Em 2027, o acidente radiológico de Goiânia fará 40 anos. Em homenagem aos profissionais que atuaram na crise e às vítimas, a Netflix lançou uma minissérie contando um pouco da vivência das pessoas do local, além de medidas tomadas ao longo do tempo.
No texto de hoje, vamos falar sobre esse momento da história do país.
“Um deles [paciente] internado fazia correlação com uma peça que estava depositada sobre uma cadeira na vigilância sanitária e que essa peça era um cilindro envolto dentro de um saco e que era o que ‘tava causando intoxicação nas pessoas.” – Walter Mendes Ferreira, primeiro profissional a identificar o Césio radioativo em 1987, em Goiânia. (Se não nós, quem?, Episódio 1)
Piloto
A história, tanto na ficção quanto na realidade, começa com o abandono indevido de um material de radioterapia em Goiânia, no terreno onde ficava o Instituto Goiano de Radioterapia. Esse aparelho foi aberto, espalhando o pó de Césio no ambiente. Após a primeira contaminação, o pó foi compartilhado com outras famílias, causando a contaminação de cada vez mais pessoas.
O pó, à primeira vista, apenas branco e fino, não parece ter nada de especial. Porém, ele chamava atenção ao ser visto no escuro, emitindo uma luz azul forte.

Cena de Emergência Radioativa, série que reconta a tragédia com césio-137 em Goiânia
Após a primeira identificação de que se tratava de um material radioativo, funcionários da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e médicos do hospital trabalharam intensamente no tratamento de vítimas e na contenção da disseminação da radiação.
Infelizmente, além das centenas de vítimas, o acidente causou quatro mortes diretamente da radiação: Israel Batista dos Santos, Admilson Alves de Souza (que removeram o chumbo que continha o Césio), Maria Gabriela Ferreira (a pessoa responsável por levar o material à vigilância sanitária e tentar impedir maiores contaminações) e Leide das Neves Ferreira (uma criança de 6 anos que faleceu por ter brincado e ingerido pó).
Os rejeitos somam 6 toneladas de materiais radioativos e as vítimas sobreviventes ainda são monitoradas.

