{"id":3738,"date":"2022-02-28T13:42:56","date_gmt":"2022-02-28T16:42:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/?p=3738"},"modified":"2023-08-26T17:35:48","modified_gmt":"2023-08-26T20:35:48","slug":"a-casa-de-satoshi-kurosawa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/3738\/","title":{"rendered":"A Casa de Satoshi Kurosawa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" eplus-wrapper\">No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, um jovem artista viajava entre a It\u00e1lia e a Espanha atr\u00e1s de experi\u00eancias singulares. Dentre todos os lugares que visitou, nada foi t\u00e3o grandioso e ao mesmo tempo t\u00e3o perturbador quanto o local que ficou guardado em sua mem\u00f3ria como a <em>Casa de Satoshi Kurosawa<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Foi durante uma tarde de outono, quando sem nenhum aviso o sol foi coberto por uma s\u00fabita nevasca. As pressas se viu obrigado a procurar abrigo, com o c\u00e9u j\u00e1 escurecido avistou pr\u00f3ximo dali uma grande casa cuja arquitetura lembrava o oriente apesar de uma apar\u00eancia bastante singular, pois era uma constru\u00e7\u00e3o de com concreto pesado e portas s\u00f3lidas de madeira, no meio das estradas europ\u00e9ias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Embora a primeira vista tenha parecesse estranho, era na verdade somente peculiar para uma pessoa c\u00e9tica e centrada na raz\u00e3o. A explica\u00e7\u00e3o mais simples era que algu\u00e9m do oriente com recursos, construiu uma esp\u00e9cie de fortaleza ou castelo no meio da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O artista sabia um pouco de japon\u00eas e reconheceu a placa perto da entrada como escrito <em>Casa de Satoshi Kurosawa<\/em>. Estava escuro e o frio era aterrador, assim logo chamou em frente a constru\u00e7\u00e3o por abrigo para a tempestade. Sem resposta, bateu mais algumas vezes na porta quando a mesma se abriu como se n\u00e3o estivesse trancada. A porta revelava um c\u00f4modo simples, em formato de cubo com 4 paredes e outras tr\u00eas portas (uma no centro de parede). O artista gritou por algu\u00e9m antes de entrar, mas sem resposta entrou e tentou abrir outra porta, mas parecia trancada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">De fora vinha uma corrente de ar g\u00e9lida, ent\u00e3o fechou a porta por onde entrou e foi tentar abrir uma das outras duas portas. Percebeu que ap\u00f3s fechar a porta, a sala ficava sem nenhuma ilumina\u00e7\u00e3o externa exceto uma claridade leve com um tom azulado emitida pelas pr\u00f3prias paredes, pisos, tetos e portas. Como se elas tivessem uma fosforesc\u00eancia suave que emitissem aquela luz ex\u00f3tica. Ao encostar na porta da esquerda, a mesma estava destrancada e se abriu. O artista viu ent\u00e3o um outro c\u00f4modo de concreto com mais 3 portas, o c\u00f4modo era id\u00eantico \u00e0 esse em que estava. Achou estranho o fato de ter mais 3 portas, pois veio pela porta da frente e virou a esquerda, assim, se passasse novamente por uma porta \u00e0 esquerda terminaria do lado de fora da constru\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o tivesse visto mais do que uma entrada \u00e0 frente daquele lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Curioso pela constru\u00e7\u00e3o peculiar, passou pela porta, fechou-a e tentou abrir a porta da esquerda esperando encontrar-se do lado de fora da constru\u00e7\u00e3o, como qualquer pessoa com o m\u00ednimo de senso de dire\u00e7\u00e3o imaginaria. Mas ent\u00e3o o artista se assustou,ao ver outra sala com mais 3 portas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Dessa vez o artista n\u00e3o passou pela porta, e tentou voltar por onde veio na inten\u00e7\u00e3o de sair daquele lugar. Mas as outras tr\u00eas portas pareciam fechadas\u2026 em p\u00e2nico, encostou aquela porta aberta e foi tentar novamente voltar por onde veio e