Devolvendo a vis√£o aos cegos, Mendel-style!

ResearchBlogging.orgA evolu√ß√£o dos peixes-cegos me fascinou desde o primeiro ano de faculdade. A hist√≥ria √© a seguinte: sabe-se que popula√ß√Ķes de peixes de caverna ao redor de todo o mundo apresentam fen√≥tipos (caracter√≠sticas morfol√≥gicas) similares que incluem redu√ß√£o ou aus√™ncia de aparato visual (A.K.A.¬†eles s√£o cegos) e perda da pigmenta√ß√£o da pele. Tais altera√ß√Ķes n√£o s√£o uma simples consequ√™ncia da aus√™ncia de luz nesses ambientes, como no caso do “bronzeado de escrit√≥rio”. Esses animais s√£o incapazes de produzir olhos e colora√ß√£o “selvagem” (a cor vista em popula√ß√Ķes de superf√≠cie) mesmo na presen√ßa de luz, e tais aus√™ncias s√£o transmitidas atrav√©s das gera√ß√Ķes. Ou seja, elas s√£o gen√©ticas.

Tal fen√īmeno – o de diversas popula√ß√Ķes de organismos apresentarem um fen√≥tipo similar, geneticamente codificado, de forma independente uns dos outros – √© chamado de “converg√™ncia”, e normalmente est√° associado ao processo de sele√ß√£o natural. A id√©ia √© simples: os organismos apresentam as mesmas caracter√≠sticas porque os ambientes no qual eles est√£o privilegiam tais caracter√≠sticas, e a sele√ß√£o natural se encarrega em fixar tais altera√ß√Ķes, produzindo o que chamamos de “converg√™ncia adaptativa”.

Por√©m, o xis da quest√£o aqui √©: como √© que tais popula√ß√Ķes apresentam exatamente as mesmas muta√ß√Ķes, nos mesmos genes, de forma a gerar tal converg√™ncia? Parece um absurdo propor que algo assim tenha surgido por processos aleat√≥rios e, ao meus olhos de rec√©m ingressado no curso de biologia, parecia uma grande dificuldade para a no√ß√£o de uma evolu√ß√£o n√£o-guiada materialista. Nesse ponto, ent√£o, discordo com a coloca√ß√£o do Giuliano (ver post anterior) de que a ideia de um designer inteligente operando “uma sequ√™ncia correspondente de muta√ß√Ķes que resultaria na redu√ß√£o do aparato visual” √© rid√≠cula. Na verdade, ela √© bastante plaus√≠vel, se imaginarmos que tais popula√ß√Ķes s√£o, de fato, independentes. No m√≠nimo, isso diminuiria em muito a plausibilidade de uma evolu√ß√£o puramente materialista como n√≥s a entendemos. Por√©m as coisas n√£o s√£o exatamente t√£o simples assim, como pode ser visto no exemplo dos Tetras.

Astyanax mexicanus, ou o Tetra-cego, √© um peixe muito interessante. Ele √© natural do nordeste do M√©xico, e est√° distribu√≠do em uma variedade de cavernas na regi√£o, assim como tamb√©m apresentam popula√ß√Ķes na superf√≠cie. As popula√ß√Ķes de cavernas s√£o extremamente modificadas, apresentando diferentes graus de redu√ß√£o de olhos (at√© completa aus√™ncia), enquanto as popula√ß√Ķes da superf√≠cie lembram peixes comuns.

Tetras da superf√≠cie (A) e de diferentes popula√ß√Ķes de cavernas (B-F).

O mais interessante dessa hist√≥ria toda √© o fato de que todos esses peixes s√£o da mesma esp√©cie, o que significa que eles podem ser cruzados uns com os outros, possibilitando a realiza√ß√£o de experimentos cl√°ssicos de gen√©tica. E de fato, muitos pesquisadores realizaram diversos experimentos, cruzando popula√ß√Ķes de caverna com popula√ß√Ķes da superf√≠cie, para ver o fen√≥tipo, especificamente o tamanho dos olhos, das primeiras linhagens de cruzamento (chamadas de F1). Via de regra, quando uma popula√ß√£o cega era cruzada com uma popula√ß√£o de superf√≠cie, a linhagem F1 apresentava um tamanho de olho intermedi√°rio entre elas.

A primeira linhagem de cruzamento (F1) entre popula√ß√Ķes de caverna cegas e da
superfície geram indivíduos com olhos de tamanho intermediário

At√© aqui nada de realmente excitante. Por√©m a divers√£o come√ßa quando se come√ßou a cruzar indiv√≠duos cegos de cavernas diferentes entre si, especificamente de uma popula√ß√£o cavern√≠cula em especial, da caverna Molino, que eram peixes de caverna que apresentavam um olho apenas ligeiramente reduzidos. Diferente do que acontecia com o cruzamento com as popula√ß√Ķes da superf√≠cie, as F1 entre as popula√ß√Ķes de caverna e as de Molino n√£o apresentavam olhos intermedi√°rios, mas sim olhos MAIORES QUE OS DE AMBAS POPULA√á√ēES DE CAVERNAS. N√£o apenas eram maiores, como eram compar√°veis aos das popula√ß√Ķes de superf√≠cie.

Tamanho do olho das popula√ß√Ķes de caverna de Piedras e Curva
e das F1 (primeira gera√ß√£o de filhos entre as popula√ß√Ķes) e F2 (segunda gera√ß√£o)¬†
entre essas popula√ß√Ķes e Molino. “B” indica “backcrosses”, cruzamentos para as¬†
popula√ß√Ķes originais.
Ou seja, ao cruzar popula√ß√Ķes com olhos reduzidos, √© poss√≠vel produzir um indiv√≠duo com um olho maior que a de ambas. Como isso √© poss√≠vel? A explica√ß√£o √© bem simples, e remete basicamente √† gen√©tica mendeliana.

Suponhamos que o tamanho de olhos sejam controlados por 4 genes dominantes (ou seja, a presen√ßa de apenas um alelo dominante j√° acarreta no efeito total no tamanho dos olhos). Lembrando que peixes s√£o organismos dipl√≥ides (apresentam duas c√≥pias de alelos para cada gene), e que alelos dominantes s√£o grafados com letras mai√ļsculas e¬†alelos¬†recessivos s√£o grafados com letras min√ļsculas. Consideramos ainda que o efeito de cada alelo dominante √© de 0,5 mm no tamanho dos olhos, e que o gen√≥tipo de uma popula√ß√£o de superf√≠cie √© AABBCCDD, o de qualquer de peixes de caverna seria algo do tipo AAbbccDD, e que a popula√ß√£o de Molino apresenta o gen√≥tipo AABBCCdd, ent√£o temos o seguinte:

Superfície-       AABBCCDD =2,0 mm
Caverna (C)-    AAbbccDD    =1,0 mm
Molino (M)-     AABBCCdd  =1,5 mm
F1 (CxM)-       AABbCcDd   =2,0 mm

A principal sacada disso √© que, apesar dos peixes apresentarem converg√™ncia na sua morfologia, diferentes cavernas n√£o passaram pelas¬†mesmas¬†muta√ß√Ķes para atingir sua morfologia atual. Diferentes popula√ß√Ķes passaram por diferentes hist√≥ricos de muta√ß√£o, em diferentes genes, para apresentar a mesma morfologia.

Mas no que isso influencia a ideia de evolução teísta?

Bem, para que o Designer tivesse criado ambas popula√ß√Ķes de peixes cegos atrav√©s dos processos naturais, ele teria feito isso atrav√©s de muta√ß√Ķes diferentes em diferentes popula√ß√Ķes sem o menor motivo aparente, visto que o mesmo regime de muta√ß√Ķes seria eficiente para atingir o mesmo objetivo. Ou seja, o Deus interventor deveria intervir em uma popula√ß√£o de uma forma e em outra popula√ß√£o de um forma diferente, sem nenhum motivo aparente. Sobraria para o evolucionista te√≠sta aceitar um deus caprichoso, ou simplesmente apelar para Seus “misteriosos caminhos”, ou alguma bobagem similar.

Claro, a maior parte dos evolucionistas teístas não são bobos. Muitos deles se afiliaram a essa ideia na tentativa de conciliação entre uma teologia específica e a teoria evolutiva, coisas que costumam ser prima facie contraditórias. Muitos deles também se preocupam com honestidade e coerência, então qualquer solução para o dilema do evolucionismo teísta não vai ser simples assim.

Da forma que vejo, uma boa solução para a questão do evolucionismo teísta seria propor um deus interventor que produziria uma evolução que não poderia ser empiricamente distinguível de uma evolução puramente materialista. Como fazer isso?

Vamos ent√£o ao √ļltimo post.

WILKENS, H., & STRECKER, U. (2003). Convergent evolution of the cavefish Astyanax (Characidae, Teleostei): genetic evidence from reduced eye-size and pigmentation Biological Journal of the Linnean Society, 80 (4), 545-554 DOI: 10.1111/j.1095-8312.2003.00230.x

Wilkens, H. (2010). Genes, modules and the evolution of cave fish Heredity, 105 (5), 413-422 DOI: 10.1038/hdy.2009.184

Jeffery, W. (2003). To See or Not to See: Evolution of Eye Degeneration in Mexican Blind Cavefish Integrative and Comparative Biology, 43 (4), 531-541 DOI: 10.1093/icb/43.4.531

Aquecimento Global: e que tal essas evidências, Dr. Felicio?

No final do ano passado aconteceu um debate no Jornal da USP (primeiro artigo e replica) sobre aquecimento global. A dan√ßa seguiu como de costume: defensores do Aquecimento Global Antropog√™nico (AGA) falando que os negacionistas n√£o contribuem em nada para a ci√™ncia (o que √© verdade) e os c√©ticos do AGA (e eu uso o termo “c√©ticos” de forma ampla aqui) acusando os defensores do AGA de n√£o oferecerem provas o suficiente para comprovar o aquecimento.

A discuss√£o teve presen√ßa inevit√°vel do nosso amigo Dr. Ricardo Fel√≠cio, not√≥rio cria… oups… “c√©tico”, no artigo de r√©plica. Depois do meu escrut√≠nio anterior do seu discurso delirante, eu elevei o Dr. Fel√≠cio ao t√≠tulo de “Saco de Batatas com orelhas”. Ele n√£o tem nada para contribuir, e eu n√£o tenho a menor vontade de voltar a abordar seus argumentos. Entretanto, esse artigo de r√©plica foi assinado primariamente por um Dr. Kenitiro Suguio. Agora, mais de um paleont√≥logo colega meu afirmou que o Dr. Suguio √© uma referencia na sua √°rea (presumidamente algo a ver com sedimentologia do quatern√°rio) e, diferente do Dr. Fel√≠cio, parece merecer algum respeito acad√™mico. Ok, ent√£o ao texto vamos!

