Olavo de Carvalho fala que procurar B√≥son de Higgs √© “coisa de QI 12”

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A primeira vez que cruzei com o sr. Olavo de Carvalho foi na era pr√©-google da internet, antes de entrar na faculdade, quando frequentava sites de m√≠dia alternativa e de movimentos sociais. Na √©poca, coment√°rios no site do Centro de M√≠dia Independente deram a entender que contribuidores de outro site, o M√≠dia Sem Mascara, um site de noticias e teorias conspirat√≥rias de direita comandado pelo Sr. Olavo, estavam tentando plantar um coment√°rio no CMI amea√ßando o sr. Olavo de morte. A motiva√ß√£o seria ferir a credibilidade do CMI, por algum motivo pol√≠tico que me foge.

Essa foi a primeira vez que vi esse tipo de embate na internet, com fac√ß√Ķes bem definidas, que se odiavam e usavam de todas as t√°ticas para minar seus oponentes. Obviamente nessa √©poca eu n√£o sabia da exist√™ncia de criacionistas. Bons tempos…

De qualquer forma, de l√° para c√° o sr. Olavo parece ter capitalizado em cima da sua influencia intelectual, gerando uma esp√©cie de culto a personalidade que o tem em alta estima. Talvez o √°pice da sua popularidade foi ter atra√≠do a aten√ß√£o de artistas conservadores como Dan√≠lo Gentili e Lob√£o, que parecem o usar como fonte para suas…. err… “teorias” sociol√≥gicas. O sr. Olavo se vangloria de grandes feitos, como ter refutado cientistas como Einstein, Darwin e Newton. O Sr. Carvalho tamb√©m defende que o Sol gira em torno da Terra, que a Pepsi usa fetos para ado√ßar suas bebidas, que existem evidencias cient√≠ficas para experi√™ncia extra-corp√≥reas e que existe uma conspira√ß√£o global comunista. Ouro puro.

Em um v√≠deo postado recentemente no youtube, Olavo ataca de novo a f√≠sica moderna, comentando especificamente sobre o B√≥son de Higgs.

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=RkpdtZNiv44&”]

No v√≠deo, um de seus alunos faz uma coloca√ß√£o de que a busca pela Part√≠cula de Deus (o B√≥son de Higgs) seria um “del√≠rio cientificista”. O que ele quer dizer exatamente com isso, s√≥ deus sabe, o que n√£o parece impedir o sr. Carvalho de opinar a respeito. Segundo ele:

Veja…. Se voc√™ tentar encontrar a raz√£o da exist√™ncia da mat√©ria numa part√≠cula da mat√©ria… √© coisa de QI 12.

O que me parece que o sr. Olavo est√° querendo apontar √© que existe uma contradi√ß√£o em tentar explicar toda a exist√™ncia atrav√©s de uma part√≠cula da mat√©ria, visto que a part√≠cula seria tamb√©m material, o que implicaria que toda a mat√©ria n√£o teve sua origem explicada.

Apesar de parecer que o sr. Olavo tem um ponto aqui, existem duas quest√Ķes que precisam ser elucidadas: 1) o B√≥son de Higgs n√£o est√° procurando explicar a exist√™ncia da mat√©ria e 2) mesmo se estivesse, a detec√ß√£o do B√≥son seria apenas a corrobora√ß√£o de uma teoria, e essa sim √© que apresenta poder explicativo.

O primeiro ponto é o mais simples. O Bóson de Higgs procura explicar o porque as partículas elementares apresentam massa diferente de zero. O Bóson é parte do Modelo Padrão de física de partículas, que descreve a composição da matéria e como seus diferentes constituintes interagem.

Talvez a confus√£o do sr. Olavo e seu aluno venha do fato de que o B√≥son foi chamado de “a Part√≠cula de Deus” em um livro de autoria do f√≠sico Dr. Leon M. Lederman. Talvez por suas predisposi√ß√Ķes religiosas (o sr. Olavo √© um crist√£o convicto) somadas a uma certa quantidade de ignor√Ęncia sobre o assunto, ambos parecem assumir que se algo tem o nome de “Deus”, ent√£o ele deve explicar tudo. O problema desse racioc√≠nio √© √≥bvio, mas para piorar ainda mais, o nome de “Part√≠cula de Deus” foi uma decis√£o editorial. Segundo o Dr. Lederman:

Porque a Part√≠cula de Deus? Bom, duas raz√Ķes. Primeiro, o editor n√£o nos deixou chamar de “A Part√≠cula Maldita”, apesar desse ser um t√≠tulo mais adequado dada a sua natureza trai√ßoeira e o trabalho que ela tem causado. A segunda √© que ele [o nome] tem uma conex√£o com outro livro, um muito mais antigo…

E aqui Lederman est√° se referindo ao Genesis B√≠blico. Ent√£o, apesar da confus√£o ser compreens√≠vel, √© v√°lido notar que o que importa para a validade de uma empreitada cient√≠fica √© a validade das suas premissas te√≥ricas, e n√£o o maldito nome que associaram a ela.

Agora ao segundo ponto. Vamos assumir que existe uma hip√≥tese que explica a exist√™ncia de toda a realidade e de todas as propriedades de todas as coisas que nela residem. Agora ainda assumir que essa hip√≥tese prediz que, se ela √© verdade e se todos os processos que ela descreve aconteceram, ent√£o poder√≠amos ver um sinal disso na natureza, como na presen√ßa de uma part√≠cula elementar qualquer. Podemos colocar isso em um formato silog√≠stico simples:

  • P1- A hip√≥tese X contem modelos e processos.
  • P2- Um desses modelos prev√™ a exist√™ncia de uma part√≠cula na natureza

Agora, vamos assumir ainda que

  • P3- Tal part√≠cula existe na natureza

Isso significa que a hip√≥tese X est√° correta? Bem, n√£o. Essa quest√£o remete ao problema da indu√ß√£o em ci√™ncia, na qual n√£o existe um numero finito de observa√ß√Ķes que possa corroborar qualquer generaliza√ß√£o.

Por√©m, observar a presen√ßa de tal part√≠cula definitivamente significa que n√£o podemos dizer que ela √© falsa. Isso, em ci√™ncia, √© o suficiente para constituir uma “hip√≥tese de trabalho”, uma hip√≥tese provis√≥ria que ser√° subsequentemente testada e, se todas as tentativas de demonstra-la como sendo falsa falharem (ou se todos as observa√ß√Ķes forem consistentes com a hip√≥tese), ent√£o essa ideia pode se consolidar na ci√™ncia com um alto grau de certeza.

O ponto central disso tudo √© que, se observamos a part√≠cula, o que contem poder explicativo √© a hip√≥tese, e n√£o o fato. Fatos n√£o explicam nada, e apesar de o Olavo colocar esse ponto (de certa forma), ele parece confundir deliberadamente o que √© fato e o que √© hip√≥tese para fazer uma afirma√ß√£o verdadeira (“fatos n√£o apresentam poder explicativo”), por√©m irrelevante fora da representa√ß√£o fantasiosa de o que cientistas realmente fazem. √Č um festival de bobagem.

Ou, quem sabe, o Olavo acabou de refutar a priori o modelo padr√£o da f√≠sica de part√≠culas. Mais uma refuta√ß√£o colossal para a lista dele, eu suponho…

A tese do ateísmo universitário

Calouros...
Calouros… ¬¨¬¨

Nunca fui grande f√£ do termo ‚Äúneo-ate√≠smo‚ÄĚ. Inicialmente usado para se referir aos ateus que resolviam emitir suas opini√Ķes sobre religi√Ķes e dogmas, em distin√ß√£o aos ‚Äúantigos‚ÄĚ ateus, calmos, pacatos e respeitosos (um mito, na minha opini√£o), esse termo sempre me pareceu carecer de conte√ļdo informativo sobre o que aqueles que eram assim classificados de fato acreditam. Sempre me pareceu ser muito mais uma designa√ß√£o sobre forma do que sobre conte√ļdo, visto que o que contava para ser classificado como ‚Äúneo-ateu‚ÄĚ era simplesmente o qu√£o vocal, estridente ou agressivo algu√©m era ao colocar suas opini√Ķes. N√£o ajudava em nada o fato de muitos cr√≠ticos dos ‚Äúneo-ateus‚ÄĚ ora usarem o termo de forma pejorativa contra aqueles que feriam sentimentos religiosos, ora criticarem a total aus√™ncia de diferen√ßa em rela√ß√£o a todos os outros ateus ao longo da hist√≥ria da humanidade, como quem diz que os ateus atuais se julgam inovadores, enquanto na verdade n√£o s√£o. Por esses e outros motivos, eu sempre fico de olho quando algu√©m parece dar algum tipo de defini√ß√£o sobre os ‚Äúneo-ateus‚ÄĚ. O filosofo David V. Johnson¬†resolveu propor uma tese que ele considerou ser o conceito¬†unificador por tr√°s das ideias de escritores tidos como os lideres do movimento ‚Äúneo-ate√≠sta‚ÄĚ, especificamente Christopher Hitchens, Sam Harris e Richard Dawkins. A tese √© deveras simples e pode ser resumida sucintamente da seguinte forma:

‚ÄúO mundo seria melhor sem religi√£o‚ÄĚ

O que me parece uma descri√ß√£o realmente precisa. Todos os autores acima citados, assim como muitos ateus que conhe√ßo, de fato parecem subscrever √† ideia de que a cren√ßa te√≠sta n√£o apenas √© falsa, mas tamb√©m danosa. N√£o √© de admirar que o estopim de tal movimento foram os atentados de 11 de setembro de 2001, uma das express√Ķes mais diretas dos potenciais riscos do fundamentalismo religioso. Desde ent√£o, o movimento neo-ateu parece ter se focado n√£o apenas na falsidade das id√©ias e dogmas religiosos, mas tamb√©m na avalia√ß√£o moral e √©tica de cren√ßas religiosas. Por exemplo: Dawkins diz que associar ideologias religiosas a crian√ßas √© abuso, Harris critica religiosos moderados por acobertar fundamentalistas e Hitchens critica a moralidade do deus do antigo testamento. Um mundo sem tudo isso seria melhor. Johnson, por√©m, n√£o v√™ essa tese como sendo v√°lida. Ele apelida ela, jocosamente, de ‚ÄúA tese do ate√≠smo universit√°rio” (the undergraduate atheist thesis). Segundo ele, para comprovar essa tese, seria necess√°rio

“que n√≥s somemos todas as boas e m√°s consequ√™ncias de os seres humanos serem religiosos do come√ßo ao fim da hist√≥ria da humanidade e todas as boas e m√°s consequ√™ncias de humanos n√£o serem religiosos.”

