Olavo de Carvalho fala que procurar B√≥son de Higgs √© “coisa de QI 12”

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A primeira vez que cruzei com o sr. Olavo de Carvalho foi na era pr√©-google da internet, antes de entrar na faculdade, quando frequentava sites de m√≠dia alternativa e de movimentos sociais. Na √©poca, coment√°rios no site do Centro de M√≠dia Independente deram a entender que contribuidores de outro site, o M√≠dia Sem Mascara, um site de noticias e teorias conspirat√≥rias de direita comandado pelo Sr. Olavo, estavam tentando plantar um coment√°rio no CMI amea√ßando o sr. Olavo de morte. A motiva√ß√£o seria ferir a credibilidade do CMI, por algum motivo pol√≠tico que me foge.

Essa foi a primeira vez que vi esse tipo de embate na internet, com fac√ß√Ķes bem definidas, que se odiavam e usavam de todas as t√°ticas para minar seus oponentes. Obviamente nessa √©poca eu n√£o sabia da exist√™ncia de criacionistas. Bons tempos…

De qualquer forma, de l√° para c√° o sr. Olavo parece ter capitalizado em cima da sua influencia intelectual, gerando uma esp√©cie de culto a personalidade que o tem em alta estima. Talvez o √°pice da sua popularidade foi ter atra√≠do a aten√ß√£o de artistas conservadores como Dan√≠lo Gentili e Lob√£o, que parecem o usar como fonte para suas…. err… “teorias” sociol√≥gicas. O sr. Olavo se vangloria de grandes feitos, como ter refutado cientistas como Einstein, Darwin e Newton. O Sr. Carvalho tamb√©m defende que o Sol gira em torno da Terra, que a Pepsi usa fetos para ado√ßar suas bebidas, que existem evidencias cient√≠ficas para experi√™ncia extra-corp√≥reas e que existe uma conspira√ß√£o global comunista. Ouro puro.

Em um v√≠deo postado recentemente no youtube, Olavo ataca de novo a f√≠sica moderna, comentando especificamente sobre o B√≥son de Higgs.

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=RkpdtZNiv44&”]

No v√≠deo, um de seus alunos faz uma coloca√ß√£o de que a busca pela Part√≠cula de Deus (o B√≥son de Higgs) seria um “del√≠rio cientificista”. O que ele quer dizer exatamente com isso, s√≥ deus sabe, o que n√£o parece impedir o sr. Carvalho de opinar a respeito. Segundo ele:

Veja…. Se voc√™ tentar encontrar a raz√£o da exist√™ncia da mat√©ria numa part√≠cula da mat√©ria… √© coisa de QI 12.

O que me parece que o sr. Olavo est√° querendo apontar √© que existe uma contradi√ß√£o em tentar explicar toda a exist√™ncia atrav√©s de uma part√≠cula da mat√©ria, visto que a part√≠cula seria tamb√©m material, o que implicaria que toda a mat√©ria n√£o teve sua origem explicada.

Apesar de parecer que o sr. Olavo tem um ponto aqui, existem duas quest√Ķes que precisam ser elucidadas: 1) o B√≥son de Higgs n√£o est√° procurando explicar a exist√™ncia da mat√©ria e 2) mesmo se estivesse, a detec√ß√£o do B√≥son seria apenas a corrobora√ß√£o de uma teoria, e essa sim √© que apresenta poder explicativo.

O primeiro ponto é o mais simples. O Bóson de Higgs procura explicar o porque as partículas elementares apresentam massa diferente de zero. O Bóson é parte do Modelo Padrão de física de partículas, que descreve a composição da matéria e como seus diferentes constituintes interagem.

Talvez a confus√£o do sr. Olavo e seu aluno venha do fato de que o B√≥son foi chamado de “a Part√≠cula de Deus” em um livro de autoria do f√≠sico Dr. Leon M. Lederman. Talvez por suas predisposi√ß√Ķes religiosas (o sr. Olavo √© um crist√£o convicto) somadas a uma certa quantidade de ignor√Ęncia sobre o assunto, ambos parecem assumir que se algo tem o nome de “Deus”, ent√£o ele deve explicar tudo. O problema desse racioc√≠nio √© √≥bvio, mas para piorar ainda mais, o nome de “Part√≠cula de Deus” foi uma decis√£o editorial. Segundo o Dr. Lederman:

Porque a Part√≠cula de Deus? Bom, duas raz√Ķes. Primeiro, o editor n√£o nos deixou chamar de “A Part√≠cula Maldita”, apesar desse ser um t√≠tulo mais adequado dada a sua natureza trai√ßoeira e o trabalho que ela tem causado. A segunda √© que ele [o nome] tem uma conex√£o com outro livro, um muito mais antigo…

E aqui Lederman est√° se referindo ao Genesis B√≠blico. Ent√£o, apesar da confus√£o ser compreens√≠vel, √© v√°lido notar que o que importa para a validade de uma empreitada cient√≠fica √© a validade das suas premissas te√≥ricas, e n√£o o maldito nome que associaram a ela.

Agora ao segundo ponto. Vamos assumir que existe uma hip√≥tese que explica a exist√™ncia de toda a realidade e de todas as propriedades de todas as coisas que nela residem. Agora ainda assumir que essa hip√≥tese prediz que, se ela √© verdade e se todos os processos que ela descreve aconteceram, ent√£o poder√≠amos ver um sinal disso na natureza, como na presen√ßa de uma part√≠cula elementar qualquer. Podemos colocar isso em um formato silog√≠stico simples:

  • P1- A hip√≥tese X contem modelos e processos.
  • P2- Um desses modelos prev√™ a exist√™ncia de uma part√≠cula na natureza

Agora, vamos assumir ainda que

  • P3- Tal part√≠cula existe na natureza

Isso significa que a hip√≥tese X est√° correta? Bem, n√£o. Essa quest√£o remete ao problema da indu√ß√£o em ci√™ncia, na qual n√£o existe um numero finito de observa√ß√Ķes que possa corroborar qualquer generaliza√ß√£o.

Por√©m, observar a presen√ßa de tal part√≠cula definitivamente significa que n√£o podemos dizer que ela √© falsa. Isso, em ci√™ncia, √© o suficiente para constituir uma “hip√≥tese de trabalho”, uma hip√≥tese provis√≥ria que ser√° subsequentemente testada e, se todas as tentativas de demonstra-la como sendo falsa falharem (ou se todos as observa√ß√Ķes forem consistentes com a hip√≥tese), ent√£o essa ideia pode se consolidar na ci√™ncia com um alto grau de certeza.

O ponto central disso tudo √© que, se observamos a part√≠cula, o que contem poder explicativo √© a hip√≥tese, e n√£o o fato. Fatos n√£o explicam nada, e apesar de o Olavo colocar esse ponto (de certa forma), ele parece confundir deliberadamente o que √© fato e o que √© hip√≥tese para fazer uma afirma√ß√£o verdadeira (“fatos n√£o apresentam poder explicativo”), por√©m irrelevante fora da representa√ß√£o fantasiosa de o que cientistas realmente fazem. √Č um festival de bobagem.

Ou, quem sabe, o Olavo acabou de refutar a priori o modelo padr√£o da f√≠sica de part√≠culas. Mais uma refuta√ß√£o colossal para a lista dele, eu suponho…

A Veja falou de papeis de gênero, confundiu com orientação sexual e (quase) ninguém notou

J√° deve fazer mais de um m√™s que tivemos aquele lindo editorial “Parada Gay, cabra e espinafre‚ÄĚ do¬†Jos√© Roberto Guzzo¬†na Veja sobre homossexualidade que causou tanta revolta e discuss√£o. O editorial foi desconstru√≠do de quase todas as formas poss√≠veis, sendo que a melhor, de longe, foi a produzida pelo deputado Jean Wyllys.
O que poucos notaram, entretanto, √© que na semana seguinte desse fiasco a mesma revista produziu uma mat√©ria intitulada “Educados no sexo neutro”. A mat√©ria √© t√£o repulsiva que sugiro um bom anti-√°cido antes da sua leitura (ela pode ser lida na integra aqui). Estranhamente, apesar do assunto e enfoque serem afins do da mat√©ria do Guzzo, quase ningu√©m notou sua exist√™ncia na √©poca, com¬†exce√ß√£o¬†talvez da Jaqueline Jesus, uma psicologa que escreveu um post bastante explicativo (e referenciado) sobre o assunto.
A tese central da matéria está explicada na sua chamada:

“Uma corrente pedag√≥gica defende a tese de que meninos e meninas devem ser criados de forma igual. O perigo √© confundi-los acerca de sua sexualidade”¬†

A matéria segue explicando que:

“Segundo esse ponto de vista, n√£o se deve influenciar a crian√ßa a adotar comportamentos que sempre foram vistos como t√≠picos de seu sexo.¬†A educa√ß√£o de g√™nero neutro abriga um objetivo nobre que, para ser alcan√ßado, exige pr√°ticas arriscadas. A ideia dos que advogam essa corrente pedag√≥gica √©¬†eliminar de uma vez por todas os velhos padr√Ķes que p√Ķem a mulher como dona de casa e o homem como o macho provedor, a mulher como o ser delicado que atende √†s¬†vontades¬†masculinas e cuida da prole. A liberdade de escolha para inverter os pap√©is tradicionais, para quem segue essa corrente, √© um exemplo positivo na educa√ß√£o dos filhos.”