A primeira coisa que me saltou aos olhos foi a total ausência de qualquer negação do aquecimento global. Sério, no duro. Vá lá e veja por si mesmo. Em momento algum o Dr. Suguio e companhia negam que existe aquecimento, se limitando a afirmar que

(…) n√£o h√° qualquer evid√™ncia observada no mundo real que permita qualificar como an√īmalas as varia√ß√Ķes dos par√Ęmetros clim√°ticos (por exemplo, temperaturas atmosf√©ricas e oce√Ęnicas) ou influenciados pelo clima (por exemplo, n√≠vel do mar)

O que √© uma posi√ß√£o, digamos, muito mais cientificamente conservadora do que negar a exist√™ncia do aquecimento global. Claro, a afirma√ß√£o de que os padr√Ķes atuais de altera√ß√£o clim√°tica n√£o s√£o an√īmalos s√£o um tanto… ousada, mas pass√≠vel de debate. Acho que j√° abordei isso de forma exaustiva (e voc√™ tamb√©m pode checar os posts no GeneReporter sobre o assunto), ent√£o n√£o vou entrar nesse m√©rito. Mas o que impressiona mesmo √© ver o Dr. Fel√≠cio assinando um texto desses. Afinal, √© ele o mesmo que negava explicitamente que a temperatura sequer est√° aumentando! N√£o sei, mas algo aqui me cheira muito similar a o que alguns famosos criacionistas fazem ao defender o Design Inteligente como uma vers√£o mais “intelectualmente aceit√°vel” do que sair dizendo que No√© colocou um bando de animais em um bote e fez o pior Big Brother da hist√≥ria. Talvez… quem pode saber?

Digress√Ķes a parte, o texto de forma geral gira em torno de um argumento central:

(…) em lugar de evid√™ncias f√≠sicas, os proponentes do AGA se limitam a oferecer proje√ß√Ķes de modelos matem√°ticos da din√Ęmica clim√°tica e uma exagerada import√Ęncia atribu√≠da √†s concentra√ß√Ķes atmosf√©ricas de di√≥xido de carbono (CO2)

Mesmo? √Č isso tudo que os defensores do AGA fazem? Porque eu sei que os dados clim√°ticos est√£o por ai, assim como informa√ß√£o sobre emiss√£o de poluentes, e n√£o seria nada imposs√≠vel simplesmente ver se tais vari√°veis est√£o correlacionadas ao longo do tempo. E se tem uma das coisas que eu aprendi na √°rea acad√™mica √©: toda vez que voc√™ tem uma boa id√©ia, algu√©m j√° fez antes e melhor que voc√™.

Teria por acaso algu√©m que tentou investigar a influencia das emiss√Ķes na temperatura, e de quebra abordando as principais cr√≠ticas dos c√©ticos, como coleta de dados mal feita e utiliza√ß√£o de metodologias falhas? Ent√£o sem mais delongas, com voc√™s, Dr. Richard A. Muller.

De cético a crente



Dr. Richard A. Muller √© um f√≠sico da Universidade da California, Berkeley. Em 2004, Muller entrou na dan√ßa do Aquecimento global, do lado dos c√©ticos. Aparentemente Muller havia visto a cr√≠tica de¬†McIntyre e McKitrick (sobre a qual falei no meu post anterior) e tinha achado as coloca√ß√Ķes deles v√°lidas:

McIntyre e McKitrick obtiveram uma paste do programa que Mann [famoso autor do gr√°fico hockey stick) usou, e eles acharam alguns problemas s√©rios. N√£o apenas o programa n√£o usa o PCA convencional [uma t√©cnica estat√≠stica], mas ele se realiza a normaliza√ß√£o dos dados de forma que s√≥ pode ser descrita como equivocada. (…) Essa forma inapropriada de normaliza√ß√£o tende a enfatizar os dados que tem a forma de hokey stick, e suprime todos os dados contr√°rios. Para demonstrar esse efeito, McIntyre e McKitrick produziram dados que, em m√©dia, n√£o tinha padr√£o. (…) Quando McIntyre e McKitrick deram esses dados para o protocolo de Mann, ele produziu um gr√°fico de hockey stick. (…) Essa descoberta me atingiu como uma bomba, e eu suspeito que est√° tendo o mesmo efeito em muitos outros. De repente o¬†hokey stick, o garoto-propaganda ddo aquecimento global √©, na verdade, um artefato de matem√°tica ruim. Como isso poderia acontecer?

(tradução porca e ênfase minhas)

Mas Muller, diferente dos c√©ticos padr√£o, n√£o simplesmente sentou em um canto escrevendo posts zangados na internet (sim, eu sei… hip√≥crita), e resolveu colocar a m√£o na massa: arrecadou fundos e fundou o BEST – Berkeley Earth Surface Temperature – com o objetivo principal de arrecadar dados que eles consideram confi√°veis sobre o clima, de uma perspectiva inicialmente c√©tica.

E Muller enfrentou muita critica nesse ponto: dizer que n√£o confia na capacidade de coleta de dados dos outros e que ir√° fazer tudo do zero √© mandar o dedo m√©dio para uma comunidade cient√≠fica inteira (comunidade que ele, como f√≠sico, n√£o fazia parte). Mas… e da√≠? Os climatologistas podem se sentir o quanto ofendidos eles acharem certo. Isso n√£o muda o fato de que verifica√ß√£o independente √© um dos pilares centrais da ci√™ncia. Muller estava certo de agir sob seu ceticismo, que √© algo que n√£o pode ser dito da maioria dos c√©ticos do AGA.

Então, Muller lançou o BEST para resolver tudo, desde a coleta, sumarização, elaboração de novas metodologias e analise dos dados. E o que ele achou?

Estimativas da temperatura anual (esquerda) e por decada (direita) atuais e até 3 séculos atrás. Estimativas do BEST em preto, intervalos de confiança em cinza. Estimativas de outros estudos em outras cores.
Em primeiro lugar, nota-se que as estimativas do BEST correspondem muito com as geradas por outros estudos, para o período que eles coincidem, corroborando assim os estudos anteriores. Adicionalmente, eles conseguiram ampliar a janela temporal, estendendo as estimativas até o ano de 1750.
Tudo √© bastante impressionante, principalmente porque, com uma janela de dados dessa magnitude, Muller e colegas resolveram testar diversas hip√≥teses, incluindo a influencia da emiss√£o de poluentes na temperatura m√©dia, mas tamb√©m dos ciclos solares e de eventos vulc√Ęnicos, duas criticas comuns dos c√©ticos. Os resultados eu acho falam por si s√≥:
Em vermelho, temperatura m√©dia esperada em decorr√™ncia da influ√™ncia das emiss√Ķes de CO2¬†e¬†emiss√Ķes vulc√Ęnicas (que s√£o as quedas mais abruptas de temperatura, antes de 1850). Emiss√Ķes de radia√ß√£o solar n√£o influenciaram significativamente as estimativas.
Resumindo: o aumento de temperatura parece estar principalmente ligado √† emiss√£o de CO2, irradia√ß√£o solar n√£o parece influenciar os padr√Ķes atuais e eventos vulc√Ęnicos tem uma influencia no clima, mas n√£o explicam nenhuma tendencia atual. Dr. Muller foi bastante n√£o-amb√≠guo em rela√ß√£o a esses resultados:

Eu conclui que o aquecimento global é real e as estimativas anteriores estavam corretas. Agora eu estou indo um passo além: Humanos são quase que inteiramente a causa.

Claro, a analise n√£o √© desprovida de falhas: em primeiro lugar os autores n√£o puderam diferenciar a influencia do¬†CO2¬†da influencia de outros gases, basicamente porque o aumento nas taxas de emiss√£o est√£o muito correlacionadas entre si. Em segundo lugar, a analise √© muito simplista, ent√£o eu n√£o descartaria a possibilidade de uma influencia moderada de radia√ß√£o solar. Mas √© v√°lido notar que os autores sabem dessas limita√ß√Ķes e decidiram usar uma analise simples (uma an√°lise de regress√£o simples) exatamente para limitar qualquer cr√≠tica metodol√≥gica.

E, de qualquer forma, o BEST disponibiliza todos os dados em seu site. Ou seja, qualquer um pode baixa-los, e analisá-los por si mesmo. Então, Dr. Richard A. Muller, por ser um verdadeiro cético com compromisso com a metodologia científica e transparencia acadêmica: cookie points para você. Pontos extras por me fazer poder afirmar confortavelmente que a AGA parece ser a melhor explicação para os dados que temos, e que devemos aceita-la para elaboração de políticas publicas.

N√£o me entendam mal: meu lado ambientalista anda bastante pessimista, at√© mesmo no que tange a conserva√ß√£o das esp√©cies. O m√°ximo que quero agora √© que consigamos a maior quantidade de informa√ß√Ķes sobre a biologia das esp√©cies atuais antes que a paleontologia se torne o principal ramo da biologia. Ent√£o eu realmente n√£o ligo para o que vai ser feito com essa informa√ß√£o sobre o aquecimento. Seria √≥timo que isso fosse utilizado para regulamentar a emiss√£o de gases e para melhorar nossa qualidade de vida, mas n√£o tenho esperan√ßas nisso.

Ent√£o… aparentemente sobra a pergunta para Dr. Felicio, Dr. Conti e Dr. Suguio: que tal essas evid√™ncias f√≠sicas do Aquecimento Global Antropog√™nico?

Referência
Robert Rohde, Richard A. Muller, Robert Jacobsen, Elizabeth Muller, Saul Perlmutter, Arthur Rosenfeld, Jonathan Wurtele, Donald Groom, & Charlotte Wickham (2012). A New Estimate of the Average Earth Surface Land Temperature Spanning 1753 to 2011 Geoinformatics & Geostatistics: An Overview, 1 (1) : 10.4172/gigs.1000101

Seleção natural não é uma tautologia

Ann Coulter, o sonho molhado de todo conservador Norte-Americano.
√Č a da direita, eu suponho…

Um dos argumentos que considero mais irritante utilizado por detratores da s√≠ntese evolutiva moderna √© que a a sele√ß√£o natural seria uma tautologia. Tal argumento foi colocado pela “pensadora” conservadora norte-americana Ann Coulter em seu livro “Godless: The Church of Liberalism” da seguinte forma:

A segunda parte da “teoria” de Darwin √© geralmente nada mais do que um argumento circular: Atrav√©s do processo de sele√ß√£o natural, o mais “apto” sobrevive. Quem √© o¬†mais “apto”? O que sobrevive! Oras, veja – acontece toda vez! A “sobreviv√™ncia do mais apto” seria uma piada, se n√£o fosse parte de um sistema de cren√ßa de um culto fan√°tico infestando a Comunidade Cient√≠fica. A beleza de ter uma teoria cientifica que √© uma tautologia, √© que ela n√£o pode ser testada.

√Č interessante notar que quem se vale desse argumento, n√£o nega a exist√™ncia da sele√ß√£o natural, pelo contr√°rio: afirma a sua exist√™ncia como uma verdade inescap√°vel. Quanto falamos de uma tautologia, estamos falando de uma proposi√ß√£o, a qual assume a seguinte forma:

A apresenta as propriedades de A

Por tr√°s da circularidade e obviedade da preposi√ß√£o, est√° o fato de que uma tautologia √© uma verdade necess√°ria. Afirmar que “A n√£o apresenta as propriedades de A” significaria dizer que existe alguma propriedade de A que n√£o √© propriedade de A, ou que A n√£o apresenta todas as propriedades de A, sendo que ambas s√£o absurdos l√≥gicos. Em nenhum caso tal afirma√ß√£o (ou qualquer outra tautologia) pode ser falsa sem simplesmente fazer uma contradi√ß√£o que fere as leis da l√≥gica (o que as tornam logicamente necess√°rias). Ent√£o, nesse ponto,¬†Coulter¬†est√° correta: uma tautologia n√£o pode ser falseada, pois ela √© uma necessidade l√≥gica. Mas seria a teoria da sele√ß√£o natural uma tautologia de fato?

