Desvendando o futuro: uma jornada pela Terapia Celular

Texto de Thaís Bonon de Assis
A terapia celular mostra que aquilo que aprendemos sobre células na escola pode ser só o começo de uma história muito maior.
À primeira vista, elas parecem distantes, microscópicas e cheias de nomes difíceis. No entanto, na prática, as células estão no centro de tudo o que acontece no nosso corpo: são elas que permitem que a gente respire, pense, se mova e exista. Além disso, mais do que conteúdos de prova, as células são protagonistas de algumas das transformações mais importantes da ciência e da medicina hoje, inclusive de tecnologias capazes de mudar o rumo de doenças antes consideradas sem saída.
A célula é a menor unidade que forma os seres vivos e também a menor parte capaz de realizar as funções da vida. Em outras palavras, todas as formas de vida nascem das células, inclusive você.
Além disso, todos os componentes dessa estrutura tão pequenininha têm uma função especial: mitocôndrias, ribossomos, núcleo e outras partes trabalham juntas para que tudo funcione como deveria. Assim, se hoje respiramos, comemos e existimos, é porque milhões de células atuam em conjunto para que isso aconteça. Dessa forma, qualquer falha nesse funcionamento pode afetar o corpo como um todo.
Quando algo dá errado: mutações e doenças
Acontece que, como tudo o que é vivo, as células também estão sujeitas a erros. O que acontece se algo tão fundamental “bugar”?
Durante grande parte da história, as pessoas enxergaram muitos “erros celulares” como sem solução. Esses erros, que chamamos de mutações, surgem quando pequenas mudanças alteram o funcionamento das células, como se alguém tivesse escrito errado uma instrução interna. Às vezes, essa mudança é inofensiva. Em outras, ela faz com que a célula pare de cumprir seu papel ou passe a agir de forma descontrolada.
Quando uma pequena peça dentro de uma engrenagem deixa de funcionar, muita coisa pode sair do lugar. Da mesma forma, uma única célula com defeito pode afetar tecidos inteiros e, com o tempo, o funcionamento do corpo como um todo. Por isso, durante muito tempo, as pessoas receberam doenças causadas por mutações celulares como notícias desesperadoras, quase como um ponto final, sem muitas possibilidades de tratamento ou reversão.
E se nós pudéssemos rebobinar a fita?
E se transformássemos pontos finais em vírgulas?
Será que as células conseguem consertar e oferecer uma segunda chance?
Afinal… o que é a terapia celular?
A terapia celular, como o próprio nome sugere, é um tipo de tratamento relativamente recente que utiliza células vivas como agentes terapêuticos. Em muitos casos, essas células são células-tronco, que médicos retiram do próprio paciente ou de doadores. No laboratório, os cientistas preparam essas células e depois as reintroduzem no corpo para restaurar ou substituir células que não estão funcionando corretamente.
As células-tronco são células especiais que existem no corpo de todos nós. Elas têm alta capacidade de autorrenovação e diferenciação. Isso significa que conseguem gerar novas células iguais a elas e também se transformar em diferentes tipos de células, como células do sangue, do coração e neurônios.
Essas células existem em grande quantidade nos embriões, quando o organismo ainda está em formação. Nessas etapas iniciais do desenvolvimento, as células ainda “não sabem” se serão um coração, um estômago ou uma parte da orelha. Por isso, têm a capacidade de se transformar em diferentes tipos de tecido e órgãos.
Mas as células-tronco não existem apenas em embriões. Adultos também possuem células-tronco, principalmente na medula óssea, que é o tecido macio que fica dentro dos ossos e produz as células do sangue, além de estarem presentes em diferentes órgãos do corpo. Essas células ajudam a manter e renovar os tecidos ao longo da vida.
Terapia celular no tratamento do câncer
Hoje, por exemplo, já usamos esse tipo de tecnologia para tratar alguns tipos de câncer antes considerados incuráveis.
O câncer é, de forma simples, um aumento anormal do número de células. Isso acontece quando algumas células passam a se multiplicar mais do que deveriam, por causa de falhas nos mecanismos de controle do próprio organismo. Como resultado, formam-se massas de células que atrapalham o funcionamento normal do corpo.
Nesse caso, podemos utilizar células do sistema imunológico como “mensageiras” para enviar sinais às células defeituosas, como se estivessem dizendo: “Ei, você precisa parar de se multiplicar!”
CAR-T
Um exemplo desse tipo de tratamento é o chamado CAR-T. Nesse caso, médicos usam células de defesa do próprio paciente. Essas células são “treinadas” em laboratório, ou seja, passam por pequenas modificações para aprender a reconhecer melhor as células do câncer e, depois, são colocadas de volta no corpo para ajudar a combatê-lo. É como se o organismo ganhasse um reforço no time de defesa.
Em outros casos, em vez de “treinar” células de defesa, os cientistas podem substituir células doentes por células novas e saudáveis. Funciona como uma troca de peças: as células que não estão funcionando bem dão lugar a outras que conseguem cumprir seu papel. Por isso, essa técnica é às vezes chamada de um “transplante microscópico”.
Como a terapia celular foi desenvolvida?
A história da terapia celular começa por volta de 1950, quando médicos realizaram o primeiro transplante de medula óssea para tratar a leucemia. Foi a primeira vez que a medicina usou células vivas diretamente como parte de um tratamento.
Cerca de dez anos depois, cientistas descobriram que algumas células do sistema imunológico, chamadas linfócitos, eram capazes de combater tumores. Com o avanço das pesquisas, na década de 1980, um tipo específico dessas células, os linfócitos T, passou a ser manipulado em laboratório para ajudar no tratamento de tumores que não eram apenas do sangue.
A partir dos anos 2000, o uso de células-tronco começou a se expandir para pesquisas e tratamentos de outras condições, como AVC e doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. Esse campo segue em constante desenvolvimento.
Novas perspectivas: a terapia celular como esperança pós-diagnóstico
A terapia celular é hoje uma alternativa muito promissora para casos que antes eram vistos como um triste decreto do fim. Em 2023, as fundações de pesquisa brasileiras investiram, em conjunto, mais de 200 milhões de reais em pesquisas para aplicações da terapia celular.
Hoje, até mesmo para condições ainda sem cura definitiva, como o Alzheimer, é possível utilizar células para tratar, retardar e amenizar os impactos da doença, utilizando técnicas de substituição celular. Também há pesquisas e aplicações para condições comuns no Brasil, como o diabetes e algumas cardiopatias.
Como o tratamento com células impacta a saúde pública?
O tratamento com células é uma tecnologia de ponta e, por isso, ainda é bastante caro. A boa notícia é que vários tratamentos, como os baseados em CAR-T, já foram aprovados pela Anvisa e passaram a ser de cobertura obrigatória pelos planos de saúde regulamentados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
E o SUS? A terapia celular já é possível pelo SUS em casos chamados de uso compassivo, quando não há outras alternativas terapêuticas. Com os avanços e os resultados positivos da última década, a expectativa é que esses tratamentos sejam ampliados nos próximos anos para atender mais pessoas.
Que sigamos lutando pela saúde pública e pelo direito ao acesso às tecnologias que salvam vidas.
Para saber mais:
BORGES, Isabelli (2023). Biotecnologia: Aplicações da Engenharia Tecidual na regeneração de órgãos e tecidos humanos; Revisão bibliográfica. Revista Research, Society & Development VOL 12; No 13. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/376405056_Biotecnologia_Aplicacoes_da_Engenharia_Tecidual_na_regeneracao_de_orgaos_e_tecidos_humanos_-_Revisao_bibliografica
DE PAULA, Simone (2005). O Potencial terapêutico das células-tronco do sistema nervoso. Revista Scientia Medica VOL 12; No 4. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/scientiamedica/article/view/1578
FERNANDES, T. R. L. TERAPIA CELULAR UTILIZANDO CÉLULAS-TRONCO ADULTAS: [REVISÃO]. SaBios-Revista de Saúde e Biologia, [S. l.], v. 11, n. 2, p. 84–94, 2017. Disponível em: https://revista2.grupointegrado.br/revista/index.php/sabios/article/view/1922.
PEREIRA, Lygia (2008). A importancia do uso das células tronco para a saúde pública. Ciencias & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, Brasil. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/Jxx3B5stXPw4L9t5LVrxszq
Autoria:
Sou a Thaís Bonon, tenho 22 anos e curso Licenciatura em Ciências Biológicas na UNICAMP. Também me formei como técnica em Biotecnologia no Ensino Médio. Desde cedo me interesso por células e pela pesquisa em laboratório. Já trabalhei com cultura celular em estudos sobre doenças neurodegenerativas e, agora, quero me aprofundar na área do câncer.