Mas como isso pode influenciar negativamente a sexualidade das crianças não é explicado. A matéria, entretanto, dá dois exemplos. O primeiro é referente a filha do casal Angelina Jolie e Brad Pitt:

Shiloh Jolie Pitt- Uma criança que aparentemente não é
mais linda e sexualmente confusa ¬¬
“Eles dizem criar sua filha Shiloh, hoje com 6 anos, dentro das normas da educa√ß√£o de g√™nero neutro. Angelina j√° foi vista comprando roupas de¬†menino para Shiloh. Permite que a menina use gravata, sapatos masculinos e cortes de cabelo idem. A atriz costuma se desentender com a sogra, que insiste em presentear¬†a neta com roupas femininas e fantasias de princesa. O resultado √© que o lindo beb√™ que aparecia no colo de Angelina em seu primeiro ano de vida hoje surge nas¬†fotos¬†com a apar√™ncia masculinizada.”
Tirando a total repulsa que qualquer ser humano decente deveria sentir depois de ler essa frase, fica a pergunta: como esse exemplo corrobora a afirma√ß√£o de que educar crian√ßas nessa linha pedag√≥gica “confunde sua sexualidade”? A menina tem 6 anos! Que tipo de sexualidade uma crian√ßa dessa idade deveria ter? √Č isso que os jornalistas da Veja est√£o advogando agora? Sexualidade em crian√ßas pr√©-p√ļberes?
O segundo exemplo é mais repulsivo ainda:

“At√© hoje a ci√™ncia n√£o descobriu se a homossexualidade √© inata ou adquirida no meio social, mas j√° se tem certeza de que toda crian√ßa nasce com predisposi√ß√£o¬†a desenvolver caracter√≠sticas psicol√≥gicas do sexo a que pertence. A literatura m√©dica est√° repleta de casos em que os pais tentaram dar outra orienta√ß√£o sexual¬†aos filhos, com resultados lament√°veis. O caso recente mais conhecido √© o do canadense David Reimer. Em 1966, antes de completar 1 ano, Reimer teve o p√™nis extirpado¬†numa cirurgia de circuncis√£o desastrada. Seus pais cruzaram os Estados Unidos para consultar o psic√≥logo Jolin Money, na √©poca considerado uma autoridade em diferen√ßas¬†entre os g√™neros. Money aconselhou uma cirurgia de mudan√ßa de sexo, com a constru√ß√£o de uma vagina artificial seguida de um bombardeio de horm√īnios femininos. Na¬†ocasi√£o, Money tentava comprovar a teoria de que n√£o eram as caracter√≠sticas f√≠sicas que determinavam o sexo, e sim a educa√ß√£o dada pela fam√≠lia. Os pais concordaram¬†com a cirurgia e Reimer, rebatizado de Brenda, foi criado como uma menina. Logo se constatou o fracasso da empreitada. Aos 2 anos, Reimer rasgava seus vestidos¬†com¬†raiva. Recusava-se a brincar com bonecas. Mais tarde, na escola, sofria bullying por causa de seus trejeitos masculinos. Seus pais s√≥ lhe contaram sobre a cirurgia¬†de mudan√ßa de sexo aos 14 anos. Em 2004, aos 38 anos, Reimer se matou.”

Agora, o caso do David Reimer √© bastante conhecido e a mat√©ria deixa de fora detalhes bastante convenientes sobre a hist√≥ria. Primeiramente, David tinha um irm√£o g√™meo Bryan, que n√£o sofreu o mesmo infort√ļnio que ele. Apesar disso, o Dr. Money for√ßava os g√™meos a encenarem rela√ß√Ķes sexuais quando crian√ßas. David afirmou lembrar ter que ficar “de quatro”, com seu irm√£o por tr√°s dele, for√ßando sua genit√°lia contra sua bunda. Em outras ocasi√Ķes, ele tinha que ficar de barriga para cima, com as pernas abertas, enquanto seu irm√£o emulava penetra√ß√Ķes. Como se n√£o bastasse isso, Bryan desenvolveu¬†esquizofrenia e foi encontrado morto dois anos antes do suic√≠dio de David, em decorr√™ncia de uma overdose de antidepressivos. Alguem em s√£ consci√™ncia pode acreditar que isso √© um bom exemplo de uma “tese de que meninos e meninas devem ser criados de forma igual“?
David Reimer – atormentado por seu psicologo durante a vida e depois
da morte por idiotas preconceituosos.

A mat√©ria √© um festival de lugares-comuns e bobagens heteronormativas. Confundem sexualidade com papel de sexo, sugerem que respeitar a identidade de g√™nero de crian√ßas √© “for√ßar” algo sobre elas e d√£o um p√©ssimo exemplo de jornalismo. √Č uma mat√©ria constru√≠da quase que exclusivamente para vender homofobia travestida de preocupa√ß√£o parental.¬†E voc√™ pode convencer um pai de qualquer coisa, se ele acredita que o futuro do seu filho est√° em perigo.

A jornalista que escreveu essa matéria deveria se envergonhar.

Ronald Regan, montado em um velociraptor com uma sub-metralhadora.

Essa obra de arte em quest√£o chegou at√© mim atrav√©s do blog do¬†Jon Wilkins, onde ele oferece uma lista de sugest√Ķes de presentes para o seu geneticista de popula√ß√Ķes favorito (sem querer for√ßar a m√£o de ninguem, mas a camiseta com o bigode do J. B. S. Haldane n√£o est√° nada mal).

Obviamente, o republicano do cora√ß√£o de todos, montado no dinossauro mais erroneamente representado da hist√≥ria, disparando uma metralhadora n√£o tem nada a ver com gen√©tica de popula√ß√Ķes, mas quem liga?

Para quem ficou curioso (assim como eu) o artista em questão é Jason Hauser, e está no DeviantArt. O seu portfolio inclui (mas não se restringe a) pérolas como:

(clique nas imagens para ve-las em maior tamanho)

“Theodore Roselvelt contra o P√©-Grande”

“George¬†Washington, ca√ßador de zumbis”

“Benjamin Franklin Vs. Zeus”

“Thomas Jefferson contra um Gorila”
Mas, obviamente a j√≥ia mais rara dessa cole√ß√£o √© a obra intitulada “Bem Vindo √† Internet”

Feliciadas РO Show de falácias do Dr. Felício

UPDATE (18/04/2012): Postei um adendo a esse post aqui. Minha posi√ß√£o mudou de simplesmente agn√≥stico em rela√ß√£o a teoria antropog√™nica para defensor.——–——–——–——–——–——–——–——–——–——–
Eu confesso que tenho um problema gravíssimo: eu sou quase incapaz de ver alguém falar um argumento mal feito ou nitidamente errado sem responder, o que é particularmente ruim quando assisto algo, como uma entrevista. O que nos trás ao professor Ricardo Augusto Felício.

 

 
Quando fiquei sabendo da¬†entrevista¬†no J√ī Soares, soube logo de inicio que eu n√£o queria passar por essa experi√™ncia. N√£o sou climatologista, obviamente, mas a quest√£o clim√°tica me atrai, assim como diversos tipos de controv√©rsias (presumidamente) cient√≠ficas. Afinal, ou podemos dizer que o planeta est√° esquentando, ou n√£o podemos, e caso sim, ou podemos afirmar que s√£o os humanos que est√£o causando tal mudan√ßa, ou n√£o. Note que n√£o tenho a pretens√£o de¬†saber¬†que o aquecimento global √© antropog√™nico (causado por humanos). O que me interessa √© se podemos dizer que essa √© uma hip√≥tese v√°lida, frente aos dados que temos. De qualquer maneira eu j√° havia escutado sobre o Fel√≠cio e sobre o que ele fala, e resolvi¬†evitar a fadiga. 