“Sobreviv√™ncia do mais apto”

Uma das primeiras coisas que devemos notar √© que “sobreviv√™ncia do mais apto” n√£o √© exatamente uma das descri√ß√Ķes mais adequadas da Sele√ß√£o Natural. Mas em primeiro lugar, temos que deixar bem claro um conceito que √© comumente confundido, que √© o de “aptid√£o”, “aptid√£o darwiniana” ou “fitness” em ingl√™s.

A aptidão, em biologia evolutiva, é definida como a contribuição média de um genótipo para o pool gênico da geração seguinte. Por exemplo, se tenho uma bactéria (haplóide) com um dado genótipo que apresenta fitness=1.47, então a presença do genótipo na geração seguinte será 47% maior do que na geração anterior. Se o fitness=0.91, então aquele gene terá uma presença 9% menor na geração seguinte e por ai vai.

Note que em nenhum momento precisamos falar de sobreviv√™ncia. Afinal, o que seria “sobreviv√™ncia” no caso de bact√©rias que simplesmente se dividem? Faz algum sentido falar que a bact√©ria da esquerda √© a que “sobreviveu”, e n√£o a da direita?

Uma historia de amor melhor que Titanic

O ponto √© que um organismo n√£o precisa morrer para ter um fitness baixo. Um organismo pode muito bem ter uma baixa fecundidade, sem nunca precisar “deixar de sobreviver” ou, como no caso das bact√©rias, sobreviv√™ncia √© irrelevante visto que todos organismos originais deixam de existir ap√≥s a reprodu√ß√£o. Outro exemplo s√£o algumas esp√©cies de salm√£o¬†e¬†polvos, que morrem ap√≥s o acasalamento, louva-deuses e aranhas que consomem os seus machos, ou ainda algumas esp√©cies de √°caros que explodem ao dar luz aos filhotes. Aptid√£o n√£o tem a ver com sobreviv√™ncia.

РTira esse hectocótilo daí, João!
Esse papo de sexo vai acabar nos matando…

Ent√£o, fica bem claro que¬†“sobreviv√™ncia do mais apto” n√£o √© uma tautologia, pelo simples fato de que “sobreviv√™ncia” n√£o √© estritamente igual (apesar de poder influenciar) “aptid√£o”.

Isso tudo √© apenas para demonstrar que o argumento original utilizado est√° errado. Por√©m os mais r√°pidos v√£o notar que isso n√£o refuta a proposi√ß√£o de que “sele√ß√£o natural √© uma tautologia”: apesar do argumento dos detratores/criacionistas estar equivocado, ainda poder√≠amos transformar a proposi√ß√£o original em algo pr√≥ximo a o que sele√ß√£o natural realmente significa, produzindo assim uma tautologia. Mas como seria isso?
Aptid√£o como taxa
Se “sobreviv√™ncia do mais apto” est√° equivocado, ent√£o como poder√≠amos frasear a ideia original da melhor maneira poss√≠vel?

Sobreviv√™ncia¬†do¬†melhor¬†sobreviv√™nte“?

√Č claramente uma tautologia, uma verdade trivial, mas n√£o parece ser exatamente o que temos em mente quando pensamos em “sele√ß√£o natural”. Poder√≠amos pensar em algo na linha de

Capacidade superior de contribuir para o pool gênico da geração seguinte do genótipo (ou fenótipo) mais apto

Bom, essa parece mais próxima da ideia original, mas ela dificilmente é uma tautologia. O motivo é muito simples: ela é falsa. Isso pode ser ilustrado facilmente com uma analogia: a adaptação é uma taxa de variação da frequência de alelos, assim como aceleração é a taxa de variação da velocidade. Se fossemos formular uma proposição análoga para aceleração, teríamos algo similar à

A maior velocidade do que mais acelera

Isso é falso pelo simples motivo de que o que mais acelera pode ser o mais devagar, enquanto o mais rápido pode acelerar menos, mas manter uma velocidade superior pelo simples fato de inicialmente já apresentar uma velocidade superior.
O gr√°fico abaixo ilustra isso para uma popula√ß√£o de organismos hapl√≥ides que apresentam dois gen√≥tipos, sendo que A2 apresenta uma aptid√£o¬†duas vezes maior do que A1. q’ √© a frequ√™ncia genot√≠pica ap√≥s a sele√ß√£o e q1¬†√© a frequ√™ncia genot√≠pica de A1¬†antes da sele√ß√£o (sendo que a frequ√™ncia de A2¬†fica definida como 1-q1).
Assim, fica fácil verificar que, mesmo A2 tendo uma aptidão duas vezes maior, ele não consegue ser o maior contribuidor para o pool gênico na geração seguinte quando sua frequência inicial é muito baixa (ou quando a frequência de A1 é muito alta, no canto direito do gráfico). Moral da historia: aptidão sozinha não determina sucesso evolutivo na geração seguinte.

Um detrator mais perseverante pode argumentar que, se dermos tempo o suficiente (em outras palavras, um numero muito grande de eventos de sele√ß√£o ou gera√ß√Ķes), o gen√≥tipo mais apto ir√° se fixar, n√£o importando sua frequ√™ncia original, e ele estaria certo ao dizer isso. Mas note que a premissa “dado muito tempo” precisa ser introduzida para que torne a afirma√ß√£o verdadeira. Essa premissa pode tanto ser ou n√£o verdadeira (da mesma forma que carros e trens n√£o aceleram indefinidamente), o que torna a proposi√ß√£o condicional, n√£o uma verdade necess√°ria e, logo, a proposi√ß√£o¬†n√£o √© uma tautologia.

Mas isso tudo gera um impasse. Todas as proposi√ß√Ķes – tanto as originais, tanto as que tentam se aproximar do significado verdadeiro dos termos no contexto da s√≠ntese evolutiva – se mostraram falsas. Seria poss√≠vel elaborar uma proposi√ß√£o que¬†seja precisa (represente a ideia da sele√ß√£o natural) e que seja colocada de forma l√≥gica?

Seleção natural como silogismo

Em primeiro lugar, devemos entender como seleção natural ocorre. Não, não estou falando apenas daquele velho e batido exemplo do passarinho comendo os besouros que são mais chamativos, mudando assim a composição da população:

-Na verdade eu enxergo todos os besouros, mas meu médico disse que uma refeição colorida é uma refeição divertida

Esse é um ótimo exemplo para mostrar como seleção natural pode levar à evolução de um fenotipo de forma direcional (existem mais besouros marrons no final do que no começo), mas existem sistemas mais complexos de seleção que não levam a uma mudança nesse sentido. O exemplo mais claro é o da interação da anemia falciforme e malaria, no qual são mantidos indivíduos com genótipo não-letal da anemia na população. Não há mudança, mas há seleção.
Então, como poderíamos definir seleção natural? Na introdução do Origem das Espécies, Darwin resume brevemente como seria o mecanismo:

Como nascem muitos mais indiv√≠duos de cada esp√©cie, que n√£o podem subsistir; como, por conseq√ľ√™ncia, a luta pela exist√™ncia se renova a cada instante, segue-se que todo o ser que varia, ainda que pouco, de maneira a tornarse-lhe aproveit√°vel tal varia√ß√£o, tem maior probabilidade de sobreviver, este ser √© tamb√©m objeto de uma sele√ß√£o natural. Em virtude do princ√≠pio t√£o poderoso da hereditariedade, toda a variedade objeto da sele√ß√£o tender√° a propagar a sua nova forma modificada.

Nesse resumo, ele coloca os 3 principais componentes necess√°rios para que ocorra sele√ß√£o natural (que eu gentilmente sublinhei, para seu conforto): varia√ß√£o em uma caracteristica, diferen√ßas de aptid√£o (ele fala de sobrevivencia, mas sabemos que isso n√£o √© a √ļnica vari√°vel) ligadas a varia√ß√£o nessa caracter√≠stica, e hereditariedade dessa caracter√≠stica.

Note que, se uma popula√ß√£o apresenta varia√ß√£o em uma caracter√≠stica, mas essa n√£o apresenta nenhuma liga√ß√£o com aptid√£o, ent√£o a “sele√ß√£o” de organismos √© completamente aleat√≥ria em rela√ß√£o a aquele caractere (n√£o sendo sele√ß√£o natural). Agora, se o caractere √© ligado com aptid√£o, mas n√£o √© herdado, ent√£o mesmo que organismos com uma dada caracter√≠stica seja selecionada, ele n√£o vai passar tal caracter√≠stica para a gera√ß√£o seguinte. Esses componentes s√£o necess√°rios¬†(todos precisam estar presentes) e suficientes (nenhum outro componente precisa estar presente) para que ocorra sele√ß√£o natural, apesar de outros fatores influenciarem a din√Ęmica de sele√ß√£o.

Sendo assim, podemos definir seleção da seguinte forma:

[P1.] Existe variação entre indivíduos para uma dada característica;
[P2.] Tal variação está ligada entre progenitores e prole através de uma relação de herança, e que seja parcialmente independente dos efeitos ambientais;
[P3.] Existe uma correlação dessa característica com a habilidade reprodutiva, fertilidade, fecundidade e/ou sobrevivência (ou seja, diferenças em aptidão);

Se tais condi√ß√Ķes s√£o satisfeitas para uma dada popula√ß√£o natural, ent√£o:

[C1.] Diferen√ßas na frequ√™ncia das caracter√≠sticas ligadas √† aptid√£o na gera√ß√£o subsequente vai ser¬†ser√£o diferente daquela vista nas popula√ß√Ķes parentais.

(Modificado de Lewontin, 1970, 1982; e Endler, 1986)

Se as premissas são corretas, então a conclusão segue logicamente. Isso torna a seleção natural, expressa dessa forma, um silogismo, ou uma conclusão dependente das premissas estabelecidas, e não uma tautologia.

Note que para testar cientificamente (no caso, falsear) a hip√≥tese de que uma popula√ß√£o est√° sob sele√ß√£o natural, um pesquisador pode testar qualquer uma dessas proposi√ß√Ķes. Afinal, se C1 √© falso, ent√£o obviamente a popula√ß√£o n√£o est√° sob sele√ß√£o, mas isso n√£o implica necessariamente que a popula√ß√£o est√° sendo selecionada: uma mudan√ßa ambiental pode estar influenciando aspectos dessas caracter√≠sticas diretamente nos indiv√≠duos, como pele morena em quem toma muito sol. Se os filhos tomam mais sol, eles ter√£o a pele mais escura, sem que isso seja sele√ß√£o natural. Por esse motivo, √© necess√°rio averiguar o qu√£o herd√°vel √© uma caracter√≠stica (P2) e se a varia√ß√£o (P1) est√° ligada a aptid√£o (P3). De forma geral, √© isso que os estudantes de sele√ß√£o natural fazem, e √© a s√≠ntese evolutiva moderna que proporciona o arcabou√ßo matem√°tico que nos permite gerar previs√Ķes te√≥ricas de como um caractere deve se comportar sob o efeito de sele√ß√£o (dado que ele apresenta algum tipo de heran√ßa mendeliana).

Ent√£o… da pr√≥xima vez que algu√©m dizer que evolu√ß√£o √© uma tautologia, voc√™ pode dizer: “N√£o, n√£o √©. √Č um silogismo Quod erat demonstrandum, bitches!”.

