Deus, hidroxicloroquina e unicórnios: é impossível demonstrar um negativo?

Quem est√° habituado √† discuss√£o teol√≥gica est√° familiarizado com a afirma√ß√£o de que seria ‚Äúimposs√≠vel demonstrar uma negativa‚ÄĚ. Ela √© rotineiramente usada por crentes e apologetas para argumentar que, ‚Äúsegundo a l√≥gica‚ÄĚ, √© imposs√≠vel dizer que Deus n√£o existe, mesmo na total aus√™ncia de evid√™ncias da sua exist√™ncia. Logo se voc√™ cr√™ em Deus por f√© apenas (sem evidencia), voc√™ n√£o estaria sendo irracional ou il√≥gico. Esse argumentos sempre me soou estranho, mas eu honestamente n√£o havia pensado nele por anos at√© que me deparei com alguns debates recentes na internet envolvendo a hidroxicloroquina e sua efic√°cia. A discuss√£o segue mais ou menos assim:

Crítico da hidroxicloroquina РFoi demonstrada a ineficácia da hidroxicloroquina

Defensor da hidroxicloroquina РNão foi demonstrada sua ineficácia, porque é impossível demonstrar uma negativa.

O que para mim o curioso nessa hist√≥ria toda √© que a frase de efeito, ou tru√≠smo, usado para corroborar esse racioc√≠nio, de que  ‚Äú√© imposs√≠vel demonstrar uma negativa‚ÄĚ √© obviamente falso. √Č completamente l√≥gico derivar um argumento formal no qual a conclus√£o √© a inexist√™ncia de algo. Por exemplo, digamos que estejamos argumentando sobre a exist√™ncia de unic√≥rnios. Eu poderia montar o seguinte argumento

  • P1 ‚Äď Se unic√≥rnios existem, deveria haver alguma evidencia deles no registro f√≥ssil.
  • P2 ‚Äď N√£o existe evidencia de unic√≥rnios no registro f√≥ssil.
  • Conclus√£o- Unic√≥rnios n√£o existem.

Esse √© um argumento logicamente v√°lido no qual a conclus√£o (uma negativa) √© a consequ√™ncia l√≥gica das premissas. Proposi√ß√Ķes negativas s√£o t√£o demonstr√°veis quanto proposi√ß√Ķes positivas.

‚ÄúMas, calma l√°‚ÄĚ, voc√™ pode pensar ‚Äúo registro f√≥ssil √© notoriamente incompleto. Esp√©cies podem simplesmente n√£o estar representadas sem que isso signifique que elas nunca existiram‚ÄĚ.

Esse argumento remete ao problema da indu√ß√£o, que diz basicamente que nenhuma generaliza√ß√£o baseada em observa√ß√Ķes limitadas pode ser bem sucedida. O exemplo cl√°ssico √© a ideia de que, n√£o importa quantos cisnes brancos voc√™ encontre na natureza, voc√™ nunca vai poder dizer que todos os cisnes s√£o brancos, visto que voc√™ ainda pode encontrar um cisne negro que refute essa generaliza√ß√£o. √Č importante ressaltar que, enquanto isso n√£o invalida a ideia que proposi√ß√Ķes negativas s√£o demonstr√°veis, isso parece levantar um problema s√©rio para premissas que sustentem supostas inexist√™ncias.

Por√©m, nem todas proposi√ß√Ķes s√£o iguais. Imagine que, ao inv√©s de voc√™ estar buscando cisnes negros, voc√™ que saber se um gene X est√° associado com a cor das penas em cisnes negros. Uma pr√°tica em gen√©tica para entender o funcionamento de um dado gene √© exatamente deletar esse gene de um embri√£o, ou ‚Äúnocautear‚ÄĚ o gene. Se o gene era associado com a cor das penas, voc√™ espera que o embri√£o com o gene nocauteado desenvolva penas brancas (ou n√£o-negras). Se o embri√£o continua desenvolvendo penas negras, voc√™ pode afirmar que o gene X n√£o tem efeito sob a colora√ß√£o negra das penas. Em forma de argumento formal:

  • P1- Se o gene X determina a cor negra da pena, sua remo√ß√£o produziria penas sem essa colora√ß√£o
  • P2- A remo√ß√£o do gene n√£o afeta a cor da pena
  • Conclus√£o- O gene X n√£o afeta a cor da pena.

Nesse caso não há ambiguidade alguma: uma vez que o mecanismo é proposto e testado, a ausência de um efeito implica que sua hipótese foi refutada: o mecanismo, como designado, não existe. A diferença é que, quanto mais específica é sua premissa inicial, mais certeza você pode conferir à sua conclusão.

O caso de medicamentos tem mais a ver com o encontrar um mecanismo genético do que buscar unicórnios no registro fóssil: a ação de um remédio depende de que um mecanismo proposto seja verdadeiro, ou potencialmente verdadeiro. O que nos trás à hidroxicloroquina.

Presidente Jair Bolsonaro no jardim do Palácio da Alvorada alimentando as emas e mostrando a caixa do remédio cloroquina para as emas, a mesma caixa que mostrou para os apoiadores no ultimo domingo 19/07. Sérgio Lima/Poder360. 23.07.2020

Querida de tr√™s em cada tr√™s l√≠deres com tend√™ncias autorit√°rias no continente americano (Trump, Bolsonaro e Maduro), a hidroxicloroquina foi alardeada com um poss√≠vel tratamento ao COVID19 com base em um estudo feito em c√©lulas in vitro (em placas de petri; aqui e aqui). Esse estudo demonstrou que a hidroxicloroquina em conjunto com azitromicina era capaz de prevenir a entrada do v√≠rus em c√©lulas vivas. Em investiga√ß√Ķes sobre a efic√°cia de medicamentos, a exist√™ncia de algum tipo de efeito in vitro √© considerado premissa b√°sica para que mais estudos sejam realizados, para observar se um rem√©dio pode ter efeito em seres vivos e, em √ļltima analise, humanos. De qualquer maneira, esse estudo deu o pontap√© inicial √† investiga√ß√£o sobre a efici√™ncia da hidroxicloroquina contra o COVID19, resultando em diversos trabalhos que buscaram encontrar um efeito da droga em seres humanos infectados.

Nada disso seria particularmente problemático se políticos não tivessem tomado para si o papel de decidir, com base em evidencias problemáticas, quais são os tratamentos que devem ser seguidos. O que temos agora é a pior situação possível: enquanto a ciência demonstra a total ineficácia da hidroxicloroquina no tratamento de COVID19 (ver aqui e aqui, por exemplo), políticos e entusiastas destes mesmos governantes se veem na posição de ter que defender pseudociência por motivos meramente ideológicos. E é nesse momento que vemos as pessoas se agarrarem cada vez mais desesperadamente à argumentos falaciosos para defender sua posição. No caso da hidroxicloroquina, como coloquei anteriormente, surge essa ideia de que seu efeito positivo não pode ser negado, pois seria impossível demonstrar uma negativa. Como já argumentei, essa afirmação é falsa (é incrivelmente simples demonstrar um negativo). Mas seria esse o caso da hidroxicloroquina?