dessa vez estava aberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Voltando pela porta que passou, estava certo do caminho para retornar. Ao entrar na nova sala passaria pela porta da sua direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ap\u00f3s entrar nessa sala, bastaria ent\u00e3o abrir a porta \u00e0 sua direita e com isso teria percorrido o caminho inverso e chegaria na sa\u00edda daquela constru\u00e7\u00e3o. Mas como ele temia, ao abrir a porta se depara com mais uma sala id\u00eantica \u00e0quela, com outras 3 portas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A partir dai o p\u00e2nico tomou conta. Come\u00e7ou a passar pelas portas sem raciocinar. Queria logo achar a sa\u00edda, ou achar algu\u00e9m. Qualquer coisa, mesmo a tempestade seria melhor do que ficar mais tempo preso naquele lugar estranho e confuso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ficou claro durante essas tentativas que apenas uma porta podia ser aberta de cada vez. Para outra porta se abrir, a primeira teria que fechar-se. Tamb\u00e9m entendeu que haviam portas que n\u00e3o se abriam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mesmo percorrendo v\u00e1rias salas id\u00eanticas, come\u00e7ou a notar que haviam marcas dos seus sapatos pelo ch\u00e3o, indicando que de alguma forma j\u00e1 tinha passado por ali antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Depois de tentar exaustivamente achar uma sa\u00edda, se deu conta que n\u00e3o fazia a m\u00ednima ideia da dire\u00e7\u00e3o a seguir. Sentia que aquele m\u00e9todo n\u00e3o estava sendo eficaz e que o cansa\u00e7o come\u00e7ava a bater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Sentou-se para comer algo que carregava na sua bolsa de viagem. Por\u00e9m sentiu o sabor dos alimentos meio velhos, n\u00e3o estavam estragados, mas tamb\u00e9m n\u00e3o esperava que ficassem assim velhos e murchos tendo feito t\u00e3o pouco tempo desde que os comprou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Alimentado come\u00e7ou a pensar no local em que estava. Deveria ter algum sentido aquele movimento entre salas, sen\u00e3o n\u00e3o teria voltado a alguma das salas em que j\u00e1 passou (dado as marcas de sapato observadas no piso). Pegou uma prancheta e come\u00e7ou a desenhar as salas e com um giz de desenho marcou o local em que estava com um n\u00famero ent\u00e3o seguiu a atravessar as portas. A cada sala em que passava, marcava um n\u00famero, at\u00e9 que chegou numa sala com um n\u00famero j\u00e1 marcado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A partir da\u00ed come\u00e7ou a fazer outros movimentos para entender como funcionava aquela geometria peculiar. Era algo realmente divertido, mal imaginava contar sobre aquele lugar, n\u00e3o sabia bem para quem contar, mas certamente seria a hist\u00f3ria mais louca que qualquer um j\u00e1 ouviria. Mesmo ele, sendo c\u00e9tico, n\u00e3o conseguia conter seu \u00e2nimo e felicidade ao ter encontrado algo inexplic\u00e1vel. Todo seu medo foi convertido em entusiasmo, rascunhando um mapa, as coisas come\u00e7avam a ficar mais claras. Sentia ter encontrado algo fant\u00e1stico e que merecia ser explorado com muita aten\u00e7\u00e3o. Inclusive por influ\u00eancia de seu pai engenheiro, se entendia relativamente bem com c\u00e1lculos e rapidamente determinou como o movimento naquele espa\u00e7o ocorria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Se chamasse cada porta de um ponto cardeal (Norte, Sul, Leste, Oeste) e considerasse as 8 salas ao seu redor (Norte, Nordeste, Leste, Sudeste, Sul, Sudoeste, Oeste, Noroeste), ent\u00e3o conseguia descrever seu movimento como:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Porta Norte \u2192 leva para \u2192 Porta Leste da sala Sudoeste<br>Porta Leste \u2192 leva para \u2192 Porta Leste da sala Leste<br>Porta Sul \u2192 leva para \u2192 Porta Sul da sala Norte<br>Porta Oeste \u2192 leva para \u2192 Porta Sul da sala Nordeste<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image \">\n<figure class=\"aligncenter size-full eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"587\" height=\"545\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2022\/02\/07-invertido.