{"id":3807,"date":"2022-04-29T15:45:44","date_gmt":"2022-04-29T18:45:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/?p=3807"},"modified":"2023-08-26T17:38:26","modified_gmt":"2023-08-26T20:38:26","slug":"existe-sim-traducao-100-mas-ela-e-inutil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/3807\/","title":{"rendered":"Existe sim tradu\u00e7\u00e3o 100%, mas ela \u00e9 in\u00fatil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" eplus-wrapper\">Hoje no curso de forma\u00e7\u00e3o de blogueiros do Blogs de Ci\u00eancias, veio uma frase que certamente trouxe-me algum inc\u00f4modo. Dizer que n\u00e3o existe uma tradu\u00e7\u00e3o 100%, e que toda tradu\u00e7\u00e3o envolve uma interpreta\u00e7\u00e3o, logo, o conte\u00fado traduzido \u00e9 modificado. Contudo, tradu\u00e7\u00f5es 100% existem, basta que exista uma bije\u00e7\u00e3o entre cada palavra de um idioma para o outro, ou seja, para cada palavra de um determinado idioma existe uma \u00fanica palavra de um outro idioma que remeta a este mesmo significado. Vou dar um exemplo de quando isso n\u00e3o ocorre. Pegue por exemplo a palavra Jogar, e pensemos em traduzi-la para o Ingl\u00eas, temos throw (lan\u00e7ar) ou play (jogar um jogo). Ou seja, para uma palavra do dom\u00ednio (no Portugu\u00eas) \u201cjogar\u201d, temos 2 elementos no contra-dom\u00ednio \u201cthrow\u201d e \u201cplay\u201d, isso significa que a tradu\u00e7\u00e3o do Portugu\u00eas para o Ingl\u00eas n\u00e3o \u00e9 injetora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Contudo, a tradu\u00e7\u00e3o do Portugu\u00eas para o Ingl\u00eas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sobrejetora, pois pegamos a palavra \u201cbrincar\u201d, ao traduzi-la, temos a palavra \u201cplay\u201d, que vimos no par\u00e1grafo anterior como referente ao \u201cjogar\u201d. Ou seja, essa bije\u00e7\u00e3o para o Portugu\u00eas e o Ingl\u00eas, n\u00e3o ocorre. Mas se pensarmos, podemos criar uma tradu\u00e7\u00e3o bijetora, ou seja, todas as palavras de um idioma serem associadas de forma \u00fanica com um outro idioma, da\u00ed sim, ter\u00edamos uma tradu\u00e7\u00e3o totalmente perfeita\u2026 mas isso \u00e9 in\u00fatil e vou explicar porque. O idioma tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, particularidades, que praticamente s\u00e3o determinados pela cultura e caracter\u00edsticas daquela regi\u00e3o, isso faz com que o idioma seja algo vivo e que fa\u00e7a sentido para aquela popula\u00e7\u00e3o. Se pensarmos em dois idiomas com essa bije\u00e7\u00e3o, teremos na verdade um mesmo idioma com duas pron\u00fancias diferentes\u2026 ou seja, seria um mesmo idioma com duas pron\u00fancias, escritas e leituras diferentes para o mesmo conjunto de palavras, e se isso n\u00e3o tem benef\u00edcio algum (por n\u00e3o incorporar um regionalismo ou caracter\u00edsticas daquela popula\u00e7\u00e3o), isso poderia ser simplesmente ignorado \ud83d\ude42<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mas o que seria essa tal de tradu\u00e7\u00e3o 100%? Ent\u00e3o, se nos atermos a aspetos po\u00e9ticos\/r\u00edtmicos\/sonoros da l\u00edngua, certamente a tradu\u00e7\u00e3o seria 100% somente se todas as palavras fossem exatamente id\u00eanticas a do outro idioma, logo, sequer seria necess\u00e1ria uma tradu\u00e7\u00e3o. Agora, se desconsiderarmos estes aspectos podemos rapidamente construir um Portugu\u00eas.2 cuja tradu\u00e7\u00e3o seja 100%, curioso para saber como ele seria? Ent\u00e3o, vamos inserir um &#8220;Da&#8221; antes de qualquer palavra deste idioma. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Texto em Portugu\u00eas.1:<\/strong> <em>O projeto Blogs de Ci\u00eancia da Unicamp re\u00fane pesquisadores, professores e alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Universidade, com o objetivo de promover uma ferramenta pr\u00e1tica e amig\u00e1vel como proposta de canal de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Texto em Portugu\u00eas.1 traduzido para Portugu\u00eas.2:<\/strong><em> Dao daprojeto <em>D<\/em>ablogs<em> d<\/em>ade Daci\u00eancia<em> d<\/em>ada <em>D<\/em>aunicamp <em>d<\/em>are\u00fane dapesquisadores, daprofessores dae daalunos dade dap\u00f3s-dagradua\u00e7\u00e3o dada Dauniversidade, dacom dao daobjetivo dade dapromover dauma daferramenta dapr\u00e1tica dae faamig\u00e1vel dacomo daproposta dade dacanal dade dadivulga\u00e7\u00e3o dacient\u00edfica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Pronto, temos um texto originalmente escrito em Portugu\u00eas.1 traduzido sem nenhuma perda para Portugu\u00eas.2.  Vamos complicar um pouco mais (sim ou claro?)&#8230; que tal criarmos um Portugu\u00eas.3, que nada mais \u00e9 o acr\u00e9scimo de &#8220;s&#8221; ao final de cada palavra, vejamos como fica:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Texto em Portugu\u00eas.1 traduzido para Portugu\u00eas.3:<\/strong> <em>Os projetos Blogss des Ci\u00eancias das Unicamps re\u00fanes pesquisadoress, professoress es alunoss des p\u00f3ss-gradua\u00e7\u00e3os das Universidades, coms os objetivos des promovers umas ferramentas pr\u00e1ticas es amig\u00e1vels comos propostas des canals des divulga\u00e7\u00e3os cient\u00edficas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Talvez agora pare\u00e7a haver alguma confus\u00e3o sem\u00e2ntica, afinal, temos palavras que agora aparentemente d\u00e3o conflito com o plural? Mas fique na paz, pois este conflito \u00e9 apenas aparente, nas situa\u00e7\u00f5es em que isso parece ocorrer, como em &#8220;Os projetos&#8221; ou &#8220;umas ferramentas pr\u00e1ticas&#8221;, temos que nos