Arte digital de uma cidade atacada por zumbis, criada por Ferigato e publicada no DeviantArt.

Como sobreviver a um apocalipse zumbi?

Cinema

Quais fatores seriam determinantes para garantir a sobrevivência da humanidade?

 

Os zumbis – ou mortos-vivos – fazem parte do imaginário popular e frequentemente protagonizam séries, filmes, jogos e livros. Podemos defini-los, de forma simplificada, como cadáveres reanimados que perambulam instintivamente atrás de comida, sem nenhum livre-arbítrio ou personalidade.

Zumbi da série de TV "The Walking Dead". Fotografia de Gene Page, da emissora AMC.
Zumbis da série de TV “The Walking Dead”. Fotografia de Gene Page, da emissora AMC.

O diretor e roteirista George Romero, considerado o pai dos filmes de zumbi, retrata essas criaturas com uma aparência de pele apodrecida, cheiro forte e ruim e vestimenta esfarrapada. Também é comum que eles tenham partes do corpo faltantes, o que dão um ar ainda mais aterrorizador. Tudo isso é reflexo da passagem de tempo, associada a um descuido do corpo e da sua decomposição.

Estes zumbis de Romero – que também são presentes em vários outros filmes, jogos e livros – tendem a ser mais lentos, de caminhar cambaleante e sem nenhuma inteligência ou traço de racionalidade.

Dos anos 2000 em diante, talvez em decorrência das novas capacidades bélicas, comunicacionais e de transporte do ser humano, vimos surgir nas telinhas zumbis mais ágeis, fortes, letais e até inteligentes, sendo muito mais perigosos do que os antigos. Estes, geralmente são frutos da infecção de um humano por uma doença (como no filme “Extermínio”, de 2002, e na série de jogos “Left 4 Dead”, lançada em 2008), e não cabem tão bem na simples definição de “cadáveres reanimados”.

Cisto no cérebro de um rato, contendo milhares de parasitas. Fotografia de Jitinder P. Dubey
Cisto no cérebro de um rato, contendo milhares de parasitas. Fotografia de Jitinder P. Dubey

Na natureza, temos diversos exemplos de parasitas que transformam seus hospedeiros em algo muito similar a um zumbi, sem qualquer livre-arbítrio. Um dos exemplos mais famosos é o da toxoplasmose.

Essa doença tem como hospedeiro definitivo o gato, mas também pode ser transmitida para o homem, causando diversos sintomas. Uma das formas do protozoário causador da doença (Toxoplasma gondii) chegar até o gato é infectando animais menores, como ratos.

Como mostram estudos, os roedores que têm seus cérebros infectados por esses parasitas perdem completamente o medo de gatos (na verdade, eles até passam a se sentir atraídos por um feromônio da urina dos felinos). Isso faz com que os ratos tenham maior exposição e, consequentemente, corram mais riscos de serem predados, transmitindo, assim, o protozoário para seu hospedeiro definitivo, onde irá se reproduzir.

 

Devido a estes e outros paralelos entre zumbis e o mundo real, muitos pesquisadores – das mais diversas áreas – se dedicam a estudar esses seres da fantasia.

 

E se ocorrer um apocalipse zumbi, vamos sobreviver?

Essa foi a pergunta que motivou uma pesquisa realizada no Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora.

zumbi

Os pesquisadores criaram uma simulação computacional onde um zumbi é colocado em uma pequena cidade. Na medida em que o tempo foi passando, esse zumbi foi convertendo algumas pessoas e matando outras, até que toda a população foi dizimada. Para tornar o cenário um pouco menos apocalíptico, foram colocados também militares (que, naturalmente, tinham uma maior chance de sobreviver e matar os zumbis). 

 

Interações possíveis entre zumbis, civis e militares

A simulação computacional funciona, basicamente, fazendo esses três elementos interagirem (de forma proporcional à quantidade em que eles existem na cidade).

O zumbi escolhido para ser o primeiro a atacar a cidade é um daqueles mais clássicos (o zumbi lento que vive se arrastando atrás de carne fresca). Ao encontrar um humano (civil ou militar) ele pode ser morto, matar ou transformá-lo em zumbiPara definir a chance de cada uma das três coisas acontecer nos encontros zumbi-civil e zumbi-militar, os pesquisadores observaram a proporção desses acontecimentos em séries, filmes, jogos, livros e quadrinhos (afinal, nunca tivemos um apocalipse zumbi para termos dados empíricos desses encontros).