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3739\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2022\/02\/07-invertido.png 587w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2022\/02\/07-invertido-300x279.png 300w\" sizes=\"(max-width: 587px) 100vw, 587px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Inclusive as portas trancadas, considerava que fosse na verdade portas que n\u00e3o poderiam ser atravessadas, sen\u00e3o levariam para al\u00e9m do limite da constru\u00e7\u00e3o. Deduzia haver apenas uma sa\u00edda e entrada. Embora ainda n\u00e3o fizesse a m\u00ednima ideia de como chegar at\u00e9 l\u00e1 ou como um lugar desse tipo possa existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">At\u00e9 que a ponta de seu l\u00e1pis quebrou e foi apont\u00e1-lo com o estilete. Ansioso e com pressa para melhorar seu esbo\u00e7o de mapa, acabou se cortando com a l\u00e2mina. Pingou um pouco de sangue no ch\u00e3o e no papel, mas logo segurou o corte com um len\u00e7o e voltou a trabalhar no mapa agora em uma folha bem maior apoiada no piso da sala. Os \u00e2nimos estavam aflorados, at\u00e9 o momento em que foi comer mais alguma coisa e sentiu o gosto do alimento passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O que havia levado na bolsa estava agora podre. Achou estranho, apoiou a folha no ch\u00e3o para procurar algo na bolsa que n\u00e3o estivesse apodrecido. Somente algumas castanhas apesar de murchas pareciam com\u00edveis. Mexendo de novo no mapa, viu que aquela mancha de sangue havia reduzido bastante. No ch\u00e3o n\u00e3o localizava as gotas que pingaram. Sem entender, quis continuar no mapa, mas algo lhe inquietava seu lado c\u00e9tico, um mal pressentimento lhe dizia para fazer um teste a mais, apenas por garantia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Certificou-se de que o ch\u00e3o era s\u00f3lido, sem porosidades. Ent\u00e3o soltou o len\u00e7o e for\u00e7ou um pouco o corte para que uma gota pingasse no ch\u00e3o. Ela caiu, e logo foi puxada pelo piso. Passou a m\u00e3o no local, e estava limpo, repetiu o experimento, e depois fez o mesmo com saliva. Mas a saliva permanecia no local, apenas o sangue era puxado pelo ch\u00e3o. Levantou-se assustado, e come\u00e7ou a lembrar das hist\u00f3rias de vampiro que j\u00e1 tinha lido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Fez o experimento da gota numa parede e ocorria a mesma coisa. Imediatamente a gota sumia. O mesmo na porta. Parecia precipitado dizer isso, mas aquela constru\u00e7\u00e3o inteira se comportava como um vampiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Come\u00e7ava a pensar que aquele fosse o motivo de seus mantimentos estragarem t\u00e3o r\u00e1pido. N\u00e3o sabia dizer o que ocorreria se viesse a pegar no sono ali. Talvez suas for\u00e7as fossem sugadas gradativamente, at\u00e9 que nunca mais acordasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Pega seu mapa e se p\u00f5e de p\u00e9, ent\u00e3o come\u00e7a a caminhar de modo a percorrer onde estariam todas as portas em contato com a fronteira da constru\u00e7\u00e3o (portas trancadas). Pois uma delas, que leva \u00e0 sa\u00edda, deveria estar destrancada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Foi um trajeto longo, a cada sala que passava, marcava uma numera\u00e7\u00e3o com giz, mas sentia como se seu corpo estivesse sucumbindo, com dores nas articula\u00e7\u00f5es e precisando respirar cada vez com maior esfor\u00e7o, era como se algo puxasse suas energias. N\u00e3o sabia dizer se era psicol\u00f3gico, se era natural ou se era a casa. Mas acreditava