Energia Nuclear: uma bomba de informações

por | abr 16, 2026 | Textos | 0 Comentários

No dia 26 de abril deste ano, o desastre de Chernobyl completará 40 anos. Mas afinal, o que foi esse desastre? Quais foram as consequências geradas por ele? Como esses desastres impactam a forma como enxergamos as fontes nucleares atualmente? É possível relacionar o Ciclo de Energias Nucleares com a guerra que está acontecendo no Irã? Vamos conversar um pouco sobre como eventos históricos e decisões políticas afetam essa tecnologia!

Autoria de Fernanda Nunes Ribeiro & Mariana Olimpio de Aquino

Revisão de Cyntia Vasconcelos de Almeida & Mayara de Carvalho Santos

Em 1986, na então União Soviética, um teste inadequado de um reator da Usina Nuclear de Chernobyl (localizada onde hoje é a Ucrânia) gerou uma explosão e um incêndio, responsáveis por demolir o prédio e espalhar uma enorme quantidade de radiação. Esse desastre gerou a morte de diversas pessoas, tanto no momento do acidente quanto depois, em decorrência de problemas de saúde, como câncer, causados pela exposição à radiação. Essa tragédia também afetou o meio ambiente da região, e foi estabelecida uma “zona de exclusão”, uma grande área que permanece desabilitada até hoje por causa dos perigos da radiação [1,2].

Esse caso freou bruscamente o desenvolvimento de energias nucleares, que vinha sendo crescente desde a produção do primeiro reator nuclear, em 1942, nos Estados Unidos. Isso, somado às dificuldades inerentes à tecnologia, como alto custo de capital inicial, faz com que o desenvolvimento da energia nuclear seja não linear, tomando o aspecto de uma onda ou de um ciclo: há necessidade global de mais energia, investe-se em energias nucleares, ocorre um desastre nuclear e o investimento decai novamente. Esse processo é chamado de Ciclo das Energias Nucleares [3,4]. 

 

O Ciclo das Energias Nucleares na Alemanha

As motivações para esses picos e vales no desenvolvimento das energias nucleares ficam evidentes ao analisar o caso da Alemanha. Durante os anos 1970 e 1980, devido à Crise Petrolífera de 1973, o governo alemão investiu fortemente nas energias nucleares. Porém, já no final dos anos 1970, ativistas ambientais se opuseram à política nuclear, em vista do acidente nuclear de Three Mile Island, que aconteceu nos EUA em 1979 e que gerou grandes impactos ambientais na região. O acidente de Chernobyl foi o estopim para que o Partido Social-Democrata (SPD, sigla em alemão), aliado ao Partido Verde (DG, sigla em alemão) e oposto ao governo da época, que era o Partido Cristão-Democrata (CDU, sigla em alemão), aprovasse uma resolução que encerrava qualquer atividade nuclear na Alemanha em até dez anos [4,5].

Porém, com o avanço de acordos ambientais relacionados aos gases de efeito estufa, como o Protocolo de Montreal, o governo alemão retornou ao desenvolvimento de energias nucleares, promovendo um acordo com as concessionárias de energia para que investissem nessa tecnologia. Ainda durante os anos 1990 e no início dos anos 2000, por meio de políticas tributárias, as concessionárias otimizaram as usinas e, em 2009, com a eleição de Angela Merkel pelo CDU, o governo reverteu a resolução que encerrava as atividades nucleares. A maré de investimento em energias nucleares sofreu outra recessão quando, em 2011, aconteceu o acidente nuclear de Fukushima, no Japão, e o governo se viu pressionado por ativistas e pela coalizão SPD-DG a restringir a produção de energia nuclear novamente e, por meio da política de transição energética (Energiewende), encerrar qualquer atividade nuclear até 2022, finalizando o ciclo mais uma vez [4]. 

Ao analisar o gráfico de produção de energia elétrica por fontes nucleares na Alemanha, produzido pela World Nuclear Association, é possível identificar os picos e os vales da produção nuclear, associando-se um aumento na produção nuclear a um evento histórico que limitou o uso de combustíveis fósseis e uma queda a um desastre nuclear.

Figura 1: Produção de energia elétrica por fontes nucleares na Alemanha em MWe

Fonte: adaptado de [6,7,8]. 

 

As ameaças nucleares atualmente

Além do conflito entre Rússia e Ucrânia, que afeta especialmente a Europa na importação de carvão e gás natural, o conflito entre os Estados Unidos e o Irã, que começou em 28 de fevereiro, traz complicadores para o desenvolvimento de energias nucleares. Não é de hoje que existe uma tensão entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, e esses ataques que estão acontecendo são por causa de diversos fatores, sendo um deles o programa nuclear do Irã. Donald Trump anunciou que o objetivo dos ataques é acabar com esse programa e proteger o povo americano, já que ele considera esse programa uma ameaça, dado que o governo iraniano diz não ter bombas nucleares e parte da comunidade internacional, incluindo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), contesta essa afirmação. Durante anos, o Irã afirma que todo o seu desenvolvimento nuclear tem fins civis, mas o estado real do programa ainda é incerto e  a capacidade técnica e o histórico de enriquecimento de urânio feito pelo Irã fazem com que EUA e Israel o considerem como uma ameaça [9,10].