 
De qualquer forma, me neguei a assistir a entrevista e, para minha sorte, o Roberto Takata tomou a iniciativa de¬†dissecar o discurso¬†do Fel√≠cio de forma sistem√°tica e com uma precis√£o que eu n√£o teria nem tempo, nem compet√™ncia. Infelizmente a hist√≥ria n√£o √© t√£o simples.¬†O Pirulla, com o objetivo de jogar os argumentos do Fel√≠cio sob uma melhor luz, resolveu¬†avaliar¬†uma¬†palestra¬†longa que o Fel√≠cio ministrou em Santiago, no RS, expondo mais extensivamente suas ideias. A abordagem do Pirulla no que tange as teorias conspirat√≥rias do Fel√≠cio foi mais do que adequada (e divertida), por√©m dois pontos levantaram meus radares: a men√ß√£o do Stephen Schneider e a do Michael Mann. Bom, eu sei quem s√£o esses pesquisadores e achei as coloca√ß√Ķes que o Pirulla cita um tanto estranhas. Minha inten√ß√£o original era apenas responder aos pontos levantados sobre esses indiv√≠duos, mas em nome da honestidade intelectual, resolvi ir na fonte. Ou seja, tive que assistir √† palestra do Ricardo Fel√≠cio.¬†A quantidade de abobrinhas √© assombrosa, e por isso teremos que ir por partes. 

 
Os cientistas n√£o se decidem
Logo no inicio da palestra, o Ricardo tenta construir um cen√°rio sobre como o “mito” do aquecimento global √© antigo e revisitado diversas vezes ao longo da hist√≥ria. Ele levanta dois pontos principais: o fato dos russos, em 1930 j√° estarem alardeando sobre o aquecimento global, por√©m na d√©cada de 70, aparentemente haver um consenso sobre o esfriamento da Terra. Ele obviamente esquece de dizer o porqu√™ disso estar¬†errado: 

 

 

 


Ou seja, segundo¬†informa√ß√Ķes da NASA, o consenso cient√≠fico √© de que sim, durante a d√©cada de 30 houve um aquecimento e durante a d√©cada de 70 ouve um esfriamento (em rela√ß√£o √† d√©cada de 40), e nada disso conflita com teorias atuais sobre o aquecimento global.
 
Mas não é apenas isso. O Ricardo parece querer construir a idéia de que durante a década de 70 o consenso acadêmico era de que a Terra estava esfriando, e que tal colocação era baseada em evidências anedóticas. Entretanto, ele cita apenas um artigo de jornal do New York Times como referência, o que me soa um tanto injusto. Afinal, se tal consenso existia, ele deveria existir de alguma forma na literatura acadêmica. Por sorte, esse argumento não é original. Em 2008, Peterson e colegas lançaram um estudo com o objetivo de discutir a tese de que existia um consenso científico durante a década de 70 sobre o resfriamento global. A mensagem do artigo é clara:


Um exame r√°pido da Figura 1 revela que o resfriamento global nunca foi mais do que um aspecto menor da literatura cient√≠fica desta era, muito menos um consenso acad√™mico […]


Figura 1 de Peterson e colegas, mostrando o numero de artigos publicados que  favoreciam o esfriamento (azul) ou aquecimento (vermelho) global, assim como artigos neutros sobre o assunto (amarelo). As linhas indicam curvas acumulativas de artigos, evidenciando a estagnação de artigos sobre o resfriamento global.

 


A figura de fato mostra uma clara tend√™ncia para o aumento do n√ļmero de artigos que corroboram ou defendem o aquecimento global, enquanto poucos s√£o os que defendem o resfriamento. Se olharmos o n√ļmero de cita√ß√Ķes que tais artigos recebem, tamb√©m chegamos em um padr√£o similar, com os artigos sobre o resfriamento recebendo cerca de 12% das cita√ß√Ķes, enquanto os sobre aquecimento conseguiram 73% das cita√ß√Ķes. Ou seja, n√£o apenas come√ßaram a ser produzidos mais artigos corroborando o aquecimento global, como tais artigos passaram a receber reconhecimento dentro da √°rea, um padr√£o que parece continuar at√© hoje. De fato, em 2004, Oreskes constatou que n√£o era poss√≠vel identificar uma dissid√™ncia consistente sobre o aquecimento global dentro da √°rea de climatologia. Outro trabalho em 2010, de Rosenberg e colaboradores, apontou que, dentro dos Estados Unidos, os cientistas da √°rea concordam com os achados e constata√ß√Ķes gerais do IPCC sobre o aquecimento global antropog√™nico.
 
Me parece √≥bvia a t√°tica do Fel√≠cio aqui: desestabilizar a credibilidade da comunidade cient√≠fica para poder abrir espa√ßo para sua pr√≥pria id√©ia. Essa √© uma t√©cnica bastante suja, comumente empregada por criacionistas (os paralelos s√£o diversos, como pode ser visto¬†aqui). Ela tamb√©m √© injusta pois ignora que os cientistas da √©poca eram explicitamente honestos sobre sua ignor√Ęncia com rela√ß√£o aos processos clim√°ticos. Ironicamente, um dos que lan√ßou inicialmente a id√©ia do resfriamento foi¬†Stephen Schneider, que o Fel√≠cio tanto critica. Por√©m Schneider deixa claro que sua hip√≥tese √© totalmente dependente da validade das premissas do modelo que ele prop√īs, premissas essas que ele mesmo aceitou serem falsas.
 
Esse cen√°rio mudou substancialmente em 1976, quando Hays e colaboradores lan√ßaram¬†um estudo¬†seminal que avaliava o impacto das altera√ß√Ķes no eixo de rota√ß√£o da Terra sobre o clima global. Tal estudo abriu o caminho para a integra√ß√£o de conhecimentos de diversas √°reas, culminando com um n√≠vel de entendimento sobre processos clim√°ticos bastante superior ao que se tinha no come√ßo da d√©cada.
 
Clima/Tempo
Ainda no quesito “descreditar a comunidade cient√≠fica”, Fel√≠cio evidencia que nossas capacidades computacionais para prever varia√ß√Ķes de temperatura s√£o restritas a 7 dias, e que seria rid√≠culo fazer previs√Ķes de anos para o futuro. Por√©m Fel√≠cio parece ignorar o fato de que clima √© diferente de tempo. Segundo o¬†IPCC:


Clima, num sentido restrito √© geralmente definido como ‘tempo meteorol√≥gico m√©dio’, ou mais precisamente, como a descri√ß√£o estat√≠stica de quantidades relevantes de mudan√ßas do tempo meteorol√≥gico num per√≠odo de tempo, que vai de meses a milh√Ķes de anos. O per√≠odo cl√°ssico √© de 30 anos, definido pela Organiza√ß√£o Mundial de Meteorologia (OMM). Essas quantidades s√£o geralmente varia√ß√Ķes de superf√≠cie como temperatura, precipita√ß√£o e vento. O clima num sentido mais amplo √© o estado, incluindo as descri√ß√Ķes estat√≠sticas do sistema global.

 

Ou seja: clima s√£o caracter√≠sticas meteorol√≥gicas globais em per√≠odos de tempo extenso, e n√£o o que vemos sendo noticiado no jornal das 8, que √© a previs√£o do tempo. Temperaturas di√°rias (ou mesmo anuais) s√£o sujeitas a diversas oscila√ß√Ķes locais, e s√£o influenciadas por um n√ļmero muito grande de fen√īmenos, como correntes de vento, cobertura de nuvens, etc. Por√©m o ac√ļmulo de mudan√ßas ao longo de um dado per√≠odo √© mais previs√≠vel. Isso pode ser visto na primeira figura que coloquei: apesar da m√©dia anual variar bastante, quando tomamos um per√≠odo de 5 anos, a m√©dia desses valores varia muito menos, e assim vemos padr√Ķes emergindo.¬†Essa distin√ß√£o √© essencial, e √© estranho um climatologista n√£o saber diferenciar ambos.
 
Isso n√£o significa, obviamente, que existe uma quest√£o em termos de previs√£o de mudan√ßas clim√°ticas. Os modelos que explicam a varia√ß√£o clim√°tica s√£o totalmente dependentes em como outras vari√°veis ir√£o se comportar. Ou seja, n√£o adianta prever que o clima ir√° esquentar, se as emiss√Ķes de CO2 ca√≠rem. Mas enquanto o Fel√≠cio poderia ter feito uma cr√≠tica inteiramente v√°lida sobre o assunto, ele resolveu realizar engajar em¬†espantalhos.
 