fielmente que a casa era a respons\u00e1vel por aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Seu mapa tinha v\u00e1rios pontos inexplorados e pelas suas estimativas a casa toda deveria ter mais de 400 salas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ap\u00f3s muitas tentativas, come\u00e7ava a temer a ideia de ter cometido algum equ\u00edvoco no seu mapa, ou ter pego algum caminho errado. Mas insistia que deveria terminar os testes antes de rever os procedimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ent\u00e3o uma das portas se abre e vislumbra a sa\u00edda. Ainda era de noite, mas a nevasca tinha passado, sua vontade inicial era sair dali o quanto antes. Mas agora se sente mais seguro com rela\u00e7\u00e3o ao seu mapa. De p\u00e9 frente a porta, respira o ar de fora e parece que sua energia vital come\u00e7a a se restaurar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Uma voz no seu subconsciente grita para que ele saia dali, mas outra lhe instiga a completar o mapa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Quase colocando o p\u00e9 para fora, decide voltar e completar o mapa, passando por todas as salas e testando todas as portas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Suas juntas voltaram a doer, sua respira\u00e7\u00e3o voltou a ficar pesada, mas a teimosia da juventude lhe era mais forte. De modo que insiste em percorrer as salas restantes. Testa todas as portas e caminha por todas as salas, at\u00e9 que houvesse uma marca em cada uma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Com o mapa pronto, estava ofegante, suando e com uma exaust\u00e3o extrema. Olhando seu mapa, mesmo com dor de cabe\u00e7a e morto de cansa\u00e7o, determina o menor caminho para a sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ao chegar na sala que levaria \u00e0 sa\u00edda, abre a porta esperando novamente encontrar com o exterior, mas com medo de ver uma nova sala, talvez uma sala vazia com apenas uma porta e a sombra do pr\u00f3prio <em>Satoshi Kurosawa<\/em> em seu centro. Uma sala que fosse uma li\u00e7\u00e3o para ele aprender a n\u00e3o ignorar a sa\u00edda na sua primeira vez, e que agora deveria ficar preso ali para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Muitos pensamentos obscuros vinham em sua dire\u00e7\u00e3o, medo, ang\u00fastia, sofrimentos, mem\u00f3rias do passado e preocupa\u00e7\u00f5es diversas. Mas chegando na porta final, uma alegre decep\u00e7\u00e3o, pois ap\u00f3s abrir encontrou apenas a claridade da lua que iluminava a grama e o horizonte. Sua energia vital parecia retornar gradativamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Estava feliz de sair, por\u00e9m de certo modo decepcionado por n\u00e3o encontrar um <em>grand finale<\/em>. Algum \u00faltimo desafio, uma surpresa tal como a literatura in\u00fameras vezes apresenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ainda em d\u00favida sobre deixar tudo aquilo para tr\u00e1s, solta o len\u00e7o de sua m\u00e3o e for\u00e7a para seu corte se abrir um pouco mais e respingar sangue naquela divis\u00f3ria que separa a <em>Casa de Satoshi Kurosawa<\/em> do mundo exterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Seu sangue na parte de dentro da casa em contato com o piso desaparecia imediatamente. Mas do lado de fora, era como se nada ocorresse. \u00c9 como se o vampiro que era aquele lugar n\u00e3o tivesse poder em contato com o exterior, e ele pr\u00f3prio fosse o interior da casa. Pois mesmo a parede externa ou o lado de fora da porta da entrada, n\u00e3o vinha a absorver o sangue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O artista estava alegre de ter sobrevivido \u00e0quilo, por\u00e9m triste de ter terminado de forma t\u00e3o pacata. Em um gesto de solenidade, junta suas m\u00e3os e se curva para cumprimentar <em>Satoshi Kurosawa<\/em> e agradece \u00e0 experi\u00eancia que sua casa lhe