Tudo sobre as pesquisas em animais

Segunda chuvosa com ressaca de eleições. E aí, seu candidato foi eleito? Eu prefiro nem comentar – cada um que apareceu para nos representar, afe. Acompanhando o clima, começo a semana com um tema polêmico: pesquisas feitas em animais. Para entender mais sobre o assunto, conversei com o médico Ricardo Taddeu. “As pessoas não imaginam o quanto dependem dessas pesquisas”, diz. Tire suas dúvidas e conclusões depois de ler a entrevista a seguir. Aliás, não perca e reflita sobre a última resposta.
1. Desde quando são feitas pesquisas em animais?
Quando nos referimos à medicina ocidental, provavelmente, os primeiros a utilizar animais como objeto de estudo foram os egípcios. Talvez porque isso fosse socialmente aceito, já que a dissecção de animais e corpos humanos para mumificação era procedimento rotineiro. Os gregos também realizavam dissecções, sobretudo Herophilus de Chalcedon e Erasistratus de Chios – médicos da antiguidade. Porém, foi Galeno quem alcançou um novo patamar. Ele utilizou animais em estudos que resultaram no tratado anatômico adotado pela medicina ocidental por quase 1500 anos. Além disso, foi um dos pioneiros na realização de estudos fisiológicos com animais.
2. Elas são praticadas em outros países? Quem as utiliza?
Praticamente, todos os países do mundo ocidental se valem da experimentação animal. Cada um tem uma legislação diferente, mas procuram resguardar os animais de qualquer tipo de sofrimento. No Brasil, existem leis e normas para pesquisas em humanos e em outros animais. As penas por não cumpri-las vão desde multas até detenção. Só como exemplo temos o PL 1153, a lei 6638/79, lei 9605, resolução HCPA, e as Diretrizes e Normas da CNS. A União Européia, por exemplo, restringe os testes de cosméticos em animais e espera baní-los completamente em alguns anos. A área do conhecimento humano que mais se beneficia são as ciências biológicas. Mas a psicologia também realiza alguns experimentos. Atualmente, com o desenvolvimento tecnológico, áreas que não realizavam muitos experimentos com animais, como a engenharia e a robótica, passaram a usá-los.
3. Quais animais são os mais empregados? Onde os pesquisadores obtêm esses bichos?
Praticamente todos os animais de pesquisa são roedores – ratos e camundongos – correspondendo a 95% do total de animais empregados. Ao contrário do que se acredita, cães, gatos e primatas representam juntos menos de 1% do total de animais utilizados e esse número diminui a cada ano. Os animais empregados em experimentos devem ser criados em biotérios só para essa finalidade. Isso vale para cães, gatos, porcos, primatas e, principalmente, roedores. Animais de rua capturados pela carrocinha não são usadas em experimentos por estarem em péssimas condições de saúde, o que invalidaria os resultados. Contudo, são utilizados em aulas de técnica cirúrgica nas faculdades de medicina e, no lugar de serem mortos na câmara a vácuo, são sacrificados sem sofrimento sob anestesia.
4. Se nós somos diferentes de outras espécies, os testes em animais são realmente eficazes?
Realmente, há diferenças significativas entre nós – animal humano – e outras espécies. Mas, como se pode notar, nós também somos animais e compartilhamos muitas características. De modo grosseiro, segundo Darwin, todos evoluímos de um ancestral comum. Portanto, diversos processos metabólicos e características anatômicas são iguais ou bastante semelhantes entre as diferentes espécies. Como garantir que resultados obtidos em animais sejam transponíveis para seres humanos? Não há como garantir 100%, mas com a experiência acumulada é possível minimizar os erros.
5. Quais são os tipos de pesquisas?
