{"id":2939,"date":"2021-05-09T19:07:24","date_gmt":"2021-05-09T22:07:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/?p=2939"},"modified":"2023-08-25T20:23:36","modified_gmt":"2023-08-25T23:23:36","slug":"embate-contra-o-mestre-da-casa-de-bonecas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2939\/","title":{"rendered":"Embate contra o Mestre da Casa de Bonecas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na It\u00e1lia, em 1872 o Pal\u00e1cio do Quirinal se tornou um local de terror, repleto de suicidios e loucos. Foi menos de um ano depois do <strong>rei<\/strong> ter confiscado do pr\u00f3prio <strong>papa<\/strong> aquele local, ignorando as advert\u00eancias do <strong>pont\u00edfice<\/strong> a respeito dos cuidados com a edifica\u00e7\u00e3o, seguiu em adapt\u00e1-la aos seus padr\u00f5es pessoais. Paredes foram derrubadas, muita terra escavada at\u00e9 que os casos come\u00e7assem. De servi\u00e7ais a membros da aristocracia, eventualmente come\u00e7aram a aparecer mortos ou loucos. Os m\u00e9dicos passaram a considerar o fen\u00f4meno como um surto de alguma doen\u00e7a, mas n\u00e3o conseguiam identificar a forma como ela era transmitia, pois parecia diretamente ligada ao interior do Pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Tentaram desinfetar o Pal\u00e1cio para eliminar o que poderia estar causando aqueles sintomas, mas mesmo protegidos contra gases, alguns dos profissionais que entravam ainda eram afetados. O caso se viu sem solu\u00e7\u00e3o, levando o <strong>rei<\/strong> ironicamente a pedir ajuda ao <strong>papa<\/strong> de quem havia confiscado o Pal\u00e1cio. O <strong>pont\u00edfice<\/strong> colocou a servi\u00e7o do <strong>rei<\/strong> um simples <strong>vig\u00e1rio<\/strong> para ajud\u00e1-lo na investiga\u00e7\u00e3o, contudo o <strong>papa<\/strong> justificou que ele era um homem de not\u00e1vel ast\u00facia, tamanha que o pr\u00f3prio diabo teria receio de desafi\u00e1-lo para um jogo de azar. O <strong>rei<\/strong> contudo, encarou aquilo como uma zombaria do <strong>papa<\/strong> diante seu ir\u00f4nico pedido de aux\u00edlio, mas se conteve e deixou o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> atuar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O <strong>vig\u00e1rio<\/strong> ap\u00f3s ser informado do caso e aceitar ajudar o <strong>rei<\/strong>, demonstrou completo desinteresse em visitar o Pal\u00e1cio, procurando primeiro um mapa do mesmo e chamando a todos os que estiveram no Pal\u00e1cio, desde os aristocratas aos servi\u00e7ais para conversar individualmente. Suas a\u00e7\u00f5es levaram semanas, e eram tidas como uma perda de tempo, mas o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> parecia pouco se importar com o que viessem a pensar dele. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ap\u00f3s as conversas e de tomar notas sobre elas, o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> se preparou para entrar no Pal\u00e1cio, deixando claro que entraria sozinho e que nesse per\u00edodo ningu\u00e9m deveria acompanh\u00e1-lo. Equipado como algu\u00e9m que iria para uma expedi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios dias na selva, o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> adentra o Pal\u00e1cio com o mapa em mente e seguindo para um local do qual os entrevistados nada relatavam sobre. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O caminho seguia, quando um guarda veio correndo chamar o <strong>vig\u00e1rio<\/strong>, dizendo que o <strong>papa<\/strong> havia alocado outro sarcedote para aquela investiga\u00e7\u00e3o. O <strong>vig\u00e1rio<\/strong> diante dessa mensagem, pediu ao guarda que esperasse, pegou uma moeda e come\u00e7ou a lan\u00e7ar para cima repetidas vezes e anotar seus resultados. O guarda estava impaciente, mas o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> seguiu com suas a\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que terminou-as, finalmente se virando de costas para o guarda e ignorando-o por completo, enquanto seguia seu trajeto. O guarda ficou falando, mas o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> sequer se virou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Seguindo seu trajeto, o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> chegou a uma parte em que