“A matemática é uma ciência muito mais social do que as pessoas imaginam”

Em passagem pelo Brasil, Alicia Dickenstein, primeira presidente mulher da Academia Nacional de Ciências Exatas, Físicas e Naturais da Argentina e integrante do Conselho Consultivo Internacional do CBG, falou sobre sua carreira, sobre a importância do centro e da situação da ciência em seu país

Sarah Schmidt

 

Alicia Dickenstein no IMECC da Unicamp. Crédito: Sarah Schmidt

A matemática Alicia Dickenstein, professora da Universidade de Buenos Aires (UBA), é a primeira mulher a presidir a Academia Nacional de Ciências Exatas, Físicas e Naturais da Argentina em mais de 150 anos da instituição, posto que assumiu em 2024. Neste ano, ela foi reeleita, tendo seu mandato estendido até 2028. A pesquisadora, que também foi vice-presidente da União Matemática Internacional, dedica-se principalmente às pesquisas na área de matemática algébrica e tem uma trajetória marcada por pioneirismos. Dickenstein abriu caminhos ao não dar atenção, segundo ela, aos conselhos ruins. 

A pesquisadora é uma das integrantes do Conselho Consultivo Internacional (CCI) do Centro Brasileiro de Geometria (CBG). Em agosto, ela esteve no Brasil para participar do Encontro conjunto entre o Centro Matemático China-América Latina (CLAMC) e a União Matemática da América Latina e do Caribe (UMALCA). Realizado no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (IMECC-Unicamp), o evento teve o CBG como um de seus patrocinadores. Confira a entrevista que ela concedeu no intervalo entre uma palestra e outra. 

 

A senhora é a primeira mulher presidente da Academia Nacional de Ciências Exatas e Naturais da Argentina. Como foi a chegada a essa posição?

Os tempos estão mudando. Entrei em 2024 e permaneci por dois anos, até 2026, sendo depois reeleita para continuar até março de 2028. Havia outra mulher que era a candidata natural, mas, por algum motivo, ela não quis assumir. Eu fazia parte da mesa diretiva e, em uma reunião pelo Zoom, acreditava que discutiríamos como convencê-la a aceitar a presidência. Como não houve acordo, alguém sugeriu que eu assumisse. Embora já esteja aposentada, continuo trabalhando ativamente com matemática, apenas não dou aulas, apesar de ter um cargo de professora emérita, porque não tenho tempo. Na reunião, disse que precisava conversar com meu marido, porque ele sempre diz que continuo trabalhando demais. Quando contei a ele o que haviam me proposto, ele respondeu que poderia ser interessante. Então aqui estou.

Vieram muitos desafios por ser uma mulher pesquisadora na área?

Comecei minha trajetória acadêmica nos anos 1980 e na época não percebi muitas coisas, fui me dar conta só muitos anos depois. Fiz minha tese na Argentina, que era um lugar meio isolado, mas meu orientador, o matemático Miguel E. M. Herrera, era um excelente professor que havia retornado ao país depois de anos na França e nos Estados Unidos. Ele formou um grupo de pesquisa, no qual também trabalhava uma amiga cuja importância para minha trajetória só percebi muito tempo depois. Trabalhar com ela durante todo aquele período foi muito bom para mim. Após a morte prematura de meu orientador, aos 45 anos, o grupo se desfez e minha amiga foi trabalhar com educação matemática. Eu já tinha dois filhos pequenos, os salários eram muito baixos, mas nunca senti, durante minha formação, que as mulheres fossem capazes de fazer menos intelectualmente do que os homens. Tive minha primeira filha durante o doutorado, e pude trabalhar porque contei com o apoio do meu marido e com a creche da Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires, que recebia bebês e crianças e ficava a poucos metros do local de trabalho. Quando minha filha tinha cerca de dez meses, fui à minha sala para pegar alguns papéis que havia esquecido e ela estava comigo. Encontrei um professor muito respeitado, que havia sido reitor da universidade. Ele me disse: “Mas como? Você tem uma filha? Precisa ir embora, ficar em casa e cuidar dela”. Ele era uma autoridade. Mas me esqueci completamente disso. Só me lembrei 20 anos depois.

Essa fala dele não a abalou. 

Não. Mas poderia ter me afastado da pesquisa, claro. Por isso digo que o melhor conselho que posso dar às pesquisadoras é: não escute e não dê atenção aos maus conselhos. 

É um ótimo conselho.