Didaticamente, pode-se dividi-las em básica e aplicada. A pesquisa básica objetiva gerar conhecimentos novos úteis para o avanço da ciência sem aplicação prática prevista. Envolve verdades e interesses universais. Geralmente, não possui aplicações diretas, ao menos inicialmente. Ela serve de base para a construção de hipóteses que serão testadas posteriormente. Por exemplo, descoberto em ratos uma proteína diretamente envolvida na formação de novos vasos – angiogênese – o que permite o crescimento de tumores. Mesmo sem aplicação direta, essa descoberta será a base para a busca de novas formas de tratamento do câncer. Enquanto isso, a pesquisa aplicada procura gerar conhecimentos para aplicação prática e dirigidos à solução de problemas específicos. Envolve verdades e interesses locais. Por exemplo, teste de novas drogas em animais buscando uma que seja capaz de impedir a angiogênese e, consequentemente, o crescimento tumoral. Novos medicamentos poderiam ser usados isoladamente ou combinados com outras formas de tratamento.
6. Os animais sofrem antes, durante ou depois dos experimentos?
Cada país tem sua legislação que regulamenta o uso de animais em experimentos e impede que eles sejam submetidos a experimentos que dêem sofrimento. No Brasil, existe uma lei federal que regulamenta o emprego de animais em pesquisas e proíbe qualquer tipo de maus-tratos (lei 6638/79). Segundo o USDA Annual Report – do United States Department of Agriculture -, do ano 2000, 63% dos animais empregados em pesquisa sofreram apenas um desconforto ou dor momentânea, comparável a uma picada de injeção. Do total, 29% dos animais empregados recebem anestésicos ou analgésicos e apenas 7% não recebem nenhum tipo de analgesia – porque isso interferiria no experimento. Porém a dor é minimizada o máximo possível. Além disso, ao contrário do que se acredita, cientistas não são alheios ao sofrimento animal. Primeiro, por serem seres humanos que se preocupam com os animais da mesma forma que qualquer outra pessoa. Somando-se a isso, para obter resultados válidos, os animais empregados devem estar em boas condições de saúde e higiene. A dor também é evitada, pois ela torna os animais imunossuprimidos.
7. Esse tipo de pesquisa pode ser substituído por outra?
As opções disponíveis e mais empregadas são simulações de computador, estudos in vitro e procedimento em cadáveres – como culturas de células ou tecidos humanos. Outras opções seriam observação clínica, voluntários humanos doentes ou sãos), material oriundo de mortes naturais, visualização não-invasiva em condições clínicas, observação em usuários, inferência estatística e substituição dos animais por plantas.
Atualmente, é impossível substituir completamente o uso de animais, principalmente, na experimentação. Quando se trata de animais utilizados no ensino, alguns modelos surgem como substituto, mas possuem potencial restrito, preços altos e duração limitada. É bastante complicado treinar procedimentos cirúrgicos em manequins. Desse modo, estaríamos fazendo experimentos in anima nobile – expondo o paciente ao dano e o médico ao erro.
8. Por que geram tanta polêmica?
Não existe um único motivo que possa explicar toda a polêmica. O principal deles é a ignorância e o fanatismo “quase religioso” pregado por algumas entidades de defesa dos animais. Curiosamente, os mais intolerantes são aqueles com menos informações sobre o assunto. Eles representam um grupo que, além de acreditar em fotos e vídeos sensacionalistas e falsos, ainda propagam a idéia de que experimentos com animais é tortura. Há de se convir que é uma imagem com muito apelo, porque a maioria das pessoas que gostam de animais os vê como seres puros e indefesos e não tolera imaginar o sofrimento desses “fofinhos”. Em associação, algumas entidades de defesa dos animais tratam o assunto como religião. Existe uma “indústria do ecologismo” que cresce rapidamente. Com certeza algumas entidades levam o assunto a sério, mas boa parte delas explora a ignorância das pessoas ao criar “igrejas” de adoração à natureza e repulsa ao ser humano. Talvez o ponto mais curioso nisso tudo é que os cientistas são a única parte flexível. A comunidade científica entende e aceita que o mínimo de animais deve ser sacrificado e sempre com o menor sofrimento possível. Mesmo apresentando dados sobre esses procedimentos, a incredulidade ignorante predomina.