Ou seja, para que a tese seja em princ√≠pio corroborada, seria necess√°ria a computa√ß√£o de todos os eventuais males e benef√≠cios de ambas vis√Ķes de mundo (com e sem religi√£o) e¬†escolher a que soma o maior bem e/ou o menor mal e voil√†!¬†O ponto de¬†Johnson com esse exerc√≠cio √© mostrar que tal computa√ß√£o¬†seria extremamente complicada de ser realizada e que, ent√£o, a empreitada como um todo √© uma farsa. Se o mundo seria melhor ou n√£o sem religi√£o seria, segundo a proposta de Johnson, um mist√©rio.

Eu tenho um problema com essa argumenta√ß√£o. Parece que Johnson acredita que a “tese do ate√≠smo universit√°rio”, como ele chama, √© um exerc√≠cio metaf√≠sico, em que¬†criamos mentalmente mundos e avaliamos cen√°rios hipot√©ticos, erradicando religi√£o n√£o apenas¬†do presente, mas tamb√©m do passado. Essa √© uma id√©ia absurda. √Č como argumentar¬†que se algu√©m n√£o gosta do sabor de rabanetes, ele tem que avaliar se toda a sua vida teria sido melhor sem a f√°bula da Rapunzel para concluir que¬†tirar rabanetes de sua vida √© realmente algo desej√°vel. Similarmente, Johnson parece acreditar que o objetivo dos neo-ateus √© construir uma m√°quina do tempo, voltar ao passado e, sei l√°, matar Jesus… ou impedir que ele fosse morto… algo assim.

Se essa forma de pensamento fosse v√°lida, dificilmente ter√≠amos abandonado escravid√£o ou mesmo tentar√≠amos abandonar formas de abuso social e econ√īmico, como evidenciado nesse clip do comediante do Luis CK:

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=UVTXFsHYLKA”]

Afinal, se a l√≥gica √© v√°lida, ent√£o a exist√™ncias das pir√Ęmides do Egito, ou at√© mesmo do Juda√≠smo (e por consequ√™ncia, o Cristianismo e Isl√£m) deveriam ser levados em conta quando voc√™ avalia se escravid√£o √© bom ou n√£o. Ou seja, se voc√™ acha que cristianismo faz mais bem do que mal, voc√™ nunca poderia ser contra escravid√£o.

Isso √© um exagero, obviamente, para mostrar o absurdo da tese (reductio ad absurdum). No fim, Johnson est√° errado. A tese neo-ate√≠sta n√£o √© que o mundo seria melhor se religi√£o nunca tivesse existido. Talvez ela seja melhor expressada pela ideia de que o mundo est√° pronto para abandonar as amarras desnecess√°rias que tornam a religi√£o necess√°ria. E se algu√©m disser que n√£o h√° nada de “neo” nesse ate√≠smo, estar√° correto:

A religi√£o √© a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclop√©dico, a sua l√≥gica em forma popular, o seu point d’honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua san√ß√£o moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consola√ß√£o e de justifica√ß√£o. √Č a realiza√ß√£o fant√°stica da ess√™ncia humana, porque a ess√™ncia humana n√£o possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religi√£o √©, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual √© a religi√£o.

A mis√©ria religiosa constitui ao mesmo tempo a express√£o da mis√©ria real e o protesto contra a mis√©ria real. A religi√£o √© o suspiro da criatura oprimida, o √Ęnimo de um mundo sem cora√ß√£o e a alma de situa√ß√Ķes sem alma. A religi√£o √© o √≥pio do povo.

A aboli√ß√£o da religi√£o enquanto felicidade ilus√≥ria dos homens √© a exig√™ncia da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilus√Ķes a respeito da sua condi√ß√£o √© o apelo para abandonarem uma condi√ß√£o que precisa de ilus√Ķes. A cr√≠tica da religi√£o √©, pois, o germe da cr√≠tica do vale de l√°grimas, do qual a religi√£o √© a aur√©ola.

A cr√≠tica arrancou as flores imagin√°rias dos grilh√Ķes, n√£o para que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance fora os grilh√Ķes e a flor viva brote.

 Karl Marx, 1844

E se você me perguntar, taí uma tese e tanto.

Uma boa definição de ciência

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Card do Massimo, da coleção Skeptic Trumps

Acabo de ler um artigo pelo cientista-tornado-filosofo Massimo Pigliucci sobre o movimento Neo-Ateista. Pigliucci, que √© um cr√≠tico do movimento, argumenta que a principal diferen√ßa entre os ateus cl√°ssicos e os neo-ateus, √© o que ele chama de ‚Äúuma virada ao cientismo‚ÄĚ. Ele define cientismo como:

‚ÄúA atitude de considerar ci√™ncia como o ultimo crit√©rio e arbitro de todas as quest√Ķes interessantes; ou alternativamente que busca expandir a defini√ß√£o e escopo da ci√™ncia para abranger todos os aspectos do conhecimento humano‚ÄĚ

Para sustentar essa idéia, Pigliucci leva em consideração os livros publicados pelos autores considerados ícones do neo-ateísmo, especificamente Richard Dawkins, Victor Staiger, Daniel Dannet, Christopher Hitchens e Sam Harris (com quem ele parece ter um problema em particular).

Suas avalia√ß√Ķes s√£o justas na sua maioria (pelo menos nos livros que eu li), mas em quase todo par√°grafo fiquei estarrecido com algumas afirma√ß√Ķes de Pigliucci, principalmente nas suas avalia√ß√Ķes dos livros de Sam Harris. Ele chega a afirmar, por exemplo, que n√£o chegamos ao consenso sobre princ√≠pios da geometria euclidiana atrav√©s de nenhuma evid√™ncia emp√≠rica (no caso ele usa o exemplo de que a soma dos √Ęngulos de um tri√Ęngulo √© sempre 180o), o que me parece em clara contradi√ß√£o de como professores de fato demonstram esses princ√≠pios aos alunos em sala de aula*. Outra afirma√ß√£o intrigante foi a de que o dilema de Eutifron demonstra com sucesso que Deuses e moralidade n√£o tem nada a ver um com a outro, coisa que at√© onde sei √© no m√≠nimo‚Ķ discut√≠vel (mas vou poupar voc√™s o trabalho de ver um ateu defendendo um argumento para a validade da moralidade divina).

No entanto, a questão que me deixou mais intrigado foi o foco central do artigo, que é a acusação de cientismo por parte dos neo-ateus. Não porque eu discorde dela (em partes), mas porque, ao justificar isso, Pigliucci constrói uma definição de ciência que não parece contribuir para sua tese:

‚ÄúCi√™ncia √© melhor concebida como uma fam√≠lia, no sentido Wittgensteiniano, de atividades que tem uma variedade de pontos em comum, incluindo (mas n√£o se limitando a) a realiza√ß√£o sistem√°tica de observa√ß√Ķes e/ou experimentos, o teste de hip√≥teses, a constru√ß√£o de teorias gerais sobre o funcionamento do mundo, a opera√ß√£o de um sistema de revis√£o-por-pares pr√© e p√≥s-publica√ß√£o, e a exist√™ncia de uma variedade de fontes de financiamento p√ļblicos e privados para projetos que s√£o considerados v√°lidos‚ÄĚ

Eu gostei bastante dessa defini√ß√£o, mas como isso exclui necessariamente quest√Ķes morais, metaf√≠sicas ou espirituais me √© um mist√©rio. Pigliucci n√£o argumenta com sucesso sobre isso, sendo que o m√°ximo que ele faz √© indicar o leitor ao seu novo livro sobre crit√©rios de demarca√ß√£o em ci√™ncia, pseudoci√™ncia e filosofia. Posso ser s√≥ eu, mas n√£o me soa de bom tom deferir um dos principais pontos do seu artigo para um livro, sem maiores explica√ß√Ķes.

De forma geral, esse ensaio me decepcionou muito. Durante o artigo todo, e apesar dos protestos do Pigliucci, n√£o pude deixar de ter a sensa√ß√£o que grande parte das suas cr√≠ticas s√£o motivadas por briguinhas entre √°reas acad√™micas, na qual fil√≥sofos parecem estar especialmente ofendidos pelo fato de que ci√™ncia tem um reconhecimento social maior do que filosofia, que ainda soa como abobrinha para as orelhas do p√ļblico.

Talvez precisemos de um Big Bang Theory para a filosofia‚Ķ algo como ‚ÄúThe Hume‚Äôs club‚ÄĚ. Ser√° que a Sony compra?

De qualquer forma, veja o ótimo blog do Massimo, o Rationally Speaking. Vale a pena conferir.

* Pigliucci aqui parece estar adotando uma postura puramente racionalista, onde ‚Äúverdades matem√°ticas‚ÄĚ s√£o exerc√≠cios meramente racionais e n√£o emp√≠ricos. At√© onde sei, essa posi√ß√£o n√£o √© inequivoca dentro da filos√≥fica da matem√°tica. Consigo pensar em pelo menos duas outras linhas que discordariam dessa interpreta√ß√£o.

Fé não é um processo epistemológico válido

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Peter Boghossian

Esses dias relendo o texto “Investiga√ß√Ķes estat√≠sticas na efici√™ncia da prece”, do Francis Galton, e me deparei com a seguinte passagem:

Existe um motivo para esperar que um homem devoto e supersticioso seja irracional; pois uma pessoa que acredita que seus pensamentos s√£o inspirados, necessariamente certifica seus preconceitos com autoridade divina. Ele √©, assim, pouco vulner√°vel √† argumenta√ß√£o, e √© intolerante em rela√ß√£o √†queles que apresentam uma opini√£o distinta da sua, especialmente em princ√≠pios fundamentais. Consequentemente ele √© um mal parceiro em quest√Ķes de neg√≥cios. √Č uma opini√£o corriqueira no mundo de que pessoas que rezam n√£o s√£o pr√°ticas.

Parece duro, mas eu acredito que a crítica continua bastante válida. Não porque eu de fato acredite que religiosos são maus parceiros, ou que algo na sua religiosidade os impede de serem bons profissionais, longe disso. Acredito que o fato de a maioria esmagadora da sociedade, inclusive em países desenvolvidos serem religiosos, argumenta contra essa ideia. Entretanto, ainda acho que esse ponto, de certa forma, procede.

Recentemente, o fil√≥sofo¬†Peter Boghossian resolveu fazer disso o foco central de seu livro “Um Manual Para Produzir Ateus”. Segundo¬†Boghossian, o ataque √†s religi√Ķes √© contra-producente, e a ideia que precisa ser passada √© que existem processos para a gera√ß√£o de conhecimento (ou, processos epistemol√≥gicos) que n√£o s√£o confi√°veis, isso √©, eles diminuem a probabilidade de se ter cren√ßas que s√£o verdadeiras. Ele ainda identifica duas comunalidades entres processos epistemol√≥gicos pouco confi√°veis. Via de regra, tais processos 1) n√£o se baseiam em evid√™ncias e/ou 2) se baseiam em coisas que s√£o consideradas evid√™ncias, quando na verdade n√£o s√£o. E f√©, afirma¬†Boghossian, apresenta ambas as caracter√≠sticas.

A ideia de Boghossian é que, ao ensinar pensamento crítico e baseado em evidência, as pessoas irão aprimorar sua capacidade de adquirir crenças verdadeiras, levando à exclusão da fé como um processo epistemológico, o que eventualmente levaria a rejeição de religião.

√Č v√°lido notar que nem sempre religiosos aplicam f√© como base epistemol√≥gica universal. Quando em √Ęmbito profissional, muitos religiosos recorrem a pensamento cr√≠tico baseado em evid√™ncias para direcionar suas a√ß√Ķes: um empres√°rio religioso n√£o vai esperar inspira√ß√£o divina para fechar um neg√≥cio, mas sim recorrer √† analise de custo/benef√≠cio e do ambiente do mercado para tomar suas decis√Ķes. Sendo assim, a cr√≠tica de Galton nos dias de hoje pode ser mais encarado como um reductio ad absurdum¬†do o que aconteceria se as pessoas aplicassem f√© como um jeito especial de entender a realidade em todas as esferas da sua vida, algo que √© comumente apontado por cr√≠ticos de religi√£o.

Claro, muitos podem apontar a ironia na cita√ß√£o de Galton, visto que esse era um fervoroso cr√≠tico das teorias de Mendel, que era um monge e, em qualquer avalia√ß√£o, um “homem devoto”. Mas de qualquer forma, n√≥s sabemos que Mendel est√° correto, e n√£o Galton, por causa das evid√™ncias da gen√©tica e hereditariedade, e n√£o por inspira√ß√£o supernatural.

O melhor argumento para o “Evolucionismo Te√≠sta”

No post anterior eu argumentei que a evolu√ß√£o convergente de peixes cegos de caverna √© um tanto esquisita, se avaliada a luz da evolu√ß√£o te√≠sta, visto que seria necess√°rio postular um deus caprichoso ou enganador para se conformar com as observa√ß√Ķes. A solu√ß√£o seria, ent√£o, propor um¬†designer interventor que produzisse um efeito no mundo natural puramente indistingu√≠vel de processos materiais. Como isso pode ser feito?

Ao meu ver, a melhor proposta para como solucionar isso é a defendida por Elliott Sober:

A id√©ia pode ser resumida da seguinte forma: Deus interfere na evolu√ß√£o manipulando algumas muta√ß√Ķes gen√©ticas. Quantas, voc√™ pergunta? Bem, o suficiente para serem impercept√≠veis.

Uma analogia pode ajudar a entender. Suponha que voc√™ tem um n√ļmero muito grande de eventos aleat√≥rios como, digamos, lan√ßamentos de uma moeda n√£o-viciada. De todos os lan√ßamentos, aproximadamente 50% deram cara e 50% deram coroa. O evolucionismo te√≠sta seria o equivalente a chegar na 457o lan√ßamento, que deu por acaso coroa e dizer “Deus fez com que esse lan√ßamento desse coroa”. Ou seja, uma muta√ß√£o ou outra √© causada por Deus, como por exemplo a que causou o surgimento dos tetr√°podes, ou que me de um esmalte dent√°rio praticamente imune a caries.

A parte boa da ideia, √© que √© completamente infalse√°vel, como qualquer boa ideia religiosa deve ser para n√£o cair nas garras da “ci√™ncia materialista” (sic). A parte ruim √© que a interven√ß√£o divina √© totalmente irrelevante para entender qualquer padr√£o geral e, de quebra, torna Deus impotente frente as for√ßas materialistas que geram todo o resto das muta√ß√Ķes. Deus pode ter sido respons√°vel por criar uma muta√ß√£o benefica que foi varrida de uma popula√ß√£o por deriva, ou mesmo que uma muta√ß√£o puramente natural foi melhor do que muta√ß√£o causada divinamente. Lembrando que Deus n√£o poderia fixar uma muta√ß√£o desvantajosa (isso seria contra a sele√ß√£o natural e distinta da evolu√ß√£o materialista) ou causar uma pletora de muta√ß√Ķes improv√°veis para criar uma estrutura complexa (isso seria Design Inteligente e f√°cil de diagnosticar).

A √ļnica “contribui√ß√£o” dessa ideia √© permitir aos seus defensores dizer que, em algum momento da hist√≥ria da vida na terra, Deus pode ter interferido atrav√©s de uma muta√ß√£o. Talvez. Ningu√©m pode saber ao certo.

Agora, Sober n√£o √© nenhum tonto: ele √© um dos mais importantes fil√≥sofos contempor√Ęneos da evolu√ß√£o, mas eu acho que ele est√° numa empreitada quixotesca nesse ponto, e pelos motivos errados. E os motivos n√£o s√£o nem sequer religi√£o, visto que Sober √© ateu. O problema dele √© com os “novos ateus” e sua ret√≥rica. Especificamente, com o fato deles afirmarem (ou darem a entender) que religi√£o e evolu√ß√£o s√£o incompat√≠veis ou, mais especificamente, que uma concep√ß√£o neo-darwinista da evolu√ß√£o implica na inexist√™ncia de um designer capaz de guiar as muta√ß√Ķes.

O argumento que Sober tenta rebater é o seguinte:

P1) At√© onde os cientistas puderam observar muta√ß√Ķes s√£o aleat√≥rias.
P2) Muta√ß√Ķes aleat√≥rias n√£o podem ser muta√ß√Ķes guiadas.
P3) Temos modelos deterministicos de todos os outros fatores envolvidos na evolução das espécies
C) N√£o √© poss√≠vel ter muta√ß√Ķes guiadas, ou n√£o √© poss√≠vel que Deus esteja intervindo na evolu√ß√£o atrav√©s de muta√ß√Ķes.

Sober argumenta que tal linha de racioc√≠nio √© falaciosa, se baseando na equivoca√ß√£o da palavra “aleat√≥ria”. Quando um bi√≥logo fala de muta√ß√£o como sendo aleat√≥ria, ele n√£o quer dizer que as muta√ß√Ķes s√£o n√£o-causadas, mas sim que a probabilidade de uma muta√ß√£o ocorrer √© independente de se ela √© ben√©fica ou delet√©ria. Ent√£o quando um te√≥logo diz que deus guiou a evolu√ß√£o por muta√ß√Ķes aleat√≥rias, os termos “guiada” e “aleat√≥rias” n√£o est√£o em contradi√ß√£o pelo simples fato de que elas n√£o s√£o ideias opostas nesse contexto.