havia uma cratera no ch\u00e3o, sendo poss\u00edvel enxergar por ela o andar debaixo do Pal\u00e1cio. Novamente o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> parou e come\u00e7ou a lan\u00e7ar sua moeda, at\u00e9 que decide pegar um outro caminho e evitar a cratera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Outrora ap\u00f3s abrir a porta rapidamente viu um grande lobo dentro de uma sala, comendo o que parecia ser uma das pessoas que se matou e cujo corpo n\u00e3o tinha sido removido. Ainda com a m\u00e3o na ma\u00e7aneta, com a porta fechada, voltou a jogar sua moeda tantas vezes quanto fazia. Depois disso, respirou firme e abriu a porta, o cheiro de carni\u00e7a estava no ar misturado com o odor daquele animal, que olhava ferozmente para ele. Mas o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> seguiu, passando rente ao corpo morto, com as entranhas expostas enquanto o lobo amea\u00e7ava avan\u00e7ar nele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O <strong>vig\u00e1rio<\/strong> lan\u00e7ava repetidas vezes a moeda antes de comer ou dormir, e dependendo do resultado, seguia para outra sala e repetia o procedimento antes de realizar essas a\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">V\u00e1rios dias se passaram desde que ele entrou no Pal\u00e1cio, os guardas do lado de fora achavam que ele j\u00e1 deveria ter morrido ou ficado louco. Mas seguiam esperando seu retorno ou novas ordens. At\u00e9 que ouviram um grito alto e estridente, como se algu\u00e9m estivesse agonizando. Esse grito se prolongou por mais do que eles podiam imaginar, era de fato uma agonia que n\u00e3o terminava, junto a um cheiro de madeira e carne queimada. Imaginavam que o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> poderia ter ateado fogo em si mesmo para se matar, mas o capit\u00e3o da guarda ficou mais preocupado com a possibilidade do Pal\u00e1cio incendiar-se com aquilo. Ordenando imediatamente que entrassem para conter as chamas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Seguindo o cheiro da fuma\u00e7a, os guardas a contragosto obedeceram, correndo at\u00e9 onde esperavam encontrar o corpo do <strong>vig\u00e1rio<\/strong>. Mas chegando l\u00e1, estava o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> vivo controlando cautelosamente as chamas ao redor do que parecia ser a ra\u00edz de uma grande \u00e1rvore, cujo formato parecia de uma crian\u00e7a agachada brincando e o som do estalo da madeira ao fogo, lembrava o grito de uma crian\u00e7a. Al\u00e9m de ter um cheiro que lembrava o da gordura queimando. O <strong>vig\u00e1rio<\/strong> surpreso com a chegada dos guardas que o enchiam de perguntas, mas o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> pediu que esperassem enquanto nada respondeu ao que eles perguntavam, somente pegou sua moeda e voltou a jogar para cima. Ap\u00f3s tantos lan\u00e7amentos, o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> ent\u00e3o guardou a moeda e disse que j\u00e1 poderiam se retirar, pois se eles conseguiram chegar t\u00e3o f\u00e1cil at\u00e9 ali, ent\u00e3o era um sinal de que havia conseguido eliminar aquele mau.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ap\u00f3s sa\u00edrem do Pal\u00e1cio, vieram questionar o que havia ocorrido l\u00e1 dentro, mas o <strong>vig\u00e1rio<\/strong> disse que fazer uma narrativa sobre aquilo em detalhes somente traria mais confus\u00f5es e n\u00e3o serviria de nada a quem ouvisse. O caso enfim foi arquivado pelo <strong>vig\u00e1rio<\/strong> com o nome de Mestre da Casa de Bonecas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><strong>Sobre o post<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Esse \u00e9 um conto de fic\u00e7\u00e3o sobre uma criatura capaz de criar ilus\u00f5es a partir de seu imagin\u00e1rio. No caso, v\u00e1rios esp\u00f3lios das Cruzadas passaram por aquele Pal\u00e1cio, dentre eles, alguns que nunca deveria ter sa\u00eddo de seus locais de origem. A solu\u00e7\u00e3o papal para esse problema s\u00e9culos atr\u00e1s, foi selar com concreto em definitivo v\u00e1rios corredores do Pal\u00e1cio, o que n\u00e3o foi compreendido nem pelos pr\u00f3prios cardeais, e ficou interpretado como uma doen\u00e7a que atingiu o Pal\u00e1cio e estariam isolando o foco de origem, sem que houvesse mais claro o que