proporcionou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Afastando-se da entrada, manteve a porta aberta com o aux\u00edlio de uma pedra grande que havia ali perto, por um receio da porta fechar-se sozinha e a casa inteira desaparecer frente aos seus olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ao longe ficou fazendo esbo\u00e7os do local em que esteve, visto de fora, at\u00e9 que come\u00e7ou a nascer o sol. E o local que estava ali come\u00e7ou a ser atingido pela luz do sol. Atrav\u00e9s daquela porta aberta presa com a pedra, os raios de sol come\u00e7avam a atingir e passar pela casa, aos poucos a casa inteira come\u00e7ou a desaparecer, de dentro para fora, como se fosse uma sombra que na presen\u00e7a da luz deixa de existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Correu para onde estava a casa, baseado na pedra que deixou no ch\u00e3o. Caminhando onde a casa estava, encontrou pequenos vest\u00edgios de sua presen\u00e7a ali, um pouco de p\u00f3 de giz de suas tantas numera\u00e7\u00f5es realizadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Vendo os primeiros raios de sol entendeu que era realmente um vampiro, um ser de trevas e que tentou lhe matar, ou melhor, se alimentar de sua vitalidade. Mas que agora parecia ter desaparecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Voltou para a cidade e naquele fim de tarde retornou ao local, mas nada encontrou. Mesmo ap\u00f3s anoitecer, esperou e retornou outros dias. Come\u00e7ou a pesquisar sobre a regi\u00e3o, e parecia haver casos de pessoas desaparecidas naquele local. Sempre o mesmo padr\u00e3o, um viajante solit\u00e1rio que n\u00e3o chegava ao seu destino tendo passado por ali. Procurou pelo nome de <em>Satoshi Kurosawa<\/em>, mas era um nome comum, n\u00e3o parecia haver nada de peculiar que ligasse algu\u00e9m com este nome \u00e0quele lugar na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Tentou entender o que havia acontecido, se aquela entidade viria a aparecer de novo. Mas nada ocorreu. Procurou registrar todas suas mem\u00f3rias, at\u00e9 mesmo retornar l\u00e1 na mesma data no ano seguinte, mas o local parecia leve, como se aquele ser sombrio tivesse deixado esse mundo. Ent\u00e3o se d\u00e1 conta de que possa t\u00ea-lo realmente matado\u2026 que aquela pedra, colocada para impedir a porta de fechar-se foi a respons\u00e1vel pela morte daquele ser. Aquilo talvez impediu a <em>Casa de Satoshi Kurosawa<\/em> de erguer suas defesas contra o sol, e uma vez que a luz do sol acertou o interior da criatura, provavelmente a matou por dentro. Isso faz sentido com sua mem\u00f3ria, de ver a constru\u00e7\u00e3o se desfazendo de dentro para fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O artista ent\u00e3o se viu entristecido, pois foi o respons\u00e1vel ainda que de forma incosciente, pela morte de uma criatura \u00fanica. Isso o envergonhava, pois mesmo que a criatura tivesse tentado devor\u00e1-lo, ela era maravilhosa e sua v\u00e3 curiosidade humana a fez deixar de existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ap\u00f3s voltar a sociedade, o artista decidiu trazer um pouco das suas experi\u00eancias e mem\u00f3rias com a criatura para seus trabalhos. Isso foi poss\u00edvel de forma parcial gra\u00e7as a truques de perspectivas. As pessoas ficavam espantadas ao ver seus quadros, verdadeiros labirintos que pareciam n\u00e3o fazer o m\u00ednimo sentido na usual geometria espacial euclidiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mas tudo aquilo era uma forma de ressentir-se pelo que fez \u00e0quele ser. Uma forma de deixar sua exist\u00eancia complexa que contrariava a geometria euclidiana, marcada para a hist\u00f3ria e compartilhando com o p\u00fablico uma not\u00e1vel admira\u00e7\u00e3o por esta extinta exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><strong>Sobre o post<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Este \u00e9 um