E ele est√° absolutamente correto nesse ponto: a teoria evolutiva moderna n√£o implica a inexist√™ncia de for√ßas guiadoras conscientes, apenas limita seu escopo √† quase irrelev√Ęncia (quaisquer que sejam elas). O te√≠sta ainda pode tentar enfiar seu deus em alguma dessas muta√ß√Ķes aleat√≥rias (mas n√£o em todas) se ele quiser.

Nada disso, claro, √© um argumento realmente a favor do evolucionismo te√≠sta: afirmar que deus fez X ou Y durante a evolu√ß√£o ainda continua sendo um argumento de ignor√Ęncia similar aos proponentes do Design Inteligente (e para esse ponto, volto a indicar o post do Giuliano). O que Sober est√° fazendo √© apenas apontar como Evolu√ß√£o e intervencionismo divino s√£o compat√≠veis. As evid√™ncias para isso ainda s√£o zero.

Peixes cegos, Elliott Sober e “A Farsa da Evolu√ß√£o Te√≠sta”

Quem me conhece sabe que considero a no√ß√£o de “Evolu√ß√£o Te√≠sta” uma grandessissima bobagem.

A alcunha “evolu√ß√£o te√≠sta” foi popularizado pela Eugene Scott (uma agn√≥stica at√© onde sei) da NCSE, uma institui√ß√£o voltada para a defesa de ci√™ncia, especificamente evolu√ß√£o e aquecimento global, por serem ideias as cient√≠ficas mais politicamente atacadas por motivos ideol√≥gicos e religiosos. Em seu artigo,¬†Eugene¬†coloca que evolu√ß√£o te√≠sta seria:

“(…) a posi√ß√£o teol√≥gica na qual Deus cria atrav√©s das leis da natureza”

o que estaria em claro contraste com a evolu√ß√£o ateia (sic) ou puramente materialista, que n√£o contaria com nenhuma interven√ß√£o divina. Agora, como essa no√ß√£o de compatibiliza√ß√£o entre evolu√ß√£o e te√≠smo √© poss√≠vel n√£o foi abordado por Scott. Seu √ļnico objetivo √© fazer com que o m√°ximo de pessoas aceitem em entendam evolu√ß√£o, mesmo que isso se d√™ atrav√©s de aceita√ß√£o de alguma no√ß√£o idiossincr√°tica. E eu n√£o tenho nenhum problema com isso: √© um motivo nobre, defendido tamb√©m por institui√ß√Ķes religiosas como o Biologos do Dr. Francis Collins. O meu problema come√ßa quando eu vejo os argumentos que defendem essa compatibilidade, e noto que eles s√£o completas bobagens. Por exemplo, o te√≥logo e bioqu√≠mico Alister McGrath, ao discutir a posi√ß√£o de Santo Agostinho sobre o G√™nesis, afirma que

“Para Agostinho, Deus trouxe tudo √† exist√™ncia, em um √ļnico momento de cria√ß√£o. No entanto, a ordem criada n√£o √© est√°tica. Deus dotou-a com a capacidade de se desenvolver. Agostinho usa a imagem de uma semente adormecida para ajudar seus leitores compreender este ponto. Deus cria sementes, que ir√£o crescer e se desenvolver no tempo certo. Usando uma linguagem mais t√©cnica, Agostinho pede a seus leitores para pensar na ordem criada como contendo causalidades divinamente embutidas que surgem ou evoluem em um est√°gio posterior.”

Como isso √© uma posi√ß√£o sobre “evolu√ß√£o” (fala sobre origem do universo) e te√≠smo (t√° mais para de√≠smo), me foge completamente! Agora, meu desprezo mais profundo por essa concep√ß√£o vem da premissa impl√≠cita de que existe alguma distin√ß√£o entre a teoria evolutiva moderna, como aceita por um materialista, e a teoria evolutiva como aceita por um te√≠sta. Porque se existe, um dos dois est√° errado. E adivinha qual √© a teoria aceita pela comunidade cient√≠fica e quantas vezes ela se vale de um deus te√≠sta?

Giuliano Thomazini Casagrande

Talvez motivado por um similar desprezo, Giuliano Thomazini Casagrande, do blog “Materialismo-Filosofia”, publicou um fant√°stico post intitulado “A Farsa da Evolu√ß√£o Te√≠sta”, no qual ele ataca de forma voraz a id√©ia. Sugiro a leitura. O Giuliano tem uma erudi√ß√£o impressionante e uma l√≠ngua ferina que n√£o poupa ningu√©m:

O exemplo da produ√ß√£o de variedades dom√©sticas √© bastante esclarecedor. As muta√ß√Ķes aleat√≥rias fornecem aos criadores de plantas e de animais a mat√©ria bruta para a elabora√ß√£o de uma imensa variedade de novas linhagens. O m√©todo utilizado ‚Äď de forma consciente ou inconsciente ‚Äď pelos criadores √© a sele√ß√£o cumulativa, durante sucessivas gera√ß√Ķes, de ligeiros desvios anat√īmicos ou comportamentais de natureza heredit√°ria. Ora, as muta√ß√Ķes que surgem aleatoriamente nada t√™m de milagrosas: um focinho um pouco mais curto, uma pelagem mais densa, um temperamento mais d√≥cil, flores mais vistosas etc. A pr√°tica dos cruzamentos seletivos, ao longo de s√©culos ou de mil√™nios, permitiu aos criadores, por exemplo, a transforma√ß√£o do lobo (Canis lupus) em centenas de ra√ßas caninas t√£o diferentes quanto o chihuahua, o s√£o-bernardo e o buldogue. Quanto √† maioria das plantas domesticadas, um leigo n√£o faz ideia das diferen√ßas que as separam de suas ancestrais selvagens. Em poucos s√©culos, os horticultores obtiveram, por exemplo, variedades como o repolho dom√©stico, o br√≥colis, a couve-flor e a couve-de-bruxelas a partir de um √ļnico ancestral, o repolho selvagem (Brassica oleracea); e somente um idiota diria que essas variedades foram produzidas por Deus.

Darwin observou que, em estado natural, as press√Ķes ambientais desempenham o papel dos criadores humanos. No not√≥rio caso das Ilhas Gal√°pagos, prosperaram as muta√ß√Ķes aleat√≥rias que conferiam aos tentilh√Ķes (migrados do continente sul-americano) um incremento adaptativo a condi√ß√Ķes de vida distintas: bicos de diversos tamanhos e formatos, √ļteis para as dietas mais variadas.

De modo an√°logo, peixes n√£o relacionados de diferentes regi√Ķes do globo s√£o isolados em cavernas e apresentam as mesmas respostas adaptativas (evolu√ß√£o convergente): uma progressiva atrofia do aparato visual, por exemplo. O cen√°rio proposto pelos acomodacionistas √© rid√≠culo. A cada vez que uma popula√ß√£o de peixes fosse isolada num ambiente trevoso, um designer inteligente operaria uma sequ√™ncia correspondente de muta√ß√Ķes que resultaria na redu√ß√£o do aparato visual. Com a mesma raz√£o um te√≥logo poderia afirmar que Deus est√° por tr√°s de um fen√īmeno como a deriva continental. Na Antiguidade, rel√Ęmpagos e trov√Ķes eram atribu√≠dos a Zeus, e terremotos, √† f√ļria de Pos√≠don. Isso faz pensar que o discurso ‚Äúsofisticado‚ÄĚ de um Plantinga n√£o passa de supersti√ß√£o ancestral apresentada sob a cobertura de ouropel de um jarg√£o acad√™mico embolado.

ouch!

Mas, claro, nenhum evolucionista te√≠sta de fato liga para esp√©cies insulares, ou para ra√ßas de cachorro, repolhos ou peixes cegos. O que importa somos n√≥s -seres b√≠pedes, de telencefalo desenvolvido- e como nos encaixamos no plano divino, qualquer que seja ele. Mas para alcan√ßar o status da evolu√ß√£o materialista, a evolu√ß√£o te√≠sta tem que tratar tamb√©m desses fen√īmenos. E quando fazemos isso, evidenciamos a futilidade da empreitada.

Agora, eu acho que o Giuliano deu pouca aten√ß√£o para o que eu considero talvez o melhor argumento “evolucionista te√≠sta” que, n√£o coincidentemente, √© o que parece estar menos presente na cabe√ßa dos advogados dessa ideia. Queria tamb√©m explorar um pouco mais o exemplo sobre peixes cegos, um assunto que considero fascinante.

Visto que isso ficaria longo demais para um √ļnico post eu dividi o assunto em 2 posts a serem colocados a seguir, um tratando sobre peixes de cavernas e outro sobre as vis√Ķes de Elliott Sober sobre essa quest√£o. Ambos podem ser tomados como posts independentes sobre esses assuntos.

1o Post: Devolvendo a vis√£o aos cegos, Mendel-style!