ater exatamente \u00e0 que idioma estamos considerando? Lembra do que falamos sobre os idiomas serem 100% traduz\u00edveis se houver uma bije\u00e7\u00e3o entre suas palavras? Vamos ver o que ocorre nestes pontos de suposto conflito:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-table is-style-material\"><div class=\"mdc-data-table\"><table class=\"mdc-data-table__table\"><tbody class=\"mdc-data-table__content\"><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\"><strong>Portugu\u00eas.1<\/strong><\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\"><strong>Portugu\u00eas.3<\/strong><\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">O<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Os<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Os<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Oss<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Projeto<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Projetos<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Projetos<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Projetoss<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Uma<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Umas<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Umas<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Umass<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Ferramenta<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Ferramentas<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Ferramentas<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Ferramentass<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Pr\u00e1tica<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Pr\u00e1ticas<\/td><\/tr><tr class=\"mdc-data-table__row\"><td class=\"mdc-data-table__cell\">Pr\u00e1ticas<\/td><td class=\"mdc-data-table__cell\">Pr\u00e1ticass<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Com este quadro, podemos ver que para cada palavra do Portugu\u00eas.1 existe uma \u00fanica palavra em Portugu\u00eas.3 que seja correspondente, e tamb\u00e9m que todas as palavras em Portugu\u00eas.3 est\u00e3o associadas \u00e0 Portugu\u00eas.1. Com isso, podemos dizer que existe uma bije\u00e7\u00e3o entre Portugu\u00eas.1 e Portugu\u00eas.3, ou seja, a tradu\u00e7\u00e3o entre estes dois idiomas ocorre sem perdas. Mas ai voc\u00ea pode estar pensando, como ficaria a tradu\u00e7\u00e3o de Portugu\u00eas.3 para Portugu\u00eas.2? Dever\u00edamos inserir um &#8220;da&#8221; no come\u00e7o de &#8220;<em>promovers<\/em>&#8220;? Ficaria dapromovers? Errado!<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Precisamos nos ater que a palavra &#8220;dapromover&#8221; existe em Portugu\u00eas.2 e t\u00eam o significado de &#8220;promover&#8221;, contudo, a palavra &#8220;dapromovers&#8221; n\u00e3o existe em Portugu\u00eas.2, pois sen\u00e3o ela teria que ter o significado de &#8220;promovers&#8221;. Ent\u00e3o, para traduzir um texto de Portugu\u00eas.3 para Portugu\u00eas.2 precisamos al\u00e9m de adicionar &#8220;da&#8221; ao come\u00e7o de cada palavra, remover &#8220;s&#8221; ao final de cada palavra. Ou seja, temos novamente uma bije\u00e7\u00e3o entre Portugu\u00eas.3 e Portugu\u00eas.2. Mas isso j\u00e1 era de se esperar, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Afinal, se existe uma bije\u00e7\u00e3o entre Portugu\u00eas.1 e Portugu\u00eas.2, e entre Portugu\u00eas.1 e Portugu\u00eas.3, deve haver tamb\u00e9m uma bije\u00e7\u00e3o entre Portugu\u00eas.3 e Portugu\u00eas.2. Nesse sentido, podemos afirmar que a tradu\u00e7\u00e3o de Portugu\u00eas.3 para Portugu\u00eas.2 tamb\u00e9m ocorre sem nenhuma perda \ud83d\ude42<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\">Divertido, n\u00e3o acha?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-css-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-left eplus-wrapper\">Como referenciar este conte\u00fado em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023\/2018):<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Existe sim tradu\u00e7\u00e3o 100%, mas ela \u00e9 in\u00fatil. <em>In<\/em>: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. <strong><strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Zero &#8211; Blog de Ci\u00eancia da Unicamp<\/a><\/strong>. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/category\/v-7-ed-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Volume 7. Ed. 1. 1\u00ba semestre de 2022<\/a><\/strong>. Campinas, 29 abr. 2022. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/3807\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/3807\/<\/a>. Acesso em: &lt;data-de-hoje&gt;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembra o que s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es bijetoras? Vamos precisar disso para tratarmos de tradu\u00e7\u00f5es 100%.<\/p>\n","protected":false},"author":434,"featured_media":3810,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[1222],"tags":[],"class_list":["post-3807","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-v-7-ed-1"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-content\/uploads\/sites\/187\/2022\/04\/dictionary-g038f56017_1920.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/users\/434"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3807"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3807\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5335,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3807\/revisions\/5335"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3810"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}