Houve também uma série de casualidades na minha trajetória. Um amigo havia sido nomeado diretor do Departamento de Matemática da UBA, mas, depois de uma briga, renunciou e abriu-se uma vaga. Fui então nomeada diretora do departamento, tornando-me a primeira mulher em toda a sua história. Na época, porém, não percebi que isso era algo especial ou que tivesse um significado maior. Também nomeei uma vice-diretora e uma secretária acadêmica, sem sentir que estava fazendo algo extraordinário. Só comecei a perceber essas questões mais tarde, quando cheguei à vice-presidência da União Matemática Internacional. Foi então que passei a notar ainda mais claramente que as vozes das mulheres eram menos ouvidas, algo que se torna mais evidente nos níveis mais altos.

A senhora tem uma história interessante nessa linha. 

Participei de uma reunião internacional em que discutíamos a presença reduzida de mulheres nos comitês editoriais das revistas de matemática mais importantes. Um homem, diretor de uma revista de alto nível, disse que aconselhava suas colegas mulheres a não aceitarem convites para esses comitês, porque muitos artigos eram rejeitados e os autores ficavam irritados, e ele acreditava que elas receberiam toda essa raiva. Em um grupo de cerca de 30 pessoas, perguntei por que ele dizia aquilo apenas às mulheres. Ele não respondeu, e as outras mulheres presentes talvez nem percebessem o que estava sendo dito. Estávamos justamente discutindo a pouca presença feminina nesses espaços, e ele, aparentemente sem má intenção e acreditando que estava protegendo as mulheres, acabava aconselhando-as a não ocupar esses lugares. Para mim, esse episódio mostra como valores, conceitos e tradições sociais arraigados podem ser difíceis de perceber e eliminar: mesmo sem intenção de prejudicar, uma atitude pode acabar impedindo que as mulheres cheguem a posições de maior destaque. Ao final da reunião, algumas mulheres vieram me abraçar, pois também não haviam percebido a situação. São questões tão enraizadas que, às vezes, demoramos para reconhecê-las. 

Como tem sido a experiência à frente da Academia Nacional?

Tem sido muito interessante, mas agora a situação está muito complicada porque o governo argentino praticamente não destina recursos para a ciência. Houve uma grande redução do orçamento para a educação e para as áreas técnicas, em um momento delicado para um país que tem orgulho de suas excelentes universidades públicas. É muito triste ver que muitas coisas que levaram anos para serem construídas estão sendo destruídas rapidamente. Há também um grande êxodo: muitos jovens vão trabalhar fora do país ou em empresas, enquanto os salários são muito baixos, levando alguns a precisar de outro emprego ou trabalhar como motoristas por aplicativo. Isso também torna o futuro muito preocupante, porque, sem continuar formando pessoas, não há como formar os cientistas do amanhã. Por isso, considero muito importante a criação do Centro Brasileiro de Geometria.

Em sua visão, qual é a importância do CBG para o cenário atual da pesquisa em geometria?

Vejo o CBG como uma aposta no presente, mas também, e principalmente, no futuro. Considero muito importante e positivo haver um investimento desse porte na área de geometria. É uma oportunidade excepcional apostar no futuro da pesquisa, e estamos muito felizes que isso esteja acontecendo e que a FAPESP tenha destinado recursos para a pesquisa em geometria. Considero o projeto muito bom.

Quais desafios e potencialidades a senhora no caminho do Centro?

O projeto é muito importante porque atua em diferentes áreas da geometria e também investe em inovação. O Centro trabalha com três frentes: inovação, educação e difusão. Considero muito positivo que exista esse duplo objetivo de avançar na ciência e, ao mesmo tempo, fortalecer a educação e a divulgação, modernizando essas duas áreas.

Há alguma área específica em que o Centro deva focar?

É difícil apontar uma única área, porque tudo está mudando muito rapidamente com a inteligência artificial (IA). No Congresso Internacional de Matemáticos, realizado nos Estados Unidos em julho, houve muitas palestras sobre como a profissão está mudando e sobre o papel da inteligência artificial na matemática. Já existem muitas demonstrações produzidas por IA, mas algumas são falsas e precisam ser corrigidas, enquanto outras ainda não apresentam o insight necessário. Como destaca o matemático Terence Tao, além de demonstrar resultados, nós, matemáticos, precisamos “digerir”, ou seja, entender o que está sendo feito. Também somos nós que, por enquanto, propomos problemas e produzimos ideias realmente novas. A inteligência artificial consegue demonstrar problemas que foram propostos por seres humanos, mas ainda não realiza plenamente essa tarefa de compreender e criar novas ideias. Felizmente, por enquanto, essa capacidade continua sendo nossa, embora tudo esteja mudando tão rapidamente que seja impossível prever o que acontecerá daqui a dois anos. No CBG, o vice-diretor do instituto, Henrique Sá Earp, também trabalha bastante com inteligência artificial.

