Motivação entre a ciência e a política

Texto por Gustavo

O papel da ciência na sociedade atual vai além de gerar novas tecnologias. Apesar de bem vinda, a busca por inovação – palavra tão exaltada e incensada – nas áreas produtivas não pode ser o único motivo pelo qual a ciência existe. Fabricar celulares e computadores mais rápidos, carros mais econômicos e materiais mais resistentes é algo que certamente tem seu valor, assim como produzir medicamentos mais eficazes, métodos eficientes e não poluentes de controle de pragas agrícolas ou de geração de energia é, sem dúvida, indispensável. No entanto, a produção de novas maneiras de aplicar a ciência no cotidiano prático não esgota a função da própria ciência, ou, pelo menos, não deveria.

Além da função filosófica, que coloca a ciência enquanto explicação possível para o mundo (o que daria assunto para um texto exclusivo) e de outras que lhe podem ser atribuídas, a Ciência tem a fundamental função de guia – ou ao menos conselheira – para a tomada de decisões no âmbito político. Como gerir melhor a sociedade, aplicar políticas públicas e descontinuar ações ineficazes ou danosas é algo que demanda conhecimento sobre as dinâmicas do mundo natural, área de atuação da Ciência – seja no campo das humanas, exatas ou biológicas.

Se a ciência tem se dado bem na primeira função – a produção de tecnologia -, o que se pode dizer desta última? Frente ao que temos observado em muitos países e contextos, parece que, infelizmente, a conselheira está sendo solenemente ignorada.

Como isso se dá?

No panorama global, o caso que parece mais claro é a recusa do governo do país mais importante economicamente em aceitar os incontáveis alertas científicos quanto ao aquecimento do planeta e o provável caos global que se aproxima de nós. A saída dos EUA do acordo do Clima de Paris é uma demonstração flagrante de desdém para com o conhecimento científico, que apresenta o problema e propõe as soluções nunca aplicadas. A insistência na caça de baleias por países como Japão e Dinamarca, a despeito dos avisos de impacto ecológico e até mesmo econômico, merece também ser citada.

No Brasil, arrisco dizer, a situação é ainda mais complicada. Não é só a destruição do Museu Nacional e os contínuos cortes no orçamento de C,T&I que mostram o descaso com a Ciência e o conhecimento em nosso país. Em termos práticos, o conhecimento científico tem sido sistematicamente ignorado por nossos representantes político.

Um exemplo patente foi a discussão sobre o Novo Código Florestal Brasileiro, no começo desta década. Apesar das inúmeras críticas contrárias feitas por pesquisadores reconhecidos nacional e internacionalmente na área e da manifestação oficial de algumas das maiores entidades científicas do país contra a aprovação do projeto, o novo código foi sancionado em Os resultados, como previsto, têm sido desanimadores.

Para não ficar só neste, podemos citar o exemplo de Belo Monte, onde um cenário semelhante de discussão se configurou, ou o da nova lei sobre liberação de químicos agrícolas – talvez o mais novo capítulo.

Como motivar-se?

Fazer pesquisa no Brasil, frente a todos os desafios, não é tarefa fácil. É preciso acreditar no que se faz para se dedicar ao tema que se quer abordar, a despeito de bolsas minguantes e estrutura muitas vezes insuficiente. Depende, portanto, de muita motivação. E é esse o questionamento neste texto. Tanta dedicação está sendo aproveitada por quem deveria? Sua pesquisa sobre a redução dos peixes da Amazônia em decorrência da instalação de barragens, ou sobre a perda dos solos em áreas de agricultura predatória, ou, ainda, a respeito do aumento de doenças causadas pela poluição do ar, por excelentes e incríveis que sejam, irão impactar e influenciar alguém mais que os cientistas da área? Alguma decisão relevante (à nível nacional, estadual, municipal) será tomada levando-a em conta? É difícil motivar quem faz ciência (seja pesquisador, docente ou pós-graduando) frente a este cenário, mas é preciso.

Tudo começa com a valorização da ciência em toda a sua complexidade, e não apenas o potencial da tecnologia: a relevância desigual dada à ciência aplicada em detrimento da básica é um sintoma bem claro deste panorama. Além disso, a maneira como, frequentemente, as parcerias com a iniciativa privada são colocadas como a única salvação da pesquisa nas universidades é preocupante, pois, ainda que essa interação seja uma opção bem-vinda em muitos casos, a exclusividade deste tipo de financiamento traria impactos negativos inegáveis à produção de conhecimento básico e a temas que, a curto prazo, são “não-lucrativos”, como é o caso de boa parte das pesquisas em áreas como paleontologia ou história medieval, para ficar nestes dois exemplos.

Mudanças dependem, em um regime democrático, de mobilização política e, obviamente, do voto consciente. Em tempos de eleições, o mínimo que devemos fazer é levar em consideração as propostas de governo dos candidatos em temas que dizem respeito à Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente, Agricultura, etc (veja aqui e aqui). Junto a isso, trazer a população para mais perto da Ciência é a única maneira de esperar que o dedicado trabalho dos cientistas seja levado em conta pelos representantes públicos.

Publicado originalmente em Ciência em Si.

Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadoresAlém disso, a revisão por pares aconteceu por pesquisadores da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp.

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