Além dos encontros entre humanos e zumbis, também pode haver encontros entre civis e militares, resultando eventualmente no treinamento do civil pelo militar.

As possibilidades de interação e a chance de acontecerem encontram-se na tabela abaixo:

ZUMBI x CIVIL ZUMBI x MILITAR CIVIL – MILITAR
Civil morre 60% Militar morre 10% nada acontece 99%
Civil vira zumbi 30% Militar vira zumbi 10% Militar treina civil 1%
Civil mata zumbi 10% Militar mata zumbi 80%

 

Partindo para a simulação

Tendo definido o que pode acontecer nos encontros entre os elementos dessa cidade, passamos para a fase da simulação.

Primeiramente, os pesquisadores rodaram uma simulação com 1 militar, depois com 2, depois com 3 e assim por diante. Com um baixo número de militares, o número de confrontos entre zumbis-militares e zumbis-civis era pequeno, porque a população era dizimada com muita facilidade. À medida em que o número inicial de militares foi aumentando, os confrontos com os zumbis tornavam-se mais numerosos e a população resistia por mais tempo. Mesmo assim, os zumbis estavam sendo vitoriosos em todas as simulações.

Gráfico da variação da quantidade de interações à medida em que se aumenta o número inicial de militares na cidade. O topo do gráfico representa uma mudança de fase. Antes dela, os zumbis dizimam a população, depois dela, os zumbis são extintos.
Gráfico da variação da quantidade de interações à medida em que se aumenta o número inicial de militares na cidade. O topo do gráfico representa uma mudança de fase. Antes dela, os zumbis dizimam a população, depois dela, os zumbis são extintos.

O PONTO DE VIRADA, a partir do qual os zumbis foram dizimados e alguma parcela da população sobreviveu, ocorreu quando colocou-se um número inicial de 47 militares para 1.000 pessoas.

Embora com poucos sobreviventes, esse foi o primeiro sinal de que, SIM, é possível sobreviver a um apocalipse zumbi.

 

 

 

Só tem um problema: sabe qual é a quantidades de militares no Brasil?

Cerca de 1,6 a cada 1.000 pessoas. Os Estados Unidos, com todo seu poderio bélico e militar, possui apenas 4,2 militares ativos a cada 1.000 pessoas.

Assim, com os parâmetros utilizados, o único lugar do planeta que teria alguma chance de não ter sua população extinta frente a uma ameaça zumbi é a Coréia do Norte, com 47,4 militares para cada 1.000 pessoas. E mesmo assim, dos seus 25 milhões de habitantes, menos de três milhões sobreviveriam.

 

Testando outros parâmetros

A pesquisa também avaliou o que aconteceria com esse sistema se os seus elementos fossem um pouco diferentes, como zumbis mais agressivos ou uma população mais bem preparada:

 

Zumbis mais agressivos

Um dos modelos de zumbi utilizado em outras simulações foram aqueles mais inteligentes, rápidos e letais (como os do filme “Extermínio” ou “Guerra Mundial Z”). Nesse caso, a chance de um zumbi matar um humano aumenta consideravelmente. Em contrapartida, as chances dele converter alguém em zumbi são reduzidas.

ZUMBI FORTE x CIVIL ZUMBI FORTE x MILITAR
Civil morre 80% Militar morre 34%
Civil vira zumbi 15% Militar vira zumbi 7%
Civil mata zumbi 5% Militar mata zumbi 59%

Por incrível que pareça, se os zumbis fossem mais agressivos e letais a humanidade estaria mais segura. Sim, isso mesmo. Por matar muito mais do que “zumbificar” as pessoas, a população de zumbis não cresceria tanto e decairia com o tempo, com pouca conversão de novos indivíduos.

Nesse modelo, a quantidade de militares necessária para salvar a humanidade cairia de 47 para 20 militares – para cada mil pessoas. De fato, é uma redução grande, mas ainda assim extremamente perigoso.

 

Humanos mais saudáveis

Se a população de civis fosse mais saudável, não-sedentária e treinada, os civis teriam uma maior chance de sobrevivência no encontro com um zumbi e maior chance de se tornar um militar, o que mudaria MUITO o panorama do apocalipse.