2o Post: O melhor argumento para o “Evolucionismo Teista”

Seleção natural não é uma tautologia

Ann Coulter, o sonho molhado de todo conservador Norte-Americano.
√Č a da direita, eu suponho…

Um dos argumentos que considero mais irritante utilizado por detratores da s√≠ntese evolutiva moderna √© que a a sele√ß√£o natural seria uma tautologia. Tal argumento foi colocado pela “pensadora” conservadora norte-americana Ann Coulter em seu livro “Godless: The Church of Liberalism” da seguinte forma:

A segunda parte da “teoria” de Darwin √© geralmente nada mais do que um argumento circular: Atrav√©s do processo de sele√ß√£o natural, o mais “apto” sobrevive. Quem √© o¬†mais “apto”? O que sobrevive! Oras, veja – acontece toda vez! A “sobreviv√™ncia do mais apto” seria uma piada, se n√£o fosse parte de um sistema de cren√ßa de um culto fan√°tico infestando a Comunidade Cient√≠fica. A beleza de ter uma teoria cientifica que √© uma tautologia, √© que ela n√£o pode ser testada.

√Č interessante notar que quem se vale desse argumento, n√£o nega a exist√™ncia da sele√ß√£o natural, pelo contr√°rio: afirma a sua exist√™ncia como uma verdade inescap√°vel. Quanto falamos de uma tautologia, estamos falando de uma proposi√ß√£o, a qual assume a seguinte forma:

A apresenta as propriedades de A

Por tr√°s da circularidade e obviedade da preposi√ß√£o, est√° o fato de que uma tautologia √© uma verdade necess√°ria. Afirmar que “A n√£o apresenta as propriedades de A” significaria dizer que existe alguma propriedade de A que n√£o √© propriedade de A, ou que A n√£o apresenta todas as propriedades de A, sendo que ambas s√£o absurdos l√≥gicos. Em nenhum caso tal afirma√ß√£o (ou qualquer outra tautologia) pode ser falsa sem simplesmente fazer uma contradi√ß√£o que fere as leis da l√≥gica (o que as tornam logicamente necess√°rias). Ent√£o, nesse ponto,¬†Coulter¬†est√° correta: uma tautologia n√£o pode ser falseada, pois ela √© uma necessidade l√≥gica. Mas seria a teoria da sele√ß√£o natural uma tautologia de fato?

“Sobreviv√™ncia do mais apto”

Uma das primeiras coisas que devemos notar √© que “sobreviv√™ncia do mais apto” n√£o √© exatamente uma das descri√ß√Ķes mais adequadas da Sele√ß√£o Natural. Mas em primeiro lugar, temos que deixar bem claro um conceito que √© comumente confundido, que √© o de “aptid√£o”, “aptid√£o darwiniana” ou “fitness” em ingl√™s.

A aptidão, em biologia evolutiva, é definida como a contribuição média de um genótipo para o pool gênico da geração seguinte. Por exemplo, se tenho uma bactéria (haplóide) com um dado genótipo que apresenta fitness=1.47, então a presença do genótipo na geração seguinte será 47% maior do que na geração anterior. Se o fitness=0.91, então aquele gene terá uma presença 9% menor na geração seguinte e por ai vai.

Note que em nenhum momento precisamos falar de sobreviv√™ncia. Afinal, o que seria “sobreviv√™ncia” no caso de bact√©rias que simplesmente se dividem? Faz algum sentido falar que a bact√©ria da esquerda √© a que “sobreviveu”, e n√£o a da direita?

Uma historia de amor melhor que Titanic

O ponto √© que um organismo n√£o precisa morrer para ter um fitness baixo. Um organismo pode muito bem ter uma baixa fecundidade, sem nunca precisar “deixar de sobreviver” ou, como no caso das bact√©rias, sobreviv√™ncia √© irrelevante visto que todos organismos originais deixam de existir ap√≥s a reprodu√ß√£o. Outro exemplo s√£o algumas esp√©cies de salm√£o¬†e¬†polvos, que morrem ap√≥s o acasalamento, louva-deuses e aranhas que consomem os seus machos, ou ainda algumas esp√©cies de √°caros que explodem ao dar luz aos filhotes. Aptid√£o n√£o tem a ver com sobreviv√™ncia.

РTira esse hectocótilo daí, João!
Esse papo de sexo vai acabar nos matando…

Ent√£o, fica bem claro que¬†“sobreviv√™ncia do mais apto” n√£o √© uma tautologia, pelo simples fato de que “sobreviv√™ncia” n√£o √© estritamente igual (apesar de poder influenciar) “aptid√£o”.

Isso tudo √© apenas para demonstrar que o argumento original utilizado est√° errado. Por√©m os mais r√°pidos v√£o notar que isso n√£o refuta a proposi√ß√£o de que “sele√ß√£o natural √© uma tautologia”: apesar do argumento dos detratores/criacionistas estar equivocado, ainda poder√≠amos transformar a proposi√ß√£o original em algo pr√≥ximo a o que sele√ß√£o natural realmente significa, produzindo assim uma tautologia. Mas como seria isso?
Aptid√£o como taxa
Se “sobreviv√™ncia do mais apto” est√° equivocado, ent√£o como poder√≠amos frasear a ideia original da melhor maneira poss√≠vel?

Sobreviv√™ncia¬†do¬†melhor¬†sobreviv√™nte“?

√Č claramente uma tautologia, uma verdade trivial, mas n√£o parece ser exatamente o que temos em mente quando pensamos em “sele√ß√£o natural”. Poder√≠amos pensar em algo na linha de

Capacidade superior de contribuir para o pool gênico da geração seguinte do genótipo (ou fenótipo) mais apto

Bom, essa parece mais próxima da ideia original, mas ela dificilmente é uma tautologia. O motivo é muito simples: ela é falsa. Isso pode ser ilustrado facilmente com uma analogia: a adaptação é uma taxa de variação da frequência de alelos, assim como aceleração é a taxa de variação da velocidade. Se fossemos formular uma proposição análoga para aceleração, teríamos algo similar à

A maior velocidade do que mais acelera

Isso é falso pelo simples motivo de que o que mais acelera pode ser o mais devagar, enquanto o mais rápido pode acelerar menos, mas manter uma velocidade superior pelo simples fato de inicialmente já apresentar uma velocidade superior.
O gr√°fico abaixo ilustra isso para uma popula√ß√£o de organismos hapl√≥ides que apresentam dois gen√≥tipos, sendo que A2 apresenta uma aptid√£o¬†duas vezes maior do que A1. q’ √© a frequ√™ncia genot√≠pica ap√≥s a sele√ß√£o e q1¬†√© a frequ√™ncia genot√≠pica de A1¬†antes da sele√ß√£o (sendo que a frequ√™ncia de A2¬†fica definida como 1-q1).
Assim, fica fácil verificar que, mesmo A2 tendo uma aptidão duas vezes maior, ele não consegue ser o maior contribuidor para o pool gênico na geração seguinte quando sua frequência inicial é muito baixa (ou quando a frequência de A1 é muito alta, no canto direito do gráfico). Moral da historia: aptidão sozinha não determina sucesso evolutivo na geração seguinte.

Um detrator mais perseverante pode argumentar que, se dermos tempo o suficiente (em outras palavras, um numero muito grande de eventos de sele√ß√£o ou gera√ß√Ķes), o gen√≥tipo mais apto ir√° se fixar, n√£o importando sua frequ√™ncia original, e ele estaria certo ao dizer isso. Mas note que a premissa “dado muito tempo” precisa ser introduzida para que torne a afirma√ß√£o verdadeira. Essa premissa pode tanto ser ou n√£o verdadeira (da mesma forma que carros e trens n√£o aceleram indefinidamente), o que torna a proposi√ß√£o condicional, n√£o uma verdade necess√°ria e, logo, a proposi√ß√£o¬†n√£o √© uma tautologia.

Mas isso tudo gera um impasse. Todas as proposi√ß√Ķes – tanto as originais, tanto as que tentam se aproximar do significado verdadeiro dos termos no contexto da s√≠ntese evolutiva – se mostraram falsas. Seria poss√≠vel elaborar uma proposi√ß√£o que¬†seja precisa (represente a ideia da sele√ß√£o natural) e que seja colocada de forma l√≥gica?

Seleção natural como silogismo

Em primeiro lugar, devemos entender como seleção natural ocorre. Não, não estou falando apenas daquele velho e batido exemplo do passarinho comendo os besouros que são mais chamativos, mudando assim a composição da população:

-Na verdade eu enxergo todos os besouros, mas meu médico disse que uma refeição colorida é uma refeição divertida

Esse é um ótimo exemplo para mostrar como seleção natural pode levar à evolução de um fenotipo de forma direcional (existem mais besouros marrons no final do que no começo), mas existem sistemas mais complexos de seleção que não levam a uma mudança nesse sentido. O exemplo mais claro é o da interação da anemia falciforme e malaria, no qual são mantidos indivíduos com genótipo não-letal da anemia na população. Não há mudança, mas há seleção.
Então, como poderíamos definir seleção natural? Na introdução do Origem das Espécies, Darwin resume brevemente como seria o mecanismo:

Como nascem muitos mais indiv√≠duos de cada esp√©cie, que n√£o podem subsistir; como, por conseq√ľ√™ncia, a luta pela exist√™ncia se renova a cada instante, segue-se que todo o ser que varia, ainda que pouco, de maneira a tornarse-lhe aproveit√°vel tal varia√ß√£o, tem maior probabilidade de sobreviver, este ser √© tamb√©m objeto de uma sele√ß√£o natural. Em virtude do princ√≠pio t√£o poderoso da hereditariedade, toda a variedade objeto da sele√ß√£o tender√° a propagar a sua nova forma modificada.