Referencias

Lewontin, R. (1970). The Units of Selection Annual Review of Ecology and Systematics, 1 (1), 1-18 DOI: 10.1146/annurev.es.01.110170.000245

Porque você acha que seu chefe é idiota



via diogro


J√° teve a sensa√ß√£o de ser mais competente que seu chefe? √Č uma sensa√ß√£o incrivelmente comum, por√©m completamente contra-intuitiva. Afinal, espera-se que que um chefe tenha atingido seu posto na hierarquia de uma empresa ap√≥s demonstrar compet√™ncia, e por trazer benef√≠cios √† institui√ß√£o. Como poderia algu√©m que foi considerado t√£o competente por outrem ser aos seus olhos t√£o est√ļpido, ou, mais especificamente, menos competente que voc√™? Afinal, se voc√™ √© mais competente que seu chefe, voc√™ n√£o deveria estar no cargo de chefia?


Esse sentimento foi imortalizado nos quadrinhos Dilbert, no personagem do Chefe: um individuo ignorante, incompetente e totalmente alienado da realidade da empresa (e, em alguns casos, do mundo)




-Nós precisamos de mais programadores
-Use  métodos ágeis de programação
-Programação ágil não significa apenas que famos fazer mais trabalho com menos pessoas
-Ent√£o me ache alguma palavra que signifique* isso e me pergunte novamente.

*[haeck]: Ha, notaram o que eu fiz? De novo a coisa toda de significado.

Para investigar essa questão, Plushino e colegas recorreram a uma solução criativa: eles retomaram um princípio proposto pelo psicólogo canadense Laurence J. Peter nos fins dos anos 60. Segundo Peter: 

‘Cada novo membro em uma organiza√ß√£o hier√°rquica sobe na hierarquia at√© que ele/ela atinja seu n√≠vel de m√°xima incompet√™ncia’


Ou seja, segundo este princípio, quanto mais alto um individuo avança na escala hierárquica de uma empresa, mais incompetente ele se torna, até atingir o ponto mais alto, onde sua incompetencia será igualmente maior.


Representação esquemática de uma organização hierárquica. Quanto mais escuro o individuo, maior o seu nivel de competência. À esquerda temos os valores médios de competência para cada nivel, que vai aumentando na medida que subimos na hierarquia. Esse exemplo representa nossa ideia intuitiva de progresso hierárquico, onde o melhor individuo de uma camada inferior é escolhido para compor a camada superior, e assim sucessivamente. De Plushino et al.


Os autores colocam no resumo:


Apesar de não aparentar razoável, esse principio agiria realisticamente em qualquer organização onde o mecanismo de promoção recompensa o melhor membro e onde a competência no nível atual não depende da competência que ele possuía em níveis anteriores, usualmente porque a tarefa nos diferentes níveis são muito diferentes umas das outras.


Ou seja, um padeiro, por melhor que ele seja em fazer p√£es, n√£o precisa saber muito sobre administrar uma padaria. Ou seja, promover o melhor padeiro para administrador pode n√£o ser a melhor jogada.


Para investigar a poss√≠vel influ√™ncia do Princ√≠pio de Peter em uma organiza√ß√£o hier√°rquica, os pesquisadores produziram um modelo bem simplificado, no qual eles simulavam os diversos individuos da hierarquia como apresentando apenas duas caracter√≠sticas: competencia global e idade. A seguir, eles distribu√≠ram os individuos nas diversas hierarquias, e iniciaram as rodadas da simula√ß√£o. Cada rodada consistia na avalia√ß√£o da competencia global do indiv√≠duo e sua subsequente demiss√£o ou promo√ß√£o, sendo que individos acima de 60 anos se aposentavam. Eles tamb√©m testaram dois diferentes cen√°rios: no primeiro, chamado de “Hip√≥tese de Peter”, os indiv√≠duos, quando movidos para uma hierarquia superior, ganhavam um novo valor de competencia (pois, afinal, administrar tem pouco a ver com fazer p√£es). No segundo cen√°rio, chamado de “Hip√≥tese do Senso-Comum“, os individuos mantinham sua competencia quando subiam na hierarquia. Adicionalmente, os pesquisadores investigaram a influencia de 3 diferentes estrat√©gias de promo√ß√£o nesses dois cen√°rios diferentes: a primeira √© quando o melhor funcion√°rio √© promovido para a hierarquia superior (“The Best“), a segunda √© quando o pior √© promovido (“The Worst“) e a terceira os funcion√°rios s√£o promovidos aleatoriamente (“random“). Eles ent√£o mediram a efici√™ncia global da organiza√ß√£o, para ver o efeito das hip√≥teses e das estrat√©gias de promo√ß√£o em uma organiza√ß√£o.


Os resultados s√£o bem curiosos:


De Plushino et al.

As linhas representam a evolução da competencia global da instituição nas diferentes hipóteses: em vermelho vemos a Hipótese de Peter e em preto temos a Hipótese do Senso Comum. As diferentes linhas de uma mesma cor representam as diferentes estratégias de promoção.

Ou seja, segundo essa simula√ß√£o, se uma organiza√ß√£o na qual o Princ√≠pio de Peter n√£o atua (Senso Comum) a promo√ß√£o de individuos competentes leva a um aumento global na performance da institui√ß√£o, enquanto promover o pior indiv√≠duo piora a performance da institui√ß√£o. Promo√ß√Ķes aleat√≥rias s√£o intermedi√°rias, como esperado. Agora, em uma organiza√ß√£o onde o Princ√≠pio de Peter atua, o resultado √© oposto: promover os indiv√≠duos melhores piora mais a performance de uma institui√ß√£o do que promover os piores individuos de uma institui√ß√£o sem o Princ√≠pio. A solu√ß√£o que aparentemente melhora a produtividade m√©dia da institui√ß√£o √© a promo√ß√£o dos indiv√≠duos piores. Novamente, a promo√ß√£o aleat√≥ria apresenta valores intermedi√°rios de competencia global.


A partir disso, os autores concluem:


Nosso estudo computacional do Princípio de Peter aplicado a uma organização prototípica com uma hierarquia piramidal mostra que a estratégia de promover os melhores membros, no cado da Hipótese de Peter induz um rápido decréscimo de eficiencia.


Eles ainda adicionam que a estratégia de promoção mais segura para a organização, seria a promoção aleatória, que no pior dos casos, não implicaria em um decréscimo da eficiencia global de uma organização.


Agora, eu n√£o fa√ßo a menor ideia de o quanto o Princ√≠pio de Peter √© empiricamente verificado. Me parece complicado conseguir medir “compet√™ncia” de forma objetiva, principalmente quando estamos comparando entre ocupa√ß√Ķes muito diferentes (como presumidamente elas precisam ser para o princ√≠pio de Peter ser v√°lido).¬†


Mas, supondo que seja verdade, o que isso faz com as nossas no√ß√Ķes de “meritocracia”, at√© mesmo no contexto acad√™mico? O quanto a eficiencia de um estudante √© determinante para o seu sucesso universit√°rio ou profissional? O quanto nossas avalia√ß√Ķes de m√©rito acad√™mico refletem de fato o que se espera da pessoa, a partir do momento que ela ganha a “promo√ß√£o” (passa no vestibular, conclui a gradua√ß√£o, etc)? Isso explicaria talvez o fato de que alguns cotistas apresentam desempenho acad√™mico melhor ou igual aos n√£o-cotistas, mesmo tendo notas mais baixas no vestibular?


Referência

Pluchino, A., Rapisarda, A., & Garofalo, C. (2010). The Peter principle revisited: A computational study Physica A: Statistical Mechanics and its Applications, 389 (3), 467-472 DOI: 10.1016/j.physa.2009.09.045

Evolução não é um fato. Parte 1: Parentescos

Ent√£o, tanto Dawkins quanto Gould parecem acreditar¬†que evolu√ß√£o, al√©m de ser uma teoria, √© um fato, e que um bom exemplo desse fato s√£o nossas rela√ß√Ķes de parentesco e ancestralidade com outros primatas.

Ok, então evolução é um fato. Mas, o que é um fato?

Fatos podem ser entendidos como aquilo que torna uma afirma√ß√£o verdadeira, e se relaciona de alguma alguma forma a algum aspecto da realidade. Por exemplo, quando afirmo que “Elefantes possuem trombas”, tal afirma√ß√£o apenas √© verdadeira, se elefantes apresentam um nariz modificado em um ap√™ndice longo, o qual chamamos de “tromba”.

Ent√£o fica a pergunta: qual √© exatamente o fato “evolu√ß√£o”, e a qual afirma√ß√£o que ela se refere? Muitas vezes n√£o est√° exatamente claro o que o fato “evolu√ß√£o” exatamente √©. No caso da passagem do Gould e do Dawkins, o que √© chamado de “fato” s√£o as rela√ß√Ķes de parentesco entre humanos e chimpanz√©s, enquanto a Teoria Evolutiva seria o que explica como tais grupos se diferenciaram e quais for√ßas evolutivas atuaram para diferencia-los (ex: sele√ß√£o natural, deriva gen√©tica, etc). A principio parece tudo OK do ponto de vista cient√≠fico, pois temos um fato que √© tentativamente explicado por um modelo te√≥rico (uma teoria). Por√©m, quando tentamos elaborar uma afirma√ß√£o verdadeira que faz refer√™ncia ao fato da ancestralidade comum entre chimpanz√©s e humanos, encontramos um problema: qual √© o fato que torna “chimpanz√©s e humanos s√£o parentes” uma afirma√ß√£o verdadeira?

O primeiro a abordar essa questão de maneira sistemática foi Carl Linnaeus, o cara que inaugurou o esforço moderno de classificação da biodiversidade. Avaliando as características de humanos e outros animais, Linnaeus chegou a conclusão de que humanos pertencem à mesma classe de animais que os grandes primatas sem rabo. Desde então, os avanços da biologia molecular tem reforçado a idéia de que humanos são intimamente relacionados com os grandes primatas, especificamente, os chimpanzés.

Por√©m a quest√£o aqui se complica. A √°rea acad√™mica que estuda as rela√ß√Ķes de parentesco entre esp√©cies ¬†¬†(a sistem√°tica filogen√©tica)¬†n√£o √© um mero exerc√≠cio de diagnose de fatos*: existem diversas linhas concorrentes que disputam qual seria a melhor maneira (se √© que ela existe) de se reconstruir as rela√ß√Ķes de parentesco entre as esp√©cies, sendo que algumas delas (ou todas elas) partem de premissas biol√≥gicas explicitamente evolutivas. Em outras palavras, se a rela√ß√£o de parentesco entre humanos e chimpanz√©s √© um “fato”, tal “fato” √© fortemente dependente de premissas te√≥ricas.

E n√£o apenas isso: as rela√ß√Ķes observadas est√£o longe de ser inequ√≠vocas.

Recentemente Grehan & Schwartz (2009) publicaram uma análise que, ao contrário da maioria dos trabalhos atuais, colocava humanos como parentes mais próximos de Orangotangos, e não de Chimpanzés. A conclusão é claramente um absurdo pois viola quase tudo o que sabemos sobre a genética dessas espécies. Porém os autores foram cuidadosos o suficiente para fazer um arranjo metodológico tão fechado, que a conclusão das analises era inequívoca, e a publicação do trabalho não poderia ser recusada, mesmo que violasse o que toda a comunidade científica acreditava sobre o assunto.

Isso mostra duas coisas. Primeiro – e isso √© uma digress√£o – que o mimimi de criacionistas e proponentes de Design Inteligente (um famoso exemplinho aqui) de que s√£o incapazes de publicar em peri√≥dicos cient√≠ficos por causa do lobby materialista √© pura bobagem. Trabalhos bem feitos, honestos e rigorosos podem sim ser publicados, independente das ideologias ou opini√Ķes de revisores.¬†Criacionistas n√£o conseguem publicar simplesmente por serem incompetentes, ou porque n√£o sabem/querem fazer ci√™ncia. Fim da digress√£o.