Além disso, um ataque a uma usina nuclear pode causar um grave desastre radiológico, com consequências semelhantes às ocasionadas pelo desastre de Chernobyl, por exemplo; nessa guerra, a Usina Nuclear de Bushehr, localizada no Irã, vem sendo atacada constantemente, o que tensiona os outros países na decisão de investir em energia nuclear. Por um lado, busca-se evitar a dependência do petróleo, que já atingiu valores de US$ 100/barril, mas, por outro, existe o risco de sofrer ataques ou desastres relacionados a essa tecnologia [11,12,13].

O futuro das energias nucleares nunca foi tão incerto. Sendo uma tecnologia poderosa, é preciso analisar com cautela as suas vantagens e desvantagens, e sempre recordar que casos como o de Chernobyl impactam diretamente as decisões políticas relacionadas a ela.

Referências Bibliográficas

  1. O que foi o desastre de Chernobyl, pior acidente nuclear da história. CNN. 26/04/2024. Disponível em:https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-foi-o-desastre-de-chernobyl-pior-acidente-nuclear-da-historia/. Acesso em: 28 de março de 2026.
  2. Onde exatamente ocorreu o desastre nuclear de Chernobyl? National Geographic. 25/04/2024. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2024/04/onde-exatamente-ocorreu-o-desastre-nuclear-de-chernobyl. Acesso em: 28 de março de 2026.
  3. Planas, Oriol. Projeto Manhattan: o que é, objetivos e resultados. Energia Nuclear, 30/06/23. Disponível em: https://pt.energia-nuclear.net/que-e-a-energia-nuclear/historia/projeto-manhattan. Acesso em: 29 de março de 2026.
  4. Campos Salles, Guilherme. Energia nuclear: história, desafios econômicos e perspectivas para o futuro. Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Econômicas, UFSC, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/265973. Acesso em: 25 março de 2026.
  5. Teles, Bruno. A crise do petróleo de 1973: um embargo da OPEP que quadruplicou os preços do petróleo de 3 para 12 dólares por barril, desencadeando uma recessão global. Click Petróleo e Gás. 24/10/2025. Disponível em: https://clickpetroleoegas.com.br/a-crise-do-petroleo-de-1973-um-embargo-da-opep-que-quadruplicou-os-precos-do-petroleo-de-3-para-12-dolares-por-barril-desencadeando-uma-recessao-global-btl96/. Acesso em: 29 de março de 2026.
  6. World Nuclear Association. Nuclear Reactors in Germany. World Nuclear Org. Disponível em: https://world-nuclear.org/nuclear-reactor-database/summary/Germany. Acesso em: 29 de março de 2026.
  7. Lista dos chefes do governo alemão. FreeWiki. Disponível em: https://pt.frwiki.wiki/wiki/Liste_des_chefs_du_gouvernement_allemand. Acesso em: 29 de março de 2026.
  8. Histórico das Negociações. Brasil Escola. Disponível em: https://formacoes.oc.eco.br/docs/[NegociandoOFuturo]MaterialDeApoio_Bloco2_HistoricoEAcordoDeParis.pdf. Acesso em: 29 de março de 2026.
  9. Reviravolta histórica no Irã: o que está por trás do ataque de EUA e Israel. BBC News Brasil. 02/03/2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5yj3rzgjk5o. Acesso em: 28 de março de 2026.
  10. Programa nuclear iraniano está no centro do confronto com os EUA; entenda. G1. 28/02/2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/28/programa-nuclear-iraniano-esta-no-centro-do-confronto-com-os-eua-entenda.ghtml. Acesso em: 28 de março de 2026.
  11. Edwards, Christian; Michaelis, Tamar. Ataque a usina no Irã pode causar desastre como Chernobyl, alerta Rússia. CNN. 19/06/25. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/ataque-a-usina-no-ira-pode-causar-desastre-como-chernobyl-alerta-russia/. Acesso em: 28 de março de 2026.
  12. Rios, Michael. Usina nuclear de Bushehr, no Irã, é atingida pela terceira vez, diz agência. CNN. 27/03/26. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/usina-nuclear-de-bushehr-no-ira-e-atingida-pela-terceira-vez-diz-agencia/. Acesso em: 28 de março de 2026.
  13. Gráfico Petróleo Brent. Economies.com. 29/03/26. Disponível em: https://pt.economies.com/commodities/brent-oil-charts. Acesso em: 29 de março de 2026

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Acessar o conteúdo