aconteceu de fato. Mas com as reformas do rei, esses locais foram abertos, e os que tiveram contato com essas partes acabaram sendo afetados pelo poder dessa criatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O levantamento inicial de dados daqueles que passaram pelo Pal\u00e1cio, serviu para o vig\u00e1rio definir essa hip\u00f3tese e pensar em um m\u00e9todo para se discernir entre o real e a ilus\u00e3o. A ideia da moeda, j\u00e1 foi mencionada em outro post desse blog (<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2020\/01\/31\/como-se-tornar-um-mestre-em-pedra-papel-e-tesoura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Como se tornar um mestre em Pedra, Papel e Tesoura?<\/strong><\/a>), mas ela se baseia no fato de que imaginar a aleatoriedade \u00e9 de fato dif\u00edcil, para deixar mais claro, no livro \u201cEl azar en la vida cotidiana\u201d de Alberto Rojo, h\u00e1 um famoso experimento de aleatoriedade no qual um professor pede para um grupo de estudantes lan\u00e7ar 100 vezes uma moeda e anotar os resultados e para o outro grupo inventar 100 resultados para o lan\u00e7amento de uma moeda. Ap\u00f3s completarem as duas listas, sem que o professor saiba qual \u00e9 qual, entregam-no ambas. Ele ent\u00e3o analisa a quantidade de resultados iguais seguidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na primeira lista os resultados iguais seguidos variavam de 1 a 5. Enquanto na segunda lista os resultados iguais seguidos variavam de 1 a 8. Com isto o professor aposta que a segunda lista descreve os lan\u00e7amentos da moeda e a primeira lista foi inventada. Pois \u00e9 improv\u00e1vel em 100 lan\u00e7amentos n\u00e3o obtermos sequ\u00eancias de mais que 5 resultados iguais seguidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Seguindo essa mesma din\u00e2mica, o vig\u00e1rio em cada sala que entrava, ou em cada momento de d\u00favida sobre a realidade ou a ilus\u00e3o, se colocava a jogar uma moeda centenas de vezes. Analisando a quantidade de resultados iguais em sequ\u00eancia, conseguia arriscar em dizer se aquele &#8216;evento&#8217; de jogar moedas, foi real, ou foi uma ilus\u00e3o forjada pela criatura. Por isso seu avan\u00e7ar no Pal\u00e1cio era extramente lento, mas tamb\u00e9m lhe dava alguma seguran\u00e7a para dizer quando uma amea\u00e7a era real ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\">Cr\u00e9dito da imagem de capa a <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/parentrap-2161438\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1882997\">Jackie Ramirez<\/a> por <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1882997\">Pixabay<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-css-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-left eplus-wrapper\">Como referenciar este conte\u00fado em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023\/2018):<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Embate contra o Mestre da Casa de Bonecas. <em>In<\/em>: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. <strong><strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Zero &#8211; Blog de Ci\u00eancia da Unicamp<\/a><\/strong>. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/category\/v-5-ed-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Volume 5. Ed. 1. 1\u00ba semestre de 2021<\/a><\/strong>. Campinas, 09 maio 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2939\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2939\/<\/a>. Acesso em: &lt;data-de-hoje&gt;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma criatura que engana a todos com ilus\u00f5es quase perfeitas, mas elas s\u00e3o probabilisticamente falhas.<\/p>\n","protected":false},"author":434,"featured_media":2940,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[1217],"tags":[],"class_list":["post-2939","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-v-5-ed-1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/users\/434"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2939"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2939\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5296,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2939\/revisions\/5296"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2940"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}