Nesse resumo, ele coloca os 3 principais componentes necess√°rios para que ocorra sele√ß√£o natural (que eu gentilmente sublinhei, para seu conforto): varia√ß√£o em uma caracteristica, diferen√ßas de aptid√£o (ele fala de sobrevivencia, mas sabemos que isso n√£o √© a √ļnica vari√°vel) ligadas a varia√ß√£o nessa caracter√≠stica, e hereditariedade dessa caracter√≠stica.

Note que, se uma popula√ß√£o apresenta varia√ß√£o em uma caracter√≠stica, mas essa n√£o apresenta nenhuma liga√ß√£o com aptid√£o, ent√£o a “sele√ß√£o” de organismos √© completamente aleat√≥ria em rela√ß√£o a aquele caractere (n√£o sendo sele√ß√£o natural). Agora, se o caractere √© ligado com aptid√£o, mas n√£o √© herdado, ent√£o mesmo que organismos com uma dada caracter√≠stica seja selecionada, ele n√£o vai passar tal caracter√≠stica para a gera√ß√£o seguinte. Esses componentes s√£o necess√°rios¬†(todos precisam estar presentes) e suficientes (nenhum outro componente precisa estar presente) para que ocorra sele√ß√£o natural, apesar de outros fatores influenciarem a din√Ęmica de sele√ß√£o.

Sendo assim, podemos definir seleção da seguinte forma:

[P1.] Existe variação entre indivíduos para uma dada característica;
[P2.] Tal variação está ligada entre progenitores e prole através de uma relação de herança, e que seja parcialmente independente dos efeitos ambientais;
[P3.] Existe uma correlação dessa característica com a habilidade reprodutiva, fertilidade, fecundidade e/ou sobrevivência (ou seja, diferenças em aptidão);

Se tais condi√ß√Ķes s√£o satisfeitas para uma dada popula√ß√£o natural, ent√£o:

[C1.] Diferen√ßas na frequ√™ncia das caracter√≠sticas ligadas √† aptid√£o na gera√ß√£o subsequente vai ser¬†ser√£o diferente daquela vista nas popula√ß√Ķes parentais.

(Modificado de Lewontin, 1970, 1982; e Endler, 1986)

Se as premissas são corretas, então a conclusão segue logicamente. Isso torna a seleção natural, expressa dessa forma, um silogismo, ou uma conclusão dependente das premissas estabelecidas, e não uma tautologia.

Note que para testar cientificamente (no caso, falsear) a hip√≥tese de que uma popula√ß√£o est√° sob sele√ß√£o natural, um pesquisador pode testar qualquer uma dessas proposi√ß√Ķes. Afinal, se C1 √© falso, ent√£o obviamente a popula√ß√£o n√£o est√° sob sele√ß√£o, mas isso n√£o implica necessariamente que a popula√ß√£o est√° sendo selecionada: uma mudan√ßa ambiental pode estar influenciando aspectos dessas caracter√≠sticas diretamente nos indiv√≠duos, como pele morena em quem toma muito sol. Se os filhos tomam mais sol, eles ter√£o a pele mais escura, sem que isso seja sele√ß√£o natural. Por esse motivo, √© necess√°rio averiguar o qu√£o herd√°vel √© uma caracter√≠stica (P2) e se a varia√ß√£o (P1) est√° ligada a aptid√£o (P3). De forma geral, √© isso que os estudantes de sele√ß√£o natural fazem, e √© a s√≠ntese evolutiva moderna que proporciona o arcabou√ßo matem√°tico que nos permite gerar previs√Ķes te√≥ricas de como um caractere deve se comportar sob o efeito de sele√ß√£o (dado que ele apresenta algum tipo de heran√ßa mendeliana).

Ent√£o… da pr√≥xima vez que algu√©m dizer que evolu√ß√£o √© uma tautologia, voc√™ pode dizer: “N√£o, n√£o √©. √Č um silogismo Quod erat demonstrandum, bitches!”.

Referencias

Lewontin, R. (1970). The Units of Selection Annual Review of Ecology and Systematics, 1 (1), 1-18 DOI: 10.1146/annurev.es.01.110170.000245

Evolução não é um fato. Parte 1: Parentescos

Ent√£o, tanto Dawkins quanto Gould parecem acreditar¬†que evolu√ß√£o, al√©m de ser uma teoria, √© um fato, e que um bom exemplo desse fato s√£o nossas rela√ß√Ķes de parentesco e ancestralidade com outros primatas.

Ok, então evolução é um fato. Mas, o que é um fato?

Fatos podem ser entendidos como aquilo que torna uma afirma√ß√£o verdadeira, e se relaciona de alguma alguma forma a algum aspecto da realidade. Por exemplo, quando afirmo que “Elefantes possuem trombas”, tal afirma√ß√£o apenas √© verdadeira, se elefantes apresentam um nariz modificado em um ap√™ndice longo, o qual chamamos de “tromba”.

Ent√£o fica a pergunta: qual √© exatamente o fato “evolu√ß√£o”, e a qual afirma√ß√£o que ela se refere? Muitas vezes n√£o est√° exatamente claro o que o fato “evolu√ß√£o” exatamente √©. No caso da passagem do Gould e do Dawkins, o que √© chamado de “fato” s√£o as rela√ß√Ķes de parentesco entre humanos e chimpanz√©s, enquanto a Teoria Evolutiva seria o que explica como tais grupos se diferenciaram e quais for√ßas evolutivas atuaram para diferencia-los (ex: sele√ß√£o natural, deriva gen√©tica, etc). A principio parece tudo OK do ponto de vista cient√≠fico, pois temos um fato que √© tentativamente explicado por um modelo te√≥rico (uma teoria). Por√©m, quando tentamos elaborar uma afirma√ß√£o verdadeira que faz refer√™ncia ao fato da ancestralidade comum entre chimpanz√©s e humanos, encontramos um problema: qual √© o fato que torna “chimpanz√©s e humanos s√£o parentes” uma afirma√ß√£o verdadeira?

O primeiro a abordar essa questão de maneira sistemática foi Carl Linnaeus, o cara que inaugurou o esforço moderno de classificação da biodiversidade. Avaliando as características de humanos e outros animais, Linnaeus chegou a conclusão de que humanos pertencem à mesma classe de animais que os grandes primatas sem rabo. Desde então, os avanços da biologia molecular tem reforçado a idéia de que humanos são intimamente relacionados com os grandes primatas, especificamente, os chimpanzés.

Por√©m a quest√£o aqui se complica. A √°rea acad√™mica que estuda as rela√ß√Ķes de parentesco entre esp√©cies ¬†¬†(a sistem√°tica filogen√©tica)¬†n√£o √© um mero exerc√≠cio de diagnose de fatos*: existem diversas linhas concorrentes que disputam qual seria a melhor maneira (se √© que ela existe) de se reconstruir as rela√ß√Ķes de parentesco entre as esp√©cies, sendo que algumas delas (ou todas elas) partem de premissas biol√≥gicas explicitamente evolutivas. Em outras palavras, se a rela√ß√£o de parentesco entre humanos e chimpanz√©s √© um “fato”, tal “fato” √© fortemente dependente de premissas te√≥ricas.

E n√£o apenas isso: as rela√ß√Ķes observadas est√£o longe de ser inequ√≠vocas.

Recentemente Grehan & Schwartz (2009) publicaram uma análise que, ao contrário da maioria dos trabalhos atuais, colocava humanos como parentes mais próximos de Orangotangos, e não de Chimpanzés. A conclusão é claramente um absurdo pois viola quase tudo o que sabemos sobre a genética dessas espécies. Porém os autores foram cuidadosos o suficiente para fazer um arranjo metodológico tão fechado, que a conclusão das analises era inequívoca, e a publicação do trabalho não poderia ser recusada, mesmo que violasse o que toda a comunidade científica acreditava sobre o assunto.

Isso mostra duas coisas. Primeiro – e isso √© uma digress√£o – que o mimimi de criacionistas e proponentes de Design Inteligente (um famoso exemplinho aqui) de que s√£o incapazes de publicar em peri√≥dicos cient√≠ficos por causa do lobby materialista √© pura bobagem. Trabalhos bem feitos, honestos e rigorosos podem sim ser publicados, independente das ideologias ou opini√Ķes de revisores.¬†Criacionistas n√£o conseguem publicar simplesmente por serem incompetentes, ou porque n√£o sabem/querem fazer ci√™ncia. Fim da digress√£o.

O segundo ponto, voltando ao assunto, √© que¬†tal reconhecimento de “fatos” (e.g. o “fato” do parentesco entre chimpanz√©s, humanos e lesmas) est√° longe de ser a prova de falhas e inequ√≠voco, precisamente porque tal parentesco n√£o √© fato, mas uma hip√≥tese. E se alguem continuar insistindo que as rela√ß√Ķes de parentesco s√£o fatos, pergunte: quais s√£o os fatos que tornam essa afirma√ß√£o verdadeira. Aposto que rapidamente ser√£o mencionadas montanhas de dados, desde evid√™ncia morfol√≥gica, registro f√≥ssil e dados moleculares (aqui para uma lista simplificada). Mas nenhum desses fatos (e aqui s√£o fatos mesmo) √© o grau de parentesco (ou “evolu√ß√£o”, como usado por Gould e Dawkins), mas sim eles¬†sustentam uma dada hip√≥tese de parentesco.