O segundo ponto, voltando ao assunto, √© que¬†tal reconhecimento de “fatos” (e.g. o “fato” do parentesco entre chimpanz√©s, humanos e lesmas) est√° longe de ser a prova de falhas e inequ√≠voco, precisamente porque tal parentesco n√£o √© fato, mas uma hip√≥tese. E se alguem continuar insistindo que as rela√ß√Ķes de parentesco s√£o fatos, pergunte: quais s√£o os fatos que tornam essa afirma√ß√£o verdadeira. Aposto que rapidamente ser√£o mencionadas montanhas de dados, desde evid√™ncia morfol√≥gica, registro f√≥ssil e dados moleculares (aqui para uma lista simplificada). Mas nenhum desses fatos (e aqui s√£o fatos mesmo) √© o grau de parentesco (ou “evolu√ß√£o”, como usado por Gould e Dawkins), mas sim eles¬†sustentam uma dada hip√≥tese de parentesco.

Nada disso √© controverso. Pesquisadores da √°rea n√£o se referem √†s rela√ß√Ķes de parentescos como fatos, mas sim como hip√≥teses, mais especificamente, hip√≥teses filogen√©ticas. Tais hip√≥teses s√£o constantemente modificadas e refinadas, muitas vezes sendo radicalmente reformuladas pela descoberta de uma nova fonte de dados moleculares ou f√≥sseis, por exemplo.¬†E o ponto √©: isso acontece exatamente porque rela√ß√Ķes de parentescos entre esp√©cies n√£o s√£o fatos, mas sim conclus√Ķes dependente de teorias e de fatos. O acumulo de evid√™ncias que contrarie um certo cen√°rio evolutivo pode derrubar tal cen√°rio em favor de outro, como acontece com qualquer hip√≥tese cient√≠fica.

Resumindo: dizer que parentesco entre espécies é um fato é cometer uma falácia de equivocação, chamando uma hipótese (filogenética) de fato.

———————————————————
* Existem sim pesquisadores que acreditam que sistemática filogenética é apenas isso, mas isso é outra discussão.

Referência Grehan, J., & Schwartz, J. (2009). Evolution of the second orangutan: phylogeny and biogeography of hominid origins Journal of Biogeography, 36 (10), 1823-1844 DOI: 10.1111/j.1365-2699.2009.02141.x

Porque a síntese evolutiva não é uma festa do pijama РUma resposta zangada a um anti-darwinista

Bom, eu j√° havia previsto que isso iria acontecer em algum momento.

J√° a alguns meses venho acompanhando uma discuss√£o no Research Gate (link para me seguir l√° aqui) sobre as alternativas ao neo-darwinismo para a compreens√£o da evolu√ß√£o biol√≥gica. Como esperado, essa pergunta foi um im√£ de criacionistas, com a participa√ß√£o especial do nosso querido En√©sio, falando o que ele sempre fala: em algum momento no futuro n√£o-t√£o distante ser√° lan√ßada uma nova s√≠ntese evolutiva, que n√£o ser√° “selecionista” e blablabla. S√≥ faltou a distin√ß√£o entre fato, Fato e FATO, ou seja l√° qual √© o chav√£o que ele sempre usa.

Mas esse n√£o √© exatamente sobre o que quero falar no momento. Meu problema principal com essa discuss√£o tem sido com o Dr. Emilio Cervantes, que at√© onde pude notar √© um pesquisador daqui da Argentina, que parece ser algum tipo de bot√Ęnico*. Desde o come√ßo da discuss√£o, ele tem batido na mesma tecla: neo-darwinismo est√° errado porque se baseia em um “fantasma sem√Ęntico”, que √© sele√ß√£o natural. E o porque isso, exatamente? Oras, porque a natureza n√£o tem uma mente para selecionar, logo o termo √© contradit√≥rio. Obviamente, os criacionistas de plant√£o bateram palma, sem notar que a aus√™ncia de uma mente selecionadora na natureza n√£o √© l√° uma coisa muito boa para o criacionismo. Ademais, segundo o Dr. Cervantes, Darwin confundiu cria√ß√£o de variantes domesticadas com o que acontece na natureza, e isso fere mais ainda a ideia de sele√ß√£o natural como tendo qualquer significado.

Enfim, n√£o entrarei em detalhes do resto da discuss√£o, mas colarei abaixo minha √ļltima resposta. Em seu coment√°rio anterior, depois de ignorar minhas respostas ou responde-las com ad hominem, Dr. Cervantes alega que √© necess√°rio testar a evolu√ß√£o de grupos caso-a-caso, e que n√£o existe uma teoria que explica tudo em biologia. Eu concordo com esses pontos, mas discordo do discurso que ele apresentou. Acho que a minha resposta em si explica muito do que eu penso sobre o assunto e talvez resuma minhas impress√Ķes do debate, e da posi√ß√£o anti-darwinista do Dr. Cervantes.

Sem mais delongas:


Bom, eu na verdade concordo com isso, mas por motivos completamente diferentes.

A s√≠ntese evolutiva n√£o foi uma festa-do-pijama entre paleontologos, taxonomistas e geneticistas, onde eles calharam de deixar os embriologistas de fora porque eles eram meio estranhos, e na qual eles decidiram “Puxa vida! Vamos apenas dizer que tudo funciona bem em conjunto e ver se cola”.

Ela foi uma unifica√ß√£o precisa de duas teorias (gen√©tica mendeliana e neo-darwinismo, sensu Weismann) atrav√©s dos desenvolvimentos te√≥ricos de gen√©tica de popula√ß√Ķes, e o entendimento de que essas teorias eram consistentes com o que se observa na natureza (incluindo o registro f√≥ssil). Ela n√£o √© uma cole√ß√£o de narrativas adaptacionistas n√£o-testadas, como muitos dos cr√≠ticos E defensores da s√≠ntese costumam acreditar.

O outro lado da moeda √© que, sendo um corpo de conhecimento te√≥rico especifico, ele s√≥ se aplica em casos nos quais suas premissas s√£o verdadeiras. Ent√£o, ela n√£o √© onipotente, e todo mundo que usa esse arcabou√ßo te√≥rico sabe para que ele serve, como testar previs√Ķes com ele e que tipo de dado √© necess√°rio para que ele possa funcionar. Quando premissas e demandas te√≥ricas falham, o mesmo ocorre com a teoria.

E é verdade que provavelmente não existe uma teoria unificadora em biologia. Por exemplo, qualquer teoria de ontogenia não vai se aplicar a organismos sem ontogenia, como bactérias. Mas isso não significa que teorias ontogenéticas são desprovidas de valor, longe disso. Ela explica o que ela pode de fato testar em cenários que se adequam à suas premissas.

O poder da s√≠ntese √© ter premissas gerais como “heran√ßa gen√©tica mendeliana”, algo que √© verdade para bact√©ria e para humanos. Mas fora isso, esses dois grupos diferem em quase tudo (ex: bact√©ria tem consideravel transferencia gen√©tica horizontal, humanos s√£o diploides, etc) o que nos faz reconhecer que talvez existam mais premissas que podem ser incluidas em nossos modelos para melhorar seu poder explanat√≥rio.

Geralmente, todos os proponentes da s√≠ntese estendida n√£o est√£o chamando por uma rejei√ß√£o da s√≠ntese evolutiva. O que eles est√£o fazendo √© chamar para a inclus√£o de mais¬†fen√īmenos¬†que n√£o se adequam aos modelos cl√°ssicos. Essa inclus√£o n√£o √© apenas “vamos simplesmente colocar tudo nos livros texto e encerrar o dia”, mas o desenvolvimento te√≥rico que est√° voltado √† integra√ß√£o da s√≠ntese com esses¬†fen√īmenos¬† Alguns s√£o relativamente f√°ceis de integrar, como topologias adaptativas multidimensionais e constru√ß√£o de nicho, outras n√£o s√£o t√£o f√°ceis, como ontogenia. Se isso mudar nossas equa√ß√Ķes e previs√Ķes te√≥ricas, que assim seja! Mudan√ßa baseada em evidencia √© melhor que estagna√ß√£o por nega√ß√£o de evidencias. Conscientiza√ß√£o para essas quest√Ķes √© importante, iconoclastia m√°-orientada n√£o.

E, n√£o importa o que fa√ßamos, qualquer teoria vai ser necessariamente limitada. Mesmo que n√≥s achemos um modelo que seja √ļtil para todas as esp√©cies que tenhamos estudado, existem potencialmente centenas de milhares mais que ainda n√£o descobrimos, muito menos estudamos. As recentes estimativas s√£o que conhecemos apenas 13% da biodiversidade presente. Jogar fora qualquer teoria biol√≥gica porque ela tenta ser ampla e defender o estudo de casos isolados √©, na melhor das hip√≥teses, contradit√≥rio no presente contexto.

Mas, se o ponto √© mesmo que “sele√ß√£o natural” √© um conceito vazio, ent√£o eu sugeriria direcionar a sua an√°lise sem√Ęntica para temos como “buracos negros” (que n√£o s√£o nem buracos, nem negros), o uso de “evidente” em matem√°tica (nada que √© evidente precisa de demostra√ß√£o) e “afinidades” em qu√≠mica (elementos n√£o tem prefer√™ncias). Na verdade, esse ultimo exemplo foi levantado por Darwin, quando a mesma obje√ß√£o que voc√™ levantou chegou a ele: que sele√ß√£o natural era contradit√≥ria, porque apenas criadores podem selecionar. Palavras podem ter mais de um significado e, sim, isso pode ser confuso (veja a ambiguidade do termo “singularidade” e “Big Bang” em cosmologia). Isso √© tudo verdade. Mas dizer “por isso elas est√£o erradas”, √© falacioso.

Darwin tamb√©m apontou que sua id√©ias foi derivada da observa√ß√£o de criadores, mas ele dispendeu uma grande quantidade de p√°ginas explicando como isso poderia ser atingido na natureza, e √© ai que din√Ęmicas Maltusianas entrem na jogada. A rela√ß√£o entre sele√ß√£o natural e artificial √©, para mim, evidente partindo de uma leitura do Origens das Esp√©cies. √Č uma rela√ß√£o de analogia, e n√£o de identidade. Os principais fil√≥sofos da evolu√ß√£o parecem concordar comigo.

N√≥s podemos ter uma discuss√£o produtiva sobre o uso de termos, e quais seriam os melhores de serem usados. Isso √© dif√≠cil, pois linguagem √© uma coisa complicada. Ela evolui por si pr√≥prio. Mas n√≥s tivemos sucessos moderados com termos como “macaco” e “mais evolu√≠do”. Mas termos e teorias s√£o coisas diferentes.

Resumindo, sim, n√≥s devemos ser espec√≠ficos sobre o que n√≥s estamos falando e tornar bem claro o que a teoria sint√©tica √©, o que ela deve explicar e o como ela faz isso. Na pr√°tica, isso deve levar a mais cautela no pronunciamento de afirma√ß√Ķes n√£o-substanciadas sobre adapta√ß√£o (ou sobre qualquer outra coisa), e isso √© bom. Pelo menos √© isso que espero.


* Quando comentei o caso para um colega, que permanecer√° inominado, ele comentou “aposto meu pinto que ele √© ecologo ou botanico“. N√£o √© preciso dizer que ele manteve o pinto dele.

