Motivação entre a ciência e a política

O papel da ciência na sociedade atual vai além de gerar novas tecnologias. Apesar de bem

vinda, a busca por inovação – palavra tão exaltada e incensada – nas áreas produtivas não

pode ser o único motivo pelo qual a ciência existe. Fabricar celulares e computadores mais

rápidos, carros mais econômicos e materiais mais resistentes é algo que certamente tem seu

valor, assim como produzir medicamentos mais eficazes, métodos eficientes e não poluentes

de controle de pragas agrícolas ou de geração de energia é, sem dúvida, indispensável. No

entanto, a produção de novas maneiras de aplicar a ciência no cotidiano prático não esgota a

função da própria ciência, ou, pelo menos, não deveria.

Além da função filosófica, que coloca a ciência enquanto explicação possível para o mundo (o

que daria assunto para um texto exclusivo) e de outras que lhe podem ser atribuídas, a Ciência

tem a fundamental função de guia – ou ao menos conselheira – para a tomada de decisões no

âmbito político. Como gerir melhor a sociedade, aplicar políticas públicas e descontinuar ações

ineficazes ou danosas é algo que demanda conhecimento sobre as dinâmicas do mundo

natural, área de atuação da Ciência – seja no campo das humanas, exatas ou biológicas.

Se a ciência tem se dado bem na primeira função – a produção de tecnologia -, o que se pode

dizer desta última? Frente ao que temos observado em muitos países e contextos, parece que,

infelizmente, a conselheira está sendo solenemente ignorada.

 

Como isso se dá?

No panorama global, o caso que parece mais claro é a recusa do governo do país mais

importante economicamente em aceitar os incontáveis alertas científicos quanto ao

aquecimento do planeta e o provável caos global que se aproxima de nós. A saída dos EUA do

acordo do Clima de Paris é uma demonstração flagrante de desdém para com o conhecimento

científico, que apresenta o problema e propõe as soluções nunca aplicadas. A insistência na

caça de baleias por países como Japão e Dinamarca, a despeito dos avisos de impacto

ecológico e até mesmo econômico, merece também ser citada.

No Brasil, arrisco dizer, a situação é ainda mais complicada. Não é só a destruição do Museu

Nacional e os contínuos cortes no orçamento de C,T&I que mostram o descaso com a Ciência e

o conhecimento em nosso país. Em termos práticos, o conhecimento científico tem sido

sistematicamente ignorado por nossos representantes político.

Um exemplo patente foi a discussão sobre o Novo Código Florestal Brasileiro, no começo desta

década. Apesar das inúmeras críticas contrárias feitas por pesquisadores reconhecidos

nacional e internacionalmente na área e da manifestação oficial de algumas das maiores

entidades científicas do país contra a aprovação do projeto, o novo código foi sancionado em

  1. Os resultados, como previsto, têm sido desanimadores.

 

Para não ficar só neste, podemos citar o exemplo de Belo Monte, onde um cenário semelhante

de discussão se configurou, ou o da nova lei sobre liberação de químicos agrícolas – talvez o

mais novo capítulo.

 

Como motivar-se?

Fazer pesquisa no Brasil, frente a todos os desafios, não é tarefa fácil. É preciso acreditar no

que se faz para se dedicar ao tema que se quer abordar, a despeito de bolsas minguantes e

estrutura muitas vezes insuficiente. Depende, portanto, de muita motivação. E é esse o

questionamento neste texto. Tanta dedicação está sendo aproveitada por quem deveria? Sua

pesquisa sobre a redução dos peixes da Amazônia em decorrência da instalação de barragens,

ou sobre a perda dos solos em áreas de agricultura predatória, ou, ainda, a respeito do

aumento de doenças causadas pela poluição do ar, por excelentes e incríveis que sejam, irão

impactar e influenciar alguém mais que os cientistas da área? Alguma decisão relevante (à

nível nacional, estadual, municipal) será tomada levando-a em conta? É difícil motivar quem

faz ciência (seja pesquisador, docente ou pós-graduando) frente a este cenário, mas é preciso.

Tudo começa com a valorização da ciência em toda a sua complexidade, e não apenas o

potencial da tecnologia: a relevância desigual dada à ciência aplicada em detrimento da básica

é um sintoma bem claro deste panorama. Além disso, a maneira como, frequentemente, as

parcerias com a iniciativa privada são colocadas como a única salvação da pesquisa nas

universidades é preocupante, pois, ainda que essa interação seja uma opção bem-vinda em

muitos casos, a exclusividade deste tipo de financiamento traria impactos negativos inegáveis

à produção de conhecimento básico e a temas que, a curto prazo, são “não-lucrativos”, como

é o caso de boa parte das pesquisas em áreas como paleontologia ou história medieval, para

ficar nestes dois exemplos.

Mudanças dependem, em um regime democrático, de mobilização política e, obviamente, do

voto consciente. Em tempos de eleições, o mínimo que devemos fazer é levar em

consideração as propostas de governo dos candidatos em temas que dizem respeito à Ciência

e Tecnologia, Meio Ambiente, Agricultura, etc (veja aqui e aqui). Junto a isso, trazer a

população para mais perto da Ciência é a única maneira de esperar que o dedicado trabalho

dos cientistas seja levado em conta pelos representantes públicos.

 

Crédito da foto de capa: Daniele Gidsicki

Sobre Gustavo 28 Artigos
Cientista de Alimentos e Mestre na mesma área. Especialista em Jornalismo Científico pelo LABJOR/UNICAMP, dedicando-se a atividades de divulgação científica.

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