Pra entender isso, precisamos entender um pouco como supostamente a hidroxicloroquina deveria funcionar. Para entrar nas c√©lulas animais, o coronav√≠rus pode se valer de dois mecanismos. O primeiro √© se ligando a receptores de superf√≠cie das c√©lulas do hospedeiro para introduzir o seu material gen√©tico diretamente no interior da c√©lula. No segundo mecanismo, o v√≠rus √© absorvido por invagina√ß√Ķes da membrana celular (endossomos) e invadem o citoplasma celular a partir da√≠. Esse segundo mecanismos, o realizado por endossomos, necessita de uma prote√≠na funcional chamada catepsina L, que necessita de um meio √°cido para funcionar. Nesse contexto, a hidroxicloroquina atua diminuindo a acidez do meio intracelular, impedindo a a√ß√£o da catepsina L, impedindo a entrada do coronav√≠rus na c√©lula. Para voltar para nossas preposi√ß√Ķes, podemos descrever a atua√ß√£o da hidroxicloroquina da seguinte forma:

  • P1- Para a hidroxicloroquina funcionar no combate a COVID19 ela necessita prevenir a entrada do coronav√≠rus nas celulas pulmonares humanas.
  • P2- Hidroxicloroquina diminui a acidez intracelular, afetando o funcionamento da catepsina L.
  • P3- Catepsina L √© usada pelo coronav√≠rus para entrar na c√©lula.

Segundo essa lógica Рe essa era a lógica que poderíamos aceitar no começo do ano Рa hidroxicloroquina (potencialmente) funcionaria no combate a COVID19. Mas o diabo mora nos detalhes. As células usadas inicialmente para demostrar que a hidroxicloroquina funciona in vitro eram culturas de células de rins de macacos. Essas células normalmente apresentam resultados bons o suficiente para a maior parte dos fármacos, porém no caso do coronavírus a coisa parece ser mais complicada. Enquanto é verdade que em células de rim a Catepsina L é essencial para a ação de entrada do vírus, células pulmonares humanas não apresentam essa enzima em grandes quantidades. Ao invés, o mecanismo de entrada do coronavírus na célula é mediada por uma enzima chamada TMPRSS2. O problema é que, diferente da Catepsina L, o funcionamento da TMPRSS2 não é afetado pela alteração da acidez do meio celular. De fato, um estudo recente em células pulmonares humanas demonstrou que a hidroxicloriquina é incapaz de impedir a invasão das células pelo coronavirus. Assim, podemos atualizar a descrição da atuação da hidroxicloroquina da seguinte forma:

  • P1- Para a hidroxicloroquina funcionar no combate a COVID19 ela necessita prevenir a entrada do coronav√≠rus nas celulas pulmonares humanas.
  • P2- Hidroxicloroquina diminui a acidez intracelular, afetando o funcionamento da catepsina L.
  • P3- Catepsina L √© usada pelo coronav√≠rus para entrar em c√©lulas de rim.
  • P4- TMPRSS2, que √© usada pelo coronavirus para entrar em c√©lulas pulmonares, n√£o √© afetada pela hidroxicloroquina.

E disso segue que

  • C- Hidroxicloroquina n√£o funciona no combate a COVID19 atrav√©s do mecanismo proposto.

O que mostra que é plenamente lógico afirmar que a hidroxicloroquina não funciona.

√ďbvio que isso n√£o vai satisfazer os defensores da droga, pois in√ļmeros outros mecanismos podem ser propostos, inclusive mecanismos sem o menor respaldo cient√≠fico, como foi o caso da “p√≠lula do c√Ęncer”, uma droga sem efeito tamb√©m defendida pelo presidente da rep√ļblica.

Eu acredito que a luta pela hidroxicloroquina vai durar muito mais tempo depois que sua discussão acadêmica estiver de fato encerrada. Estamos entrando em um caminho onde teorias conspiratórias, pseudociência e pseudofilosofia estarão intrinsecamente ligados com a política nacional. Vai ser um caminho tortuoso. Boa sorte a todos nós.

*Para os nerds: sim, eu estou mais que ciente das problematicas sobre o grau de confiabilidade em resultados experimentais e estat√≠sticos. Voc√™ pode transformar todos esses argumentos em probabil√≠sticos e chegar a conclus√£o que a hidroxicloroquina muito provavelmente n√£o funciona (o que √© basicamente a mesma, visto que a unica “certeza” que podemos ter em termos cient√≠ficos s√£o aquelas referentes √† altas probabilidades).

Criacionista da Terra Jovem distorce pesquisa de brasileiros para corroborar o Design Inteligente

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Esse √© Dr. Marcos Nogueira Eberlin. Professor da Unicamp. Pesquisador. Membro da Associa√ß√£o Brasileira de Ci√™ncia. Criacionista. Eberlin √© um daqueles esp√©cimes raros que acredita na literalidade do livro Genesis. O que o torna mais raro ainda √© o fato de ser um pesquisador de alto impacto, apresentando um √≠ndice de produtividade impressionante para qualquer √°rea de conhecimento acad√™mico (mais de 800 artigos publicados, citados mais de mil vezes).

Talvez por ser um daqueles poucos criacionistas com credenciais cient√≠ficas, Dr. Marcos Ebelin se tornou um garoto propaganda do Design Inteligente, uma vers√£o menos pretensiosa do criacionismo, que apenas busca demonstrar que algum aspecto da realidade (normalmente focando em organismos e estruturas biol√≥gicas) foi criado por uma intelig√™ncia divina superpoderosa. A despeito disso, Ebelin em todo o seu discurso se assemelha mais a um criacionista terra jovem, tomando como literal os relatos b√≠blicos da cria√ß√£o especial (m√°gica) das esp√©cies e na historicidade do dil√ļvio universal de No√©.

Com o tempo, Dr.Eberlin perdeu toda e qualquer pretens√£o de sutileza ao defender suas cren√ßas anti-cient√≠ficas, utilizando-se do facebook como sua principal m√≠dia. Dentre referencias abundantes a sites criacionistas como o answersingenesis.org, podemos encontrar posts como o abaixo:

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De onde saem informa√ß√Ķes como a de que somos mais similares a porcos do que a chimpanz√©s (chamados de “chimpas”) me √© um mist√©rio. Mas talvez o mais impressionante √© o estilo de escrita e argumenta√ß√£o utilizado por um pesquisador que estaria dentre um dos mais produtivos do Brasil.

Recentemente o Dr. Eberlin resolveu argumentar, em uma série de posts em sua página pessoal, que algumas pesquisas desenvolvidas por pesquisadores brasileiros corroborariam o Design Inteligente:

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Nesse post o Dr. Eberlin sugere que a pesquisa referida corroboraria a hip√≥tese de Design Inteligente, e ainda sugere que isso n√£o foi dito no texto do artigo pois tais especula√ß√Ķes seriam proibidas dentro da academia (referida pelo Dr. Eberlin como Akademia, talvez como uma referencia √† Nomenklatura, um meme usado por outro criacionista brasileiro).

Intrigado com essa afirma√ß√£o, eu resolvi perguntar diretamente ao principal autor do trabalho, o Dr. Marcus Smolka, se seu trabalho poderia ser interpretado como uma corrobora√ß√£o do Design Inteligente. Abaixo reproduzo na integra a resposta do Dr. Smolka:

Ol√° Fabio,

Obrigado pela mensagem. Definitivamente NÃO concordo que minha recente publicação seja suporte, em qualquer maneira, para a idéia de DI. O Prof. Eberlin tem o direito de interpretar meu texto do jeito que quiser, porém, me parece que ele esteja fazendo um jogo equivocado de palavras para tentar vender a idéia de DI. Realmente não entendo a lógica dele. Pessoalmente, acho um desfavor a ciência.
Um abraço,
Marcus

Ou seja, nada no resultado reportado na revista Molecular Cell est√° sustentando a tese criacionista do design inteligente.

Pode parecer picuinha, mas esse caso evidencia o Modus Operandi dos criacionistas do DI: eles n√£o produzem nada que corrobore sua tese, se limitando a canibalizar os esfor√ßos alheios, distorcendo os achados e interpretando-os de forma que os beneficie.

Isso n√£o √© uma pr√°tica honesta, e n√£o √© algo que um pesquisador do calibre do Dr. Eberlin deveria se reduzir a fazer. Mas √© exatamente isso que ele faz.

Só nos resta perguntar o porque.