 

Em suas pesquisas, a senhora usa a matemática para estudar também biologia. Como ela pode ajudar a entender o que acontece dentro de uma célula? 

A matemática entra quando os biólogos e bioquímicos já formularam os modelos, normalmente redes de sinalização celular, com muitas variáveis e parâmetros, como constantes de taxa e quantidades totais. Nosso papel, como matemáticos, é olhar para esse sistema com uma visão algébrica e geométrica e tentar entender o que acontece em todo o espaço de parâmetros: que tipos de comportamento podem existir na dinâmica, o que pode ou não pode ocorrer. Não só observar, mas formular teoremas e demonstrá-los. E, mesmo em redes muito grandes, buscar uma estrutura que permita fazer cálculos. Em 2018, fiz uma apresentação sobre esses estudos no World Meeting of Women in Mathematics, pouco antes do Congresso Internacional de Matemáticos, o ICM, que ocorreu no Rio de Janeiro. Falei de uma estrutura que encontramos com uma ex-aluna minha, Mercedes Pérez Millán, e batizamos de “estrutura Messi” [Modifications of type Enzyme-Substrate or Swap with Intermediates, na sigla em inglês], como o jogador. Na época, a Argentina ainda não tinha ganhado a Copa do Catar, mas o acrônimo ficava próximo. Muitas redes comuns de sinalização celular têm essa estrutura, e a partir dela podemos provar resultados sobre redes muito diferentes.

O que é a estrutura Messi?

É um arcabouço matemático que identifica um padrão estrutural comum em diversas redes bioquímicas, como as cascatas de fosforilação que transmitem sinais dentro das células. Sua importância está em prever comportamentos complexos, como a estabilidade do sistema ou a possibilidade de ele alternar entre diferentes estados, apenas analisando o desenho da rede, sem precisar simular todas as combinações possíveis de parâmetros. O artigo que introduziu o conceito, The structure of MESSI biological systems, foi publicado em 2018 no SIAM Journal on Applied Dynamical Systems.

Poderia explicar, para um público amplo, o que é a geometria algébrica, área que a senhora pesquisa?

A geometria algébrica procura usar equações para representar e compreender objetos geométricos. É mais fácil pensar visualmente: imagine uma bola. No espaço, cada ponto tem três coordenadas, que podemos chamar de X, Y e Z. A superfície de uma esfera de raio 1 pode ser representada pela equação: X² + Y² + Z² = 1. Ou seja, conseguimos representar um objeto geométrico por meio de uma igualdade algébrica. O que fazemos é usar essas equações para entender objetos geométricos muito mais complicados e, ao mesmo tempo, usar a intuição geométrica para compreender a álgebra. Na parte ligada à biologia, essa combinação é usada para estudar trajetórias e processos de desenvolvimento, junto com outras ferramentas, como equações diferenciais e análise. O grupo com que trabalho utiliza, especialmente, ferramentas de álgebra e geometria que não eram tradicionalmente usadas na matemática aplicada.

 

Certa vez, a senhora disse que, quando era jovem, não sabia que poderia seguir uma carreira na matemática. O que diria para uma menina que quer seguir esse caminho, mas ainda não sabe que é possível?

Eu sempre digo que a matemática é uma ciência muito mais social do que as pessoas imaginam. Existe a imagem do cientista isolado, mas, na realidade, a matemática cresce por meio da interação com outras pessoas. Quando começamos a discutir um problema com alguém, surgem novas ideias, como se fossem mais de duas cabeças pensando juntas. Por isso, os congressos e encontros são tão importantes. Muitas coisas podem ser feitas on-line, mas há ideias que surgem justamente em uma conversa, durante um café ou em situações em que diferentes pensamentos se encontram. A matemática é muito mais social e colaborativa do que parece. É uma pena que, nas escolas, às vezes a matemática seja ensinada como algo totalmente rigoroso: contas, cálculos, em vez de se ensinar o prazer de entender. E é maravilhoso entender, traz um prazer tão grande. Para alguém que gosta de matemática, eu diria que siga sua paixão. Não sei para onde essa profissão vai no futuro, mas nós não sabemos nada, em geral, na vida. Em algum momento, vieram os computadores e tudo mudou. Mas, se alguém realmente gosta de matemática, que siga a sua paixão.