Nada disso √© controverso. Pesquisadores da √°rea n√£o se referem √†s rela√ß√Ķes de parentescos como fatos, mas sim como hip√≥teses, mais especificamente, hip√≥teses filogen√©ticas. Tais hip√≥teses s√£o constantemente modificadas e refinadas, muitas vezes sendo radicalmente reformuladas pela descoberta de uma nova fonte de dados moleculares ou f√≥sseis, por exemplo.¬†E o ponto √©: isso acontece exatamente porque rela√ß√Ķes de parentescos entre esp√©cies n√£o s√£o fatos, mas sim conclus√Ķes dependente de teorias e de fatos. O acumulo de evid√™ncias que contrarie um certo cen√°rio evolutivo pode derrubar tal cen√°rio em favor de outro, como acontece com qualquer hip√≥tese cient√≠fica.

Resumindo: dizer que parentesco entre espécies é um fato é cometer uma falácia de equivocação, chamando uma hipótese (filogenética) de fato.

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* Existem sim pesquisadores que acreditam que sistemática filogenética é apenas isso, mas isso é outra discussão.

Referência Grehan, J., & Schwartz, J. (2009). Evolution of the second orangutan: phylogeny and biogeography of hominid origins Journal of Biogeography, 36 (10), 1823-1844 DOI: 10.1111/j.1365-2699.2009.02141.x

Evolu√ß√£o n√£o √© um fato. Pre√Ęmbulo

Certo dia eu me deparei com o seguinte tweet do Dawkins:

N√≥s n√£o vamos explicar “teoria” a eles, ent√£o vamos parar de tentar. Evolu√ß√£o √© um FATO. √Č um FATO que somos primos de lesmas e chimpanz√©s.

Após ler isso, me lembrei imediatamente de um post no Bule Voador, no qual o autor citava* Gould:

“[…] a evolu√ß√£o √© uma teoria. Mas tamb√©m √© um fato. E fatos e teorias s√£o coisas diferentes, e n√£o est√°gios de hierarquia de certeza crescente. Fatos s√£o dados do mundo. E teorias s√£o as estruturas de ideias que explicam e interpretam os fatos. Os fatos n√£o desaparecem enquanto os cientistas debatem teorias rivais que tentam explic√°-los. A teoria gravitacional de Einstein substituiu a de Newton, mas as ma√ß√£s n√£o ficaram pairando no ar, √† espera da defini√ß√£o. E os seres humanos evolu√≠ram a partir de ancestrais parecidos com s√≠mios, quer atrav√©s do mecanismo proposto por Darwin, quer atrav√©s de qualquer outro ainda por descobrir”

Então, tanto Gould quanto Dawkins acreditam que evolução, além de ser uma teoria, é um fato. Obviamente Gould e Dawkins não estão sozinhos em afirmar isso. Como fui lembrado por um post do I Fucking Love Science no Facebook, Donald Johnson, o descobridor do australopitecínio mais famoso da história, Lucy, afirmou que:

“Eu n√£o ‘acredito’ em evolu√ß√£o tanto quanto n√£o ‘acredito’ em gravidade. √Č um fato”

Tal vis√£o n√£o √© √ļnica apenas no discurso popular de pesquisadores.¬†Barnosky e Kraatz (2007)¬†igualmente afirmam que

“Apesar de toda a discuss√£o a respeito de semantica, evolu√ß√£o √© um fato”.

Isso me deixa em uma situa√ß√£o complicada pois, diferente de grandes bi√≥logos como Dawkins e Gould, eu n√£o acredito que evolu√ß√£o seja um fato. N√£o apenas isso, acredito que dizer que ela √© um fato √©, ou ret√≥rica vazia, ou denota um desentendimento de como estudamos evolu√ß√£o. Por esses motivos, nos pr√≥ximos posts dessa s√©rie eu tentarei abordar brevemente as principais coloca√ß√Ķes sobre o assunto, colocando o porque de eu acreditar que elas est√£o erradas.

Os links ficarão disponíveis a medida que os posts estiverem prontos.

1a Parte: Rela√ß√Ķes de Parentesco
2a Parte: Registro Fóssil
3a Parte: Din√Ęmicas Populacionais
4a Parte: Seleção Natural

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* Apesar dessa passagem ser uma citação Ipsis Litteris de um artigo do Gould, ela não está destacada como tal no texto do Bule. Na verdade, esse mesmo post está recheado de passagens similares, que foram citadas na integra, porém não foram referenciadas como tal. Tentei deixar um comentário no post apontando isso, mas ele me parece bloqueado para comentários no momento. Achei que era relevante apontar isso em algum momento.

Cotas e Discriminação Estatística

Como havia comentado anteriormente, aqui vai um dos minhas muitas opini√Ķes sobre o assunto de cotas raciais e sociais. Minha opini√£o sobre o assunto j√° havia mencionada brevemente no guest post do Rony, mas ela n√£o tem muito a ver sobre o assunto que vou expor abaixo.

No post a seguir, meu objetivo é delimitar a metodologia ética baseada em discriminação estatística de Maitzen (1991) e analizar se cotas raciais ou sociais são ou não são éticas. Para frustração de alguns, não entrarei no mérito de se o princípio por trás das cotas é válido (eu acredito que sim, e posso retornar nesse assunto no futuro se achar necessário).

Discriminação estatística

Discrimina√ß√£o estat√≠stica refere-se √† pr√°tica de se valer de caracter√≠sticas observ√°veis para extrapolar caracter√≠sticas n√£o-observ√°veis que s√£o de interesse para uma dada tomada de decis√Ķes.

Por exemplo, quando vamos √† feira e apertamos as frutas, n√£o estamos realmente interessados na consist√™ncia da fruta (pelo menos n√£o na maioria dos casos). O que estamos normalmente fazendo √© nos valendo de uma informa√ß√£o que est√° dispon√≠vel (a consist√™ncia da fruta), para estimar alguma vari√°vel oculta, no caso, se a fruta est√° madura, verde ou podre. Nesse exemplo, estamos baseando nossa tomada de decis√£o (comprar ou n√£o a fruta) em uma correla√ß√£o imperfeita (nem toda fruta dura est√° verde, assim como frutas podres podem ter uma consist√™ncia “boa”), por√©m que temos como boa o suficiente para a maior parte dos casos. A pr√°tica √© chamada de “discrimina√ß√£o” pois est√° relacionado ao ato de diferenciar coisas, e √© “estat√≠stica” por ser baseada em infer√™ncias estat√≠sticas (correla√ß√Ķes) sobre tais vari√°veis de interesse.

Em economia, discrimina√ß√£o estat√≠stica normalmente se refere a teorias sobre desigualdade entre g√™neros ou etnias decorrente de incompet√™ncia dos empregadores em estimar corretamente a capacidade dos empregados, normalmente se valendo de algum tipo de estere√≥tipo. Se todos acreditam que √≠ndios s√£o de fato mais pregui√ßosos, √© bem prov√°vel que seus empregadores paguem menos a eles. Igualmente, se “mulheres n√£o s√£o boas com n√ļmeros”, elas v√£o ser consideradas menos capazes e, consequentemente, ser√£o pior remuneradas para realizar trabalhos que envolvem contabilidade, ou engenharia.

Nem todo caso de discriminação estatística é necessariamente danosa: o Estatuto da Criança e do Adolescente assume implicitamente que crianças são indivíduos em formação mental, física e moral, e institucionalizam normas que asseguram que tal desenvolvimento não será prejudicado. Obviamente, isso não é verdade para muitas crianças e adolescentes, mas de modo geral não vemos a aplicação universal do estatuto como injusto.

√Č importante reconhecer que existem dois aspectos essenciais durante qualquer discrimina√ß√£o estat√≠stica. A primeira √© o benef√≠cio (ou utilidade) que vai se obter com a identifica√ß√£o correta do que √© o melhor naquele caso, seja “o melhor” comprar uma fruta madura ou recompensar justamente um profissional (para o manter na empresa, por exemplo). O segundo aspecto √© referente ao custo da obten√ß√£o de informa√ß√£o a respeito do que de fato queremos medir. Se o empregador √© capaz de avaliar quantas vendas foram feitas por cada empregado, e quanto lucro cada um gerou, o seu sexo ou cor de pele √© irrelevante para a tomada de decis√£o (assumindo que o empregador √© racional). Por√©m, se a medida de compet√™ncia √© dif√≠cil de se obter, ela pode gerar um custo, o que for√ßa o tomador de decis√Ķes a pagar esse custo para obter a melhor informa√ß√£o poss√≠vel para sua decis√£o, ou se basear em informa√ß√Ķes (e correla√ß√Ķes) imperfeitas, correndo o risco de falsamente recompensar um empregado incompetente ou n√£o reconhecer um empregado valioso.

De forma geral parece sempre pouco razo√°vel assumirmos que temos, no presente momento, informa√ß√£o perfeita sobre qualquer situa√ß√£o que precisamos tomar uma decis√£o. Sendo assim, quase todas nossas decis√Ķes se baseiam em informa√ß√Ķes (e correla√ß√Ķes) imperfeitas. Isso, por√©m, n√£o significa que seria imposs√≠vel elevar esse n√≠vel de informa√ß√£o mediante a um custo: poder√≠amos, por exemplo, realizar uma inspe√ß√£o psicol√≥gica e m√©dica em toda crian√ßa para investigar qual √© o seu grau de desenvolvimento f√≠sico, mental e moral, para avaliar se elas ainda podem ser protegidas sob o Estatuto da Crian√ßa e do Adolescente. A quest√£o ent√£o √©: vale a pena pagar o custo pelos benef√≠cios que ser√£o recebidos?

