BOLSONARO, O OURO E A DISPUTA PELA HEGEMONIA GLOBAL

Artigo

 

Octávio Fonseca Del Passo[i]

 

Assim como as pesquisas realizadas pelos físicos envolve a medição de forças (gravitacional, centrípeta etc.) a dos cientistas políticos também as envolvem (força dos partidos, dos sindicatos, do lobby empresarial etc.). Diante de frases mal ditas (e malditas) e de raciocínios não lineares e aparentemente não lógicos que vem sendo propalados pela presidência da república, a tarefa torna-se mais difícil e o exercício de interpretação mais elástico. Ao tomar como exemplo o setor aeronáutico, o petrolífero e o setor da indústria da construção civil, todos entregues ao capital norte-americano, notamos que uma força vem aumentando consideravelmente no Brasil: a força dos Estados Unidos.

O fato de Bolsonaro falar grosso com a Europa, que gostaria de preservar a Amazônia, e manso com os Estados Unidos, que pretendem explorá-la, está mais além dos interesses econômicos imediatos. Como já foi anunciado pelo presidente, ele não entende de economia. Mas está disposto a travar uma luta pela supremacia ocidental sob liderança dos Estados Unidos.

Neste texto, apresentarei a argumentação de que não há contradição entre, por um lado, as declarações de Bolsonaro afirmando que o Brasil não será mais subordinado aos países desenvolvidos como era até antes de seu governo e, por outro, a sua prática política real, que caminha no sentido de criar mecanismos legais que permitam a exploração de ouro, sobretudo pelos Estados Unidos, em terras indígenas.

Diversas medidas de Bolsonaro e do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, demostram que a intenção é acabar com as alianças internacionais que o Brasil construiu para estabelecer um alinhamento automático e subordinado aos Estados Unidos, a fim de se empenhar como país auxiliar na disputa pela hegemonia global. Pense, por exemplo, na falta que o Brasil faz para as políticas dos BRICS e como isso significa um desfalque para a Rússia e a China. Mas o governo Bolsonaro vai além. Seu governo pensa que até a Europa deve ser combatida, sobretudo a França, acreditando que esse continente joga em favor da esquerda através de políticas de proteção do meio ambiente e dos direitos humanos, por exemplo. Os franceses, povo conhecido no mundo por ter realizado a Revolução Burguesas modelar, são pintados como socialistas.

Já os Estados Unidos, país que, de fato, subordina o Brasil há décadas, é visto pelo governo Bolsonaro como um parceiro que trata o Brasil como sendo um país igual a eles. Mas qual seria então o interesse de Bolsonaro em entregar o ouro (a Embraer, a Petrobrás, as grandes obras públicas etc.) da Amazônia, em especial das terras indígenas, aos EUA? O presidente sabe que essa medida irá aprofundar a nossa dependência, mas o mundo vive uma espécie de segunda guerra fria e na disputa pela hegemonia entre a América do Norte e a Ásia, em especial a China, Bolsonaro tem um lado.

O dólar vem perdendo espaço e em breve não terá mais o poder de controlar a economia mundial. A moeda chinesa cresce e ameaça, mas o ouro ainda é o que tem o maior aumento na sua procura. Os Bancos Centrais de diversos países vêm aumentando a procura por ouro e fazendo o seu preço disparar, indicando que a confiança no dinheiro fiduciário pode estar em queda e, desse modo, a derrubada do dólar tornar-se-ia inevitável. A Rússia talvez seja o país que mais rápido se desfaz de seus dólares e compra ouro a fim de colocar um fim ao ciclo de dominação do dólar. Liderando essa corrida, discute inclusive a criação de uma criptomoeda que tenha o ouro como lastro para realizar comércio fronteiriço.

A ofensiva dos Estados Unidos sobre o ouro brasileiro e a intenção de Bolsonaro de entrega-lo, indica que os Estados Unidos podem entrar na disputa pelas reservas de ouro da Amazônia a fim de limitar a compra por parte da Rússia e da China com a intenção de retardar a substituição do dólar no comércio mundial. Realidade que parece mais próxima diante da guerra comercial entre China e Estados Unidos. O governo desse país e o de Bolsonaro têm sido bem-sucedidos em retroceder na construção de um mundo multipolar, como mostra, por exemplo, o retrocesso que causaram para o estabelecimento do Bando dos BRICS. De fato, para os Estados Unidos e para aqueles subordinados à política de Trump, como o Brasil atual, assim como para aqueles que declararam uma guerra quixotesca contra um suposto comunismo, a melhor saída é resistir a ascensão da Rússia e da China. Alguns prognósticos tardam, mas não falham.

[i] É doutorando em Ciência Política na Unicamp.

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