{"id":4641,"date":"2022-09-12T18:32:07","date_gmt":"2022-09-12T21:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/?p=4641"},"modified":"2023-08-26T19:47:01","modified_gmt":"2023-08-26T22:47:01","slug":"subconjuntos-e-subgrupos-no-lampiao-da-esquina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/4641\/","title":{"rendered":"Subconjuntos e subgrupos no Lampi\u00e3o da Esquina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" eplus-wrapper\">Esta semana li um excelente artigo escrito pela da minha amiga historiadora Gabri Simionato, chamado &#8220;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/ran\/article\/view\/188267\/181286\" target=\"_blank\">\u00c0 margem da luz do lampi\u00e3o: travestis, bonecas e bichas loucas no Lampi\u00e3o da Esquina (1978-1981)<\/a>&#8220;. Foi uma leitura bem interessante, pois trata de um jornal publicado entre 1978 e 1981, per\u00edodo em que o Brasil passava pela ditadura militar, e diversos posicionamentos diferentes do &#8220;padr\u00e3o&#8221; pelo grupo dominante, eram reprimidos atrav\u00e9s da for\u00e7a. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o me foi nada surpreendente que este conflito existisse, e que utilizassem de m\u00e9todos violentos para suprimir o elo mais fraco. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mas Gabri Simionato traz uma quest\u00e3o bastante curiosa, sobre os prop\u00f3sitos pelos quais um jornal como Lampi\u00e3o na Esquina foi &#8220;oficialmente&#8221; veiculado, como e porque isto ocorreu, al\u00e9m de quais serem as vertentes que ele &#8220;dizia&#8221; atender e quais realmente demonstrava atender. \u00c9 uma leitura bastante rica em detalhes recortados das cartas de leitores, e de outros historiadores que discutiram este ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, sendo assim, n\u00e3o darei muitos spoilers para n\u00e3o estragar a divers\u00e3o de quem ainda pretende ler :3<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O mais legal de todo esse texto (legal no sentido de surpreendente, embora o pr\u00f3prio evento seja tr\u00e1gico), \u00e9 ver como os conflitos entre as partes proporcionava um enfraquecimento no que podemos enxergar hoje como uma &#8220;causa comum&#8221;. No caso, para quem era &#8220;de fora&#8221; e contr\u00e1rio a estas causas, todos nela eram por assim dizer, iguais. Mas dentro da causa, os pr\u00f3prios integrantes se diferenciavam com certa frequ\u00eancia, se hostilizando em aparentes tentativas de melhor posicionarem-se em rela\u00e7\u00e3o aos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Esse texto me fez refletir que para al\u00e9m dos aspectos sociais, esta situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos permite falar de dois conceitos matem\u00e1ticos usualmente confundidos na l\u00edngua comum, Conjuntos e Grupos. Apesar de na l\u00edngua comum n\u00e3o aplicarmos muita distin\u00e7\u00e3o a estas duas palavras, na matem\u00e1tica estes termos possuem sentidos diferentes:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"eplus-wrapper wp-block-list\">\n<li class=\" eplus-wrapper\">Conjuntos s\u00e3o cole\u00e7\u00f5es de elementos<\/li>\n\n\n\n<li class=\" eplus-wrapper\">Grupos s\u00e3o conjuntos de elementos associados a uma opera\u00e7\u00e3o que combina dois elementos quaisquer para formar um terceiro<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Assim, todo Grupo \u00e9 tamb\u00e9m um Conjunto, mas nem todo Conjunto \u00e9 um Grupo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Exemplos de conjuntos s\u00e3o muito simples: o conjunto dos objetos acima da minha mesa (notebook, garrafa t\u00e9rmica, celular, b\u00edblia, mel, pano de prato). Acabo de perceber que preciso de uma x\u00edcara e uma colher para tomar ch\u00e1, mas estes dois elementos n\u00e3o fazem parte deste conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Exemplos de grupos s\u00e3o um pouco mais dif\u00edceis de serem formulados concretamente, pois precisamos pensar em conjuntos cujos elementos podem ser combinados a partir de uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o de modo a gerar um outro elemento daquele conjunto. Um exemplo disso pode ser o grupo dos sabores de