Vamos imaginar as seguintes chances:

ZUMBI x CIVIL SAUDÁVEL MILITAR – CIVIL SAUDÁVEL
Civil morre 30% nada acontece 90%
Civil vira zumbi 40% Militar treina civil 10%
Civil mata zumbi 30%

Com esse cenário (que nem exige que os civis sejam especialistas em apocalipse zumbi, apenas mais saudáveis) a quantidade de militares necessária para salvar a humanidade cairia de 47 para UM militar para cada mil pessoas. Com apenas 1 militar, uma cidade de 1.000 pessoas venceria os zumbis, com 210 pessoas vivas ao final.

 

Paralelos com outros sistemas dinâmicos

Pode parecer brincadeira falar de apocalipse zumbi, mas não se engane, esta pesquisa pode nos ajudar a entender vários outros sistemas do mundo real.

 

Doenças virais

Imagine um vírus que dependa do ser humano para se hospedar e ser transmitido para outros. É de se imaginar que uma doença mais agressiva e letal seja nosso maior vilão. Mas quanto mais rápido um vírus mata o seu hospedeiro, menores as chances dele se espalhar para outras pessoas.

Imagem do jogo "Plague Inc." da Ndemic Creations; zumbi
Imagem do jogo “Plague Inc.” da Ndemic Creations.

Doenças mais brandas, mas facilmente contagiosas (como a gripe), embora não sejam tão perigosas assim, jamais serão vencidas por nós humanos (seria necessário um batalhão de MUITAS vacinas para cada mil pessoas, e mesmo assim o vírus tem a possibilidade de sofrer mutação genética e se adaptar).

Hoje, existem diversos jogos (como o Plague Inc. da imagem ao lado) que funcionam como simuladores de doenças, que exploram muito bem fatores como potencial de contágio, letalidade, mutabilidade, etc.

Utilizando as conclusões da pesquisa dos zumbis, podemos afirmar que é muito mais eficiente (e barato) investir na saúde preventiva da população do que em tratamentos agressivos e poderosos àqueles que se contaminaram.

 

Segurança pública

Outra mudança de parâmetros avaliada pelos pesquisadores (além de zumbis mais agressivos e humanos mais saudáveis) foi “militares mais agressivos e letais”. Ao fazerem essa simulação, verificaram que seriam necessários apenas cinco militares mais agressivos para cada mil pessoas. O problema é que, este número ainda é alto (dado o número de militares no Brasil). Além disso, o número de civis vivos ao final do apocalipse é muito menor do que na simulação com civis mais saudáveis.

E o que isso tem a ver com segurança pública? Substitua zumbis por bandidos e você tem um sistema muito similar ao que vemos acontecer nas cidades. É claro que, nessa circunstância, as chances do que acontece em cada encontro não seriam baseadas em filmes, mas em estatísticas reais. Da mesma forma, as possibilidades de desfechos dos encontros (mata, morre ou é convertido) seriam bem mais complexas do que as que foram estabelecidas no problema dos zumbis. Mas, em linhas gerais, a ideia permanece a mesma.

O que os pesquisadores concluem é que os resultados encontrados nas diversas simulações feitas apontam como melhor cenário o caso em que os civis são mais saudáveis. É possível que se invista no poderio militar, aumentando assim sua eficiência e reduzindo a necessidade de mais militares em serviço. Mas, como indicam as simulações, ações mais agressivas por parte dos defensores da população podem levar à perda civil em massa.

Ou seja, se o prefeito de uma cidade quiser proteger sua população de um apocalipse zumbi (ou da crescente conversão de jovens para o tráfico), ele não deve focar seus investimentos na força bruta de uma pequena parcela da população, os militares ou policiais, a melhor estratégia parece ser investir em políticas públicas que melhorem as condições de vida dos civis, através do esporte, da cultura, da alimentação saudável e da educação.

 

 


Essa pesquisa foi realizada pelos pesquisadores: João Paulo Mendonça, Leonardo Teixeira, Fernando Sato e Lohan Ferreira, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Os detalhes dela pode ser acessado neste artigo (em inglês): https://arxiv.org/pdf/1802.10443.pdf

 

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