Além da apresentação e do debate de pesquisas da área da química, a reunião anual da SBQ contou com um workshop especial dedicado à trajetória e às contribuições do professor Lauro T. Kubota para a eletroanalítica e a bioanalítica.

Dos dias 15 a 18 de junho aconteceu a 49ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química (RASBQ). O evento foi sediado no espaço Expo D. Pedro, localizado no Shopping Dom Pedro, em Campinas. A reunião foi promovida pela Sociedade Brasileira de Química (SBQ) a fim de reunir pessoas que atuam nas diversas áreas da química do país e fora. As palestras, workshops e apresentações são meios que o evento proporciona para que se possa divulgar e debater as diversas pesquisas realizadas.

Porém, para além das pesquisas, neste ano houve um workshop ministrado para o reconhecimento do falecido professor Lauro Kubota – docente homenageado no nome do INCTBio-LK. O workshop de nome “Em pé sobre os ombros de gigantes: O legado de Lauro T. Kubota para a eletroanalítica e bioanalítica” contou com a participação de oito professores de diferentes universidades que haviam tido a oportunidade de colaborar de alguma forma com o professor.

Sobre a SBQ e a RASBQ

A SBQ como a conhecemos hoje foi fundada em 1977, em período de ditadura militar durante o governo Geisel. Esse processo ocorreu durante uma reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que, naquele momento, atuava de maneira crítica ao governo.

A SBQ, então, iniciou suas próprias reuniões anuais como parte das reuniões anuais da SBPC. Porém, atualmente as reuniões anuais ocorrem de maneira independente, graças à credibilidade conquistada ao longo dos anos.

As RASBQs são eventos que unem pessoas da pesquisa em diversos níveis: graduação, pós-graduação, docência e pesquisadores a fim de dialogar sobre as pesquisas sendo levadas. Hoje, esse encontro une cerca de 2500 pessoas, se classificando como um dos maiores eventos de química da América Latina.

As RASBQs costumam contar com diferentes conferências, workshops, minicursos, lançamentos de livros, além de estandes de empresas por entre os corredores. Durante os dias, há momentos de intervalos com aperitivos e coquetéis, para também incentivar momentos de socialização.

“Se tenho enxergado mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes”

Em pé sobre os ombros de gigantes: O legado de Lauro T. Kubota para a eletroanalítica e bioanalítica

O workshop coordenado pelos professores José Alberto Fracassi Silva (UNICAMP) e Wallans Torres Pio dos Santos (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM) teve início às 10h da manhã do primeiro dia de evento e se encerrou às 16h do mesmo dia, com uma pausa de 2 horas de almoço. As pessoas convidadas a palestrar foram algumas dentre as várias que foram orientadas ou supervisionadas pelo professor Lauro Kubota durante a trajetória acadêmica.

Logo na primeira palestra, “Eletroanalítica de alto impacto: o legado duradouro de Lauro Kubota”, do professor Mauro Bertotti da Universidade de São Paulo (USP), após os destaques para os prêmios e orientações do professor Lauro, houve a citação do INCTBio (denominado INCTBio-LK após a morte do professor).

A partir dos relatos dos palestrantes, entendemos que a criação do instituto foi benéfica para universidades fora do estado de São Paulo. Todos eles mantiveram contato com o professor Lauro mesmo após o final da orientação e, enquanto atuavam como docentes em outras universidades, puderam contar com o auxílio para consertar e comprar equipamentos graças ao dinheiro do INCT. O professor César Ricardo Teixeira Tarley (Universidade Estadual de Londrina – UEL) e a professora Rita de Cássia Silva Luz (Universidade Federal do Maranhão – UFMA) relataram de maneira explícita como foram capazes de retomar pesquisas antigas ou iniciar novas pesquisas graças a esses equipamentos.