conto de fic\u00e7\u00e3o para divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como outros j\u00e1 publicados neste blog (<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2021\/04\/18\/caca-ao-vampiro-no-expresso-do-oriente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ca\u00e7a ao vampiro no Expresso do Oriente<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2021\/04\/20\/cerco-a-ultima-besta-de-gevaudan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cerco \u00e0 \u00faltima Besta de G\u00e9vaudan<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2021\/05\/03\/ataque-ao-vampiro-invasor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ataque ao vampiro invasor<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2021\/05\/09\/embate-contra-o-mestre-da-casa-de-bonecas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Embate contra o Mestre da Casa de Bonecas<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2021\/07\/23\/o-doppelganger\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Doppelg\u00e4nger<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2021\/09\/18\/o-desafio-na-porta-do-abismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O desafio na porta do abismo<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Vamos ent\u00e3o aos temas que este conto permite discutirmos. Primeiro e talvez o mais \u00f3bvio de todos, \u00e9 relacionado \u00e0 Geometria Euclidiana. Vejam que a estrutura com que o protagonista se movia atrav\u00e9s da <em>Casa de Satoshi Kurosawa<\/em> n\u00e3o preservava a propriedade comutativa da soma de movimentos. Por exemplo, avan\u00e7ar para o Norte e para o Leste \u00e9 diferente de avan\u00e7ar para o Leste e para o Norte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Outra caracter\u00edstica que esse ambiente de geometria singular apresentava, \u00e9 a aus\u00eancia de movimentos opostos. Ou seja, avan\u00e7ar para o Norte n\u00e3o \u00e9 o oposto que avan\u00e7ar para o Sul. Realizar estes dois movimentos ent\u00e3o n\u00e3o retorna ao local de origem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ainda assim, conhecendo as regras desta geometria diferente, \u00e9 poss\u00edvel tal como o personagem fez, construir opera\u00e7\u00f5es que nos permitam encontrar determinar rotas dentro deste ambiente. Parece uma coisa meio estranha, mas geometrias singulares s\u00e3o mais comuns do que imaginamos, basta pensarmos no nosso pr\u00f3prio sistema de tr\u00e2nsito. Se o local no qual voc\u00ea precisa chegar com o carro est\u00e1 localizado na pr\u00f3xima rua \u00e0 esquerda, n\u00e3o necessariamente podemos simplesmente virar a esquerda na pr\u00f3xima rua, pois pode ser uma curva proibida de ser feita, ou mesmo pode ser uma rua contra-m\u00e3o \u00e0 dire\u00e7\u00e3o em que estamos seguindo. Para resolver isto, precisamos seguir por ruas e curvas permitidas, fazendo trajet\u00f3rias maiores do que simplesmente se segu\u00edssemos \u00e0 p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Outra quest\u00e3o que este post trata \u00e9 relacionado ao m\u00e9todo investigativo. Pois o protagonista a princ\u00edpio acreditava estar num labirinto, mas notando a deteriora\u00e7\u00e3o dos seus alimentos e a aus\u00eancia do sangue no ch\u00e3o, come\u00e7ou a levantar hip\u00f3teses do que aquilo poderia ser. Fazendo experimentos com diferentes materiais (saliva e sangue) que refor\u00e7aram sua teoria de que a constru\u00e7\u00e3o toda era um vampiro. Realizando inclusive experimentos na parte exterior da constru\u00e7\u00e3o para compreender o comportamento daquela casa\/criatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Contudo, se engana quem pensava que este era um conto de terror, muito menos de her\u00f3is&#8230; o terceiro ponto e diria que o mais importante que este conto traz, \u00e9 relacionado \u00e0 \u00e9tica em pesquisa. Pois para come\u00e7ar o protagonista