Uma boa definição de ciência

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Card do Massimo, da coleção Skeptic Trumps

Acabo de ler um artigo pelo cientista-tornado-filosofo Massimo Pigliucci sobre o movimento Neo-Ateista. Pigliucci, que √© um cr√≠tico do movimento, argumenta que a principal diferen√ßa entre os ateus cl√°ssicos e os neo-ateus, √© o que ele chama de ‚Äúuma virada ao cientismo‚ÄĚ. Ele define cientismo como:

‚ÄúA atitude de considerar ci√™ncia como o ultimo crit√©rio e arbitro de todas as quest√Ķes interessantes; ou alternativamente que busca expandir a defini√ß√£o e escopo da ci√™ncia para abranger todos os aspectos do conhecimento humano‚ÄĚ

Para sustentar essa idéia, Pigliucci leva em consideração os livros publicados pelos autores considerados ícones do neo-ateísmo, especificamente Richard Dawkins, Victor Staiger, Daniel Dannet, Christopher Hitchens e Sam Harris (com quem ele parece ter um problema em particular).

Suas avalia√ß√Ķes s√£o justas na sua maioria (pelo menos nos livros que eu li), mas em quase todo par√°grafo fiquei estarrecido com algumas afirma√ß√Ķes de Pigliucci, principalmente nas suas avalia√ß√Ķes dos livros de Sam Harris. Ele chega a afirmar, por exemplo, que n√£o chegamos ao consenso sobre princ√≠pios da geometria euclidiana atrav√©s de nenhuma evid√™ncia emp√≠rica (no caso ele usa o exemplo de que a soma dos √Ęngulos de um tri√Ęngulo √© sempre 180o), o que me parece em clara contradi√ß√£o de como professores de fato demonstram esses princ√≠pios aos alunos em sala de aula*. Outra afirma√ß√£o intrigante foi a de que o dilema de Eutifron demonstra com sucesso que Deuses e moralidade n√£o tem nada a ver um com a outro, coisa que at√© onde sei √© no m√≠nimo‚Ķ discut√≠vel (mas vou poupar voc√™s o trabalho de ver um ateu defendendo um argumento para a validade da moralidade divina).

No entanto, a questão que me deixou mais intrigado foi o foco central do artigo, que é a acusação de cientismo por parte dos neo-ateus. Não porque eu discorde dela (em partes), mas porque, ao justificar isso, Pigliucci constrói uma definição de ciência que não parece contribuir para sua tese:

‚ÄúCi√™ncia √© melhor concebida como uma fam√≠lia, no sentido Wittgensteiniano, de atividades que tem uma variedade de pontos em comum, incluindo (mas n√£o se limitando a) a realiza√ß√£o sistem√°tica de observa√ß√Ķes e/ou experimentos, o teste de hip√≥teses, a constru√ß√£o de teorias gerais sobre o funcionamento do mundo, a opera√ß√£o de um sistema de revis√£o-por-pares pr√© e p√≥s-publica√ß√£o, e a exist√™ncia de uma variedade de fontes de financiamento p√ļblicos e privados para projetos que s√£o considerados v√°lidos‚ÄĚ

Eu gostei bastante dessa defini√ß√£o, mas como isso exclui necessariamente quest√Ķes morais, metaf√≠sicas ou espirituais me √© um mist√©rio. Pigliucci n√£o argumenta com sucesso sobre isso, sendo que o m√°ximo que ele faz √© indicar o leitor ao seu novo livro sobre crit√©rios de demarca√ß√£o em ci√™ncia, pseudoci√™ncia e filosofia. Posso ser s√≥ eu, mas n√£o me soa de bom tom deferir um dos principais pontos do seu artigo para um livro, sem maiores explica√ß√Ķes.

De forma geral, esse ensaio me decepcionou muito. Durante o artigo todo, e apesar dos protestos do Pigliucci, n√£o pude deixar de ter a sensa√ß√£o que grande parte das suas cr√≠ticas s√£o motivadas por briguinhas entre √°reas acad√™micas, na qual fil√≥sofos parecem estar especialmente ofendidos pelo fato de que ci√™ncia tem um reconhecimento social maior do que filosofia, que ainda soa como abobrinha para as orelhas do p√ļblico.

Talvez precisemos de um Big Bang Theory para a filosofia‚Ķ algo como ‚ÄúThe Hume‚Äôs club‚ÄĚ. Ser√° que a Sony compra?

De qualquer forma, veja o ótimo blog do Massimo, o Rationally Speaking. Vale a pena conferir.

* Pigliucci aqui parece estar adotando uma postura puramente racionalista, onde ‚Äúverdades matem√°ticas‚ÄĚ s√£o exerc√≠cios meramente racionais e n√£o emp√≠ricos. At√© onde sei, essa posi√ß√£o n√£o √© inequivoca dentro da filos√≥fica da matem√°tica. Consigo pensar em pelo menos duas outras linhas que discordariam dessa interpreta√ß√£o.

O que os Pag√£os nos deixaram?

“Os pag√£os nos deram democracia, cidadania, direitos humanos- na verdade todo o conceito em si de direitos incluindo liberdade de express√£o- ci√™ncia, medicina, filosofia, l√≥gica formal e matem√°tica. Eles tamb√©m nos deram uma defesa filos√≥fica de valores morais como filantropia, generosidade, miseric√≥rdia e honestidade.

Isso faz acreditar no paganismo racional?”

Richard Carrier, aqui, por volta de 1:30:00.

A resposta é (eu espero) óbvia.

Fé não é um processo epistemológico válido

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Peter Boghossian

Esses dias relendo o texto “Investiga√ß√Ķes estat√≠sticas na efici√™ncia da prece”, do Francis Galton, e me deparei com a seguinte passagem:

Existe um motivo para esperar que um homem devoto e supersticioso seja irracional; pois uma pessoa que acredita que seus pensamentos s√£o inspirados, necessariamente certifica seus preconceitos com autoridade divina. Ele √©, assim, pouco vulner√°vel √† argumenta√ß√£o, e √© intolerante em rela√ß√£o √†queles que apresentam uma opini√£o distinta da sua, especialmente em princ√≠pios fundamentais. Consequentemente ele √© um mal parceiro em quest√Ķes de neg√≥cios. √Č uma opini√£o corriqueira no mundo de que pessoas que rezam n√£o s√£o pr√°ticas.

Parece duro, mas eu acredito que a crítica continua bastante válida. Não porque eu de fato acredite que religiosos são maus parceiros, ou que algo na sua religiosidade os impede de serem bons profissionais, longe disso. Acredito que o fato de a maioria esmagadora da sociedade, inclusive em países desenvolvidos serem religiosos, argumenta contra essa ideia. Entretanto, ainda acho que esse ponto, de certa forma, procede.

Recentemente, o fil√≥sofo¬†Peter Boghossian resolveu fazer disso o foco central de seu livro “Um Manual Para Produzir Ateus”. Segundo¬†Boghossian, o ataque √†s religi√Ķes √© contra-producente, e a ideia que precisa ser passada √© que existem processos para a gera√ß√£o de conhecimento (ou, processos epistemol√≥gicos) que n√£o s√£o confi√°veis, isso √©, eles diminuem a probabilidade de se ter cren√ßas que s√£o verdadeiras. Ele ainda identifica duas comunalidades entres processos epistemol√≥gicos pouco confi√°veis. Via de regra, tais processos 1) n√£o se baseiam em evid√™ncias e/ou 2) se baseiam em coisas que s√£o consideradas evid√™ncias, quando na verdade n√£o s√£o. E f√©, afirma¬†Boghossian, apresenta ambas as caracter√≠sticas.

A ideia de Boghossian é que, ao ensinar pensamento crítico e baseado em evidência, as pessoas irão aprimorar sua capacidade de adquirir crenças verdadeiras, levando à exclusão da fé como um processo epistemológico, o que eventualmente levaria a rejeição de religião.