Ursos Polares sabem nadar
O Felício segue então ridicularizando o emprego dos ursos polares como ícones do derretimento das calotas polares. O raciocínio parece ser que, visto que ursos polares são capazes de nadar mais de 100km de uma só vez, isso significa que a perda do gelo não implicaria em problema algum para a espécie. Apesar de ser verdade que estes ursos são grandes nadadores, isso não os torna imunes à redução na calota polar.
 
Um¬†estudo¬†com radio-colares por Pagano e colegas acompanhou 52 f√™meas por 5 anos, sendo que 10 destas possu√≠am filhotes. Apesar de todos os indiv√≠duos, incluindo os filhotes, apresentarem grande capacidade de nata√ß√£o, das m√£es ursas, apenas 6 conseguiram manter seus filhotes ap√≥s o per√≠odo. A mortalidade dos juvenis pode muito bem n√£o estar vinculado √† atividade de nata√ß√£o, ou mesmo pode estar muito bem dentro dos limites do aceit√°vel. Por√©m,¬†um estudo¬†por Durner e colegas acompanhou uma ursa durante uma maratona de 687km de nata√ß√£o em 9 dias, e observaram que a f√™mea n√£o apenas perdeu 22% da sua massa corp√≥rea nesse per√≠odo, como tamb√©m seu filhote de 1 ano.¬†√Č importante ressaltar que Pagano aponta que talvez tais per√≠odos extensos de nata√ß√£o n√£o sejam habituais, e sim consequ√™ncias da diminui√ß√£o das calotas polares.
 
Mortalidade em adultos devido à afogamento não é desconhecida também. Um senso realizado em 2004 observou 55 registros de ursos polares em uma região costeira do Alaska, dos quais 10 foram observados em águas profundas e 4 foram observados mortos boiando em águas abertas, provavelmente em decorrência de exaustão. Importante notar que sensos realizados nos anos anteriores (1987-2003) encontraram apenas 12 ursos nadando em mar aberto, e nenhuma carcaça afogada. Tais dados sugerem que, de fato há um aumento de ursos engajando em longos períodos de natação, provavelmente em decorrência do degelo e ursos morrendo em decorrência disso.
 
Trabalhos de captura e recaptura¬†apontam que um n√ļmero reduzido de dias por ano sem gelo impacta negativamente a sobreviv√™ncia de ursos polares, diminuindo sua taxa reprodutiva e a sobreviv√™ncia dos filhotes. A perda de gelo velho (gelo que n√£o degela entre um ano e outro) tamb√©m foi¬†positivamente associada¬†com perda de ref√ļgios para ursos e, consequentemente, perda de √°reas adequadas para a cria√ß√£o dos filhotes. A manuten√ß√£o das calotas polares¬†tamb√©m pode ser associada¬†√† conserva√ß√£o de energia (minimizando a necessidade de extensas migra√ß√Ķes por nata√ß√£o) e por¬†ser o habitat¬†das suas principais presas, as focas-aneladas. Ou seja, a redu√ß√£o de cobertura de gelo pode impor maiores demandas energ√©ticas sobre os adultos, reduzir a disponibilidade de alimentos e de habitats para reprodu√ß√£o e ref√ļgio. Nada disso pode ser remediado pelo fato deles “poderem nadar muito”, como parece sugerir o Fel√≠cio.
 
Apesar dos modelos preditivos n√£o convergirem em um √ļnico diagn√≥stico (exemplos¬†aqui¬†e¬†aqui)¬†especialistas da em conserva√ß√£o de urso polar foram categ√≥ricos ao¬†concluir:


Degradação de habitat induzida por aquecimento já estão afetando negativamente os ursos polares em algumas partes de sua distribuição, e aquecimento global irrefreado vai eventualmente ameaçar ursos polares em todos os lugares.

 

O ir√īnico √© que o Fel√≠cio parece entender que a exposi√ß√£o √† √°gua pode trazer mais riscos para um urso, por√©m usa a orca como um fator de risco para os ursos, sendo que n√£o consegui achar nenhum registro de orcas consumindo ursos polares na literatura acad√™mica.
 
Ciência como subjugação
O Fel√≠cio coloca que a ci√™ncia surgiu como uma forma de subjuga√ß√£o: da natureza e dos outros indiv√≠duos. A evid√™ncia disso? As bombas at√īmicas que os Estados Unidos lan√ßaram sobre o Jap√£o.
 
Eu n√£o tenho uma cr√≠tica explicita sobre essa coloca√ß√£o, pois o absurdo de tal afirma√ß√£o me √© evidente. Mas eu imagino: se bombas at√īmicas s√£o evid√™ncia de domina√ß√£o, o¬†Processo Haber, que ajuda alimentar um ter√ßo da popula√ß√£o mundial √© evid√™ncia do que?
 
Stephen Schneider defendia que cientistas deveriam mentir
Como disse anteriormente, a men√ß√£o √† Schneider foi um dos principais est√≠mulos para ver a palestra do Fel√≠cio. Sabia que Schneider era um defensor do aquecimento global (e um dos proponentes do esfriamento global da d√©cada 70, como coloquei acima), e assumi que os ataques √† sua pessoa tinham essa motiva√ß√£o. Entretanto, muito me admirou ver que o ataque ao Schneider era sobre sua suposta defesa aberta √† engana√ß√£o do p√ļblico.
 
Achei isso intrigante por dois motivos. Primeiro porque Schneider era conhecido por advogar que os cientistas deixassem claro que o entendimento da ciência sobre um assunto não é uma prescrição moral sobre o mesmo assunto. Segundo porque só alguém realmente burro diria que cientistas devem mentir, e depois assinaria embaixo.
 
Por√©m a hist√≥ria n√£o √© t√£o simples assim. A passagem exposta pelo Fel√≠cio, no qual Schneider aparece sugerindo que os cientistas escondam suas d√ļvidas e ofere√ßam cen√°rios alarmantes vem de uma entrevista concedida √† Discovery Magazine de 1989. A cita√ß√£o do Fel√≠cio √© s√≥ um peda√ßo da passagem completa que, quando em contexto, muda bastante a interpreta√ß√£o do significado da passagem. Abaixo transcrevo a passagem completa, grifando as partes citadas pelo Fel√≠cio:
 

Por um lado, como cientistas n√≥s somos eticamente obrigados ao m√©todo cient√≠fico, efetivamente prometendo contar a verdade, toda a verdade, e nada exceto isso – o que siginifica que n√≥s devemos incluir nossas duvidas, ressalvas e “ses”, “es” e “por√©ns”. Por outro lado, n√≥s n√£o somos apenas cientistas, mas seres humanos tamb√©m, e como muitas pessoas, n√≥s gostar√≠amos de ver o mundo ser um lugar melhor, que nesse contexto se traduz em trabalhar para reduzir o risco potencial de mudan√ßas clim√°ticas desastrosas. Para atingir isso, n√≥s precisamos [os cientistas devem esticar a verdade] para conseguir algum suporte,¬†para capturar o imagin√°rio p√ļblico. Isso, claro, significa atrair grande quantidade de cobertura midi√°tica.¬†N√≥s devemos oferecer cen√°rios amedrontadores, fazer afirma√ß√Ķes simplificadas e dram√°ticas e fazer pouca men√ß√£o de qualquer d√ļvida que possamos ter.¬†A “dupla obriga√ß√£o √©tica” que n√≥s normalmente nos encontramos n√£o pode ser resolvida por qualquer f√≥rmula.¬†Cada um de n√≥s deve decidir qual √© o balan√ßo correto entre ser efetivo e ser honesto. Eu espero que isso signifique ser ambos.¬†

 

(retirado daqui)
 
Ou seja, quando Schneider estava fazendo essa colocação, ele não estava dizendo o que os cientistas deveriam fazer, mas expondo um dilema ético que me parece real, e concluindo que espera que a decisão individual dos cientistas os levem a ser eficientes E honestos. Transformar isso em um discurso de apologia a mentira é bastante baixo. Desejar que o Schneider queime no fogo do inferno por defender algo que ele não defendeu, e acusá-lo de ser apologeta de genocídio (se bem entendi o ponto) beira o delirante.
 
“A tr√≠ade”
Esse √© talvez o¬†ponto¬†mais desonesto da palestra. O Fel√≠cio tenta estabelecer que a l√≥gica por tr√°s do “ambientalismo” √© circular, pois “caos ambiental”, “aquecimento global” e “mudan√ßas clim√°ticas” seriam tr√™s coisas que se causam mutuamente e circularmente. Por√©m o Fel√≠cio deve saber que “aquecimento global” e “mudan√ßas clim√°ticas” s√£o usadas como quase sin√īnimos nos debates pol√≠ticos, e que dentro da √°rea de conhecimento que ele deveriaser expert, aquecimento global √© um tipo de mudan√ßa clim√°tica, assim como esfriamento global seria, se ele estivesse ocorrendo. Ou seja, n√£o h√° rela√ß√£o de causa-consequ√™ncia, e simplesmente se tratam de categorias de classifica√ß√£o, uma dentro da outra (n√£o diferente do fato de humanos serem mam√≠feros e vertebrados).
 