Referência

Mora, C., Tittensor, D., Adl, S., Simpson, A., & Worm, B. (2011). How Many Species Are There on Earth and in the Ocean? PLoS Biology, 9 (8) DOI: 10.1371/journal.pbio.1001127

Pesquisa sugere relação entre chocolate e Nobel

Um novo artigo publicado no New England Journal of Medicine procurou a associa√ß√£o entre consumo nacional de chocolate e o n√ļmero de ganhadores do premio Nobel origin√°rios daquele pa√≠s. Segundo o artigo, tal avalia√ß√£o se justifica pelo fato de que flavon√≥ides, abundantes em vegetais de consumo, s√£o conhecido por apresentar efeitos positivos nas capacidades cognitivas.

Os resultados s√£o impressionantes:

Notem que o Brasil est√° l√° no fundo, sem nenhum Nobel e com um consumo muito pequeno de chocolate.

Segundo os autores:

Existe uma correla√ß√£o linear significativa (r=0.791, p<0.0001) entre o consumo de chocolate per capita e o numero de ganhadores do Nobel por 10 milh√Ķes de pessoa em um total de 23 pa√≠ses.

Para quem n√£o sabe, o coeficiente r de correla√ß√£o (tamb√©m chamado de correla√ß√£o de Pearson) vai de 0 at√© 1. Ou seja, um valor de aproximadamente 0.8 √© bastante alto! Pessoas prop√Ķem terapias contra cancer por coeficientes menores.

De qualquer forma, a inspeção do gráfico revela que a Suécia apresenta muito mais ganhadores do Nobel do que o esperado, e isso não passa desapercebido pelos autores:

Dado que seu consumo de chocolate per capta é de 6.4 kg por ano, nós estimamos que a Suécia deveria ter produzido um total de 14 laureados do Nobel, porém nós observamos 32.

e eles especulam quais são as causas  desse grande viés:

Visto que o numero observado excede o esperado por um fator de 2, n√£o podemos escapar a no√ß√£o que ou o Comit√© do Nobel em Estocolmo tem algum vi√©s patri√≥tico quando avaliam os candidatos para os premios ou, talvez, os suecos s√£o particularmente sens√≠veis ao chocolate, e mesmo quantidades min√ļsculas podem aumentar consideravelmente sua cogni√ß√£o.

Entretanto, pode-se argumentar que¬†“Correla√ß√£o n√£o implica em causalidade“, o que significa que a presen√ßa de uma forte correla√ß√£o n√£o significa que uma coisa causou outra, ou mesmo vice-e-versa. Os autores est√£o plenamente cientes disso:

Uma segunda hip√≥tese, de causa√ß√£o reversa- isso √©, que uma melhor performance cognitiva estimula o consumo nacional de chocolate- deve tamb√©m ser considerada. √Č concebivel que pessoas com capacidades cognitivas superiores (i.e. cognosc√™ncia) s√£o mais conscientes dos benef√≠cios do consumo de flavonoides em chocolate escuro e s√£o mais inclinados a aumentar o seu consumo.

e ainda

Que receber o premio Nobel levaria ao aumento do consumo de chocolate em nível nacional parece improvável, apesar de que talvez os eventos celebratórios associados com essa honra singular podem desencadear um aumento generalizado porém transitório.

Hum… certo…¬†Bom, se a ci√™ncia diz, ent√£o provavelmente est√° certo!

Referência

Messerli, F. (2012). Chocolate Consumption, Cognitive Function, and Nobel Laureates New England Journal of Medicine, 367 (16), 1562-1564 DOI: 10.1056/NEJMon1211064

Bebês são amorais (e porque publicar seus resultados)

Em 2007, Hamlin e colegas elaboraram um experimento para avaliar a moralidade inata de infantes. Especificamente, esses pesquisadores queriam investigar a capacidade de avaliação social, ou seja, a capacidade de discernir entre indivíduos considerados bons dos indivíduos considerados ruins, algo essencial para a construção de nossas normas morais e de nosso convívio em sociedade.

Este estudo foi desenhado de forma relativamente simples. Os beb√™s eram expostos a uma cena onde um personagem (a bola rosa com olhos) tentava escalar uma colina. Em um dos casos, o escalador era auxiliado por um ajudante (tri√Ęngulo amarelo) a subir a colina e no outro caso o escalador era impedido de atingir o topo por um terceiro agente (um cubo cinza).

Caso onde o escalador era auxiliado na sua escalada

Caso onde o escalador era impedido de atingir o topo.

Ap√≥s as cenas, era dada aos beb√™s a possibilidade de fazer uma escolha entre dois personagens. Em um dos casos, os beb√™s podiam escolher entre o ajudante e um personagem neutro, e em outro caso eles podiam escolher entre o personagem neutro e o impedidor. No primeiro caso, os beb√™s escolhiam preferivelmente o ajudante ao personagem neutro, e no segundo caso, eles preferiam o personagem neutro ao que atrapalha. Isso √© impressionante porque mostra que o beb√™ n√£o apenas prefere “ajudantes”, como tamb√©m repudia “impedidores”. E tem mais: isso mostra que os beb√™s conseguiam reconhecer a narrativa apresentada,¬†atribuindo personalidades aos personagens,¬†identificando inten√ß√£o e objetivo (como isso n√£o √© o ponto do artigo, suponho que isso j√° fosse conhecido, mas achei digno de nota). E tudo isso em beb√™s de 6 e 10 meses! Bastante impressionante de fato!

Porém Scarf e colaboradores, ao investigarem os vídeos do procedimento experimental de Hamlin e colegas, notaram uma coisa estranha: no caso em que o escalador é auxiliado, ao terminar o seu percurso, ele chacoalha (presumidamente para passar a ideia de satisfação), porém isso não acontece quando ele é impedido de subir. Esses pesquisadores suspeitaram que o que estava acontecendo ali não era uma avaliação social, mas sim uma simples associação: coisas que chacoalham são mais atraentes para bebês e chamam a atenção. Sendo assim, a escolha pelo ajudante seria uma função do chacoalhar do escalador ao fim do percurso, uma hipótese que me parece intuitivamente válida. Afinal, bebês não são criaturas particularmente brilhantes, e todo pai sabe que eles são atraídos por cores fortes, por sons e por movimentos.

Para testar tal hip√≥tese, a equipe de Scarf replicou o experimento, por√©m agora adicionando o “chacoalhar” seja quando o escalador conseguia chegar ao topo, seja quando ele era impedido de chegar ao topo e retornava ao cume. Cada beb√™ observava mais de um evento, delimitando 3 tipos de tratamento:

  1. No primeiro grupo os beb√™s viam o evento “ajudado” com chacoalhar e o evento “impedido” sem chacoalhar¬†(grupo “Top” da figura);
  2. No segundo, os beb√™s viam ambos os eventos com o chacoalhar, tanto quando o escalador era impedido de chegar ao topo, quanto quando ele atingia o topo (grupo “Both)”;
  3. No √ļltimo grupo os beb√™s viam apenas o epis√≥dio “impedido” com um chacoalhar, e enquanto o n√£o o “ajudado” n√£o apresentava a chacoalhada (grupo “Bottom”).
A previs√£o dos pesquisadores √© simples: se o chacoalhar √© o que determina a escolha do beb√™, ent√£o ver√≠amos que no primeiro grupo, mais beb√™s escolheriam o ajudante e que no ultimo grupo, mais beb√™s escolheriam o impedidor, enquanto no segundo grupo, onde existe chacoalhada em ambos os casos, os beb√™s selecionariam os personagens aleatoriamente. E os resultados s√£o perfeitamente consistentes com tais previs√Ķes:
Porcentagem de beb√™s que escolhem os personagens nos 3 grupos experimentais : Primeiro grupo (“Top”), Segundo grupo (“Both”) e Terceiro grupo (“Bottom”). O tamanho das barras indica a porcentagem de beb√™s que escolheu um dado personagem, e a cor da barra indica o personagem escolhido: Amarelo- Ajudante; Azul- Impedidor.
Curioso que a propor√ß√£o de beb√™s que seleciona o personagem quando h√° o chacoalho √© similar no primeiro e √ļltimo grupos (da minha parte eu ficaria feliz com umas barras de erro nisso a√≠).¬†De qualquer forma, a hip√≥tese de associa√ß√£o simples (ou seja “coisas coloridas, que chacoalham e fazem barulho s√£o mais legais”) explica muito melhor os dados do que a de que beb√™s conseguem atuar em cima de alguma forma primitiva de julgamento moral. Sendo assim, tal capacidade (como vista em seres humanos adultos) seria adquirida em um momento posterior no desenvolvimento, presumidamente por aprendizado social.

Esse tipo de debate é interessante por vários motivos óbvios, mas pelo menos por um não-obvio e bastante importante: divulgação de dados científicos. Tal discussão jamais teria ocorrido se os autores do primeiro trabalho não tivessem divulgado vídeos demonstrando seus procedimentos experimentais, possibilitando o segundo grupo de pesquisadores replicar e testar os seus achados. Por mais que fique a sensação que o primeiro grupo pisou na bola (e pisou), foi sua honestidade que possibilitou a descoberta do erro e do avanço do conhecimento.

Parafraseando Robert Price: Todos os resultados de investigação honesta contém em si as sementes da sua própria destruição. Acho que essa é um ótimo ideal a ser seguido.

Isso, e nunca confiar em bebês, pois eles são um bando amorais. Sempre desconfiei.

Referências

  Hamlin, J., Wynn, K., & Bloom, P. (2007). Social evaluation by preverbal infants Nature, 450 (7169), 557-559 DOI: 10.1038/nature06288

  Scarf, D., Imuta, K., Colombo, M., & Hayne, H. (2012). Social Evaluation or Simple Association? Simple Associations May Explain Moral Reasoning in Infants PLoS ONE, 7 (8) DOI: 10.1371/journal.pone.0042698

Cotas e Discriminação Estatística

Como havia comentado anteriormente, aqui vai um dos minhas muitas opini√Ķes sobre o assunto de cotas raciais e sociais. Minha opini√£o sobre o assunto j√° havia mencionada brevemente no guest post do Rony, mas ela n√£o tem muito a ver sobre o assunto que vou expor abaixo.

No post a seguir, meu objetivo é delimitar a metodologia ética baseada em discriminação estatística de Maitzen (1991) e analizar se cotas raciais ou sociais são ou não são éticas. Para frustração de alguns, não entrarei no mérito de se o princípio por trás das cotas é válido (eu acredito que sim, e posso retornar nesse assunto no futuro se achar necessário).

Discriminação estatística

Discrimina√ß√£o estat√≠stica refere-se √† pr√°tica de se valer de caracter√≠sticas observ√°veis para extrapolar caracter√≠sticas n√£o-observ√°veis que s√£o de interesse para uma dada tomada de decis√Ķes.

Por exemplo, quando vamos √† feira e apertamos as frutas, n√£o estamos realmente interessados na consist√™ncia da fruta (pelo menos n√£o na maioria dos casos). O que estamos normalmente fazendo √© nos valendo de uma informa√ß√£o que est√° dispon√≠vel (a consist√™ncia da fruta), para estimar alguma vari√°vel oculta, no caso, se a fruta est√° madura, verde ou podre. Nesse exemplo, estamos baseando nossa tomada de decis√£o (comprar ou n√£o a fruta) em uma correla√ß√£o imperfeita (nem toda fruta dura est√° verde, assim como frutas podres podem ter uma consist√™ncia “boa”), por√©m que temos como boa o suficiente para a maior parte dos casos. A pr√°tica √© chamada de “discrimina√ß√£o” pois est√° relacionado ao ato de diferenciar coisas, e √© “estat√≠stica” por ser baseada em infer√™ncias estat√≠sticas (correla√ß√Ķes) sobre tais vari√°veis de interesse.

