As bactérias descritas usam petróleo como fonte de carbono e energia. Achado contribui para ampliar os conhecimentos sobre o mecanismo da biorremediação, eficaz em desastres ambientais

Pesquisa realizada próximo ao porto de petróleo da cidade de Karachi, no Paquistão, identificou quatro espécies de bactérias habitando corpos de peixes. Os pesquisadores da Kohat University of Science and Technology demonstraram que o grupo de bactérias Bacillus é o candidato com o maior potencial para a degradação de petróleo e, consequentemente, para o processo de biorremediação devido a sua alta adaptabilidade em condições extremas.

Porto de Karachi foi palco do pior desastre ambiental na região em acidente do petroleiro Tasman Spirit em 2003, com o despejo de 35.000 toneladas de petróleo bruto. – Foto: Pakistan Council of Scientific and Industrial Research (PCSIR)

Outros dois estudos da década passada descritos por pesquisadores da Kuwait University demonstraram achados semelhantes no Golfo Arábico onde havia bactérias degradadoras de derivados de petróleo associadas a peixes. O talento das bactérias na obtenção de energia através desses compostos é resultado da grande diversidade metabólica que possuem. Tamanha versatilidade somada ao fato de tolerarem condições ambientais desfavoráveis para outros organismos, assume um papel chave no processo da biorremediação.

No estudo, cientistas identificaram diferentes grupos de bactérias habitando 11 espécies de peixes contaminados com petróleo. Os peixes apresentaram bactérias na pele, brânquias e vísceras, porém cada espécie continha os microrganismos em diferentes membros. Sardinhas, por exemplo, apresentaram maior quantidade de bactérias no intestino, no peixe dourado elas se concentraram na superfície da pele. 

A produção de petróleo ameaça os ecossistemas

A produção mundial de petróleo alcançou a média de 77 milhões de barris de petróleo por dia, no ano passado. O plástico, que utiliza o petróleo como fonte de matéria-prima,  alcançou a produção mundial de 367 milhões de toneladas em 2020. Ambos, representam uma grande ameaça aos ecossistemas marinhos. Dentre os mecanismos de contaminação acidental, o mais crítico ocorre através do transporte marítimo. São milhares de navios transportando toneladas desses compostos sob o maior ecossistema da Terra. Apenas em 2021 cerca de 10 mil toneladas de óleo vazaram no meio ambiente, segundo informações da Federação Internacional de Poluição de Proprietários de Petroleiros (ITOPF, na sigla em inglês), dos quais cerca de 52.8 milhões de barris foram parar no oceano, de acordo com o grupo SkyTruth.

Infelizmente, a história de desastres ambientais envolvendo derivados de petróleo acompanha o desenvolvimento desta indústria. No Brasil, o registro mais antigo foi relatado na década de 1960 próximo à Ilha de Trindade (ES). De lá pra cá, outros acidentes envolvendo petróleo foram registrados (saiba mais). A explosão do navio chileno Vicuña no Porto de Paranaguá (PR) em novembro de 2004 foi o desastre de maior comoção e impacto ambiental, no entanto, foi superado pelo que ficou conhecido como a pior tragédia ambiental por vazamento de petróleo da história do Brasil, ocorrido no litoral do Nordeste em 2019. 

Criança saindo do mar após ajudar a remover manchas de óleo na praia de Itapuama em Cabo de Santo Agostinho, PE. Créditos - Léo Malafaia, Folha PE / National Geographic Brasil
Criança saindo do mar após ajudar a remover manchas de óleo na praia de Itapuama em Cabo de Santo Agostinho, PE. Créditos – Léo Malafaia, Folha PE / National Geographic Brasil

Biorremediação como válvula de escape

Se, por um lado, houve um aumento de desastres ambientais com petróleo nas últimas décadas, por outro multiplicaram-se estudos apontando para alternativas sustentáveis, que podem mitigar os impactos danosos na natureza. 

Dentre eles, estão os estudos com microrganismos capazes de degradar hidrocarbonetos do petróleo como as arqueas, bactérias e fungos, presentes no solo e em águas subterrâneas. Segundo o estudo desenvolvido no Paquistão e publicado na Brazilian Journal of Biology, as bactérias com esse potencial são mais comumente encontradas em associação a outros organismos, do que bactérias planctônicas de vida livre. 

As bactérias descritas nesse estudo foram isoladas de 11 espécies de peixes coletados do Porto paquistanês, e através de sequenciamento do gene 16S RNAr dos isolados bacterianos os pesquisadores identificaram os gêneros  Bacillus e Pseudomonas. Ambos já tinham sido descritos em estudos anteriores envolvendo contaminação de petróleo em ecossistema marinho.

Dentre as espécies identificadas, os pesquisadores caracterizaram aquela com maior potencial degradador. Após 10 dias de incubação, a  espécie  B. velezensis apresentou o maior crescimento, e foi considerada chave na biodegradação de 26 componentes do óleo de motor usado e um componente do petróleo bruto. Os resultados, apesar de otimistas, divergem do obtido por outros estudos, o que sugere a necessidade de mais pesquisas para apontar o potencial de degradação dessa espécie bacteriana e de enzimas envolvidas no processo.

“Nossos resultados divergem dos estudos anteriores, pois relataram degradação mais baixa do óleo de motor usado do que o petróleo bruto pela bactéria Bacillus. Pode ser devido às condições do hidrocarboneto, condições de cultivo e espécies de bactérias.” (apontam os autores)

Bactérias do gênero Bacillus são amplamente exploradas pelo setor agrícola e industrial, em processos como a fitorremediação e biorremediação.

Os pesquisadores concordam, no entanto, que as bactérias são microrganismos de enorme importância e potencial. Elas habitam a Terra há bilhões de anos e possibilitaram que a vida se diversificasse nos mais variados ambientes. Para um microrganismo que resistiu há tantos desastres e extinções, fica a questão se resistirá aos desastres ambientais causados por serem humanos e se serão capazes de salvar outras vidas. Se as bactérias são heroínas dessa história, não sabemos. Ainda é preciso entender os efeitos a longo prazo. Por exemplo, conforme aumentar a quantidade de poluentes e resíduos no oceano, haverá também aumento das populações dessas bactérias? Mas quais serão os impactos no ecossistema?

Por ora, a biorremediação se mostra uma técnica sustentável promissora na recuperação de áreas degradadas. Além de não causar danos ao meio ambiente, possui baixo custo quando comparado a técnicas convencionais.

Enquanto avançam as pesquisas com bactérias que degradam derivados de petróleo, seguimos com soluções que parecem mais fáceis. Elas esbarram, no entanto, na urgente necessidade de mudar a lógica de consumo e hábitos da sociedade, na cadeia produtiva e em políticas públicas que reduzam a disponibilidade de produtos do petróleo como óleo, combustíveis e plásticos.

“Esta pequisa confirmou que as bactérias degradadoras de óleo que residem em peixes do oceano Índico têm o potencial de degradar o óleo que pode precisar de mais estudos para fins de biorremediação no futuro.” (destacam os autores)

Leia o artigo completo em:

ULLAH, S. et al. (2022). Biodegradation of petroleum by bacteria isolated from fishes of Indian Ocean. Brazilian Journal of Biology, 82. doi: 10.1590/1519-6984.244703 


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