Ferro-velho em Goiânia de onde o césio-137 se espalhou
Bastidores
Atualmente, caso um acidente como o de Goiânia ocorresse, a instituição responsável seria a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), órgão regulador independente responsável pela regulação e fiscalização da segurança nuclear e radiológica no Brasil, criado em 29 de agosto de 2025.
Quando a produção da série iniciou os contatos para a consultoria técnica, no início de 2025, essas atribuições ainda eram exercidas pela CNEN. Por isso — e também porque, à época do acidente, a instituição foi convocada a atuar —, a equipe procurou seus pesquisadores para colaborar com a leitura do roteiro e prestar assessoria técnica ao longo da produção.
Ana Paula Freire Artaxo Netto, atualmente coordenadora-geral de Relações Institucionais da ANSN – na época, coordenadora de Comunicação Social da CNEN –, foi quem assumiu, naquela instituição, o papel de interlocutora com os produtores. Ela comenta que o interesse na consultoria foi uma demonstração de um trabalho comprometido com o rigor técnico, em sua percepção.
“Se você me perguntar: ‘Você tinha convicção de que a série teria uma abordagem positiva?’, eu diria o seguinte: quando percebi o interesse da própria produção em contar com cientistas da CNEN para acompanhar o roteiro, fazer a leitura técnica e prestar consultoria, entendi que eles queriam construir um trabalho sério, comprometido com os fatos, e não uma narrativa sensacionalista.”
Apesar da imagem positiva, a série não deixa de retratar como o medo e a desconfiança fizeram parte do cotidiano das pessoas, na época. Ana Paula destaca que as pessoas de Goiânia foram muito discriminadas, todo o estado foi estigmatizado. Por conta disso, um dos pontos cruciais na crise foi um atendimento humanizado com as vítimas.
Ela também comenta o sentimento ambíguo de quem atuou no acidente. A resposta à tragédia de Goiânia representou um marco para a CNEN e motivou, nos anos seguintes, a estruturação de mecanismos permanentes de coordenação para situações de emergência, construídos a partir das lições aprendidas durante o próprio atendimento ao acidente.
Há orgulho pelo trabalho realizado e pela forma como a equipe conseguiu conduzir uma situação inédita, mesmo sem um plano prévio. Ao mesmo tempo, permanece a memória dolorosa das mortes, do sofrimento das vítimas e das profundas marcas deixadas pelo acidente, resgatadas pela série.
Goiânia e Chernobyl
A comparação entre Goiânia e Chernobyl é frequentemente feita, inclusive a série reproduz o sentimento à época: o medo constante de o acidente ser o “novo Chernobyl”, ainda mais pela proximidade temporal – Chernobyl ocorreu cinco meses antes, em 26 de abril. Apesar disso, há fatos cruciais que diferenciam ambos:
Em primeiro lugar, trata-se de materiais radioativos distintos. O acidente de Chernobyl, ocorrido em 1986, envolveu a explosão de um reator nuclear, que liberou diversos radionuclídeos no ambiente, entre eles o Urânio-238. Já o acidente de Goiânia envolveu exclusivamente uma fonte de Césio-137 utilizada em radioterapia.
A meia-vida é um parâmetro importante para compreender quanto tempo um material radioativo leva para reduzir sua radioatividade a níveis muito baixos. O Césio-137 possui meia-vida de cerca de 30 anos. Isso significa que, a cada 30 anos, sua atividade radioativa e, consequentemente, a quantidade de núcleos radioativos presentes, é reduzida à metade. Já o urânio-238 possui meia-vida de aproximadamente 4,5 bilhões de anos.
Em razão da natureza do acidente e da variedade de radionuclídeos liberados, algumas áreas ao redor da usina de Chernobyl permanecerão sob restrições de uso por muito tempo. No caso de Goiânia, por envolver uma única fonte radioativa que pôde ser localizada, removida e descontaminada, a recuperação ambiental foi significativamente mais rápida.
Outra diferença fundamental é a classificação dos eventos. Chernobyl foi um acidente nuclear, pois ocorreu em uma usina nuclear e envolveu danos ao reator, com liberação maciça de material radioativo para a atmosfera. Já Goiânia foi um acidente radiológico, causado pelo manuseio inadequado de uma fonte radioativa fora de uma instalação nuclear. Apesar dessa diferença, o acidente de Goiânia é reconhecido como o maior acidente radiológico do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/E/R/hj0iqbRtSoK6wRtJeuBA/copia-de-copia-de-copia-de-padrao-foto-g1-goias-16-.jpg)
“Se não nós, quem?”
A repercussão da série da Netflix motivou o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) a revisitar esse episódio histórico sob uma perspectiva pouco explorada: a dos pesquisadores e profissionais que atuaram diretamente na resposta à emergência radiológica.
A iniciativa partiu do Serviço de Comunicação Social (SECOS), que idealizou e produziu a série documental “Se não nós, quem?”.
As gravações ocorreram, em sua maior parte, nas instalações do IEN. A única exceção foi a entrevista com o diretor da série “Emergência Radioativa”, Fernando Coimbra, realizada na Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, estabelecendo um diálogo entre a produção documental do instituto e a obra que despertou o interesse renovado pelo tema.
Inicialmente concebido como um documentário de 15 a 20 minutos, o projeto cresceu à medida que os depoimentos e materiais reunidos revelavam a riqueza das histórias e experiências dos participantes. O volume e a qualidade do conteúdo levaram à decisão de transformar a produção em uma série de três episódios, com aproximadamente 13 minutos cada, disponibilizados no canal do IEN no YouTube.
Ao priorizar os relatos dos próprios participantes, o documentário constrói uma narrativa centrada na experiência humana daqueles que estiveram na linha de frente da emergência. O resultado é uma abordagem que valoriza o conhecimento técnico, o compromisso profissional e a responsabilidade dos especialistas envolvidos, contribuindo para romper estigmas associados ao acidente e reconhecer a atuação daqueles que impediram que a tragédia alcançasse proporções ainda maiores.
Reprise?
Ao final de maio, foi confirmado um pequeno vazamento de material radioativo na sede do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), unidade técnico-científica da CNEN, localizada na Universidade de São Paulo (USP). Apesar de essa notícia nos causar um espanto em um primeiro momento, o acidente foi rapidamente contido, com possibilidades muito pequenas de se tornar um novo acidente radiológico nas proporções em que Goiânia se tornou. Isso se dá por dois principais motivos:
- O acidente da vez aconteceu com o elemento Tecnécio, de massa 99. O Tecnécio-99 tem meia-vida de 6 horas, em contraponto com o Césio – 137, com meia-vida de cerca de 30 anos.
- O acidente ocorreu dentro de um instituto preparado para lidar com materiais radioativos. A instalação conta com profissionais capacitados para atuar na contenção do material e nos procedimentos de descontaminação. Trata-se de uma realidade muito diferente da de 40 anos atrás, quando o acidente de Goiânia ocorreu em meio a residências, em um bairro residencial, favorecendo a ampla disseminação da contaminação.
Finale
A arte desempenha um papel fundamental na preservação da memória. A memória do acidente deve ser mantida em escolas, documentos, acervos, em conjunto com a arte, como uma maneira de, além de relembrar, educar e informar a maior quantidade possível de pessoas.
Quando perguntada sobre a importância em continuar trazendo o acidente à tona, Ana Paula respondeu:
“Manter viva a memória do acidente é uma forma de evitar que ele se repita. Quando preservamos essa lembrança, reforçamos a importância da segurança, da prevenção e da cultura de proteção radiológica. Além disso, é um gesto de respeito às vítimas, aos familiares e a todos que tiveram suas vidas marcadas por essa tragédia. O esquecimento enfraquece esse aprendizado coletivo. Por isso, é tão importante que o acidente de Goiânia continue sendo lembrado: para honrar quem sofreu suas consequências e para que as lições deixadas por ele nunca sejam perdidas.”
A série, portanto, revive o acidente de uma maneira a conscientizar e relembrar parte da história desse país e manter a memória sempre viva.
Dedicado aos físicos, químicos e médicos que atuaram no acidente, às vítimas fatais e aos sobreviventes, que carregam as marcas do césio para sempre. – Emergência Radioativa, episódio 5.
Ultima dica:
Aliás, se o acidente acontecesse hoje, no seu bairro, você saberia se proteger? A partir da conversa com a Ana Paula, elaboramos um guia do que fazer caso você suspeite que esteja contaminado com radiação.

1 comentário
Henry Mariosa Moreira Carneiro · 22 de julho de 2026 às 10:42
Ótimo artigo!!!!