√Č v√°lido notar que nem sempre religiosos aplicam f√© como base epistemol√≥gica universal. Quando em √Ęmbito profissional, muitos religiosos recorrem a pensamento cr√≠tico baseado em evid√™ncias para direcionar suas a√ß√Ķes: um empres√°rio religioso n√£o vai esperar inspira√ß√£o divina para fechar um neg√≥cio, mas sim recorrer √† analise de custo/benef√≠cio e do ambiente do mercado para tomar suas decis√Ķes. Sendo assim, a cr√≠tica de Galton nos dias de hoje pode ser mais encarado como um reductio ad absurdum¬†do o que aconteceria se as pessoas aplicassem f√© como um jeito especial de entender a realidade em todas as esferas da sua vida, algo que √© comumente apontado por cr√≠ticos de religi√£o.

Claro, muitos podem apontar a ironia na cita√ß√£o de Galton, visto que esse era um fervoroso cr√≠tico das teorias de Mendel, que era um monge e, em qualquer avalia√ß√£o, um “homem devoto”. Mas de qualquer forma, n√≥s sabemos que Mendel est√° correto, e n√£o Galton, por causa das evid√™ncias da gen√©tica e hereditariedade, e n√£o por inspira√ß√£o supernatural.

Aquecimento Global: e que tal essas evidências, Dr. Felicio?

No final do ano passado aconteceu um debate no Jornal da USP (primeiro artigo e replica) sobre aquecimento global. A dan√ßa seguiu como de costume: defensores do Aquecimento Global Antropog√™nico (AGA) falando que os negacionistas n√£o contribuem em nada para a ci√™ncia (o que √© verdade) e os c√©ticos do AGA (e eu uso o termo “c√©ticos” de forma ampla aqui) acusando os defensores do AGA de n√£o oferecerem provas o suficiente para comprovar o aquecimento.

A discuss√£o teve presen√ßa inevit√°vel do nosso amigo Dr. Ricardo Fel√≠cio, not√≥rio cria… oups… “c√©tico”, no artigo de r√©plica. Depois do meu escrut√≠nio anterior do seu discurso delirante, eu elevei o Dr. Fel√≠cio ao t√≠tulo de “Saco de Batatas com orelhas”. Ele n√£o tem nada para contribuir, e eu n√£o tenho a menor vontade de voltar a abordar seus argumentos. Entretanto, esse artigo de r√©plica foi assinado primariamente por um Dr. Kenitiro Suguio. Agora, mais de um paleont√≥logo colega meu afirmou que o Dr. Suguio √© uma referencia na sua √°rea (presumidamente algo a ver com sedimentologia do quatern√°rio) e, diferente do Dr. Fel√≠cio, parece merecer algum respeito acad√™mico. Ok, ent√£o ao texto vamos!

A primeira coisa que me saltou aos olhos foi a total ausência de qualquer negação do aquecimento global. Sério, no duro. Vá lá e veja por si mesmo. Em momento algum o Dr. Suguio e companhia negam que existe aquecimento, se limitando a afirmar que

(…) n√£o h√° qualquer evid√™ncia observada no mundo real que permita qualificar como an√īmalas as varia√ß√Ķes dos par√Ęmetros clim√°ticos (por exemplo, temperaturas atmosf√©ricas e oce√Ęnicas) ou influenciados pelo clima (por exemplo, n√≠vel do mar)

O que √© uma posi√ß√£o, digamos, muito mais cientificamente conservadora do que negar a exist√™ncia do aquecimento global. Claro, a afirma√ß√£o de que os padr√Ķes atuais de altera√ß√£o clim√°tica n√£o s√£o an√īmalos s√£o um tanto… ousada, mas pass√≠vel de debate. Acho que j√° abordei isso de forma exaustiva (e voc√™ tamb√©m pode checar os posts no GeneReporter sobre o assunto), ent√£o n√£o vou entrar nesse m√©rito. Mas o que impressiona mesmo √© ver o Dr. Fel√≠cio assinando um texto desses. Afinal, √© ele o mesmo que negava explicitamente que a temperatura sequer est√° aumentando! N√£o sei, mas algo aqui me cheira muito similar a o que alguns famosos criacionistas fazem ao defender o Design Inteligente como uma vers√£o mais “intelectualmente aceit√°vel” do que sair dizendo que No√© colocou um bando de animais em um bote e fez o pior Big Brother da hist√≥ria. Talvez… quem pode saber?

Digress√Ķes a parte, o texto de forma geral gira em torno de um argumento central:

(…) em lugar de evid√™ncias f√≠sicas, os proponentes do AGA se limitam a oferecer proje√ß√Ķes de modelos matem√°ticos da din√Ęmica clim√°tica e uma exagerada import√Ęncia atribu√≠da √†s concentra√ß√Ķes atmosf√©ricas de di√≥xido de carbono (CO2)

Mesmo? √Č isso tudo que os defensores do AGA fazem? Porque eu sei que os dados clim√°ticos est√£o por ai, assim como informa√ß√£o sobre emiss√£o de poluentes, e n√£o seria nada imposs√≠vel simplesmente ver se tais vari√°veis est√£o correlacionadas ao longo do tempo. E se tem uma das coisas que eu aprendi na √°rea acad√™mica √©: toda vez que voc√™ tem uma boa id√©ia, algu√©m j√° fez antes e melhor que voc√™.

Teria por acaso algu√©m que tentou investigar a influencia das emiss√Ķes na temperatura, e de quebra abordando as principais cr√≠ticas dos c√©ticos, como coleta de dados mal feita e utiliza√ß√£o de metodologias falhas? Ent√£o sem mais delongas, com voc√™s, Dr. Richard A. Muller.

De cético a crente



Dr. Richard A. Muller √© um f√≠sico da Universidade da California, Berkeley. Em 2004, Muller entrou na dan√ßa do Aquecimento global, do lado dos c√©ticos. Aparentemente Muller havia visto a cr√≠tica de¬†McIntyre e McKitrick (sobre a qual falei no meu post anterior) e tinha achado as coloca√ß√Ķes deles v√°lidas:

McIntyre e McKitrick obtiveram uma paste do programa que Mann [famoso autor do gr√°fico hockey stick) usou, e eles acharam alguns problemas s√©rios. N√£o apenas o programa n√£o usa o PCA convencional [uma t√©cnica estat√≠stica], mas ele se realiza a normaliza√ß√£o dos dados de forma que s√≥ pode ser descrita como equivocada. (…) Essa forma inapropriada de normaliza√ß√£o tende a enfatizar os dados que tem a forma de hokey stick, e suprime todos os dados contr√°rios. Para demonstrar esse efeito, McIntyre e McKitrick produziram dados que, em m√©dia, n√£o tinha padr√£o. (…) Quando McIntyre e McKitrick deram esses dados para o protocolo de Mann, ele produziu um gr√°fico de hockey stick. (…) Essa descoberta me atingiu como uma bomba, e eu suspeito que est√° tendo o mesmo efeito em muitos outros. De repente o¬†hokey stick, o garoto-propaganda ddo aquecimento global √©, na verdade, um artefato de matem√°tica ruim. Como isso poderia acontecer?

(tradução porca e ênfase minhas)

Mas Muller, diferente dos c√©ticos padr√£o, n√£o simplesmente sentou em um canto escrevendo posts zangados na internet (sim, eu sei… hip√≥crita), e resolveu colocar a m√£o na massa: arrecadou fundos e fundou o BEST – Berkeley Earth Surface Temperature – com o objetivo principal de arrecadar dados que eles consideram confi√°veis sobre o clima, de uma perspectiva inicialmente c√©tica.

