{"id":2478,"date":"2020-12-16T23:49:59","date_gmt":"2020-12-17T02:49:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/?p=2478"},"modified":"2023-08-25T17:54:06","modified_gmt":"2023-08-25T20:54:06","slug":"se-funciona-qual-o-problema-usar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2478\/","title":{"rendered":"Se funciona, qual o problema usar?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na gradua\u00e7\u00e3o em Matem\u00e1tica vemos muitas demonstra\u00e7\u00f5es de propriedades (sejam elas chamadas de v\u00e1rios nomes como j\u00e1 discutido no post &#8216;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2020\/10\/16\/voce-e-fraco-lema-te-falta-importancia\/\" target=\"_blank\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 fraco Lema, te falta import\u00e2ncia!<\/strong><\/a>&#8216;). Parte da justificativa por tr\u00e1s dessa exig\u00eancia se v\u00ea na necessidade do matem\u00e1tico compreender um resultado como por exemplo que o n\u00famero 73 \u00e9 o \u00fanico com as caracter\u00edsticas que o fazem um &#8216;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2019\/06\/27\/primo-de-sheldon\/\" target=\"_blank\"><strong>Primo de Sheldon<\/strong><\/a>&#8216;. Outro ponto a favor do estudo das demonstra\u00e7\u00f5es, \u00e9 o pr\u00f3prio dom\u00ednio do matem\u00e1tico sobre aquilo que fundamenta determinados resultados, ou mesmo, a forma como isso lhe permite rascunhar argumentos que validem ou refutem novas proposi\u00e7\u00f5es. Novas &#8216;descobertas&#8217; na Matem\u00e1tica s\u00e3o divulgados a partir de artigos cient\u00edficos da \u00e1rea, e uma vez que a demonstra\u00e7\u00e3o se torna p\u00fablica, podemos us\u00e1-la a nosso bel prazer sem preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Enquanto ter ci\u00eancia da veracidade de uma propriedade matem\u00e1tica \u00e9 um processo \u00e1rduo, vemos muitas &#8216;dicas&#8217; ou at\u00e9 mesmo &#8216;segredos que seu professor de matem\u00e1tica n\u00e3o quer que voc\u00ea saiba&#8217;, envolvendo jeitos mais simples de realizar alguns c\u00e1lculos. Eles envolvem regras, t\u00e9cnicas e procedimentos &#8216;aparentemente&#8217; mais claros do que o conceito original por tr\u00e1s, como por exemplo a ideia de &#8216;passar para o outro lado com o sinal oposto&#8217;, ou &#8216;passa pro outro lado cruzando&#8217;. De fato, s\u00e3o regras que agilizam o processo de fazer contas, por\u00e9m quando saltam a etapa de entender o conceito que lhe permite agir dessa maneira, considero tais t\u00e9cnicas evit\u00e1veis e at\u00e9 mesmo perigosas de serem usadas de forma leviana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><em>Mas ent\u00e3o surge o questionamento, se a regra funciona, porque n\u00e3o usar? <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A imagem de capa \u00e9 um meme de minha autoria adaptado de &#8220;<a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/r\/MemeTemplatesOfficial\/comments\/cl7ydo\/the_silent_protector_meme_soldier_failing_to\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.reddit.com\/r\/MemeTemplatesOfficial\/comments\/cl7ydo\/the_silent_protector_meme_soldier_failing_to\/<\/a>&#8221; e de uma dessas &#8216;dicas&#8217; de como simplificar fra\u00e7\u00f5es de um jeito mais f\u00e1cil. Nesse meme vemos o soldado representando os &#8220;Artigos cient\u00edficos que demonstram propriedades da matem\u00e1tica&#8221; e do outro lado uma crian\u00e7a dormindo, prestes a ser atingida por v\u00e1rios proj\u00e9teis e armas que lhe gerar\u00e3o imenso dano (a &#8220;regrinha&#8221; de simplificar fra\u00e7\u00f5es com n\u00fameros Naturais de dois d\u00edgitos no numerador e no denominador).<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Parece uma &#8220;piada&#8221;, mas de fato essa \u00e9 uma regra que funciona para esses 3 casos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><em>19\/95 &#8211; voc\u00ea corta os 9&#8217;s e fica com 1\/5;<br>26\/65 &#8211; voc\u00ea corta os 6&#8217;s e fica com 2\/5;<br>49\/98 &#8211; voc\u00ea corta os 9&#8217;s e fica com 4\/8.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Podemos explorar melhor essa regra escrevendo sua express\u00e3o geral da seguinte forma. Temos 3 algarismos, X ser\u00e1 a dezena do numerador, Y ser\u00e1 a unidade do numerador (que ser\u00e1 igual a dezena do denominador) e Z ser\u00e1 a unidade do denominador. Assim, essa regra diz que: <\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><em>(10*X + Y)\/(10*Y + Z) = X\/Z, para X, Y, Z Naturais variando entre 1 e 9.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Temos de forma direta 9 solu\u00e7\u00f5es para esse problema, bastando tomar X = Y = Z, que chegaremos em solu\u00e7\u00f5es do tipo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><em>11\/11, 22\/22, 33\/33, 44\/44, 55\/55, 66\/66, 77\/77, 88\/88 e 99\/99.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Fixando Y = 6, obtemos (10*X + 6)\/(60 + Z) = X\/Z, do qual teremos solu\u00e7\u00e3o quando X = 1, Z = 4, ou quando X = 2, Z = 5.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Fixando Y = 9, obtemos (10*X + 9)\/(90 + Z) = X\/Z, do qual teremos solu\u00e7\u00e3o quando X = 1, Z = 5, ou quando X = 4, Z = 8.