E quanto a caos ambiental? Bem, esse é causado quando as mudanças climáticas excedem a capacidade de resiliência do ecossistema. Ou seja, não há circularidade alguma. 
 
Agora, o que me espanta mais é que um pretenso cético do clima não cita a principal relação causal na teoria do aquecimento global antropogênico, a mesma que ele almeja rebater: a ação do homem! Sem a principal peça da teoria fica fácil montar um cenário aparentemente sem fundamento. O Felício obviamente sabe disso, mas escolheu distorcer a realidade de qualquer forma, tudo para montar seu cenário conspiratório.
 
A natureza est√° aqui. Mas ela n√£o existe.
A tese parece ser simples: existe o estrato geogr√°fico, que √© a camada mais externa da Terra (tirando a atmosfera, eu acredito) onde est√° toda a natureza. Por√©m “natureza” n√£o existe, pois ela √© algo inventado pelos humanos, o que √© evidenciado pelo fato de que nenhuma √°rvore se autodenominou como “√°rvore” (ou “natureza”).
 
O que o Fel√≠cio parece querer fazer aqui √© algum tipo de ponto filos√≥fico profundo, mas recai em um pequeno erro de equivoca√ß√£o ao igualar um conceito a um objeto. √Č obvio que “tijolo” √© um conceito, um nome inventado por um humano. Mas √© igualmente √≥bvio que tal nome tem o objetivo de fazer refer√™ncia a um objeto que existe, no caso, um tijolo.
 
Parece obvio, mas o discurso do Fel√≠cio n√£o parece deixar nenhuma outra interpreta√ß√£o que n√£o a de que ele n√£o sabe essa distin√ß√£o. O conceito “natureza” faz referencia a um objeto que n√≥s chamamos convenientemente de “natureza”, tal objeto que, at√© onde podemos averiguar, existe tanto quanto qualquer outra coisa que n√£o s√£o nossas mentes individuais.¬†E se a coloca√ß√£o de que “X √© uma concep√ß√£o da mente humana, logo n√£o existe” fosse v√°lida, logo n√£o podemos afirmar que nada de fato existe (ou talvez quase nada, exceto nossa mente). Como tal tipo de elocubra√ß√£o solipsista se encaixa em uma discuss√£o sobre clima me foge completamente.
 
Agora, o mais espantoso √© que tal mumbo-jumbo filos√≥fico √© apenas usado para chegar √† id√©ia de que o homem, atrav√©s desse processo de conceitualizar coisas, dividiu o mundo em na√ß√Ķes e que da√≠ decorre o fato de que algumas dessas na√ß√Ķes s√£o exploradas, o que se encaixa na teoria conspirat√≥ria que ele desenvolveu e o Pirulla j√° abordou.¬†
 
Eu não estou evidenciando esse ponto levianamente. Isso ilustra o caráter delirante do discurso do Ricardo Felício. 
 
O IPCC confessa que não existe relação entre CO2 e temperatura
O Fel√≠cio coloca as seguintes cita√ß√Ķes do¬†4o relat√≥rio¬†do IPCC:
 

As varia√ß√Ķes do di√≥xido de carbono ao longo dos √ļltimos 420 mil anos¬†seguiram¬†amplamente a temperatura ant√°rtica tipicamente de v√°rios s√©culos a um mil√™nio.

 

e


Concluindo, a explica√ß√£o para as varia√ß√Ķes glaciais e interglaciais de CO2¬†permanece¬†como um dif√≠cil problema de atribui√ß√£o

 
Essas cita√ß√Ķes, segundo o Fel√≠cio, indicam duas coisas: 1) o aumento da temperatura antecede a eleva√ß√£o do CO2 e 2) n√£o sabemos o que causa essa eleva√ß√£o no CO2durante esse per√≠odo. Sendo assim, e isso j√° seria o motivo o suficiente para o c√©tico declarar vit√≥ria pois, afinal, o pr√≥prio “inimigo” (nas palavras do Fel√≠cio) j√° confessou que n√£o existe liga√ß√£o entre CO2atmosf√©rico e aumento da temperatura.
 
Porém é importante notar que tal conclusão se baseia em uma premissa: visto que tais estimativas de temperatura foram feitas a partir de amostras de gelo obtidas na região Antártica, tal temperatura estimada não pode ser apenas uma estimativa local de temperatura, mas sim representativa de todo o mundo.
 
Se esse n√£o for o caso, ent√£o podemos explicar tais fen√īmenos dentro dos modelos atuais: uma eleva√ß√£o de CO2 em outra regi√£o (digamos, hemisf√©rio norte) poderia causar um aquecimento dos mares, potencialmente em escala mundial. Tal aquecimento diminuiria a solubilidade do CO2, levando a libera√ß√£o de mais CO2 no ar, o que explicaria o aumento (local) de temperatura antecedendo o aumento (local) de CO2.
 
Isso implicaria que fen√īmenos ocorridos nos oceanos ou mesmo no hemisf√©rio norte fossem determinantes para explicar a inicial estabilidade do CO2 na regi√£o Ant√°rtica. Isso √© sugerido no relat√≥rio do IPCC e amplamente referenciado, por√©m imagino que c√©ticos vejam isso como mera especula√ß√£o n√£o substanciada por evid√™ncias. Afinal, n√£o h√° evidencias corroborando esse modelo, correto?
 

Bem… sim, h√°. Para resolver o problema amostral,¬†Shakun e colaboradores, em 2012,¬†utilizaram outras fontes de dados mais recentes, como amostras de gelo da Groenl√Ęndia, sedimentos marinhos, de lagos continentais e etc. Apesar dessa amostra n√£o abranger um per√≠odo t√£o extenso quanto as amostras de gelo ant√°rtico (apenas 18 mil anos), elas s√£o consideravelmente melhores distribu√≠das ao longo do mundo:

Figura 1 de Shakun et al. a) Localização das amostras. b) Distribuição dos registros em relação a latitude.

 

A partir dessas amostras, Shakun e colegas puderam reconstruir as tend√™ncias clim√°ticas do per√≠odo e avaliar a defasagem (ou “lag”) entre o aumento de CO2 e o aumento de temperatura. Os resultados mostram que, enquanto no hemisf√©rio sul a temperatura precede o aumento do CO2 atmosf√©rico, no hemisf√©rio norte, √© o CO2 que precede o aumento de temperatura, corroborando a hip√≥tese pr√©via de que as amostras ant√°rticas (que est√£o no hemisf√©rio sul) s√£o enviesadas. Adicionalmente, estimativas globais de temperatura s√£o consistentes com o aumento do CO2 precedendo o aumento de temperatura, como evidenciado na figura abaixo:
 

Figura 2 de Shakun et al.¬†a-¬†Estimativas de temperatura ao longo dos √ļltimos 22 mil anos atrav√©s das amostras ant√°rticas apenas (vermelho) e baseadas nas amostras de Shakun et al (azul). Pontos amarelos indicam estimativas de CO2 atmosf√©ricos.¬†b- “Lag” entre temperatura e CO2 em anos. Barras vermelhas indicam amostras do hemisf√©rio sul (incluindo Ant√°rtica), barras azuis indicam amostras no hemisf√©rio norte e barras cinzas s√£o estimativas globais. Barras √† esquerda da linha pontilhada indicam amostras nas quais o aumento de temperatura precede o aumento de CO2 e barras √† direita indicam amostras nas quais o aumento de CO2 precede o aumento de temperatura.

 


Interessante notar que, ap√≥s a inclus√£o de novos dados, se torna evidente que o aumento no CO2 atmosf√©rico precede o aumento da temperatura. As conclus√Ķes dessa pesquisa n√£o s√£o nada diferente do que j√° se propunha:
 
  • Ciclos de movimentos orbitais desencadeavam o aquecimento inicial, que foi inicialmente registrado em latitudes mais elevadas.

 

  • Aquecimento do √Ārtico derreteu grandes quantidades de gelo, causando um influxo de √°gua doce nos oceanos.

 

 

  • Essa invas√£o alterou os padr√Ķes de correntes oce√Ęnicas, causando uma oscila√ß√£o de temperatura entre os hemisf√©rios, com o hemisf√©rio sul aquecendo primeiro.