Essa relação entre custo e benefício pode ser entendida como uma função simples:

Figura 1a de Maitzen (1991) modificada.



Onde x é o custo do aumento da informação, e y é o ganho (ou utilidade) que tal informação extra irá nos dar, e r é o valor máximo de ganho que podemos obter, que teoricamente pode nunca ser alcançado (em outras palavras, r é o valor assintótico da função). Visto que sempre é possível aumentar x, precisamos avaliar qual é o valor que nos dá o melhor ganho relativo, e a partir de qual ponto teremos prejuízo se continuarmos investindo (aumentando x). Tal valor é dado pelo ponto E, que é quando a vantagem ganha pelo aumento de informação é igual ao custo pelo aumento de informação (ou seja, onde a tangente da reta é igual a 1). A partir daquele ponto, estaremos investindo muito mais e ganhando proporcionalmente pouco. Analogamente, antes desse ponto, qualquer investimento resulta em ganhos maiores do que o investimento, ou seja, lucro. Assim, apenas vale a pena se valer de discriminação estatística se o aumento do custo do refinamento da informação causa lucro, e não prejuizo.

Tais custos e benef√≠cios n√£o precisam ser entendidos apenas como financeiros (apesar de ser mais pr√°tico pensar assim), mas tamb√©m como sociais. Assim, ter√≠amos que existem custos sociais (financeiros incluso) de se aumentar a informa√ß√£o e benef√≠cios sociais que seriam ganhos em decorr√™ncia dessa informa√ß√Ķes. De um ponto de vista utilitatista, essa seria uma base √©tica para julgar a validade de pol√≠ticas p√ļblicas baseadas em discrimina√ß√£o estat√≠stica. Uma pol√≠tica publica baseada em correla√ß√Ķes imperfeitas s√≥ seria justa se ela n√£o causa d√©ficit social ou se fosse poss√≠vel ter um grande ganho social com um pequeno investimento social em obten√ß√£o de informa√ß√Ķes.¬†

E o que isso tudo tem a ver com cotas universit√°rias, afinal?

Cotas s√£o ferramentas que suprem diversas¬†expectativas¬†e necessidades ao mesmo tempo. Por exemplo, se cotas s√£o implementadas apenas para aumentar a propor√ß√£o de certas etnias ou grupos sociais dentro da universidade, ent√£o n√£o h√° discrimina√ß√£o estat√≠stica, pois n√£o h√° uma premissa oculta de que tal etnia √© (em m√©dia) mais ou menos capacitada. Tais considera√ß√Ķes s√£o irrelevantes, se a √ļnica preocupa√ß√£o √© elevar a diversidade dentro da universidade, ou a participa√ß√£o social de segmentos exclu√≠dos. Cotas, como meio de engenharia social, n√£o s√£o foco de cr√≠ticas ou an√°lises no sentido de discrimina√ß√£o estat√≠stica.¬†Por√©m, quando falamos de equipara√ß√£o hist√≥rica ou de oferecer oportunidades mais justas (que s√£o os argumentos que escuto mais comumente), estamos necessariamente falando de discrimina√ß√£o estat√≠stica.


O presente projeto de lei PLC180 estipula que 50% das vagas das universidades estatuais ser√£o destinadas √† vestibulandos provenientes de escolas p√ļblicas, sendo que metade dessas vagas ser√£o ofertadas para os que tiverem renda inferior √† 1,5 sal√°rios m√≠nimos, e todas elas ser√£o distribu√≠das de forma equitativa no quesito racial, obedecendo a propor√ß√£o racial observada em uma dada unidade federativa (nota: a PLC180 n√£o √© perfeita, inclusive no quesito equitatividade racial, mas deixo isso para um poss√≠vel futuro post). Tanto o crit√©rio racial, quanto o de renda podem ambos ser encarados como casos de estimulo √† inclus√£o social: no caso da quest√£o racial √© mais obvio, pois o texto especifica explicitamente que o n√ļmero deve obedecer a propor√ß√£o na popula√ß√£o. J√° na quest√£o de renda, apesar de n√£o explicitado, aproximadamente metade da popula√ß√£o pode ser enquadrada nessa categoria, o que significa que esse crit√©rio tamb√©m procuraria equitatividade social.

Quanto a tais características serem bons indicativos de capacidade reduzida de performance acadêmica, acredito que o quesito de baixa renda não seja foco de duvidas. Mas seria a questão racial um bom critério? Ao meu ver sim. Recentes dados do IBGE revelam que existe uma desigualdade social na distribuição de renda em diferentes etnias ou grupos raciais.

Exemplo da distribuição de renda per capta (em salários mínimos) por diferentes etnias no Sudeste do Brasil.


Muito tem-se argumentado sobre a imperfei√ß√£o da auto-identifica√ß√£o para a defini√ß√£o de ra√ßa, e estudos gen√©ticos sobre a hereditariedade de diversas pessoas s√£o levantadas como sendo evid√™ncia de correla√ß√£o imperfeita entre ra√ßa auto-proclamada e a hist√≥ria geneal√≥gica do indiv√≠duo. Por√©m, do ponto de vista que coloquei acima, tal investiga√ß√£o n√£o √© justificada, pois aceitamos a informa√ß√£o imperfeita por consideramos que os custos para a eleva√ß√£o da informa√ß√£o n√£o compensa o ganho social que ser√° obtido. Um motivo para isso √© que n√£o √© a composi√ß√£o gen√©tica do indiv√≠duo que se correlaciona com o fen√īmenos que queremos observar (defasagem acad√™mica), mas a percep√ß√£o social de grupos √©tnicos, algo que auto-percep√ß√£o parece ser muito mais eficiente em avaliar (ou talvez seja a √ļnica forma de se avaliar isso).

Um argumento comum contra a auto-identifica√ß√£o √© que pessoas podem mentir durante a realiza√ß√£o de vestibulares e outros concursos, o que √© verdade. Por esse motivo, qualquer implementa√ß√£o de cota racial que parta deste princ√≠pio deve ter agregado um custo da vigil√Ęncia para poss√≠veis mentirosos, e possivelmente a aprova√ß√£o de leis que punam os transgressores. Mentirosos e usurpadores devem ser postos em xeque, e o eventual custo social da vigil√Ęncia e o da puni√ß√£o devem ser adicionados em nossa avalia√ß√£o dos benef√≠cios sociais que ser√£o derivados desse tipo de pol√≠tica. Analogamente, se o crit√©rio n√£o √© auto-identifica√ß√£o, mas caracteriza√ß√£o por terceiros, devem existir leis que permitam recorrer a decis√Ķes mal-feitas, algo que tamb√©m deve ser contabilizado.

Mas e o crit√©rio relacionado a escola de origem? Em um primeiro momento ela pode ser justificada por ser considerada um bom correlato estat√≠stico com baixa renda ou mesmo ra√ßa. Por√©m nenhum desses argumentos se sustenta, moralmente, pois o custo x¬†para a obten√ß√£o da informa√ß√£o necess√°ria √© baix√≠ssimo. De fato, ele √© t√£o baixo que ele j√° √© inclu√≠do no sistema de cotas, de forma que ele apenas funciona como mecanismo de exclus√£o, principalmente no caso de indiv√≠duos de baixa renda que n√£o vieram de escolas p√ļblicas (bolsistas de escolas particulares, ou mesmo indiv√≠duos sem ensino formal) ou membros de etnias discriminadas que estudaram em escolas particulares (e n√£o me parece haver motivo algum para acreditar que eles n√£o sofreram discrimina√ß√£o e n√£o tiveram seu desenvolvimento acad√™mico comprometido em decorr√™ncia disso). Nesse ponto, ou acreditamos que a escola p√ļblica √© um indicativo forte de baixo desempenho acad√™mico por si s√≥, √† exclus√£o dos outros dois crit√©rios √©tnicos e financeiros, ou somos for√ßados a admitir que tal crit√©rio √© imoral. Se cursar escola p√ļblica leva a um baixo desempenho acad√™mico (e provavelmente leva), ent√£o o estabelecimento desse tipo de cota est√° apenas endossando uma falha do pr√≥prio estado, n√£o muito diferente da l√≥gica do Progress√£o Continuada, algo que √© dificilmente uma solu√ß√£o para qualquer coisa.

Em suma,

  • N√£o vejo uma boa justificativa moral para a implementa√ß√£o de cotas “sociais” no sentido de conferir cotas a alunos advindos de escolas p√ļblicas, sendo que √© poss√≠vel elevar o n√≠vel de informa√ß√£o com um custo social proporcionalmente inferior ao ganho social: este esquema de cotas estaria abaixo do ponto E.¬†

  • J√°¬†cotas raciais e as baseadas em renda me parecem plenamente justificadas, desde que explicitamente destinadas a promover a equitatividade, pois agregam a informa√ß√£o necess√°ria para combater o problema social percebido, estando ambas pr√≥ximas ao ponto E. Isso n√£o significa que tais cotas s√£o perfeitas, mas que, dada nossa percep√ß√£o do problema, elas parecem ser uma solu√ß√£o adequada, logo √©tica.

Fonte:
Maitzen, S (1991). The ethics of statistical discrimination. Social Theory and Practice, 17, 23-45 : 10.5840/soctheorpract199117114