Em economia, discrimina√ß√£o estat√≠stica normalmente se refere a teorias sobre desigualdade entre g√™neros ou etnias decorrente de incompet√™ncia dos empregadores em estimar corretamente a capacidade dos empregados, normalmente se valendo de algum tipo de estere√≥tipo. Se todos acreditam que √≠ndios s√£o de fato mais pregui√ßosos, √© bem prov√°vel que seus empregadores paguem menos a eles. Igualmente, se “mulheres n√£o s√£o boas com n√ļmeros”, elas v√£o ser consideradas menos capazes e, consequentemente, ser√£o pior remuneradas para realizar trabalhos que envolvem contabilidade, ou engenharia.

Nem todo caso de discriminação estatística é necessariamente danosa: o Estatuto da Criança e do Adolescente assume implicitamente que crianças são indivíduos em formação mental, física e moral, e institucionalizam normas que asseguram que tal desenvolvimento não será prejudicado. Obviamente, isso não é verdade para muitas crianças e adolescentes, mas de modo geral não vemos a aplicação universal do estatuto como injusto.

√Č importante reconhecer que existem dois aspectos essenciais durante qualquer discrimina√ß√£o estat√≠stica. A primeira √© o benef√≠cio (ou utilidade) que vai se obter com a identifica√ß√£o correta do que √© o melhor naquele caso, seja “o melhor” comprar uma fruta madura ou recompensar justamente um profissional (para o manter na empresa, por exemplo). O segundo aspecto √© referente ao custo da obten√ß√£o de informa√ß√£o a respeito do que de fato queremos medir. Se o empregador √© capaz de avaliar quantas vendas foram feitas por cada empregado, e quanto lucro cada um gerou, o seu sexo ou cor de pele √© irrelevante para a tomada de decis√£o (assumindo que o empregador √© racional). Por√©m, se a medida de compet√™ncia √© dif√≠cil de se obter, ela pode gerar um custo, o que for√ßa o tomador de decis√Ķes a pagar esse custo para obter a melhor informa√ß√£o poss√≠vel para sua decis√£o, ou se basear em informa√ß√Ķes (e correla√ß√Ķes) imperfeitas, correndo o risco de falsamente recompensar um empregado incompetente ou n√£o reconhecer um empregado valioso.

De forma geral parece sempre pouco razo√°vel assumirmos que temos, no presente momento, informa√ß√£o perfeita sobre qualquer situa√ß√£o que precisamos tomar uma decis√£o. Sendo assim, quase todas nossas decis√Ķes se baseiam em informa√ß√Ķes (e correla√ß√Ķes) imperfeitas. Isso, por√©m, n√£o significa que seria imposs√≠vel elevar esse n√≠vel de informa√ß√£o mediante a um custo: poder√≠amos, por exemplo, realizar uma inspe√ß√£o psicol√≥gica e m√©dica em toda crian√ßa para investigar qual √© o seu grau de desenvolvimento f√≠sico, mental e moral, para avaliar se elas ainda podem ser protegidas sob o Estatuto da Crian√ßa e do Adolescente. A quest√£o ent√£o √©: vale a pena pagar o custo pelos benef√≠cios que ser√£o recebidos?

Essa relação entre custo e benefício pode ser entendida como uma função simples:

Figura 1a de Maitzen (1991) modificada.



Onde x é o custo do aumento da informação, e y é o ganho (ou utilidade) que tal informação extra irá nos dar, e r é o valor máximo de ganho que podemos obter, que teoricamente pode nunca ser alcançado (em outras palavras, r é o valor assintótico da função). Visto que sempre é possível aumentar x, precisamos avaliar qual é o valor que nos dá o melhor ganho relativo, e a partir de qual ponto teremos prejuízo se continuarmos investindo (aumentando x). Tal valor é dado pelo ponto E, que é quando a vantagem ganha pelo aumento de informação é igual ao custo pelo aumento de informação (ou seja, onde a tangente da reta é igual a 1). A partir daquele ponto, estaremos investindo muito mais e ganhando proporcionalmente pouco. Analogamente, antes desse ponto, qualquer investimento resulta em ganhos maiores do que o investimento, ou seja, lucro. Assim, apenas vale a pena se valer de discriminação estatística se o aumento do custo do refinamento da informação causa lucro, e não prejuizo.

Tais custos e benef√≠cios n√£o precisam ser entendidos apenas como financeiros (apesar de ser mais pr√°tico pensar assim), mas tamb√©m como sociais. Assim, ter√≠amos que existem custos sociais (financeiros incluso) de se aumentar a informa√ß√£o e benef√≠cios sociais que seriam ganhos em decorr√™ncia dessa informa√ß√Ķes. De um ponto de vista utilitatista, essa seria uma base √©tica para julgar a validade de pol√≠ticas p√ļblicas baseadas em discrimina√ß√£o estat√≠stica. Uma pol√≠tica publica baseada em correla√ß√Ķes imperfeitas s√≥ seria justa se ela n√£o causa d√©ficit social ou se fosse poss√≠vel ter um grande ganho social com um pequeno investimento social em obten√ß√£o de informa√ß√Ķes.¬†

E o que isso tudo tem a ver com cotas universit√°rias, afinal?

Cotas s√£o ferramentas que suprem diversas¬†expectativas¬†e necessidades ao mesmo tempo. Por exemplo, se cotas s√£o implementadas apenas para aumentar a propor√ß√£o de certas etnias ou grupos sociais dentro da universidade, ent√£o n√£o h√° discrimina√ß√£o estat√≠stica, pois n√£o h√° uma premissa oculta de que tal etnia √© (em m√©dia) mais ou menos capacitada. Tais considera√ß√Ķes s√£o irrelevantes, se a √ļnica preocupa√ß√£o √© elevar a diversidade dentro da universidade, ou a participa√ß√£o social de segmentos exclu√≠dos. Cotas, como meio de engenharia social, n√£o s√£o foco de cr√≠ticas ou an√°lises no sentido de discrimina√ß√£o estat√≠stica.¬†Por√©m, quando falamos de equipara√ß√£o hist√≥rica ou de oferecer oportunidades mais justas (que s√£o os argumentos que escuto mais comumente), estamos necessariamente falando de discrimina√ß√£o estat√≠stica.


O presente projeto de lei PLC180 estipula que 50% das vagas das universidades estatuais ser√£o destinadas √† vestibulandos provenientes de escolas p√ļblicas, sendo que metade dessas vagas ser√£o ofertadas para os que tiverem renda inferior √† 1,5 sal√°rios m√≠nimos, e todas elas ser√£o distribu√≠das de forma equitativa no quesito racial, obedecendo a propor√ß√£o racial observada em uma dada unidade federativa (nota: a PLC180 n√£o √© perfeita, inclusive no quesito equitatividade racial, mas deixo isso para um poss√≠vel futuro post). Tanto o crit√©rio racial, quanto o de renda podem ambos ser encarados como casos de estimulo √† inclus√£o social: no caso da quest√£o racial √© mais obvio, pois o texto especifica explicitamente que o n√ļmero deve obedecer a propor√ß√£o na popula√ß√£o. J√° na quest√£o de renda, apesar de n√£o explicitado, aproximadamente metade da popula√ß√£o pode ser enquadrada nessa categoria, o que significa que esse crit√©rio tamb√©m procuraria equitatividade social.

Quanto a tais características serem bons indicativos de capacidade reduzida de performance acadêmica, acredito que o quesito de baixa renda não seja foco de duvidas. Mas seria a questão racial um bom critério? Ao meu ver sim. Recentes dados do IBGE revelam que existe uma desigualdade social na distribuição de renda em diferentes etnias ou grupos raciais.

Exemplo da distribuição de renda per capta (em salários mínimos) por diferentes etnias no Sudeste do Brasil.


Muito tem-se argumentado sobre a imperfei√ß√£o da auto-identifica√ß√£o para a defini√ß√£o de ra√ßa, e estudos gen√©ticos sobre a hereditariedade de diversas pessoas s√£o levantadas como sendo evid√™ncia de correla√ß√£o imperfeita entre ra√ßa auto-proclamada e a hist√≥ria geneal√≥gica do indiv√≠duo. Por√©m, do ponto de vista que coloquei acima, tal investiga√ß√£o n√£o √© justificada, pois aceitamos a informa√ß√£o imperfeita por consideramos que os custos para a eleva√ß√£o da informa√ß√£o n√£o compensa o ganho social que ser√° obtido. Um motivo para isso √© que n√£o √© a composi√ß√£o gen√©tica do indiv√≠duo que se correlaciona com o fen√īmenos que queremos observar (defasagem acad√™mica), mas a percep√ß√£o social de grupos √©tnicos, algo que auto-percep√ß√£o parece ser muito mais eficiente em avaliar (ou talvez seja a √ļnica forma de se avaliar isso).

Um argumento comum contra a auto-identifica√ß√£o √© que pessoas podem mentir durante a realiza√ß√£o de vestibulares e outros concursos, o que √© verdade. Por esse motivo, qualquer implementa√ß√£o de cota racial que parta deste princ√≠pio deve ter agregado um custo da vigil√Ęncia para poss√≠veis mentirosos, e possivelmente a aprova√ß√£o de leis que punam os transgressores. Mentirosos e usurpadores devem ser postos em xeque, e o eventual custo social da vigil√Ęncia e o da puni√ß√£o devem ser adicionados em nossa avalia√ß√£o dos benef√≠cios sociais que ser√£o derivados desse tipo de pol√≠tica. Analogamente, se o crit√©rio n√£o √© auto-identifica√ß√£o, mas caracteriza√ß√£o por terceiros, devem existir leis que permitam recorrer a decis√Ķes mal-feitas, algo que tamb√©m deve ser contabilizado.

Mas e o crit√©rio relacionado a escola de origem? Em um primeiro momento ela pode ser justificada por ser considerada um bom correlato estat√≠stico com baixa renda ou mesmo ra√ßa. Por√©m nenhum desses argumentos se sustenta, moralmente, pois o custo x¬†para a obten√ß√£o da informa√ß√£o necess√°ria √© baix√≠ssimo. De fato, ele √© t√£o baixo que ele j√° √© inclu√≠do no sistema de cotas, de forma que ele apenas funciona como mecanismo de exclus√£o, principalmente no caso de indiv√≠duos de baixa renda que n√£o vieram de escolas p√ļblicas (bolsistas de escolas particulares, ou mesmo indiv√≠duos sem ensino formal) ou membros de etnias discriminadas que estudaram em escolas particulares (e n√£o me parece haver motivo algum para acreditar que eles n√£o sofreram discrimina√ß√£o e n√£o tiveram seu desenvolvimento acad√™mico comprometido em decorr√™ncia disso). Nesse ponto, ou acreditamos que a escola p√ļblica √© um indicativo forte de baixo desempenho acad√™mico por si s√≥, √† exclus√£o dos outros dois crit√©rios √©tnicos e financeiros, ou somos for√ßados a admitir que tal crit√©rio √© imoral. Se cursar escola p√ļblica leva a um baixo desempenho acad√™mico (e provavelmente leva), ent√£o o estabelecimento desse tipo de cota est√° apenas endossando uma falha do pr√≥prio estado, n√£o muito diferente da l√≥gica do Progress√£o Continuada, algo que √© dificilmente uma solu√ß√£o para qualquer coisa.