E Muller enfrentou muita critica nesse ponto: dizer que n√£o confia na capacidade de coleta de dados dos outros e que ir√° fazer tudo do zero √© mandar o dedo m√©dio para uma comunidade cient√≠fica inteira (comunidade que ele, como f√≠sico, n√£o fazia parte). Mas… e da√≠? Os climatologistas podem se sentir o quanto ofendidos eles acharem certo. Isso n√£o muda o fato de que verifica√ß√£o independente √© um dos pilares centrais da ci√™ncia. Muller estava certo de agir sob seu ceticismo, que √© algo que n√£o pode ser dito da maioria dos c√©ticos do AGA.

Então, Muller lançou o BEST para resolver tudo, desde a coleta, sumarização, elaboração de novas metodologias e analise dos dados. E o que ele achou?

Estimativas da temperatura anual (esquerda) e por decada (direita) atuais e até 3 séculos atrás. Estimativas do BEST em preto, intervalos de confiança em cinza. Estimativas de outros estudos em outras cores.
Em primeiro lugar, nota-se que as estimativas do BEST correspondem muito com as geradas por outros estudos, para o período que eles coincidem, corroborando assim os estudos anteriores. Adicionalmente, eles conseguiram ampliar a janela temporal, estendendo as estimativas até o ano de 1750.
Tudo √© bastante impressionante, principalmente porque, com uma janela de dados dessa magnitude, Muller e colegas resolveram testar diversas hip√≥teses, incluindo a influencia da emiss√£o de poluentes na temperatura m√©dia, mas tamb√©m dos ciclos solares e de eventos vulc√Ęnicos, duas criticas comuns dos c√©ticos. Os resultados eu acho falam por si s√≥:
Em vermelho, temperatura m√©dia esperada em decorr√™ncia da influ√™ncia das emiss√Ķes de CO2¬†e¬†emiss√Ķes vulc√Ęnicas (que s√£o as quedas mais abruptas de temperatura, antes de 1850). Emiss√Ķes de radia√ß√£o solar n√£o influenciaram significativamente as estimativas.
Resumindo: o aumento de temperatura parece estar principalmente ligado √† emiss√£o de CO2, irradia√ß√£o solar n√£o parece influenciar os padr√Ķes atuais e eventos vulc√Ęnicos tem uma influencia no clima, mas n√£o explicam nenhuma tendencia atual. Dr. Muller foi bastante n√£o-amb√≠guo em rela√ß√£o a esses resultados:

Eu conclui que o aquecimento global é real e as estimativas anteriores estavam corretas. Agora eu estou indo um passo além: Humanos são quase que inteiramente a causa.

Claro, a analise n√£o √© desprovida de falhas: em primeiro lugar os autores n√£o puderam diferenciar a influencia do¬†CO2¬†da influencia de outros gases, basicamente porque o aumento nas taxas de emiss√£o est√£o muito correlacionadas entre si. Em segundo lugar, a analise √© muito simplista, ent√£o eu n√£o descartaria a possibilidade de uma influencia moderada de radia√ß√£o solar. Mas √© v√°lido notar que os autores sabem dessas limita√ß√Ķes e decidiram usar uma analise simples (uma an√°lise de regress√£o simples) exatamente para limitar qualquer cr√≠tica metodol√≥gica.

E, de qualquer forma, o BEST disponibiliza todos os dados em seu site. Ou seja, qualquer um pode baixa-los, e analisá-los por si mesmo. Então, Dr. Richard A. Muller, por ser um verdadeiro cético com compromisso com a metodologia científica e transparencia acadêmica: cookie points para você. Pontos extras por me fazer poder afirmar confortavelmente que a AGA parece ser a melhor explicação para os dados que temos, e que devemos aceita-la para elaboração de políticas publicas.

N√£o me entendam mal: meu lado ambientalista anda bastante pessimista, at√© mesmo no que tange a conserva√ß√£o das esp√©cies. O m√°ximo que quero agora √© que consigamos a maior quantidade de informa√ß√Ķes sobre a biologia das esp√©cies atuais antes que a paleontologia se torne o principal ramo da biologia. Ent√£o eu realmente n√£o ligo para o que vai ser feito com essa informa√ß√£o sobre o aquecimento. Seria √≥timo que isso fosse utilizado para regulamentar a emiss√£o de gases e para melhorar nossa qualidade de vida, mas n√£o tenho esperan√ßas nisso.

Ent√£o… aparentemente sobra a pergunta para Dr. Felicio, Dr. Conti e Dr. Suguio: que tal essas evid√™ncias f√≠sicas do Aquecimento Global Antropog√™nico?

Referência
Robert Rohde, Richard A. Muller, Robert Jacobsen, Elizabeth Muller, Saul Perlmutter, Arthur Rosenfeld, Jonathan Wurtele, Donald Groom, & Charlotte Wickham (2012). A New Estimate of the Average Earth Surface Land Temperature Spanning 1753 to 2011 Geoinformatics & Geostatistics: An Overview, 1 (1) : 10.4172/gigs.1000101

Pesquisa sugere relação entre chocolate e Nobel

Um novo artigo publicado no New England Journal of Medicine procurou a associa√ß√£o entre consumo nacional de chocolate e o n√ļmero de ganhadores do premio Nobel origin√°rios daquele pa√≠s. Segundo o artigo, tal avalia√ß√£o se justifica pelo fato de que flavon√≥ides, abundantes em vegetais de consumo, s√£o conhecido por apresentar efeitos positivos nas capacidades cognitivas.

Os resultados s√£o impressionantes:

Notem que o Brasil est√° l√° no fundo, sem nenhum Nobel e com um consumo muito pequeno de chocolate.

Segundo os autores:

Existe uma correla√ß√£o linear significativa (r=0.791, p<0.0001) entre o consumo de chocolate per capita e o numero de ganhadores do Nobel por 10 milh√Ķes de pessoa em um total de 23 pa√≠ses.

Para quem n√£o sabe, o coeficiente r de correla√ß√£o (tamb√©m chamado de correla√ß√£o de Pearson) vai de 0 at√© 1. Ou seja, um valor de aproximadamente 0.8 √© bastante alto! Pessoas prop√Ķem terapias contra cancer por coeficientes menores.

De qualquer forma, a inspeção do gráfico revela que a Suécia apresenta muito mais ganhadores do Nobel do que o esperado, e isso não passa desapercebido pelos autores:

Dado que seu consumo de chocolate per capta é de 6.4 kg por ano, nós estimamos que a Suécia deveria ter produzido um total de 14 laureados do Nobel, porém nós observamos 32.

e eles especulam quais são as causas  desse grande viés:

Visto que o numero observado excede o esperado por um fator de 2, n√£o podemos escapar a no√ß√£o que ou o Comit√© do Nobel em Estocolmo tem algum vi√©s patri√≥tico quando avaliam os candidatos para os premios ou, talvez, os suecos s√£o particularmente sens√≠veis ao chocolate, e mesmo quantidades min√ļsculas podem aumentar consideravelmente sua cogni√ß√£o.

Entretanto, pode-se argumentar que¬†“Correla√ß√£o n√£o implica em causalidade“, o que significa que a presen√ßa de uma forte correla√ß√£o n√£o significa que uma coisa causou outra, ou mesmo vice-e-versa. Os autores est√£o plenamente cientes disso:

Uma segunda hip√≥tese, de causa√ß√£o reversa- isso √©, que uma melhor performance cognitiva estimula o consumo nacional de chocolate- deve tamb√©m ser considerada. √Č concebivel que pessoas com capacidades cognitivas superiores (i.e. cognosc√™ncia) s√£o mais conscientes dos benef√≠cios do consumo de flavonoides em chocolate escuro e s√£o mais inclinados a aumentar o seu consumo.

e ainda

Que receber o premio Nobel levaria ao aumento do consumo de chocolate em nível nacional parece improvável, apesar de que talvez os eventos celebratórios associados com essa honra singular podem desencadear um aumento generalizado porém transitório.

