{"id":6435,"date":"2026-08-07T09:39:59","date_gmt":"2026-08-07T12:39:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/?p=6435"},"modified":"2026-08-07T09:40:01","modified_gmt":"2026-08-07T12:40:01","slug":"isso-nao-e-comigo-eu-ensino-matematica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/zero\/6435\/","title":{"rendered":"Isso n\u00e3o \u00e9 comigo, eu ensino matem\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\n<p>Essa semana durante o planejamento docente, foi discutido a quem interessa as Intelig\u00eancias Artificiais. Embora esse pare\u00e7a um tema ligado a grandes corpora\u00e7\u00f5es e que pouco diz respeito a atitude de 30 professores de um instituto federal, h\u00e1 no nosso uso constante (e as vezes at\u00e9 inconsciente), um peso ao compreendermos a dire\u00e7\u00e3o que esse uso nos leva. Voc\u00ea pode at\u00e9 pensar, ah, mas eu uso para fins c\u00f4micos, criar memes, ou meu colega que usa para resumir artigos, ou outro amigo que usa para programar. O ponto \u00e9, mesmo na melhor das inten\u00e7\u00f5es, usar esses recursos demanda um custo que n\u00e3o est\u00e1 sendo diretamente pago por n\u00f3s. Isso significa que a algu\u00e9m interessa, e que de alguma forma, enxergam essa &#8220;generosidade&#8221; como lucrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo no planejamento docente, um professor cogitou se n\u00e3o seria a ocasi\u00e3o de se criar uma intelig\u00eancia Artificial que n\u00e3o atenda a interesses corporativos. E por assim dizer, fosse &#8220;limpa&#8221; de vieses. Mas logo ele foi questionado de que n\u00e3o h\u00e1 como uma posi\u00e7\u00e3o ser realmente neutra, somente existe a percep\u00e7\u00e3o de uma neutralidade, e isso representa inclusive um perigo social.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre professores que ensinam matem\u00e1tica, vejo que essa percep\u00e7\u00e3o de neutralidade em rela\u00e7\u00e3o a suas disciplinas costumam ser mais fortes do que em outras \u00e1reas do conhecimento. Por vezes pensamos que existe uma pureza na matem\u00e1tica que a faz livre de interesses, um campo de estudos limpo de vieses, perfeito e harm\u00f4nico, que existe pelo simples deleite humano de compreender o universo com formas de quantifica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas longe dessa utopia, o motor de qualquer desenvolvimento coletivo traz sempre um combust\u00edvel que reconhece naquela a\u00e7\u00e3o uma finalidade al\u00e9m dela mesma. Ressalto o coletivo nesse caso, pois o individual ainda pode se sustentar por prop\u00f3sitos menores, mas o coletivo requer um objetivo de interesse direto e pr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembre por exemplo de suas aulas de matem\u00e1tica na escola. Sempre (ou quase sempre) exemplificam a relev\u00e2ncia do c\u00e1lculo de \u00e1reas a medi\u00e7\u00e3o de terrenos. Legal, terrenos&#8230; Peda\u00e7os de terra abaixo do sol&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>Mas se puxar um pouco mais na mem\u00f3ria, talvez se lembre que as t\u00e9cnicas de medi\u00e7\u00e3o de \u00e1reas foram desenvolvidas no Egito Antigo. Uma regi\u00e3o que dependia das cheias dos rios para nutrir a terra e deix\u00e1-la em condi\u00e7\u00f5es de cultivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como nem toda a popula\u00e7\u00e3o trabalhava na terra, haviam diferentes fun\u00e7\u00f5es que precisavam ser sustentadas pelo produto daqueles que cultivam. Ou seja, era necess\u00e1rio recolher impostos. Por\u00e9m como dimensionar o quanto cada pessoa deveria pagar de imposto?<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo aproximadamente o quanto se produz por unidade de \u00e1rea, e conhecendo a \u00e1rea total que aquela pessoa disp\u00f5e, podemos determinar o total de sua colheita, e estipular a parte que deveria ser paga.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas rios n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticos e nem lineares, eles mudam de tamanho, suas margens se alteram e com isso o terreno tamb\u00e9m se modifica. Ou seja, surge a demanda de contabilizar com maior precis\u00e3o \u00e1reas n\u00e3o retangulares. O erro nesses c\u00e1lculos poderia trazer preju\u00edzos a gest\u00e3o, que arrecadaria menos do que tinham direito, ou insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que seria cobrada de mais do que deviam.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse exemplo mostra que n\u00e3o h\u00e1 uma motiva\u00e7\u00e3o nobre e po\u00e9tica nem mesmo em um campo do conhecimento cujos docentes costumam &#8220;lavar as m\u00e3os&#8221; frente a qualquer quest\u00e3o social, dizendo &#8220;isso n\u00e3o \u00e9 comigo, eu ensino matem\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagem de capa extra\u00edda do filme P\u00f4ncio Pilatos, de 1962, dos diretores: Gian Paolo Callegari e Irving Rapper.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa semana durante o planejamento docente, foi discutido a quem interessa as Intelig\u00eancias Artificiais. 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