ap\u00f3s achar a sa\u00edda pela primeira vez, decidiu colocar em risco sua pr\u00f3pria vida para completar o estudo sobre o interior da casa\/criatura (isso quase o matou). Mas ap\u00f3s sair da casa, bloqueou sua porta de fechar-se com uma pedra e ficou observando a criatura. Como j\u00e1 havia constatado, a parte exterior dela n\u00e3o parecia absorver sangue, e ao chegar os primeiros raios de sol, a parte exterior se mantinha inteira. O problema, \u00e9 que com a porta aberta, os raios de sol atingiram o seu interior, que era a parte &#8220;vamp\u00edrica&#8221;, e essa sim, era vulner\u00e1vel ao sol. Por esta raz\u00e3o, a casa\/criatura morreu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Embora pare\u00e7a razo\u00e1vel dizer que a casa\/criatura queria matar o protagonista, o mesmo j\u00e1 estava a salvo e seguro fora dela. Mas sua curiosidade em seguir o experimento, em mant\u00ea-la aberta a for\u00e7a enquanto observava e estudava o objeto, resultou em sua destrui\u00e7\u00e3o. Seria uma situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga a encontrar um animal marinho singular que veio das profundezas do oceano. Embora ele possa ter muitos dentes e ter tentado te devorar, ap\u00f3s escapar dele e restringir seus movimentos, a pessoa permanece com ele na superf\u00edcie at\u00e9 que ele n\u00e3o resista a temperatura\/press\u00e3o\/atmosfera ou qualquer outro aspecto, e venha a morrer. A criatura de fato n\u00e3o tinha culpa de querer matar o protagonista, \u00e9 assim que ela se alimenta&#8230; mas ap\u00f3s escapar, o protagonista veio a causar sua morte, o que \u00e9 de fato uma l\u00e1stima, afinal, aquele ser era \u00fanico e a falta de cuidado com o estudo, o destruiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Pode parecer que esta li\u00e7\u00e3o seja mais para a \u00e1rea da biologia, que envolve animais com dentes&#8230; mas n\u00e3o. Essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o sobre \u00e9tica em pesquisa no geral. De termos um cuidado com nossos objetos de estudos quando os mesmos s\u00e3o seres vivos. Isto inclui inclusive as pesquisas nas \u00e1reas sociais com seres humanos. N\u00e3o \u00e9 tudo que consideramos irris\u00f3rio e inofensivo (como aquela pedra segurando a porta) que de fato \u00e9. Assim, como pesquisadores, cabe esta aten\u00e7\u00e3o para refletirmos sobre o quanto nosso estudo pode de algum modo lesionar nosso objeto de estudo. Podem ser perguntas, entrevistas, question\u00e1rios, exposi\u00e7\u00f5es a conte\u00fados, jogos, v\u00eddeos, \u00e1udios &#8230; as coisas mais variadas, que certamente &#8220;n\u00e3o nos machuca&#8221;, que podem gerar s\u00e9rios danos no outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><em>Espero que tenha gostado deste conto e dessas reflex\u00f5es, ser\u00e1 que voc\u00ea consegue descobrir o nome do protagonista deste conto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-css-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-left eplus-wrapper\">Como referenciar este conte\u00fado em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023\/2018):<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. A Casa de Satoshi Kurosawa. <em>In<\/em>: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. <strong><strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Zero &#8211; Blog de Ci\u00eancia da Unicamp<\/a><\/strong>. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/category\/v-7-ed-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Volume 7. Ed. 1. 1\u00ba semestre de 2022<\/a><\/strong>. Campinas, 28 fev. 2022. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/3738\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/3738\/<\/a>. Acesso em: &lt;data-de-hoje&gt;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 um gigantesco vampiro, em forma de labirinto n\u00e3o-euclidiano. 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