Hum… certo…¬†Bom, se a ci√™ncia diz, ent√£o provavelmente est√° certo!

Referência

Messerli, F. (2012). Chocolate Consumption, Cognitive Function, and Nobel Laureates New England Journal of Medicine, 367 (16), 1562-1564 DOI: 10.1056/NEJMon1211064

Bebês são amorais (e porque publicar seus resultados)

Em 2007, Hamlin e colegas elaboraram um experimento para avaliar a moralidade inata de infantes. Especificamente, esses pesquisadores queriam investigar a capacidade de avaliação social, ou seja, a capacidade de discernir entre indivíduos considerados bons dos indivíduos considerados ruins, algo essencial para a construção de nossas normas morais e de nosso convívio em sociedade.

Este estudo foi desenhado de forma relativamente simples. Os beb√™s eram expostos a uma cena onde um personagem (a bola rosa com olhos) tentava escalar uma colina. Em um dos casos, o escalador era auxiliado por um ajudante (tri√Ęngulo amarelo) a subir a colina e no outro caso o escalador era impedido de atingir o topo por um terceiro agente (um cubo cinza).

Caso onde o escalador era auxiliado na sua escalada

Caso onde o escalador era impedido de atingir o topo.

Ap√≥s as cenas, era dada aos beb√™s a possibilidade de fazer uma escolha entre dois personagens. Em um dos casos, os beb√™s podiam escolher entre o ajudante e um personagem neutro, e em outro caso eles podiam escolher entre o personagem neutro e o impedidor. No primeiro caso, os beb√™s escolhiam preferivelmente o ajudante ao personagem neutro, e no segundo caso, eles preferiam o personagem neutro ao que atrapalha. Isso √© impressionante porque mostra que o beb√™ n√£o apenas prefere “ajudantes”, como tamb√©m repudia “impedidores”. E tem mais: isso mostra que os beb√™s conseguiam reconhecer a narrativa apresentada,¬†atribuindo personalidades aos personagens,¬†identificando inten√ß√£o e objetivo (como isso n√£o √© o ponto do artigo, suponho que isso j√° fosse conhecido, mas achei digno de nota). E tudo isso em beb√™s de 6 e 10 meses! Bastante impressionante de fato!

Porém Scarf e colaboradores, ao investigarem os vídeos do procedimento experimental de Hamlin e colegas, notaram uma coisa estranha: no caso em que o escalador é auxiliado, ao terminar o seu percurso, ele chacoalha (presumidamente para passar a ideia de satisfação), porém isso não acontece quando ele é impedido de subir. Esses pesquisadores suspeitaram que o que estava acontecendo ali não era uma avaliação social, mas sim uma simples associação: coisas que chacoalham são mais atraentes para bebês e chamam a atenção. Sendo assim, a escolha pelo ajudante seria uma função do chacoalhar do escalador ao fim do percurso, uma hipótese que me parece intuitivamente válida. Afinal, bebês não são criaturas particularmente brilhantes, e todo pai sabe que eles são atraídos por cores fortes, por sons e por movimentos.

Para testar tal hip√≥tese, a equipe de Scarf replicou o experimento, por√©m agora adicionando o “chacoalhar” seja quando o escalador conseguia chegar ao topo, seja quando ele era impedido de chegar ao topo e retornava ao cume. Cada beb√™ observava mais de um evento, delimitando 3 tipos de tratamento:

  1. No primeiro grupo os beb√™s viam o evento “ajudado” com chacoalhar e o evento “impedido” sem chacoalhar¬†(grupo “Top” da figura);
  2. No segundo, os beb√™s viam ambos os eventos com o chacoalhar, tanto quando o escalador era impedido de chegar ao topo, quanto quando ele atingia o topo (grupo “Both)”;
  3. No √ļltimo grupo os beb√™s viam apenas o epis√≥dio “impedido” com um chacoalhar, e enquanto o n√£o o “ajudado” n√£o apresentava a chacoalhada (grupo “Bottom”).
A previs√£o dos pesquisadores √© simples: se o chacoalhar √© o que determina a escolha do beb√™, ent√£o ver√≠amos que no primeiro grupo, mais beb√™s escolheriam o ajudante e que no ultimo grupo, mais beb√™s escolheriam o impedidor, enquanto no segundo grupo, onde existe chacoalhada em ambos os casos, os beb√™s selecionariam os personagens aleatoriamente. E os resultados s√£o perfeitamente consistentes com tais previs√Ķes:
Porcentagem de beb√™s que escolhem os personagens nos 3 grupos experimentais : Primeiro grupo (“Top”), Segundo grupo (“Both”) e Terceiro grupo (“Bottom”). O tamanho das barras indica a porcentagem de beb√™s que escolheu um dado personagem, e a cor da barra indica o personagem escolhido: Amarelo- Ajudante; Azul- Impedidor.
Curioso que a propor√ß√£o de beb√™s que seleciona o personagem quando h√° o chacoalho √© similar no primeiro e √ļltimo grupos (da minha parte eu ficaria feliz com umas barras de erro nisso a√≠).¬†De qualquer forma, a hip√≥tese de associa√ß√£o simples (ou seja “coisas coloridas, que chacoalham e fazem barulho s√£o mais legais”) explica muito melhor os dados do que a de que beb√™s conseguem atuar em cima de alguma forma primitiva de julgamento moral. Sendo assim, tal capacidade (como vista em seres humanos adultos) seria adquirida em um momento posterior no desenvolvimento, presumidamente por aprendizado social.

Esse tipo de debate é interessante por vários motivos óbvios, mas pelo menos por um não-obvio e bastante importante: divulgação de dados científicos. Tal discussão jamais teria ocorrido se os autores do primeiro trabalho não tivessem divulgado vídeos demonstrando seus procedimentos experimentais, possibilitando o segundo grupo de pesquisadores replicar e testar os seus achados. Por mais que fique a sensação que o primeiro grupo pisou na bola (e pisou), foi sua honestidade que possibilitou a descoberta do erro e do avanço do conhecimento.

Parafraseando Robert Price: Todos os resultados de investigação honesta contém em si as sementes da sua própria destruição. Acho que essa é um ótimo ideal a ser seguido.

Isso, e nunca confiar em bebês, pois eles são um bando amorais. Sempre desconfiei.

Referências

  Hamlin, J., Wynn, K., & Bloom, P. (2007). Social evaluation by preverbal infants Nature, 450 (7169), 557-559 DOI: 10.1038/nature06288

  Scarf, D., Imuta, K., Colombo, M., & Hayne, H. (2012). Social Evaluation or Simple Association? Simple Associations May Explain Moral Reasoning in Infants PLoS ONE, 7 (8) DOI: 10.1371/journal.pone.0042698

Criacionistas: Proponham ou Calem-se

Segue abaixo um video do antigo usu√°rio do youtube cdk007. Nele, ele convida os criacionistas a enviarem artigos cient√≠ficos revisados por pares que corroborem suas cren√ßas criacionistas. A id√©ia √©, acima de tudo, tentar desmistificar a no√ß√£o de que a ci√™ncia √© uma conspira√ß√£o at√©ia com o objetivo de avan√ßar algum tipo de ideologia naturalista, anti-menino Jesus, mas sim √© uma √°rea s√©ria e sistem√°tica. N√£o √© a festa da uva, onde qualquer um pode se safar dizendo “√© apenas minha opini√£o”.

Cruzei com esse v√≠deo a primeira vez a tempos, durante a √©poca de discuss√Ķes no orkut com criacionistas. Na ocasi√£o, um criacionista dizia ter um teste cient√≠fico em favor do criacionismo, e o v√≠deo me pareceu extremamente adequado.

Na √©poca ainda adicionei uma proposta minha. Visto que muitos criacionistas acreditam que existe uma conspira√ß√£o ateia na ci√™ncia, eu me comprometi em facilitar o contato de criacionistas tupiniquins com agencias internacionais que financiam (ou pelo menos dizem financiar) pesquisas que tem como o objetivo demonstrar o criacionismo (como o Discovery Institute) ou que tentam integrar aspectos religiosos na ci√™ncia (como a Templeton Foundation). N√£o que eu ache que nada disso √© de fato necess√°rio: um criacionista comprometido conseguiria descobrir institui√ß√Ķes nacionais que apoiam esse tipo de empreitada e que seriam muito mais comprometidos com os interesses dos criacionistas. Mas a oferta ainda √© v√°lida e por isso reitero ela.

Segue abaixo o video e uma transcri√ß√£o do conte√ļdo.

Caros Criacionistas,

Ultima vez que conversamos, eu lhes acusei de, acima de tudo, desonestidade intelectual.


Eu disse que vocês não tem nada a oferecer à comunidade científica. No entanto, muitos de vocês continuam a afirmar que não há provas diretas e verificáveis que a Evolução está errada e a Criação está correta: vocês tem alegado que a sua religião não é baseada em fé, mas em provas reais e irrefutáveis.


Vocês afirmam ter provas, bem, aqui está a sua chance: nós somos todos ouvidos.

Ao longo dos anos, seus sites, videos e livros ofereceram centenas, senão milhares de argumentos supostamente em favor da criação e contra a evolução. A unica regra pela qual vocês tem jogado é que vocês assumem que estão corretos até que todos os seus argumentos sejam provados falsos.
N√≥s mostramos evid√™ncias contra argumentos de 1 a 10, voc√™s oferecem o argumento 11. N√≥s mostramos evid√™ncias contra o argumento 11, voc√™s oferecem o argumento 12. Com uma quase ilimitada pilha de ignor√Ęncia de onde constroem seus argumentos, esse processo pode continuar indefinidamente. Mesmo se refutassemos um milh√£o de argumentos que poderiam ser construidos, voc√™s ainda assim n√£o aceitariam a derrota, e sim voc√™s poderiam construir o argumento um milh√£o e um.
Sendo assim, proponho o seguinte: Voc√™s afirmam ter provas, observa√ß√Ķes irrefutaveis, raz√Ķes l√≥gicas s√≥lidas. Bem, se isso √© verdade, ent√£o certamente um argumento, apenas um dos milhares que foram propostos poderia sobreviver ao processo de revis√£o por pares.

O que √© revis√£o por pares? √Č um processo pelo qual os especialistas de um campo, as pessoas mais qualificadas para avaliar um trabalho, anonimamente revis√£o revisam um manuscrito antes de sua publica√ß√£o. √Č a “revis√£o por pares” perfeita? N√£o. Mas pelo menos √© um filtro que separa o lixo sem sentido de coisas que provavelmente s√£o verdade.

Na ciencia dizemos “Publique ou morra!”. Todas as ideias devem ser capazes de passar pela revis√£o por pares ou devem ser descartados. Ent√£o, ao inv√©s de copiar e colar o Answers in Genesis, citando Ken Ham, ou “linkando” para o museu da cria√ß√£o, eu pe√ßo para um unico trabalho revisado por pares que sustenta a cria√ß√£o e desmente a evolu√ß√£o.¬†

Agora eu j√° posso ouvi-los reclamando que a ciencia √© uma gigantesca conspira√ß√£o de ateus odiadores de Deus que esconde todas as evid√™ncias contra a evolu√ß√£o. Sim, isso mesmo, uma conspira√ß√†o envolvendo milhoes de pessoas, de todos os pa√≠ses, culturas e religi√Ķes, que se estende por mais de um s√©culo no passado…

Apenas no meu laboratório temos 3 auto-proclamados cristãos, um judeu, um muçulmano, um sikh dentre 10 indivíduos. Realmente não soa como um bando de ateus odiadores de Deus para mim.
Mas tudo bem, se você ainda quer alegar que nenhum dos seus trabalhos podem passar a revisão por pares por que um auto-proclamado grupo religiosamente diverso de pessoas são, na verdade, todos ateus enrustidos, tudo bem! Eu vou aceitar no lugar de um artigo revisado por pares, um manuscrito que foi apresentado e rejeitado acompanhado pelos comentários dos revisores e editores da revista
De-me o melhor que você tem. Você não pode afirmar que há uma conspiração se nunca submeteu um artigo pra começar. Uma vez que eu receber um artigo revisado por pares, ou um manuscrito rejeitado com comentários dos revisores eu vou linkar para ele na descrição do vídeo.

Vocês são os que clamam ter provas, então Proponham, ou Calem-se.

Se voc√™s quiserem que suas ideias sejam respeitadas, voc√™ precisa jogar segundo um conjunto de regras justas. At√© l√°, irei continuar a refutar cada argumento criacionista, um por um. Vou continuar a trazer verdadeiros resultados cient√≠ficos para um forum p√ļblico. vou continuar a encoraja as pessoas a fazer aquilo que voc√™s mais temem: Pensar.

Nota: infelizmente o cdk007 parou de produzir videos, mas a sua lista disponível na internet é bastante completa e muito bem referenciada. Vale a pena assistir.

Um peixe chamado Dawkins (e notas sobre feminismo cético)

Saiu recentemente, na nova edi√ß√£o da revista cient√≠fica “Ichthyological Exploration of Freshwaters”, um artigo de revis√£o taxon√īmica e filogenia do genero Puntus de peixes do Sul da √Āsia. O trabalho n√£o traz grandes conclus√Ķes, fora o estudo de um grupo de peixes diversificados que necessitava de uma avalia√ß√£o. Por√©m, chama a aten√ß√£o o nome do novo g√™nero proposto para uma pequena linhagem dentro do grupo:
Filogenia molecular baseada no gene cyt-B. Ret√Ęngulo vermelho evidencia Dawkinsia, genero novo.

Exato. O gênero Dawkinsia é uma homenagem ao Richard Dawkins. O artigo ainda explica:

Etimologia. O g√™nero foi nomeado segundo Richard Dawkins, por sua contribui√ß√£o para o entendimento do p√ļblico da ci√™ncia e, em particular, a ci√™ncia evolutiva, g√™nero feminino.

Agora, eu n√£o sou taxonomista (apesar de ter contribu√≠do para alguns trabalhos de taxonomia), e n√£o sei ao certo como funciona o c√≥digo de nomenclatura de g√™neros novos (ou mesmo se peixes tem uma regra especial), mas achei deveras ir√īnico o fato do nome ter o g√™nero feminino, tendo em vista o fiasco que Dawkins se meteu na comunidade c√©tica.

Para quem não conhece a história: no ano passado, durante uma convenção cética em Dublin, a blogueira e vlogueira Rebecca Watson (a.k.a. Skepchic) recebeu uma cantada em um elevador. Segundo o relato dela:

No bar, mais tarde naquela noite, […], n√≥s est√°vamos no bar do hotel. “4 a.m.”, eu disse, “j√° √© demais para mim, rapazes, eu estou exausta. Eu vou para a cama”. Ent√£o eu andei at√© o elevador e um homem entrou no elevador comigo e disse: “N√£o leve isso a mal, mas eu te acho muito interessante e eu gostaria de conversar mais. Voc√™ gostaria de vir para o meu quarto para tomar um caf√©?”. S√≥ uma palavra para os s√°bios: Rapazes, n√£o fa√ßam isso. Eu n√£o sei outra forma de dizer que isso me deixa incrivelmente desconfort√°vel, ent√£o eu vou simplesmente dizer que eu era uma mulher solteira, em um pa√≠s estrangeiro, as 4 da manh√£, em um elevador de hotel, com voc√™, apenas voc√™… n√£o me chame para o seu quarto de hotel logo ap√≥s eu ter terminado de dizer que eu fico desconfort√°vel quando homens me sexualizam dessa forma.

