A topologia do planeta na visão do século XV

Lembrete: século XV vai de 1401 até 1500.

É interessante quando imaginamos a concepção das civilizações anteriores à nossa, parece que suas noções de mundo eram muito distantes da realidade ou mesmo absurdas. No caso, discutiremos neste texto a visão topológica do planeta Terra, mais precisamente até a data de 1472, quando ocorreu a primeira publicação do livro A Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri e que posteriormente ficou conhecida como A Divina Comédia.

Adianto que não busco neste texto construir uma reflexão geral sobre a visão das pessoas neste período e tampouco como a ciência de navegação encarava a topologia da Terra. Apenas desejo fazer uma leve inferência a cerca de uma obra que ao meu ver foi e ainda é, um marco de divulgação científica no que diz respeito à compreensão topológica deste planeta em que vivemos.

Dante (protagonista da obra) em meio à uma floresta escura e cheia de feras adentra no que é a entrada do Inferno.

Neste caminho ele desce até encontrar com o poeta grego Virgílio que será seu guia nesta jornada. No decorrer da trama eles avançam pelos círculos do Inferno, descendo a cada nível no qual lhes são explicados os pecadores que lá residem e interagem de algum modo com a presença de Dante que é vivo, em meio a eles, pedindo-lhe que envie mensagens para os vivos ou conte-os sobre o que ocorreu nos últimos tempos. A “aventura” segue descendo cada vez mais, chegando até um ponto no qual era preciso da ajuda de uma criatura assustadora para levá-los a um nível ainda mais baixo, e depois exigindo que um gigante da antiguidade os auxiliasse a descer um pouco mais…

após descer tudo o que era possível, lá no ponto mais profundo do Inferno, eles encontram o próprio Lúcifer, preso com seu corpo gigante no solo da cintura para cima.

Por meio dos vãos da rachadura em que ele estava preso, Dante e Virgílio descem, porém em vez de descer, logo após a fenda, eles estavam agora subindo, e viam as pernas de Lúcifer voltadas para cima.

A forma como ele se encontra preso na Terra é resultado de sua queda do céu.

Deste ponto em diante, eles sobem até chegarem na montanha do purgatório, lá eles encontram uma montanha tão larga que os olhos não a diferenciam de um continente e tão alta que era impossível avistar o topo ao horizonte, mas que sabem muito bem que no topo da montanha há o céu/paraíso.

As almas trazidas para o purgatório de modo convencional (ou seja, por caminhos diferentes daquele tomado por Dante e Virgílio), viajam do continente dos vivos até lá em barcos guiados por anjos (paremos por aqui, dado que já temos o bastante para nossa discussão).

Sem presumir nenhum formato prévio para nosso planeta, vamos tirar algumas inferências das seguintes observações:

  1. O trajeto entre o continente dos vivos e a divisória do planeta envolve uma imensa descida;
  2. Existe um caminho por dentro do planeta que liga o continente dos vivos e a montanha do purgatório;
  3. A posição de Lúcifer é resultado de sua queda do céu, passando pelo que é a montanha do purgatório até atingir a terra;
  4. A orientação (cima/baixo) se inverte quando passamos do ponto central do planeta no qual Lúcifer marca a divisória;
  5. Existe um caminho pelo mar que liga o continente dos vivos e a montanha do purgatório;
  6. Apesar da montanha do purgatório ter a largura de um continente e uma altura da qual não é possível avistar o topo, ela não pode ser vista do continente dos vivos.

Da observação 1, podemos dizer que o planeta deve ter uma imensa profundidade para justificar a longa e humanamente impossível descida até seu centro.

Da observação 2, podemos dizer que os continentes se conectam por massas contínuas de terra.

Da observação 3, podemos dizer que em queda livre do céu até a Terra, nos encontramos em uma direção verticalmente oposta à orientação usual no continente dos vivos.

Da observação 4 e 5, podemos dizer que seguindo o caminho que liga os continentes pelo mar, em algum ponto a orientação (cima/baixo) se inverterá. Diferente de Dante e Virgílio que escalaram a fenda, os barcos não fazem curvas verticais em 90 graus… logo, esta mudança de orientação deveria ocorrer de modo suave no decorrer do próprio curso da embarcação.

Da observação 6, se o continente dos vivos estivesse no mesmo plano tridimensional da montanha do purgatório, seria então possível avistá-la, dado sua largura continental e altura inalcançável.

Destas observações, podemos dizer que Dante descartava a hipótese de uma Terra plana, pois para ele o planeta era bastante profundo, com dois continentes conectados por uma massa contínua de terra e também pelo mar, com uma orientação (cima/baixo) dependente da sua atual posição. Além do resultado de não ser possível ver a montanha do purgatório que é absurdamente alta e larga.

Destas inferências, podemos dizer que o modelo de Terra esférica se enquadrava melhor no contexto proposto por Dante Alighieri, justificando o outro hemisfério como referente ao mundo espiritual. Por fim, como seu livro foi um marco nas publicações e muito difundido em sua própria época, o conceito de Terra esférica já era então “popular” ainda que subjetivamente pelos leitores de Dante (o que não é pouca coisa).

É interessante analisar este livro, pois o próprio autor não menciona o formato que ele imagina para o planeta, mas a partir de elementos e estruturas da sua própria construção do universo de Inferno, Purgatório e Paraíso, chegamos que esta é uma das concepções mais simples que satisfazem as suas necessidades do universo proposto.

Curioso como a observação de que um dos maiores autores de todos os tempos, que publicou esta obra em 1472, deliberava em sua trama a cerca de uma explicação plausível para a estrutura do nosso planeta, justificando o continente desconhecido como ocupando o outro hemisfério, também que as navegações só poderiam ir até o outro lado guiadas por anjos, ou mesmo que ao cruzar o limiar do centro da Terra, haveria instantaneamente uma mudança de orientação (cima/baixo).

São aspectos que me impressionaram e por isso decidi trazer para vocês, pois não é nada natural ver nele e nos seus leitores tais ideias ao mesmo tempo tão claras para nós do século XXI, e também educadamente disfarçadas em um contexto de ficção na qual a topologia de uma terra plana não sustentaria, ou sequer uma terra em um formato com curvas não suaves explicaria a navegação dos barcos guiados por anjos… restando finalmente uma topologia esférica (ainda que achatada) para justificar esta obra com tão importante marco para nossa cultura ocidental.

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