gelatinas (j\u00e1 discuti um pouco sobre gelatinas no post <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/2907\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">31 receitas com 5 gelatinas<\/a>), onde a partir de qualquer combina\u00e7\u00e3o entre sabores de gelatina, estaremos ainda no conjunto dos sabores de gelatina. Infelizmente isso pode envolver a deliciosa gelatina de manga com lim\u00e3o e uva. Outro exemplo de grupo, n\u00e3o t\u00e3o t\u00f3xico pro est\u00f4mago, s\u00e3o as cores (se pensarmos num sistema como RGB), qualquer mistura de cores estaria ainda dentro deste mesmo espectro de varia\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">J\u00e1 um exemplo de conjunto que n\u00e3o \u00e9 grupo, s\u00e3o os objetos na minha mesa. Seria dif\u00edcil unir a garrafa t\u00e9rmica ao mel e formar o celular XD.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\"><strong>Mas como estas quest\u00f5es se relacionam com o texto sobre o jornal Lampi\u00e3o na Esquina?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ora, vejamos como uma diferen\u00e7a de defini\u00e7\u00f5es traz um impacto para o contexto todo. Em algum grau \u00e9 imposs\u00edvel negarmos que todos n\u00f3s fazemos parte de um mesmo conjunto&#8230; se voc\u00ea quiser ser hardcore, pode-se classificar como um &#8220;organismo aer\u00f3bio&#8221;, ou seja, que precisa de oxig\u00eanio, mas isto te colocaria em p\u00e9 de igualdade com tantos outros seres vivos que talvez voc\u00ea prefira algo um pouco menos abrangente. Da\u00ed come\u00e7am a afunilar os conjuntos, no caso, vamos entrando nos subconjuntos dos organismos aer\u00f3bios, isto \u00e9, um conjunto que est\u00e1 inteiramente contido dentro de outro conjunto e de outro e de outro&#8230; o funil segue, ficando cada vez mais fino &#8230; n\u00e3o queremos ser apenas &#8220;seres humanos&#8221;, queremos estar no subconjunto de seres humanos nascidos no pa\u00eds X, ou que exercem determinada profiss\u00e3o, ou que tem determinada opini\u00e3o&#8230; o funil pode ser t\u00e3o estreito quanto quisermos, at\u00e9 literalmente chegarmos num subconjunto no qual s\u00f3 exista a pr\u00f3pria pessoa. Como o subconjunto das pessoas que escrevem posts para este blog (hello darkness, my old friend).<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Nice!<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">J\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ver um pouco de como essa discuss\u00e3o se associa ao artigo da Gabri Simionato, pessoas que est\u00e3o em subconjuntos diferentes (por exemplo, aqueles que n\u00e3o concordam com um sistema machista e patriarcal). Mas que dentro deste subconjunto, existem outros subconjuntos (por exemplo, quem n\u00e3o concorda com um sistema machista e patriarcal por motivos econ\u00f4micos e quem n\u00e3o concorda por motivos sociais). Assim, h\u00e1 combust\u00edvel para uma luta interna entre estes subconjuntos (um desmerecendo os argumentos do outro por exemplo, ou mesmo, utilizando de seus recursos para reduzir a causa do outro em prefer\u00eancia \u00e0 sua).<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mas onde entram os subgrupos nesta hist\u00f3ria? Ent\u00e3o, enquanto um subconjunto \u00e9 um conjunto cujos elementos est\u00e3o dentro do outro&#8230; os subgrupos s\u00e3o entidades mais exigentes. Para come\u00e7ar, todo subgrupo precisa ser um grupo, mas nem todo subconjunto de um subgrupo \u00e9 um grupo. Por exemplo, os n\u00fameros Inteiros associados pela opera\u00e7\u00e3o adi\u00e7\u00e3o, formam um grupo. Pois ao somarmos quaisquer dois elementos dos Inteiros, chegamos em um n\u00famero Inteiro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mas se tirarmos um \u00fanico n\u00famero desse conjunto infinito, por exemplo, os n\u00fameros Inteiros sem o n\u00famero 77. Apesar dele ser um subconjunto dos Inteiros, n\u00e3o \u00e9 um subgrupo dos Inteiros associado pela opera\u00e7\u00e3o adi\u00e7\u00e3o. Veja que se pegarmos 76 e 1, o resultado ser\u00e1 77, um elemento que j\u00e1 n\u00e3o pertence a este subconjunto. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Contudo, o subconjunto dos n\u00fameros Inteiros sem os \u00edmpares, \u00e9 um grupo com a opera\u00e7\u00e3o adi\u00e7\u00e3o. Pois quaisquer dois n\u00fameros pares somados ser\u00e1 um outro n\u00famero par. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O mesmo n\u00e3o acontece se pensarmos no subconjunto dos n\u00fameros Inteiros sem os pares, pois com a opera\u00e7\u00e3o de adi\u00e7\u00e3o teremos que quaisquer dois \u00edmpares somados, ser\u00e1 par, ou seja, n\u00e3o pertence ao conjunto, logo n\u00e3o \u00e9 um grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Dito isso, podemos ver que os subconjuntos s\u00e3o muito f\u00e1ceis de serem formados justamente por carregarem poucas exig\u00eancias, enquanto os subgrupos s\u00e3o mais dif\u00edceis de serem formados, por terem associa\u00e7\u00f5es a mais que precisam se manter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Encerrando, podemos fazer uma analogia na discuss\u00e3o da Gabri Simionato sobre o Jornal Lampi\u00e3o na Esquina, que apesar do jornal ter a pretens\u00e3o de satisfazer os interesses de um subconjunto da sociedade, havia nele um foco muito espec\u00edfico a um subconjunto deste subconjunto, escolhido por raz\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, fazendo-o n\u00e3o representativo e gerando assim conflitos com quem diziam representar os interesses. Se pensarmos na proposta como al\u00e9m de uma cole\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma preserva\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas e propriedades comuns a todos, antes que a sele\u00e7\u00e3o fosse feita (tal como acontece com os subgrupos), ao estritarmos o conjunto, estar\u00edamos mantendo estas caracter\u00edsticas e propriedades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">De resumo, o p\u00fablico-alvo do Jornal Lampi\u00e3o na Esquina era um subconjunto da sociedade &#8220;frequentemente oprimida pelos padr\u00f5es sociais e pol\u00edticos da \u00e9poca&#8221; (propriedade comum a todos no grupo), mas a maneira como o jornal direcionou seu conte\u00fado para um subconjunto deste subconjunto, fez com que a caracter\u00edstica comum a eles se perdesse em parte (ou seja, deixaram de se verem como pertencentes ao mesmo grupo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\" has-text-align-center eplus-wrapper\">Cr\u00e9ditos da imagem de capa \u00e0 <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/pexels-2286921\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1853667\">Pexels<\/a> por <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1853667\">Pixabay<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-css-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Como referenciar este conte\u00fado em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023\/2018): <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Subconjuntos e subgrupos no Lampi\u00e3o da Esquina. <em>In<\/em>: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. <strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Zero \u2013 Blog de Ci\u00eancia da Unicamp<\/a>. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/category\/v-8-ed-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Volume 8. Ed. 1. 2\u00ba semestre de 2022<\/a><\/strong>. Campinas, 12 set. 2022. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/4641\/\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/4641\/<\/a>. Acesso em: &lt;data-de-hoje&gt;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um jornal durante a ditadura, seu p\u00fablico n\u00e3o era cisheteronormativo. O que a matem\u00e1tica tem a ver?<\/p>\n","protected":false},"author":434,"featured_media":4643,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[1224],"tags":[],"class_list":["post-4641","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-v-8-ed-1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/users\/434"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4641"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4641\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5350,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4641\/revisions\/5350"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4643"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}