Para os que n√£o sabem, “tomar um caf√©” costuma ser um eufemismo.

A √™nfase (negrito) √© minha, por√©m √© essa parte do discurso que a Rebecca reitera como sendo o ponto da sua coloca√ß√£o sobre o incidente. De qualquer forma, o que aconteceu depois √© ainda meio confuso: eu n√£o sei se a Rebecca fez outras afirma√ß√Ķes, ou se apenas o que veio depois da frase destacada realmente ofendeu os homens das comunidades c√©ticas, mas a discuss√£o e agress√Ķes atingiram um n√≠vel t√£o impressionante que acho que s√≥ pode ser descrito como o primeiro e maior flame war internacional da internet. A coisa toda atingiu um n√≠vel t√£o baixo que Dawkins interferiu na conversa, de forma desastrosa, atrav√©s de um coment√°rio postado no blog Pharyngula¬†(infelizmente o coment√°rio original parece ter sido apagado, mas reproduzo abaixo):

Querida Muslima, 

Pare de reclamar. Sim, sim, n√≥s sabemos que sua genit√°lia foi cortada com uma navalha e … (bocejo)… ¬†n√£o me conte novamente, eu sei que voc√™ n√£o pode dirigir um carro, e voc√™ n√£o pode deixar sua casa sem um parente homem, e o seu marido pode bater em voc√™, e voc√™ ser√° apedrejada at√© a morte se cometer adult√©rio. Mas pare de reclamar. Pense no que suas pobres e sofredores irm√£s americanas tem que lidar.¬†

Nessa semana eu escutei que uma delas, que se chama Skep”chick”, e voc√™ sabe o que aconteceu com ela? Um homem em um elevador convidou ela para o seu quarto para tomar um caf√©. E eu n√£o estou exagerando. Ele realmente fez isso. Ele convidou ela para o seu quarto para tomar um caf√©. Evidente que ela disse n√£o, e evidente que ele n√£o encostou um dedo nela, mas mesmo assim…¬†

E você, Muslima, pensa que tem que reclamar de misoginia! Pelamor de Deus, cresça, ou pelo menos adquira uma casca mais grossa.
Richard

Aparentemente a ideia era simular uma carta a uma mu√ßulmanda (“Muslima”) que sofre atos horrivels de abuso, sugerindo que os reais problemas trazidos pela misoginia s√£o aqueles sofridos pelas mulheres ocidentais. A inten√ß√£o √© clara: voc√™, mulher vitima de misoginia “leve” n√£o deveria ligar, afinal, tem pessoas passando por piores situa√ß√Ķes que a sua. Quando esse tipo de “li√ß√£o de moral” √© emitida, eu sempre me pergunto: dever√≠amos ent√£o nos sentirmos melhores quando estivermos com doen√ßas terminais, apenas por n√£o estarmos mortos? A l√≥gica me parece a mesma.

Eu honestamente n√£o sei o que fez Dawkins se portar assim. Suponho que, da mesma forma que existem trolls machistas que adoram amea√ßar mulheres, imagino que existam trolls feministas radicais que se aproveitaram da ocasi√£o para defender seus ideais. Quando isso ocorre, rapidamente posi√ß√Ķes se formam n√£o apenas por alinhamento ideol√≥gico, mas por repudio √† algum tipo de pensamento: “eu acho tal tipo de pensamento abomin√°vel, essa pessoa se identifica como X, logo vou me associar com a posi√ß√£o contr√°ria”. N√£o que eu ache que isso justifica a atitude de Dawkins, pois mesmo que ele tivesse respondendo √† uma falsa vis√£o do que a Rebecca disse, isso n√£o o exime de n√£o checar suas fontes, ou mesmo de falar com a pr√≥pria Rebecca (visto que eles tiveram contato durante essa mesma conferencia).

Não estou dizendo que todas as feministas são assim, obviamente, mas temos grupos extremos dentro de qualquer grupo, sejam cristãos, ateus, feministas, vegetarianos, etc. Por exemplo, recentemente a vloggeira Laci Green foi perseguida e ameaçada no Tumblr por um grupo de feministas pelo fato de ter usado um termo aparentemente pejorativo para se referir a transexuais, mesmo depois de ter se desculpado oficialmente pelo fato. Eu sempre digo que a proporção de idiotas em qualquer subgrupo da população humana parece ser constante. Não vejo porque seria diferente para as feministas.

Por falar em idiotas e feminismo, recentemente eclodiu outra flame war no FreeThoughts Blogs. Para quem não sabe, os FTB foram idealizados por PZ Myers (o mesmo que bloga no Pharyngula, o blog onde Dawkins postou seu comentário infeliz) para ser um lugar onde bloggeiros pudessem avançar suas idéias e o ideal do Pensamento Livre (que não é o mesmo que dizer o que lhe vier na cabeça). Recentemente, os FTB adicionaram Phil Mason (a.k.a. Thundef00t), um dos maiores vlogeiros ateus do youtube. Thunderf00t é conhecido, entre outras coisas, por defender a liberdade de expressão acima de tudo, o que o fez ser taxado de racista e de misógino. Ele está por trás do Dia de todo mundo desenhar Mohammed, um movimento, na minha opinião, no mínimo equivocado.

De qualquer forma, a inclus√£o de Thunderf00t no FTB n√£o foi recebida com entusiasmo pelos membros, coisa que foi agravada pela publica√ß√£o do primeiro post de Thunderf00t, argumentando¬†exatamente¬†que o problema de sexismo em conven√ß√Ķes c√©ticas (uma discuss√£o que ganhou for√ßa com a discuss√£o acerca do caso da Rebecca Watson) n√£o era uma quest√£o s√©ria:

Resumindo, existe “ass√©dio” em confer√™ncias? Eu n√£o vi realmente nada acontecendo nas pr√≥prias confer√™ncias, apesar que nos bares em outros lugares, claro que ele acontece (apesar que discutivelmente n√£o mais do que ocorrem em qualquer outro bar ao redor do pais). – De meia d√ļzia de confer√™ncias, isso d√° uma ideia da extens√£o do problema.

Ou seja:¬†voc√™, mulher vitima de misoginia “leve” n√£o deveria ligar, afinal, temos coisas melhores para nos preocupar segundo nossa an√°lise de custo-benef√≠cio. Soa familiar, n√£o?¬†De qualquer forma, uma onda de cr√≠ticas irrompeu, culminando na expuls√£o do¬†Thunderf00t do FTB por PZ Myers, apos aproximadamente 10 dias de site.

O que torna tais situa√ß√Ķes realmente desagrad√°veis, at√© onde vejo, √© a desigualdade entre a capacidade de julgar a sua pr√≥pria postura em rela√ß√£o a estere√≥tipos racistas ou mis√≥ginos. Afinal, uma pessoa pode ter atitudes mis√≥ginas sem se identificar como tal (o que imagino que seja raro, inclusive). Tal disson√Ęncia pode produzir discursos que s√£o idealizados como harmonizadores, mas s√£o realizados como nocivos. Duvido que Dawkins e Thunderf00t se vejam como mis√≥ginos e eu n√£o chamaria eles assim. Mas me parece √≥bvio que seus discursos se aproximam mais de um discurso mis√≥gino do que de qualquer outra coisa.

O que podemos tirar de tudo isso? Bem… com certeza podemos dizer que o antigo g√™nero¬†Puntus,¬†do Sul da √Āsia, agora √© dividido em diversas linhagens. Cinco linhagens, pra ser mais preciso…

Referência

Rohan Pethiyagoda, Madhava Meegaskumbura, & Kalana Maduwage (2012). A synopsis of the South Asian fishes referred to Puntius (Pisces: Cyprinidae) Ichthyological Exploration of Freshwaters