8 comentários em “Tudo sobre as pesquisas em animais”

  1. O uso de animais em pesquisas não é tão “cor-de-rosa” quanto seu entrevistado quer pintar… O problema é que as alternativas são bem piores (as barbaridades de Mengele, foram úteis apesar de toda a propaganda em contrário).
    Mas existem certas considerações mais cruas que não devem ser esquecidas:
    – Já não existem recursos para assegurar saúde a toda a população; quer se use animais para pesquisas, quer não… Se tirarmos essa ferramenta da mão dos pesquisadores, a coisa só tende a piorar…
    – Nada contra quem defende os animais da prática de crueldades. Mas é muito mais fácil praticar “terrorismo em defesa da vida” invadindo um laboratório e “libertando” os “pobres animais torturados” (e espalhando doenças entre a população humana), do que, por exemplo, ir encarar os traficantes de uma “boca” (ah!… mas “pets” não cheiram, nem fumam…)
    – Igualmente essas ações “espetaculosas” encontram mais espaço na mídia do que a superlotação dos canis e gatis das SUIPA em todos os lugares onde essa Organização está presente.
    E, finalizando, esta nova onda de “moralismo vitoriano” que eu defino como: “eu não gosto, portanto você não pode”, é característica de “gente que ouviu cantar o galo, só não sabe onde…” (que, infelizmente, é uma enorme – e acéfala – maioria…)

  2. Isso é verdade, o radicalismo desse tipo vem da cultura americana, muito puritana. O problema é que nos EUA, tanto os liberais como os conservadores foram criados nas escolas dominicais, ambos são, no seu âmago, puritanos, quer na direita quer na esquerda. É um puritanismo politico, algo muiiiitooo perigoso. E a academia ruma a se tornar um gueto isolado, uma biblioteca de Alexandria a ser futuramente queimada pela turba…

  3. João Carlos e Osame,
    As alternativas para substituir os animais ainda são ineficientes ou escassas. Pior, as pessoas imaginam que os cientistas são pessoas “sem coração”, que se divertem com o sofrimento animal, sem fazer a menor idéia do que essas pesquisas já proporcionaram para a saúde delas mesmas. Em partes, agora incluindo aqui o tema do mês do Roda de Ciência, isso ocorre devido às histórias de ficção científica – além da completa ignorância. Onde o médico é visto, muitas vezes, como monstro. Todo radicalismo é demais.

  4. Faltou mencionar a Ilha do Dr. Moreau .. o último parágrafo fechou muito bem, mas concordo que a entrevista deu uma aparencia muito “cor-de-rosa” ao assunto. Não é, definitivamente, um assunto a ser tratado com moralismos, mas com ponderação e sensatez (embora sensatez não possa necessariamente ser cientificamente usada :-/ ..mas digamos talvez, com parcimonia).

  5. os oragãos de um animal é diferente do humano e suas reações tambem poriço acho que rola é muita grana por debaixo dessa sujeira que são essas pessoas que se dizem ciêntistas em prena modernização ainda submetem esses coitados ao um sofrimento desnessesário meu vê se evolui e faça uso de toda tecnologia que nosso páis tem agora que desculpa esrrapada ter que usar rato cão etc isso é no minimo pré histórico

  6. Também visitei o site da SUIPA e lá está escrito que pelo fato de receberem muitos animais abandonados realmente existe superlotação. Então acho que deveria ter mais espaço na mídia informando e conscientizando as pessoas para não abandonarem seus animais. Se não houvesse abrigos os animais estariam em piores condições na rua ou mortos. Li tb que onde há nesta organização além dos abrigos, ambulatórios onde a população pode levar seus animais para atendimento veterinário a preços populares.
    http://www.suipa.org.br/br/index800.asp?pg=institucional.asp&titulo=Ambulat%F3rio

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