O FOGO NA SALA DE EMERGÊNCIA DA CONSCIÊNCIA AMBIENTAL

Artigo

 

Antonio Marcos[i]

 

Por mais que se note algumas manifestações oportunistas de celebridades midiáticas, personalidades políticas, ativistas e ideólogos ao reproduzirem um discursos e uma visão romantizada da Amazônia, não se pode permitir que tais fatos “isolados” ofusquem a importância e urgência de debater e encontrar saídas para o descontrole do atual governo com a questão ambiental. Contudo, é válida a manifestação (seja ela distorcida da realidade ou não) em defesa das plantas, animais e rios. Além disso, o momento é “oportuno” para deixar de lado a intolerância e ignorância e conhecermos a cultura das pessoas que cuidam das plantas, rios, animais e da cultura local que também está sendo ameaçada.

Cabe lembrar que as agressões à Amazônia brasileira são histórica e atravessaram governos ditatoriais e civis. O que chama atenção é que foi durante os governos civis (Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro) que se constatou uma forte escalada de ações pactuadas de pecuaristas, madeireiros, mineradores e sojicultores com os governos civis, com objetivo de agredir à Amazônia em nome de “desenvolvimento”.

Os recentes crimes ambientais como o aumento do desmatamento em 82%, seguido de intensas queimadas, matança de indígenas, quilombolas e ribeirinhos, são desdobramentos de conflitos históricos que em alguns poucos momentos foram “controlados e assistidos” pelas autoridades governamentais. O descontrole do atual governo com a questão ambiental é sem precedente, porém já previsto por várias evidências na postura da equipe de governo e, principalmente dos ministros ligados a questão ambiental.

O fato é que em poucos momentos da nossa história a questão ambiental foi preocupação nas agendas dos governos. A irrisória exceção foi a redução do desmatamento entre 2003 e 2012. É notório que além da pressão internacional os trabalhos sucessivos dos ministros do Meio Ambiente (Marina Silva, Carlos Minc e Izabella Teixeira) priorizaram uma agenda de combate ao desmatamento. Esse foi um curto e exclusivo momento de controle do desmatamento da Amazônia. Durou apenas nove anos. Esse tempo foi curto para construir um aprendizado sobre a complexidade do que é a Amazônia e compreender seus inúmeros conflitos. O desmatamento é apenas um palco desses conflitos e foi nesse palco que os governos civis (especificamente no governo Lula) lograram alguns êxitos no controle da questão ambiental.

Foi exatamente em 2012 com a revisão do Código Florestal que a coalizão coordenada pelos ruralistas do agronegócio vitoriosamente inicia o processo de desmonte das políticas ambientais. A anistia dos crimes ambientais anteriores pelo Código revisado, dá a largada para a escalada do desmatamento na Amazônia. E, para fortalecer essa frente política de desmonte e de descontrole do governo, em 2015 a ruralista Kátia Abreu recebeu o Ministério da Agricultura para selar a aliança e os compromissos mútuos do governo com agronegócio em detrimento da questão ambiental sustentavelmente pensada. Julgo ser essa síntese dos fatos políticos apontados acima que retrata o descontrole governamental na agenda ambiental.

Na continuidade dessas agressões à Amazônia, o atual governo de Bolsonaro colocou a questão ambiental no rol das políticas ideologizadas de esquerda que precisam, segundo o presidente, serem combatidas. Isso mostra que não se trata apenas de uma incapacidade do governo com os assuntos ambientais. Esse estado de descontrole acena positivamente para os interesses dos exploradores dos recursos naturais da Amazônia. Nesse contexto catastrófico, as ações desenfreadas desses exploradores, sintonizada com o descontrole do governo nos alertaram recentemente para o estado de emergência generalizada da falta de consciência ambiental em que historicamente nos encontramos. Dialogar de forma horizontal sem as armas da intolerância e retaliações é o que precisamos para sair desse estado e evitar que a sala de emergência ambiental seja incendiada.

Mesmo considerando a urgência, entendo que esse é o primeiro passo para compreender um pouco dos atentados criminosos na Amazônia. Ou seja, são essas as condições para apreender a dinâmica conflituosa de disputa dos diversos e complexos interesses nesse território. Talvez por interesse de querer ocultar essa as causas dessa escalada de agressões na Amazônia, pouco foi ensinado sobre esse mundo ainda em parte desconhecido e já em curso de extinção.

Sei que nesse período de intolerância e de tentativa de descrédito da ciência por parte do atual governo, não é fácil pedir um pouco de esforço e diálogo para fazer saudáveis julgamentos e encontrar meios para contornar, ao menos um pouco, esse percurso catastrófico. No entanto, se para alguns, a observação dos recentes retrocessos não é suficiente para tomar uma posição frente esse desastre ambiental, por achar que eles são frutos de um discurso ideologizado da esquerda ambientalista, recomendo minimamente conhecer o que é a Amazônia. E até pode começar fazer isso pelas plantas, animais e rios ou seguindo a visão naturalista e romantizada de muitos ecólogos. Talvez possa ser o melhor caminho para desconstruir e/ou construir novas concepções e, sem dúvida esse caminho vai te levar até às pessoas que melhor podem explicar o que é a Amazônia e o que está acontecendo nesse espaço: os povos que cuidam e formam a Amazônia (indígenas, os quilombolas, os ribeirinhos).

Minha intenção não é minimizar e/ou relativizar ao extremo a gravidade das queimadas e a comoção que esses crimes vêm causando às pessoas que até então não tinham noção do que seria esse território chamado Amazônia. Contudo, o que me preocupa é o que podemos tirar como aprendizagem disso tudo. Acho que antes de evocar a militância e postar nas suas redes sociais a imagem da Amazônia queimando, da chuva escura e/ou de um macaco cercado pelo fogo no topo de uma árvore para julgar a incompetência do atual governo, precisamos fazer a lição de casa e aprender minimamente a importância do território amazônico.

Esse debate deve ser pedagógico. É urgente, antes de tudo, a sociedade saber que a Amazônia não é só um território de plantas, animais, rios e seres encantados como propagados pelos desavisados. Assim como também não é apenas um solo e subsolo fértil e rico em minerais. Para preservar isso tudo, o território amazônico conta com diversas formas de vidas e pessoas de diversas tribos e etnias. Pessoas que historicamente cuidaram dessa floresta de forma incondicional e independente do apoio de ONGs e governos. Essas pessoas querem ser ouvidas e dialogar para nos ensinar o que de fato é a Amazônia, e acho que o momento pode ser agora.

[i] Doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp.

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