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Assim, entre 11 e 99, o conjunto de solu\u00e7\u00f5es dos casos em que essa regra funciona s\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\">11\/11 = 1\/1<br>22\/22 = 2\/2<br>33\/33 = 3\/3<br>44\/44 = 4\/4<br>55\/55 = 5\/5<br>66\/66 = 6\/6<br>77\/77 = 7\/7<br>88\/88 =8\/8<br>99\/99 =9\/9<br>16\/64 =1\/4<br>26\/65 = 2\/5<br>19\/95 = 1\/5<br>49\/98 = 4\/8<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Brincando um pouco com permuta\u00e7\u00f5es, temos 81 op\u00e7\u00f5es para o numerador variar entre 11 e 99 (pois ignoramos os n\u00fameros com 0), e temos 81 op\u00e7\u00f5es para o denominador variar entre 11 e 99 (pelo mesmo motivo). Com isso, chegamos que existem 81\u00b2 (6.561) n\u00fameros dessa forma, e destes, apenas os 13 casos acima funcionam. Ou seja, se sortearmos um n\u00famero dessa forma (dois d\u00edgitos em cima e dois d\u00edgitos em baixo) e eu utilizar essa regra, tenho quase 0,2% de chance dessa regra funcionar para essa situa\u00e7\u00e3o, e outros 99,8% de chance dela n\u00e3o valer. Pois desses 6.561 casos, em 6.548 deles essa regra n\u00e3o vale.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Esse foi um exemplo um tanto exagerado, mas que serve para mostrar como apesar de uma regra de aparente simplicidade, traz uma s\u00e9rie de exce\u00e7\u00f5es mais caras do que o uso dos procedimentos padr\u00f5es de divis\u00e3o por fra\u00e7\u00f5es. Por exemplo, quando falamos que em equa\u00e7\u00f5es podemos &#8216;passar um n\u00famero pro outro lado mudando o sinal&#8217;, podemos cair no seguinte equ\u00edvoco:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image aligncenter size-large eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"544\" height=\"486\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2020\/12\/regra-para-equacoes.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2482\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2020\/12\/regra-para-equacoes.png 544w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2020\/12\/regra-para-equacoes-300x268.png 300w\" sizes=\"(max-width: 544px) 100vw, 544px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mas diante essa situa\u00e7\u00e3o, podemos pensar em adicionar uma &#8216;regra&#8217; sobre a equa\u00e7\u00e3o ter apenas um sinal de igual &#8230; mas o problema das regras \u00e9 exatamente isso, a medida que buscamos corrig\u00ed-las, acabamos tornando-as mais complexas do que seria sua inten\u00e7\u00e3o inicial de simplificar o dom\u00ednio do conceito. Na verdade, em equa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o passamos nada de um lado para o outro, o que ocorre \u00e9 somar, subtrair, multiplicar ou dividir (por um n\u00famero diferente de 0) o mesmo valor em todas as igualdades, dado que isso n\u00e3o afeta a igualdade. Embora possa nos levar a uma situa\u00e7\u00e3o de inutilidade, como no exemplo abaixo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image aligncenter size-large eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" width=\"544\" height=\"307\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2020\/12\/regra-para-multiplicacao.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2483\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2020\/12\/regra-para-multiplicacao.png 544w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2020\/12\/regra-para-multiplicacao-300x169.png 300w\" sizes=\"(max-width: 544px) 100vw, 544px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">N\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada de errado em multiplicar por 0 todas as partes da igualdade, embora isso n\u00e3o te aproxime em nada de descobrir qual deve ser o valor de x. Nesse sentido, entender o conceito te garante que essa opera\u00e7\u00e3o esta correta, o que poderia ser contraintuitivo no uso de &#8216;regras&#8217;, pois se elas servem para facilitar as contas, deveria ter uma regra dizendo para &#8216;n\u00e3o multiplicar por 0&#8217;, por\u00e9m isso \u00e9 permitido, embora seja uma a\u00e7\u00e3o in\u00fatil na busca pelo valor da inc\u00f3gnita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Em outras tantas situa\u00e7\u00f5es a ideia de passar a t\u00e9cnica na frente do conceito pode levar a equ\u00edvocos e exce\u00e7\u00f5es, como no caso do C\u00e1lculo Diferencial, quando o estudante aplica a regra de L&#8217;hospital sem antes verificar se as fun\u00e7\u00f5es a serem derivadas eram realmente indeterminadas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-css-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-left eplus-wrapper\">Como referenciar este conte\u00fado em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023\/2018):<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Se funciona, qual o problema usar?. <em>In<\/em>: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. <strong><strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Zero &#8211; Blog de Ci\u00eancia da Unicamp<\/a><\/strong>. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/category\/v-4-ed-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Volume 4. Ed. 1. 2\u00ba semestre de 2020<\/a><\/strong>. Campinas, 16 dez. 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2478\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2478\/<\/a>. Acesso em: &lt;data-de-hoje&gt;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quais regrinhas da matem\u00e1tica voc\u00ea costuma usar? Ser\u00e1 que \u00e9 realmente seguro us\u00e1-las? Ou podem falhar na hora que mais dependermos delas?<\/p>\n","protected":false},"author":434,"featured_media":2479,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[1212],"tags":[],"class_list":["post-2478","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-v-4-ed-1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2478","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/users\/434"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2478"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2478\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5271,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2478\/revisions\/5271"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}