivismo e individualismo, são essencias na percepção de felicidade associada à riqueza. Só que essa influência se dá no campo do imaginário, e não da consciência. Ou seja, os elementos, subjetivos e objetivos, que são valorizados em culturas diferentes podem fornecer pistas ambíguas sobre a felicidade percebida pelas pessoas. Por isso, qualquer análise superficial da felicidade entre nações, baseada apenas em auto-relatos, é passível de falhas conceituais.
    – uma outra coisa é que não é muito confiável a avaliação da felicidade de um povo sem considerar a progressão dos dados. Esse é um dos fatores que faz com que os americanos, por exemplo, apareçam com altos índices de felicidade, quando comparados a povos mais pobres, hoje. No entanto, o índice de felicidade dos norte-americanos não tem subido significativamente nos últimos 50 anos! Nesse sentido, até que ponto a riqueza promove felicidade? Pois em 50 anos a riqueza dos norte-americanos quintuplicou, mas a felicidade não!
    – por fim, a spesquisas sobre felicidade têm demonstrado que autonomia, democracia e cidadania são elementos chave para uma vida mais feliz, seja no nível individual ou grupal. Esse dado tem muito pouca relação direta com riqueza material, estando mais associado ao acesso à educação e à participação na tomada de decisões da comunidade. Ainda assim, a existência de autonomia, democracia e cidadania nos países pobres é muito mais frágil do que nas nações ricas. Afinal, quando boa parte da população está disposta a trocar seu direito de decidir e participar por um filtro de água, ou similar, fica difícil falar em cidadania, democracia e autonomia, não é não?

  3. Angelita,
    Sem dúvida, colocou argumentos muito relevantes. No livro que citei, a psicóloga passa por alguns deles. Pelo que tenho lido, concluo que, de modo geral, os países com maiores desigualdades sociais possui as populações mais infelizes mesmo. Aqueles que exarcebam o materialismo também. No outro extremo, estão as nações mais democráticas e os países asiáticos – que são menos individualistas.
    Obrigada pelas observações!

  4. Primeira vez que vi seu blog na minha vida. Nem lembro como cheguei aqui. Também não lembro o que me fez ler blogs de uma hora pra outra — não sou leitor de blogs.
    Seu blog é bastante interessante. Quanto a essa chamada, tenho uma visão “slightly” diferente. Acho que o discurso implícito e ideológico que corre por uma pesquisa como essa é um velho silogismo político-econômico: se qualidade de vida se obtém pela melhoria das condições materiais, que se expressam em poder aquisitivo; se quanto mais poder aquisitivo temos, mais qualidade de vida temos — e mais condições para a felicidade florescer –, ora, todos os países devem trabalhar para aumentar o poder aquisitivo de suas sociedades.
    Os distúrbios sociais decorrentes da precarização da qualidade de vida não seriam colaterais às consequências que o comportamento de profit-seeking imprime na teia de relações sociais e políticas, mas o contrário: seria pela progressiva racionalização liberal de todas as relações que chegaríamos a patamares cada vez melhores de satisfação coletiva.
    Contra ambos os argumentos, devemos considerar que 1) a riqueza material é um recurso escasso, de modo que, para que eu tenha mais, alguém deverá ter cada vez menos. Esse axioma se radicaliza desde meados dos secs. XVI-XVII, quando uma nova forma de organização das forças produtivas amplia drasticamente as possibilidades de acumulação: o capitalismo. O aprimoramento sem precedentes da tecnologia produtiva, ao mesmo tempo que tem gerado cada vez mais riqueza material (comumente na forma de mercadoria), não contrabalançou as proporções da acumulação. O sistema evoluiu em complexidade, radicalizando as tensões inerentes, e o pobre está cada vez mais pobre, enquanto o rico está cada vez mais rico.
    Se isso não se aparenta nos países que estão “aprendendo a lição”, é apenas porque são outros países marginalizados no sistema economia-mundo que estão pagando a conta. Em outras palavras, para que a sociedade brasileira fique mais próspera, várias sociedades africanas devem necessariamente ser mais exploradas e permanecerem em patamares baixos de riqueza material.
    2) Também devemos considerar que, do ponto de vista interno, e contraditoriamente ao postulado na pesquisa, a intensificação da racionalização liberal das esferas de ação (para usar uma terminologia weberiana), consequência natural em sociedades cada vez mais prósperas, só tende a exacerbar os individualismos, e não o espírito coletivo. Pois, a acumulação capitalista está fortemente assentada na iniciativa individual (o “meu” em oposição ao “seu”, o “eu posso” em oposição ao “nós podemos”, o “depende de mim” sobre o “depende de nós” e so on), e isto constitui com o tempo um verdadeiro ethos, o ethos da individualidade e do utilitarismo.
    É por isso mesmo que sua constatação de que 50% da felicidade tem origem psicológica encontra sentido para si e para leitores brasileiros-ocidentalizados (“ocidentalizados” porque as massas exploradas das favelas e dos latifúndios, muito mais latino-americanos que europeizados ou americanizados, certamente não concordariam). Dizer que “ser feliz só depende de você” só faz sentido para quem acha que o indivíduo é capaz de realizar as experiências mais essenciais da existência humana a partir de atos voluntários unilaterais.
    Acontece que “querer é poder” só se aplica quando, antes de querer, eu possuo. Imagine-se dizendo que 10% da felicidade depende das condições materiais e 50% de um conjunto de atos voluntários, que o bem-estar depende de uma “harmonia interior”, aos palestinos da Faixa de Gaza ou aos iraquianos sitiados — será que eles não amam suas famílias?, não têm amigos? Será que a angústia difusa no coletivo se deve à negligência de passatempos? Ou a guerra, a fome e a destruição no seio da África só são um problema porque os africanos o martelam na cabeça?
    Em contraponto, o compartilhamento de identidades entre brasileiros excluídos e latino-americanos está na mobilização de movimentos sociais, na descrença no “crescimento econômico” e em outros fatos do ideário liberal que faz com essas pessoas vislumbrem — quando vislumbram — soluções para seus problemas na unidade da ação coletiva, e não somente na unidade da vontade individual. Para elas, 50% da felicidade depende do bem-estar material da comunidade, seja do bairro, da vila ou da cidade. E para essas pessoas, o engajamento na iniciativa privada em troca de alguns trocados a mais não é bem a melhor forma de se alcançar a riqueza material precursora.
    Imagino, por fim, que os explorados e excluídos daqui e de fora representam a maioria esmagadora da população mundial. Por essa e por outras, acho que deveríamos pensar em alternativas ao círculo de exploração para alcançar uma genuína felicidade. Até porque não consigo me sentir bem com 5 se sentindo mal ao meu redor.
    Um abraço,
    Flávio.

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