A professora Cecília de Carvalho Castro e Silva (Universidade Presbiteriana Mackenzie) destacou também o relacionamento que o professor mantinha com outras unidades. Ao trabalhar com nanotubos de carbono em sua pesquisa, ela precisou contar com a parceria do Centro de Componentes Semicondutores e Nanotecnologia (CCSNano), um centro interdisciplinar localizado na UNICAMP. Essa parceria, ela relata, foi tranquila uma vez que os responsáveis da época souberam que ela fazia parte do grupo de pesquisa do professor Lauro.

“Orientações que acolhem”

Se em metade do tempo do workshop foi destacado como o professor Lauro Kubota atuava enquanto professor, a outra metade do tempo foi destacando suas qualidades enquanto orientador. A palavra que parecia ser comum a todas as pessoas que falavam sobre o professor era “humilde”. Todos destacaram o quanto ele era uma pessoa simples, o que parecia chocar considerando a sua importância dentro do meio acadêmico.

Com relação a sua orientação, era comum dizerem que, apesar de exigente, ele não deixava de ajudar os alunos quando necessário. O professor José Alberto destaca que isso não era apenas com relação aos alunos, mas que ele também se colocava à disposição dos colegas professores, conversando por horas para resolver algum problema.

Foram contados relatos pessoais sobre como ele foi compreensivo a respeito de questões de saúde e familiares de seus alunos, mesmo que isso pudesse mudar o calendário programado da pesquisa. As pessoas se lembraram, emocionadas com os próprios relatos e com relatos de outras pessoas e, nesse sentido, o pouco público do workshop tornou o ambiente mais acolhedor.

A professora Rita, em uma rápida entrevista com nossa equipe disse:

“O professor Lauro como sempre uma pessoa muito humilde e sempre dava valor à pesquisa desenvolvida, principalmente em regiões como a nossa, né? A universidade federal do Maranhão não é uma universidade grande, mas é uma universidade que é possível desenvolver pesquisa de qualidade, mas se isso é feito com ajuda de alguém ou com alguém estendendo a mão, fica mais fácil, né? O professor Lauro tornava nossa vida mais fácil. Infelizmente, a perda dele foi algo que a gente não esperava, mas a gente vai continuar seu legado, a pesquisa que ele desenvolveu vai ficar pra sempre nas nossas memórias e a gente vai tentar honrar essa pesquisa, esse apoio e passar isso para os demais pesquisadores”.

Seu legado

Algum dos professores, em um determinado momento do workshop disse que precisávamos de mais “Lauros Kubotas”. No sentido de uma atuação profissional mas, a partir do contexto em que a conversa acontecia, também como orientador, como mentor e como colega.

Fica evidente, a partir dos relatos, que parte da importância do professor Lauro se dá, além da competência própria, por conta das parcerias feitas ao longo de sua carreira. Os ex alunos firmaram parcerias com o professor após se tornarem docentes eles próprios. Dessa forma, as pessoas na área de pesquisa aumentam, bem como as perspectivas diferentes sobre o mesmo fenômeno. A área cresce como um todo e o trabalho científico cresce junto.

E mesmo que ele próprio tenha recebido vários prêmios e tenha uma grande importância na área da química analítica, o legado deixado por ele não se limita a isso. Ele também é lembrado pelo seu caráter enquanto ser humano; e esses são dois pontos que dificilmente podem ser dissociados um do outro. Seu modo de se relacionar com as pessoas fez com que as pessoas escolhessem manter parcerias com ele.

Talvez esse seja um dos passos para repassar seu legado.

Acervo pessoal

Categorias: Jornalismo

Letícia Sayuri Kurihara

Professora de química pela UNICAMP e mestranda no Laboratório de Jornalismo Científico - Labjor na UNICAMP. É bolsista mídia ciência do INCT, atuando como jornalista científica. Tem experiência em projetos de extensão de divulgação científica e já realizou pesquisa na área durante os anos de 2022 - 2024.

0 comentário

Deixe um comentário

Espaço reservado para avatar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *