Interdisciplinaridade é possível na graduação

Publicado por Georgia Martins em

O artigo foi  publicado no periódico “Revista Brasileira de Educação Médica (RBEM)” na seção  “Relato de Experiência”. O periódico é publicado há 39 anos pela ABEM (Associação Brasileira de Educação Médica). Resumindo, o texto apresenta um estudo de caso desenvolvido no curso de Odontologia da Universidade Severino Sombra (USS) sobre a primeira experiência na adoção de ações interdisciplinares no processo de ensino-aprendizagem, os autores foram os professores e pesquisadores que desenvolveram o projeto-piloto.

Começo essa resenha chamando atenção para o ponto de partida da proposta de mudança metodológica/pedagógica e de matriz curricular, antes tradicional/cartesiana/fragmentada/isolada, para um projeto interdisciplinar, o start foi a revisão do PPP (Projeto Político Pedagógico) que o curso de odonto da USS passou em 2003. O novo PPP foi uma construção coletiva e contou com assessoria externa, um referencial importante também foram as DCNs (Diretrizes Curriculares Nacionais) para os cursos na área da saúde, outra peça chave nesse tabuleiro é o perfil do profissional que se queria formar, esse profissional não poderia mais estar desligado de um contexto social, de problemas reais. Foi nesse cenário que se reestruturou os módulos para o curso de odontologia da USS, agora em núcleos temáticos, organizados por afinidade/inter-relação entre diversos conteúdos programáticos: Pré-Clínico; Saúde e Sociedade; e Clínico. Este último não aderiu a reestruturação temática, os autores apontam resistência por parte dos docentes.

No artigo são apresentadas 3 iniciativas desse projeto: a inserção de temas transversais no processo formativo; a realização de seminários interdisciplinares para discussão de casos clínicos; e a proposição de prova única, interdisciplinar, no final do período, substituindo as de cada disciplina e uma conclusão sobre a experiência. Destaco no texto as intencionalidades por trás de cada uma dessas iniciativas, que podem ser verificadas na pág. 159 sétimo parágrafo da introdução, essa sequência traduz muito das angústias por trás dessa proposta de mudança, vale conferir.

Entende-se aqui por temas transversais o conjunto de assuntos e conteúdos de natureza social, que não se configuram como disciplinas, têm características interdisciplinares e precisam ser tratados de forma transversal na matriz curricular (BRASIL, 1998).

Partindo dessa definição entramos na primeira iniciativa: a inclusão de temas transversais e a interdisciplinaridade possível, os temas selecionados partiram da atualidade, da relevância social e da realidade na área da saúde, da mídia do interesse dos alunos, dentro de uma arca de assuntos relacionados a direitos humanos, ética, legalização do aborto, políticas públicas, desigualdades sociais etc. Para não se perder dentro do semestre foi destinado a esta iniciativa uma carga horária com encontros semanais com docentes do Núcleo Saúde e Sociedade. Os estudantes tinham material de suporte pedagógico e as dinâmicas de aprendizagem  incluíram roteiros de pesquisa, entrevistas, convidados debatedores, júri simulado, seminários e, sistematicamente, a redação de textos argumentativos sobre os assuntos.

Segunda iniciativa: seminários interdisciplinares de estudo de casos, auto-explicativo – sobre os casos foram tanto elaborados pelos docentes quanto pelos alunos e o que se percebeu é que um trabalho em conjunto (diferentes áreas trabalhando junto) chegou a resultados muito mais a contento do que profissionais especialistas trabalhando de forma isolada:

Ao envolver docentes de distintas disciplinas e de diferentes núcleos, foi possível estabelecer uma prática de ensino em que todas as etapas que envolveram o manejo do caso clínico foram partilhadas: desde a problematização da situação, a identificação dos fatores relevantes (incluindo os determinantes sociais do processo saúde-doença), a proposição de diagnóstico, até a tomada de decisão sobre as condutas técnicas e recursos terapêuticos a serem utilizados.”

Terceira iniciativa foi uma consequência apontada como natural, uma prova única interdisciplinar no final do período letivo. Formou-se um GT para  elaborar essa prova (teve assessoria externa) que durou 2 meses ao todo, e ao final foi visto como uma espécie de conselho de classe, possibilitando entre os docentes trocas de experiências e uma aproximação com os alunos de maneira individual, os “alunos” tornaram-se “indivíduos”, identificar problemas e elaborar soluções foi partilhada, a avaliação tornou-se mais completa dos estudantes e mais humanizada. Nesse trecho vale a leitura para verificar a construção dessa prova que contou com 40 questões objetivas (cuidadosamente distribuídas entre as disciplinas) e 4 dissertativas construídas coletivamente.

Todas as as iniciativas contaram com avaliações por todos os atores, inclusive a prova – os estudantes foram ouvidos sobre cada uma delas, assim como os docentes tiveram momentos para refletir sobre os objetivos de cada uma dessas atividades conjuntas e seus resultados. A relação interpessoal e o desenvolvimento de um pensamento crítico apareceu em mais de uma das avaliações das iniciativas. Conclui-se que essas ações são viáveis, mas precisam de:  

que as ações interdisciplinares podem ser praticadas no ensino superior desde que haja uma diretriz no projeto pedagógico, uma equipe docente comprometida com a inovação metodológica e gestores institucionais empenhados em efetuar mudanças.

O caso é muito interessante, por sair da revisão do PPP, por chegar a conclusões positivas sobre uma proposta interdisciplinar na graduação, que essa é uma empreitada que não é simples e depende de diversos atores e de disposição para sair da zona de conforto. Fiquei com vontade de saber mais sobre como se deu as etapas seguintes, o projeto piloto de 2004 apresentado em 2012 poderia ter trazido um pouco do pós primeiros passos.

Resenha do artigo  “Interdisciplinaridade no Ensino Superior: de Imagem-objetivo à Realidade!

REVISTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO MÉDICA, vol.36 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2012. realizada por Georgia Martins


Georgia Martins

Bacharel e Licenciada em História pela USP, Graduanda em Tecnologia em Gestão Pública pela Univesp e Profissional de Pesquisa em Educação na UNICAMP

1 comentário

Gabriela · 4 de abril de 2019 às 20:48

Muito bom 😊

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