 

 

  • Esse aquecimento liberou CO2 atmosf√©rico que, por sua vez, causou mais aumento de temperatura atrav√©s do efeito estufa.

 

Essas hipóteses estavam no relatório do IPCC, mesmo que de forma sugestiva. Ou seja, apesar de desatualizado, o relatório do IPCC não apenas apontou o caminho certo quanto às teorias que poderiam levar a esses registros antárticos, como foi honesto o suficiente para não afirmar categoricamente o que não poderia afirmar.
 
 
A emissão de CO2 antropogênica é insignificante frente às fontes naturais, como oceanos
E de fato √©.¬† Se juntarmos as emiss√Ķes dos oceanos e dos continentes (incluindo florestas), a contribui√ß√£o dos seres humanos √© abaixo de 5% do total. Bastante impressionante, mas totalmente irrelevante.
Tanto oceanos quanto continentes (incluindo processos geol√≥gicos) t√™m capacidade de n√£o apenas emitir CO2, mas tamb√©m de fixar, sendo que o processo mais famoso e √ļtil de fixa√ß√£o de carbono √© a fotoss√≠ntese. Quando levamos em conta processos naturais de fixa√ß√£o de carbono, vemos que eles s√£o capazes de absorver mais da metade do carbono emitido por humanos.¬†

Modificada¬†da Figura 7.3 do 4o¬†relat√≥rio do IPCC representando o ciclo global de carbono. N√ļmeros est√£o em giga-toneladas

 


O resto? Bem, o resto acumula na atmosfera. Conveniente deixar isso de fora, n√£o?
 
O IPCC tem apenas 200 cientistas
Segundo uma nota oficial do IPCC, o 4o (e mais recente) relatório do IPCC contou com a contribuição de mais de 2500 revisores científicos especialistas, mais de 800 autores colaboradores e mais de 450 autores principais. No ramo acadêmico, normalmente escreve e revê quem entende do assunto, ou seja, cientistas.
Agora, a relev√Ęncia disso me escapa. A autoridade do IPCC n√£o vem dos autores que escrevem o texto, mas da ci√™ncia na qual ele se baseia.
 
Os cientistas dissidentes formaram o NIPCC
Honestamente eu nunca havia ouvido falar desse NIPCC, e n√£o sei quantos cientistas fazem parte dele, n√£o que isso importe, como coloquei acima. Mas uma busca r√°pida revelou que eles s√£o filiados ao, e talvez financiados pelo, Heartland Institute, um ‚Äúthink-tank‚Äú financiado por organiza√ß√Ķes da direita conservadora norte-americana, empresas de petr√≥leo e combust√≠vel, assim como empresas farmac√™uticas e de cigarro. O Heartland foi um dos respons√°veis pelo lobby pr√≥-tabaco nos EUA durante a d√©cada de 90, se n√£o me engano.
 
De qualquer forma, eu n√£o vou ter tempo de ler o relat√≥rio do NIPCC, mas li algumas revis√Ķes dele aquie aqui. Os argumentos no relat√≥rio parecem se resumir a basicamente uma ‚Äúf√© muito forte e n√£o fundamentada nas retro-alimenta√ß√Ķes negativas da natureza [no clima] que s√£o muitas vezes hipot√©ticas e com evid√™ncias poucas, contradit√≥rias ou ausentes de que tais processos est√£o atuando em uma escala global de forma significativa‚Äú (do primeiro link).
 
Agora, isso é estranho. Se tais céticos depositam sua fé em processos que revertam o processo de aquecimento, qual é a contradição? Afinal, ambos podem ser verdade: tanto o aquecimento antropogênico quanto a capacidade da natureza se autorregular e resolver tudo. Me parece que tais céticos, ao contrário do Felício, não duvidam do aquecimento, e talvez possam aceitar até mesmo o aquecimento antropogênico.
 
N√£o h√° aumento de perturba√ß√Ķes atmosf√©ricas
O Fel√≠cio diz que n√£o h√° um aumento do n√ļmero de ocorr√™ncias de furac√Ķes no Brasil em decorr√™ncia do aumento do clima, e que o aumento no n√ļmero desse tipo de fen√īmeno pode ser creditado principalmente ao aumento do esfor√ßo humano em registrar esses eventos.
 
Enquanto isso tecnicamente √© verdade, ou pelo menos √© muito dif√≠cil verificar se de fato n√£o h√° um aumento do n√ļmero de ocorr√™ncias em compara√ß√£o com as d√©cadas passadas, o Fel√≠cio parece sugerir que n√£o h√° uma influ√™ncia do aumento em temperatura nesse tipo de fen√īmeno. Entretanto, se h√° um aumento de temperatura, h√° mais energia no sistema, e essa energia precisa ir para algum lugar. Inclusive, o Fel√≠cio comenta sobre isso, dizendo que o excesso de energia √© direcionado para a din√Ęmica de fluidos, e √© dispersado no sistema. Por√©m quando temos mais energia, essa dispers√£o ocorre de formas mais… bem, energ√©ticas. Mas como verificar isso, sendo que n√£o podemos diagnosticar se houve um aumento no n√ļmero de furac√Ķes?
 
Uma solução é observar a intensidade e velocidade dos ventos pois podem ser avaliadas para cada evento individualmente. Foi exatamente isso que Emanuel fez em 2005, correlacionando a temperatura dos oceanos com o poder de dissipação do furacão (PDI, uma medida de poder destrutivo), onde podemos ver um forte aumento do PDI desde a década de 70:
 
 
Figura 2 de Emanuel (2005) mostrando a curva suavizada do √ćndice do Poder de Dissipa√ß√£o (linha tracejada) e temperatura da superf√≠cie do mar do tropical Atl√Ęntico (linha s√≥lida).
 
 

Adicionalmente, Elsner (2008) com o uso de sat√©lites, estimou a velocidade dos ventos ao longo do tempo e observou que h√° uma tend√™ncia de aumento da velocidade dos ventos em furac√Ķes mais fortes, enquanto a mesma tend√™ncia n√£o pode ser vista nos fura√ß√Ķes mais fracos:
Figura 3 de Elsner (2008) mostrando um plot dos quantis (que podem ser interpretados como a for√ßa dos furac√Ķes) contra uma tend√™ncia de aumento de velocidade por ano. Linha vermelha √© a tend√™ncia geral de aumento (que √© diferente de zero) e o pol√≠gono cinza √© o intervalo de confian√ßa da estimativa do aumento de velocidade. Enquanto furac√Ķes mais fracos n√£o aumentam uma tend√™ncia significativa, furac√Ķes mais fortes apresentam.
 

 

Ent√£o o ponto √© simples: mesmo que n√£o haja um aumento do n√ļmero de furac√Ķes, eles est√£o ganhando intensidade.

 

 
John Christy é contra o alardeamento catastrófico das mudanças climáticas
E de fato é. Mas é importante notar que ele também disse que:


‚ÄúEu sei que a maioria (mas n√£o todos) os meus colegas do IPCC se contorcem quando digo isso, mas eu n√£o vejo nenhuma cat√°strofe se desenvolvendo ou a arma fumegante provando que a atividade humana deve ser culpada pelo aquecimento que observamos‚ÄĚ

 

Grifo meu. Ou seja, Christy nega (ou aparentemente negou j√°) que o aquecimento √© antropog√™nico e at√© que ele √© alarmante. Mas n√£o nega a exist√™ncia do aquecimento. Acho importante apontar isso, pois quase todos os cientistas que o Fel√≠cio cita como sendo c√©ticos (assim como o caso do NIPCC) n√£o negam o aquecimento. Ou seja, apesar de parecer que o Fel√≠cio est√° se baseando em algum tipo de literatura, ele est√° escolhendo suas informa√ß√Ķes com muito cuidado.
 
Na prática, ninguém parece concordar com ele.
 
As esta√ß√Ķes de medi√ß√£o est√£o mal colocadas
O argumento do Fel√≠cio aqui √© tomado diretamente da cr√≠tica do Anthony Watts, um meteorologista c√©tico que tomou como miss√£o demonstrar que as esta√ß√Ķes meteorol√≥gicas dos EUA est√£o colocadas pr√≥ximas a √°reas fortemente antropizadas, por exemplo, perto de churrasqueiras, em telhados de concreto, etc.
 
Isso pode muito bem ser verdade, por√©m nem todas as estimativas de temperatura v√™m de esta√ß√Ķes clim√°ticas. De qualquer forma, existem distin√ß√Ķes entre esta√ß√Ķes colocadas em centros urbanos e as colocadas em √°reas rurais:
 
Figura 5 de¬†Hansen e colaboradores¬†(2001) mostrando dados obtidos das redes de esta√ß√Ķes ‚Äún√£o acesas‚ÄĚ ou rurais, esta√ß√Ķes peri-urbanas e esta√ß√Ķes urbanas.

