No Brasil, é mais fácil vacinar crianças ou envenená-las?

Texto por Paulo Andreetto de Muzio

 

Imagine se fizessem o mesmo barulho para a liberação de veneno que fizeram e ainda estão fazendo para tentar barrar a aprovação de vacinas. Só imagine…

No dia 9 de fevereiro, a câmara dos deputados aprovou o Projeto de Lei nº 6.922 de 2002, conhecido como PL do Veneno, que flexibiliza o uso de agrotóxicos no Brasil. O resultado da votação foi de 301 a favor, 150 contra e duas abstenções. Neste momento o projeto tramita para o Senado.

Ano após ano o Brasil bate recordes de liberação de agrotóxicos. Em 2020 foram 493 e em 2021 mais 562. “Entre os 50 agrotóxicos mais utilizados no Brasil, 30 já são banidos em outros países”, afirma o deputado federal Alessandro Molon, do Partido Socialista Brasileiro, contrário à flexibilização. A aprovação de veneno vem aumentando desde 2016, ano em que Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, foi tirada do cargo de Presidenta da República.

A língua não é neutra e sempre é utilizada na construção das narrativas. Luiz Nishimori, do Partido Liberal, relator do projeto, modifica alguns termos na própria redação do PL substituindo agrotóxicos (assim aparecem na Constituição Federal) por pesticidas. E quando utilizados em florestas e ambientes hídricos, passam a ser denominados produtos de controle ambiental. Também não é incomum militantes pró-veneno chamarem os agrotóxicos de defensivos agrícolas. É um belo eufemismo, pra não dizer mau-caratismo semântico. Um negócio que ataca a vida, que mata, ser colocado como algo que defende, que protege. O que está realmente sendo defendido é o lucro de alguns poucos capitalistas em cima de mortes e da degradação do meio ambiente.

Prejuízos à saúde humana e impactos no Meio Ambiente

Os agrotóxicos podem causar nas pessoas efeitos como como “aborto, impotência, depressão, problemas respiratórios graves, alteração do funcionamento do fígado e dos rins, anormalidade da produção de hormônios da tireoide, dos ovários e da próstata, incapacidade de gerar filhos, malformação e problemas no desenvolvimento intelectual e físico das crianças”.  Também podem causar câncer.

Os principais afetados são agricultores, agentes de controle de endemias, trabalhadores de empresas desinsetizadoras e das indústrias de agrotóxicos. Mas todas a população está exposta a agrotóxicos pelo consumo de alimentos e água contaminados.

E se engana quem pensa que os agrotóxicos estão presentes apenas em produtos frescos. Pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, mostra que “os resíduos de agrotóxicos permanecem até em produtos ultraprocessados, como bisnaguinhas, bolachas recheadas, biscoito de água e sal, cereais matinais, bebidas de soja e salgadinhos. Foram 27 produtos analisados, divididos em oito categorias. Dessas, seis apresentaram  resíduos de agrotóxicos.”

Com tanto veneno sendo solto no mercado, fica bastante difícil especificar os impactos negativos de cada um deles. Alguns são mais leves, outros mais pesados.

O glifosfato, por exemplo, é o agrotóxico mais utilizado no Brasil. Um estudo realizado por pesquisadores das universidades de Princeton, Fundação Getulio Vargas e Insper revelou que a disseminação do glifosato nas lavouras de soja levou a uma alta de 5% na mortalidade infantil em municípios do Sul e Centro-Oeste que recebem água de regiões sojicultoras. Isso representa um total de 503 mortes infantis a mais por ano associadas ao uso do glifosato na cultura de soja.

Os agrotóxicos podem contaminar os corpos hídricos, afetando tanto a vida aquática quanto o abastecimento humano. Comprometem ainda a fertilidade do solo.

Alguns desses produtos podem impactar na biodiversidade de insetos. No caso da mortalidade de abelhas, principal polinizadora animal, comprometem a própria produção agrícola. Algumas culturas são essencialmente dependentes dessa polinização, como abóbora, acerola, cajazeira, cambuci, castanha do pará, cupuaçu, fruta do conde, gliricídia, jurubeba, maracujá, maracujá doce, melancia, melão e urucum. Quando não polinizadas, a produção cai entre 90 e 100%.

Lobby poderoso

No documentário O Veneno Está na Mesa (2011), de Silvio Tendler, Eduardo Galeano afirma que os agrotóxicos, que são venenos contra a natureza, estão sendo permitidos até mesmo por governos progressistas em nome de uma produtividade, a partir de um critério economicista do que é o desenvolvimento humano. E dessa forma, esses governos aceitam os agrotóxicos como se fossem uma necessidade inevitável. Vale lembrar que Kátia Abreu, pecuarista pró-veneno e atualmente senadora pelo estado de Tocantins, que não consegue parar quieta em um partido político, foi Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no segundo mandato do governo Dilma.

Se em gestões progressistas já estava ruim…

Anos atrás, no Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, conversei com uma pessoa que representava uma ONG que exibia filmes sobre temas ambientais e havia firmado uma parceria com uma secretaria de estado de Meio Ambiente para a realização de sessões de cinema. O cronograma já estava rolando e vários filmes já haviam sido exibidos. Ela me contou que ao ser divulgada a exibição de O Veneno Está na Mesa, rolou censura. Tema sensível. Polêmico até mesmo para uma pasta governamental de Meio Ambiente.

Ano passado escrevi aqui no blog como profissionais são perseguidos ao mexer em vespeiros como esse. Larissa Mies Bombardi, doutora em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), publicou em 2017 o Atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”. Em 2019 foi publicado em inglês na Europa e, após a maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia boicotar produtos do Brasil, Larissa sofreu intimidações por personalidades e instituições do agronegócio. Além disso, foi vítima de um assalto a sua casa em que o notebook com dados de sua pesquisa foi roubado. Monica Lopes Ferreira, imunologista do Instituto Butantan, também sofreu retaliações por sua pesquisa. Em 2018, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estudou 10 tipos de agrotóxicos e demonstrou que não há doses seguras para o uso de nenhum deles. A direção do Instituto Butantan proibiu Monica de submeter novos projetos de pesquisa por seis meses. Ela teve que entrar na justiça para reverter a situação.

Ainda temos fresco na memória a perseguição recente por parte do desgoverno miliciano a servidores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no contexto da pandemia de Covid-19, após a aprovação da vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos.  Em 2010, José Agenor Álvares, um dos diretores da Anvisa, deu entrevista à edição brasileira do jornal francês Le Monde com o título “Brasil envenenado”, fazendo crítica ao uso excessivo de agrotóxicos pela agricultura brasileira. Na época, acabou sendo intimado pela Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, na figura de Kátia Abreu, para prestar esclarecimentos.

A Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional realizou levantamento em 2021 que revelou que 19 milhões de pessoas passam fome no Brasil. Desde 2018 somos o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Em nome de uma suposta necessidade de alimentar a população, envenena-se a terra e tudo o que se vive nela. Uns poucos lucram com isso e grande parte da população continua passando fome.

Imagine se vacinar as crianças fosse mais fácil que envenená-las… só imagine.

 


Paulo Andreetto de Muzio é graduado em Relações Públicas (2005) pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. Especializou-se em Jornalismo Científico (2016) pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo – Labjor, da Universidade de Campinas – Unicamp, e é mestre em Divulgação Científica e Cultural (2020), também pelo Labjor.

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