Em suma,

  • N√£o vejo uma boa justificativa moral para a implementa√ß√£o de cotas “sociais” no sentido de conferir cotas a alunos advindos de escolas p√ļblicas, sendo que √© poss√≠vel elevar o n√≠vel de informa√ß√£o com um custo social proporcionalmente inferior ao ganho social: este esquema de cotas estaria abaixo do ponto E.¬†

  • J√°¬†cotas raciais e as baseadas em renda me parecem plenamente justificadas, desde que explicitamente destinadas a promover a equitatividade, pois agregam a informa√ß√£o necess√°ria para combater o problema social percebido, estando ambas pr√≥ximas ao ponto E. Isso n√£o significa que tais cotas s√£o perfeitas, mas que, dada nossa percep√ß√£o do problema, elas parecem ser uma solu√ß√£o adequada, logo √©tica.

Fonte:
Maitzen, S (1991). The ethics of statistical discrimination. Social Theory and Practice, 17, 23-45 : 10.5840/soctheorpract199117114

Um peixe chamado Dawkins (e notas sobre feminismo cético)

Saiu recentemente, na nova edi√ß√£o da revista cient√≠fica “Ichthyological Exploration of Freshwaters”, um artigo de revis√£o taxon√īmica e filogenia do genero Puntus de peixes do Sul da √Āsia. O trabalho n√£o traz grandes conclus√Ķes, fora o estudo de um grupo de peixes diversificados que necessitava de uma avalia√ß√£o. Por√©m, chama a aten√ß√£o o nome do novo g√™nero proposto para uma pequena linhagem dentro do grupo:
Filogenia molecular baseada no gene cyt-B. Ret√Ęngulo vermelho evidencia Dawkinsia, genero novo.

Exato. O gênero Dawkinsia é uma homenagem ao Richard Dawkins. O artigo ainda explica:

Etimologia. O g√™nero foi nomeado segundo Richard Dawkins, por sua contribui√ß√£o para o entendimento do p√ļblico da ci√™ncia e, em particular, a ci√™ncia evolutiva, g√™nero feminino.

Agora, eu n√£o sou taxonomista (apesar de ter contribu√≠do para alguns trabalhos de taxonomia), e n√£o sei ao certo como funciona o c√≥digo de nomenclatura de g√™neros novos (ou mesmo se peixes tem uma regra especial), mas achei deveras ir√īnico o fato do nome ter o g√™nero feminino, tendo em vista o fiasco que Dawkins se meteu na comunidade c√©tica.

Para quem não conhece a história: no ano passado, durante uma convenção cética em Dublin, a blogueira e vlogueira Rebecca Watson (a.k.a. Skepchic) recebeu uma cantada em um elevador. Segundo o relato dela:

No bar, mais tarde naquela noite, […], n√≥s est√°vamos no bar do hotel. “4 a.m.”, eu disse, “j√° √© demais para mim, rapazes, eu estou exausta. Eu vou para a cama”. Ent√£o eu andei at√© o elevador e um homem entrou no elevador comigo e disse: “N√£o leve isso a mal, mas eu te acho muito interessante e eu gostaria de conversar mais. Voc√™ gostaria de vir para o meu quarto para tomar um caf√©?”. S√≥ uma palavra para os s√°bios: Rapazes, n√£o fa√ßam isso. Eu n√£o sei outra forma de dizer que isso me deixa incrivelmente desconfort√°vel, ent√£o eu vou simplesmente dizer que eu era uma mulher solteira, em um pa√≠s estrangeiro, as 4 da manh√£, em um elevador de hotel, com voc√™, apenas voc√™… n√£o me chame para o seu quarto de hotel logo ap√≥s eu ter terminado de dizer que eu fico desconfort√°vel quando homens me sexualizam dessa forma.

Para os que n√£o sabem, “tomar um caf√©” costuma ser um eufemismo.

A √™nfase (negrito) √© minha, por√©m √© essa parte do discurso que a Rebecca reitera como sendo o ponto da sua coloca√ß√£o sobre o incidente. De qualquer forma, o que aconteceu depois √© ainda meio confuso: eu n√£o sei se a Rebecca fez outras afirma√ß√Ķes, ou se apenas o que veio depois da frase destacada realmente ofendeu os homens das comunidades c√©ticas, mas a discuss√£o e agress√Ķes atingiram um n√≠vel t√£o impressionante que acho que s√≥ pode ser descrito como o primeiro e maior flame war internacional da internet. A coisa toda atingiu um n√≠vel t√£o baixo que Dawkins interferiu na conversa, de forma desastrosa, atrav√©s de um coment√°rio postado no blog Pharyngula¬†(infelizmente o coment√°rio original parece ter sido apagado, mas reproduzo abaixo):

Querida Muslima, 

Pare de reclamar. Sim, sim, n√≥s sabemos que sua genit√°lia foi cortada com uma navalha e … (bocejo)… ¬†n√£o me conte novamente, eu sei que voc√™ n√£o pode dirigir um carro, e voc√™ n√£o pode deixar sua casa sem um parente homem, e o seu marido pode bater em voc√™, e voc√™ ser√° apedrejada at√© a morte se cometer adult√©rio. Mas pare de reclamar. Pense no que suas pobres e sofredores irm√£s americanas tem que lidar.¬†

Nessa semana eu escutei que uma delas, que se chama Skep”chick”, e voc√™ sabe o que aconteceu com ela? Um homem em um elevador convidou ela para o seu quarto para tomar um caf√©. E eu n√£o estou exagerando. Ele realmente fez isso. Ele convidou ela para o seu quarto para tomar um caf√©. Evidente que ela disse n√£o, e evidente que ele n√£o encostou um dedo nela, mas mesmo assim…¬†

E você, Muslima, pensa que tem que reclamar de misoginia! Pelamor de Deus, cresça, ou pelo menos adquira uma casca mais grossa.
Richard

Aparentemente a ideia era simular uma carta a uma mu√ßulmanda (“Muslima”) que sofre atos horrivels de abuso, sugerindo que os reais problemas trazidos pela misoginia s√£o aqueles sofridos pelas mulheres ocidentais. A inten√ß√£o √© clara: voc√™, mulher vitima de misoginia “leve” n√£o deveria ligar, afinal, tem pessoas passando por piores situa√ß√Ķes que a sua. Quando esse tipo de “li√ß√£o de moral” √© emitida, eu sempre me pergunto: dever√≠amos ent√£o nos sentirmos melhores quando estivermos com doen√ßas terminais, apenas por n√£o estarmos mortos? A l√≥gica me parece a mesma.

Eu honestamente n√£o sei o que fez Dawkins se portar assim. Suponho que, da mesma forma que existem trolls machistas que adoram amea√ßar mulheres, imagino que existam trolls feministas radicais que se aproveitaram da ocasi√£o para defender seus ideais. Quando isso ocorre, rapidamente posi√ß√Ķes se formam n√£o apenas por alinhamento ideol√≥gico, mas por repudio √† algum tipo de pensamento: “eu acho tal tipo de pensamento abomin√°vel, essa pessoa se identifica como X, logo vou me associar com a posi√ß√£o contr√°ria”. N√£o que eu ache que isso justifica a atitude de Dawkins, pois mesmo que ele tivesse respondendo √† uma falsa vis√£o do que a Rebecca disse, isso n√£o o exime de n√£o checar suas fontes, ou mesmo de falar com a pr√≥pria Rebecca (visto que eles tiveram contato durante essa mesma conferencia).

Não estou dizendo que todas as feministas são assim, obviamente, mas temos grupos extremos dentro de qualquer grupo, sejam cristãos, ateus, feministas, vegetarianos, etc. Por exemplo, recentemente a vloggeira Laci Green foi perseguida e ameaçada no Tumblr por um grupo de feministas pelo fato de ter usado um termo aparentemente pejorativo para se referir a transexuais, mesmo depois de ter se desculpado oficialmente pelo fato. Eu sempre digo que a proporção de idiotas em qualquer subgrupo da população humana parece ser constante. Não vejo porque seria diferente para as feministas.

Por falar em idiotas e feminismo, recentemente eclodiu outra flame war no FreeThoughts Blogs. Para quem não sabe, os FTB foram idealizados por PZ Myers (o mesmo que bloga no Pharyngula, o blog onde Dawkins postou seu comentário infeliz) para ser um lugar onde bloggeiros pudessem avançar suas idéias e o ideal do Pensamento Livre (que não é o mesmo que dizer o que lhe vier na cabeça). Recentemente, os FTB adicionaram Phil Mason (a.k.a. Thundef00t), um dos maiores vlogeiros ateus do youtube. Thunderf00t é conhecido, entre outras coisas, por defender a liberdade de expressão acima de tudo, o que o fez ser taxado de racista e de misógino. Ele está por trás do Dia de todo mundo desenhar Mohammed, um movimento, na minha opinião, no mínimo equivocado.

De qualquer forma, a inclus√£o de Thunderf00t no FTB n√£o foi recebida com entusiasmo pelos membros, coisa que foi agravada pela publica√ß√£o do primeiro post de Thunderf00t, argumentando¬†exatamente¬†que o problema de sexismo em conven√ß√Ķes c√©ticas (uma discuss√£o que ganhou for√ßa com a discuss√£o acerca do caso da Rebecca Watson) n√£o era uma quest√£o s√©ria:

Resumindo, existe “ass√©dio” em confer√™ncias? Eu n√£o vi realmente nada acontecendo nas pr√≥prias confer√™ncias, apesar que nos bares em outros lugares, claro que ele acontece (apesar que discutivelmente n√£o mais do que ocorrem em qualquer outro bar ao redor do pais). – De meia d√ļzia de confer√™ncias, isso d√° uma ideia da extens√£o do problema.

Ou seja:¬†voc√™, mulher vitima de misoginia “leve” n√£o deveria ligar, afinal, temos coisas melhores para nos preocupar segundo nossa an√°lise de custo-benef√≠cio. Soa familiar, n√£o?¬†De qualquer forma, uma onda de cr√≠ticas irrompeu, culminando na expuls√£o do¬†Thunderf00t do FTB por PZ Myers, apos aproximadamente 10 dias de site.

O que torna tais situa√ß√Ķes realmente desagrad√°veis, at√© onde vejo, √© a desigualdade entre a capacidade de julgar a sua pr√≥pria postura em rela√ß√£o a estere√≥tipos racistas ou mis√≥ginos. Afinal, uma pessoa pode ter atitudes mis√≥ginas sem se identificar como tal (o que imagino que seja raro, inclusive). Tal disson√Ęncia pode produzir discursos que s√£o idealizados como harmonizadores, mas s√£o realizados como nocivos. Duvido que Dawkins e Thunderf00t se vejam como mis√≥ginos e eu n√£o chamaria eles assim. Mas me parece √≥bvio que seus discursos se aproximam mais de um discurso mis√≥gino do que de qualquer outra coisa.

O que podemos tirar de tudo isso? Bem… com certeza podemos dizer que o antigo g√™nero¬†Puntus,¬†do Sul da √Āsia, agora √© dividido em diversas linhagens. Cinco linhagens, pra ser mais preciso…

Referência

Rohan Pethiyagoda, Madhava Meegaskumbura, & Kalana Maduwage (2012). A synopsis of the South Asian fishes referred to Puntius (Pisces: Cyprinidae) Ichthyological Exploration of Freshwaters