 

√Č interessante notar que esse trabalho mostra a converg√™ncia desses padr√Ķes com os obtidos por sat√©lite, por exemplo. Ou seja, mesmo com esta√ß√Ķes mal colocadas, esses dados s√£o consistentes com outras fontes de dados. A cr√≠tica de Watts trata-se basicamente em focar nas esta√ß√Ķes mal colocadas, ignorando todo o resto.¬† √Č v√°lido lembrar que esses dados n√£o s√£o mais a √ļnica evid√™ncia de aquecimento, ainda mais porque essa rede, que o Watts critica, √© apenas dos EUA.

 

 

A temperatura da Idade Média foi mais alta
A figura que o Felício usa para ilustrar esse ponto vem do primeiro relatório do IPCC, e se olharmos direito, podemos observar que ela não tem escala no eixo y:

 


Ou seja, não há como saber o quanto a temperatura durante esse período foi mais elevada. Então, de onde o Felício tirou que essa temperatura é de dois graus mais elevada que a atual? O MESMO relatório diz:

“O período desde o fim da ultima glaciação tem sido caracterizada por pequenas mudanças na temperatura média global com uma amplitude de menos de 2oC“

Grifo meu. Outras fontes apontam que tal amplitude seria de aproximadamente 1oC. Porém isso pouco importa. Estimativas mais recentes não apontam para temperaturas mais elevadas durante a Idade Média:
 
Reconstru√ß√Ķes¬†¬†paleoclim√°ticas de¬†Moberg e colaboradores,¬†Mann e colaboradores¬†e¬†Ljunqvist.

 

Notem que a diferen√ßa entre o per√≠odo medieval indicado e o atual √© de quase 0.5 oC. Mann ainda coloca que aparentemente as temperaturas mais altas da Idade M√©dia estavam restritas principalmente ao norte do atl√Ęntico.

 

 
√Č interessante notar que as reconstru√ß√Ķes paleoclim√°ticas compiladas no IPCC s√≥ s√£o v√°lidas quando corroboram a hip√≥tese dos c√©ticos.
 
O Taco de Hockey foi desmascarado
Para quem não sabe, o chamado taco de Hockey são os gráficos que mostram uma estabilidade grande ao longo do tempo de variáveis climáticas e uma recente elevação.  O gráfico que o Felício mostra é uma reconstrução do original, proposto por Mann, Bradley e Hughes:
 
Modelo de varia√ß√£o clim√°tica durante o um mil√©nio para o Hemisf√©rio Norte. Linhas vermelhas s√£o medi√ß√Ķes instrumentais, linhas azuis s√£o reconstru√ß√Ķes paleoclim√°ticas baseadas em an√©is de crescimento de √°rvores, amostras de gelo, corais e registros hist√≥ricos. Linha escura indica a tend√™ncia m√©dia suavizada.

O Felício segue dizendo algumas coisas bastante curiosas. Inicialmente ele diz que Mann e colaboradores utilizaram apenas três árvores. Isso é evidentemente falso, como mostra uma inspeção do material suplementar do artigo, onde temos árvores de pelo menos 4 continentes sendo usadas.
 
Fel√≠cio diz ainda que nos dados que McIntyre e McKitrick obtiveram de Mann para tentar reconstruir os resultados originais, havia uma pasta nomeada ‚Äúcensurado‚Äú, onde estaria o algoritmo de reconstru√ß√£o mostrando que os dados que ‚Äúabaixam‚Äú a temperatura estariam sendo censurados durante a an√°lise. Por√©m as coisas n√£o s√£o assim. Tais dados ‚Äúcensurados‚ÄĚ foram bases de dados exclu√≠das durante uma an√°lise de sensitividade, que tem o objetivo de avaliar quais dados s√£o inconsistentes ou pouco confi√°veis. Durante tal an√°lise, Mann e colegas verificaram que um dos conjuntos de dados dendrocronol√≥gico que parecia confi√°vel, na verdade divergia do restante dos dados, indicando uma temperatura inferior durante o per√≠odo de 1800-1900.¬† Tal aparente decl√≠nio de temperatura (que n√£o batia com nenhuma outra fonte de dados) era provavelmente um efeito secund√°rio do pr√≥prio CO2 atmosf√©rico. De qualquer forma, n√£o foi essa a cr√≠tica feita por McIntyre e McKitrick (que n√£o s√£o nem climatologistas, nem matem√°ticos, como clama o Fel√≠cio, mas um trabalha em ind√ļstria de minera√ß√£o e o outro √© economista, respectivamente). Ambos criticaram principalmente a metodologia estat√≠stica empregada por Mann e colegas, que responderam em detalhes √† essas acusa√ß√Ķes, demonstrando que tais criticas n√£o eram v√°lidas e n√£o alteravam seus resultados.
 
Em outras palavras, o Hockey Stick n√£o foi desmascarado, muito pelo contr√°rio. Acima mostrei 3 paleo-reconstru√ß√Ķes que s√£o basicamente iguais ao Taco de Hockey original. Adicionalmente, nesse ano tivemos um resultado similar para o n√≠vel do mar, que tamb√©m parece apresentar uma eleva√ß√£o abrupta em per√≠odos mais recentes (ver abaixo).
 
√Č importante deixar evidente que, sim, existem problemas com o modelo original, que √© de 1998, e muitos deles foram corrigidos em artigos subsequentes (a reconstru√ß√£o acima de Mann √© de 2008, quase 10 anos depois). Para uma revis√£o das controv√©rsias em torno do modelo, veja as referencias aqui.
 
O n√≠vel do mar n√£o mudou nos √ļltimos 150 anos
O Fel√≠cio coloca, categoricamente, que o n√≠vel do mar n√£o se modificou nos √ļltimos 150 anos, e que basicamente todas as varia√ß√Ķes de n√≠vel do mar que vemos s√£o varia√ß√Ķes de mar√©s e ciclos lunares mais extensos. Por√©m isso n√£o √© verdade. Um estudo recente por Kemp e colaboradoresusou sedimentos de p√Ęntanos salinos que s√£o comumente inundados por mar√©s. O estudo mostrou que o n√≠vel do mar permaneceu est√°vel por mais quase um mil√™nio, sofrendo dois surtos de eleva√ß√£o, um gradual, antes de 1000 AD e outro mais recentemente, no s√©culo XX.
Tend√™ncia anual m√©dia do n√≠vel do mar para os √ļltimos 2100 anos. Linha azul mostra as reconstru√ß√Ķes de Kemp, a linha verde s√£o medidas de mar√©grafos e a linha vermelha √© um modelo que correlaciona temperatura com n√≠vel do mar.

√Č interessante notar que, segundo o modelo vermelho, o n√≠vel do mar deveria ser mais baixo do que mostram os dados. Por√©m o erro das estimativas de temperatura aumentam com o tempo (ou seja, temperaturas mais antigas s√£o mais dif√≠ceis de reconstruir). Ajustando-se a temperatura em poucos d√©cimos (0.2) j√° remove a discrep√Ęncia dos modelos, sugerindo que talvez as temperaturas passadas sejam mais altas que a usada nesse modelo em particular.
           
Conclus√Ķes gerais
Com havia dito inicialmente, n√£o gosto do Ricardo Fel√≠cio. E n√£o √© por discordar dele por quest√Ķes cient√≠ficas. Eu discordei de quase todos os meus orientadores em algum ponto e eles provavelmente discordaram em muitas coisas que eu disse. Em momento algum, at√© onde sei, isso gerou qualquer tipo de inimizade. Meu problema com o Fel√≠cio √© sua apelo recorrente √† fal√°cias, seu uso de informa√ß√Ķes falhas e¬† distor√ß√£o sistem√°tica de pesquisas, cita√ß√Ķes e informa√ß√Ķes.
 
Eu posso estar sendo pouco generoso com ele. Como ressaltei em algumas passagens, acho que existem pontos v√°lidos a serem ditos em v√°rios dos assuntos levantados por ele. Infelizmente, ele baseou fortemente seus argumentos em racioc√≠nio falho e pesquisa mal feita, o que impossibilita interpretar o discurso dele como ‚Äúsimplificado‚ÄĚ, mas sim simplesmente errado.
 
Agradeço o Pirulla pela paciência na correção do texto, porém todos os erros e equivocos no texto são de responsabilidade minha. Se alguém achar que alguma crítica minha não está bem justificada, ou que está simplesmente errada, por favor, avise. Tentarei reavaliar minha posição sempre que possível (e deixar isso claro no texto). Minha área não é climatologia e o Ricardo Felício é presumidamente especialista na área. Estatisticamente eu diria que as chances estão contra mim. 
 
Ah, claro… estimei que o Fel√≠cio ganha um 0,2 na escala Crivella (lembrando que 1 Crivella = 5 erros/minuto). √Č uma estimativa grosseira, claro, pois o Fel√≠cio se repete muito. Eu diria que talvez esse valor possa ser t√£o baixo quanto 0,05 Crivella, levando em conta o fato de eu poder estar errado em algumas quest√Ķes e de eu n√£o ter prestado aten√ß√£o em tudo. Se algu√©m tiver outra estimativa, esteja mais que bem-vindo a dividir com o resto de n√≥s.

Dinossauros inteligentes. Do Espaço!!!

Esses dias estive ajudando um colega com seu projeto de doutorado em paleontologia sobre dinossauros, um assunto sempre fascinante. Obviamente eu estou apenas dando meu parecer nos aspectos metodol√≥gicos, mas √© sempre interessante entender um pouco mais sobre os organismos em quest√£o. De qualquer forma, durante minhas pesquisas eu me deparei com um artigo de divulga√ß√£o intitulado “Poderiam dinossauros mais avan√ßados dominar outros planetas?”, no ScienceDaily. Aqui est√° uma amostra do que √© dito na mat√©ria:



Novas descobertas cient√≠ficas levantam a possibilidade que vers√Ķes avan√ßadas do T. rex e outros dinossauros – criaturas monstruosas com a intelig√™ncia e sagacidade de humanos – podem ser as formas de vida que evolu√≠ram em outros planetas no universo.



Coloca√ß√Ķes bastante ousadas, mas de especula√ß√Ķes rasas a internet est√° cheia. Para minha (n√£o t√£o grande) surpresa, o site indica um artigo da¬†Revista da Sociedade Americana de Qu√≠mica como fonte da informa√ß√£o sobre os supostos dinossauros alien√≠genas. Obviamente assumi que era mais uma deturpa√ß√£o de alguma pesquisa por parte dos jornalistas. E de fato, a materia sugere que o conte√ļdo do trabalho √© sobre quiralidade de amino√°cidos, um t√≥pico intrigante, sem sombra de duvida, com impactos muito importantes nas teorias de origem da vida na terra. Nada similar √† dinossauros alien√≠genas inteligentes, obviamente.

Mas o que diz exatamente o artigo?

Atualmente não é surpreendente que L-aminoácidos e D-carboidratos são produzidos em sistemas biológicos, visto que enzimas que os produzem são elas mesmas homoquirais (não uma mistura com sua imagem espelhada). Na Terra pré-biótica, não existiam tais catalizadores quiralmente seletivos para fazer o primeiro aminoacido ou açucares ou nucleosídeos, então muitos cientistas tem especulado que essa seletividade poderia ter surgido em um mundo previamente aquiral.

O autor segue argumentando sobre como a influencia de luz polarizada de ondas curtas poderia ter destru√≠do um tipo de¬†enanti√īmeros, privilegiando os compostos que constituem a vida na terra. Aparentemente, tal processo apenas poderia ter ocorrido no espa√ßo e n√£o na atmosfera terrestre, e a partir disso o autor sugere que tais compostos foram gerados em meteoros que posteriormente foram lan√ßados √† Terra.


Estranhamente o autor se refere √† “n√≥s”¬†repetidas vezes¬†durante o artigo, ora falando sobre a comunidade cient√≠fica, ora falando sobre quem escreveu o artigo. Isso √© deveras estranho, ainda mais levando em conta que que o artigo tem apenas um autor. Fora isso o texto √© bastante confuso e mal escrito.¬†Mas… e os dinossauros?¬†

Uma implica√ß√£o desse trabalho √© que em outros lugares do universo podem existir formas de vida baseadas em D-aminoacidos e L-carboidratos, dependendo de que tipo quiralidade da luz polarizada circular no setor do universo ou de qualquer outro processo operando em favor de L-alfa-metil aminoacidos nos meteoritos que pousaram na Terra. Essas formas de vida poderiam muito bem ser vers√Ķes avan√ßadas de dinossauros, se mam√≠feros n√£o tivessem a boa sorte dos dinossauros terem sido erradicados por uma colis√£o asteroidal. √Č melhor que n√£o encontremos eles.

Err… o que?


Porque eles seriam dinossauros? Visto que n√£o sabemos nada de como vida extraterrestre √© (sequer sabemos se ela existe), eu n√£o arriscaria dizer que ela seria composta por r√©pteis arcossauros de 4 membros, com um esqueleto, um cr√Ęnio, uma mand√≠bula e ovos amni√≥ticos. Muito menos¬†r√©pteis arcossauros de 4 membros, com um esqueleto, um cr√Ęnio, uma mand√≠bula e ovos¬†amni√≥ticos¬†com inteligencia quase-humana!¬†Ser√° que o autor desse artigo sequer contempla a improbabilidade disso existir at√© mesmo na Terra? Afinal, das bilhares de formas de vidas que existem e j√° existiram, a grande maioria √© composta de organismos procariotos unicelulares. Se voc√™ vai chutar que ETs se parecem com qualquer coisa, eu come√ßaria por ali.


Eu s√≥ posso especular sobre a linha de racioc√≠nio que leva uma pessoa a escrever isso, mas imagino que o autor caiu presa da no√ß√£o errada de que evolu√ß√£o segue uma tend√™ncia hist√≥rica pr√©-determinada e “progressiva”, na qual o resultado final √©, necessariamente, um ser antropom√≥rfico e inteligente. O fato de um meteoro ter dizimado os dinossauros seria, ent√£o, um feliz acidente que impediu os dinossauros de se tornarem tais seres, dando espa√ßo a n√≥s. Outros planetas estariam cheios de reptilianos inteligentes…


Claro, isso tudo é ficção cientifica e não ciência, o que me faz perguntar: como isso passou pelo processo de revisão por pares da Revista da Sociedade Americana de Química? Um leigo bem informado seria capaz de identificar que essa passagem (o ultimo paragrafo do artigo!) não passa de especulação barata e que não serve proposito outro além de tornar o artigo como um todo suspeito e o processo editorial da revista uma piada. Me pergunto que tipo de revisor acadêmico falharia em notar isso.

Referência

Breslow. Evidence for the Likely Origin of Homochirality in Amino Acids, Sugars, and Nucleosides on Prebiotic Earth, Journal of the American Chemical Society.


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27, Abril, 2012- Parece que o artigo foi removido do ar em devido a suspeitas de quebra de diretos autorais. Whatever dude… whatever…


04, Maio, 2012- Notei que a figura original que havia colocado sumiu do post. Para minha surpresa notei que o Science Daily também tirou a notícia do ar.

Criacionismo no Research Gate?

Eu gosto de bate-bocas online tanto quanto o próximo detentor de banda-larga com tempo demais nas mãos, mas acredito que haja lugar e tempo para tudo.

Não é que hoje, para minha surpresa, ao abrir minha conta no ResearchGate me deparo com os seguintes posts


*
Quais s√£o as ‘provas’ da Evolu√ß√£o??
Bem, eu gostaria de explana√ß√Ķes formais, e n√£o coment√°rios desconexos..

Porque a teoria da evolução é científica?
Usando a premissa da logica indutiva:

Se a probabilidade matemática sobre uma teoria é alta, ela é científica. Se é pequena ou tende a zero, ela não é.
*

Essas pessoas só podem estar de brincadeira.

Confesso que estou bastante decepcionado com o ResearchGate. Meu objetivo ao entrar nesta rede era, talvez, tentar participar de debates mais acadêmicos e fazer contatos profissionais. Porém o site sofre do mesmo problema que o Academia.edu: falta gente. (clique aqui para ver uma exposição mais completa sobre a rede social).

E agora isso. Eu esperava que o ResearchGate estivesse livre de criacionistas, ou que talvez os tivesse em extrema raridade.¬†Eu posso estar completamente equivocado no meu julgamento, apesar de eu achar bastante improv√°vel. √Č por esse motivo que s√≥ estou emitindo um alerta de DEFCON 4.

Visto que essas quest√Ķes foram postadas em t√≥picos com um n√ļmero relativamente razo√°vel de seguidores,¬†talvez fosse s√°bio da minha parte simplesmente deixar passar. Mas n√≥s sabemos que isso n√£o vai acontecer.¬†Eu j√° postei respostas (bastante explorat√≥rias e n√£o-confrontadoras, eu prometo) e convido quem participa da rede √† fazer o mesmo aqui e aqui, respectivamente.