Existem monstros no oceano?

Desenho de um peixe-diabo de águas profundas com dentes afiados e uma antena luminosa, lembrando um monstro marinho.

 Texto de Jennifer Laysla

Entre histórias e realidade

A representação de animais marinhos em livros, filmes e séries costuma mostrar uma grande variedade de espécies, algo que muitas vezes passa despercebido por quem está assistindo. Em outras ocasiões, esses animais aparecem apenas como “monstros”. O live action de A Pequena Sereia, lançado em 2023, apresenta diversos animais marinhos e pode ser um bom ponto de partida para observarmos um pouco dessa biodiversidade.

Você consegue identificar quais animais aparecem no filme? Tem ideia da imensidão do ambiente onde eles vivem, o oceano? E aqueles monstros marinhos que vemos em outras representações: será que eles realmente existem?

Um mergulho na vida marinha

Neste texto, vamos explorar um pouco da vida marinha, desde o ambiente onde ela ocorre até a impressionante diversidade de criaturas que habitam os oceanos.

Afinal, se não fosse o oceano e tudo o que ele proporciona, nós sequer estaríamos aqui. Por isso, conhecer e preservar o que existe no mar é fundamental para a vida na Terra.

O oceano

Cobrindo mais de 70% da superfície do planeta, o oceano é fundamental para a existência da vida como a conhecemos hoje. Sua extensão é tão grande que supera a área da Lua e de Marte somadas, e a região mais profunda já registrada chega a cerca de 11 mil metros de profundidade. Além disso, o oceano desempenha funções vitais para a vida na Terra, como a produção de grande parte do oxigênio que respiramos e a regulação do clima e das temperaturas do planeta.

Há registros muito antigos da enorme diversidade de formas de vida que já habitaram os mares ao longo da história da Terra. Entre elas estão os trilobitas, um grupo de artrópodes marinhos que viveu há centenas de milhões de anos e hoje está extinto. Esses animais, que lembravam pequenos “tatuzinhos” marinhos segmentados, são conhecidos principalmente por meio de fósseis e ajudam os cientistas a entender como era a vida nos oceanos do passado.

Imagem de Fóssil de trilobita de Utah. Fonte: Wikipedia

 Além das espécies que já desapareceram, os mares ainda abrigam uma enorme diversidade de organismos, muitos deles bastante curiosos e pouco conhecidos (como veremos mais adiante). Não por acaso, a teoria mais aceita atualmente sobre a origem da vida indica que os primeiros organismos surgiram justamente no ambiente marinho.

Como estudamos o oceano

Mesmo assim, sabemos surpreendentemente pouco sobre esse ambiente.

Estima-se que conhecemos apenas cerca de 30% do oceano, o que significa que ainda há uma enorme quantidade de espécies, ecossistemas e processos esperando para serem descobertos.

Consegue imaginar quantos seres marinhos ainda nem sabemos que existem?

Mas como chegamos a conhecer esses 30%? 

Para investigar a vida no mar, pesquisadores realizam expedições que vão desde regiões mais rasas até áreas extremamente profundas. Nas partes mais profundas, onde o mergulho humano não é possível, são utilizados equipamentos tecnológicos capazes de medir condições do ambiente, como temperatura e pressão, e também coletar organismos e amostras do fundo do mar.

 A Biodiversidade Marinha

A biodiversidade marinha costuma ser lembrada principalmente por alguns vertebrados mais conhecidos, como peixes, tubarões, tartarugas e baleias. No entanto, o oceano abriga uma variedade muito maior de formas de vida. Nas praias, por exemplo, as conchas chamam a atenção de quem caminha pela areia, embora muitas pessoas não saibam que elas pertencem aos moluscos, grupo que também inclui animais fascinantes como polvos e lulas.

Nos recifes, os corais ganham destaque, muitas vezes associados às discussões sobre seu risco de extinção. Já entre rochas, fundos arenosos e manguezais encontramos uma diversidade de crustáceos, como lagostas, camarões e caranguejos. Há também organismos que costumam despertar curiosidade e encanto, como as delicadas estrelas-do-mare as misteriosas águas-vivas, que se movem lentamente pela coluna d’água.

Essa diversidade aparece de maneira especialmente interessante ao longo da costa brasileira. O litoral do país possui mais de 7 mil quilômetros de extensão, abrigando diferentes ambientes marinhos, cada um com suas próprias características e espécies. Ao percorrer essa costa, do Sul ao Norte do Brasil, é possível observar mudanças na fauna e nos ecossistemas, revelando como cada região possui uma biodiversidade singular. Não por acaso, o Brasil é considerado um dos países mais biodiversos do mundo, o que torna ainda mais evidente a importância de conservar esses ambientes.

Uma diversidade ainda pouco conhecida

E mesmo com toda essa variedade, estamos longe de conhecer completamente a vida que habita o oceano. Até hoje, os cientistas já descreveram mais de 200 mil espécies marinhas, pertencentes a diversos grupos de organismos.

Alguns desses grupos são pouco conhecidos do público. Um exemplo curioso é a meiofauna. Esses animais são microscópicos e vivem entre os grãos de areia do fundo do mar. Isso mesmo: nos minúsculos espaços entre um grão e outro existe um verdadeiro universo em miniatura, cheio de pequenos organismos vivendo e se movimentando ali.

Outro grupo são os anelídeos, vermes segmentados que incluem muitas espécies marinhas. Alguns vivem enterrados nos sedimentos do fundo do mar, enquanto outros constroem pequenos tubos ou se escondem entre rochas e recifes.

Ainda assim, estima-se que mais de um milhão de espécies marinhas possam existir sem terem sido descritas pela ciência. Diante de tamanha diversidade ainda desconhecida, surge uma pergunta curiosa: será que algumas das criaturas que aparecem em lendas e filmes, os famosos “monstros marinhos”, poderiam ter alguma inspiração em animais reais?

Monstros marinhos?

Histórias sobre monstros marinhos existem há séculos. Antigos navegadores contavam que criaturas gigantes surgiam das profundezas do oceano, capazes de envolver navios com tentáculos enormes ou desaparecer nas águas escuras do mar. Mas será que esses monstros realmente existiram?

Na ciência, para afirmar que um animal existe é preciso ter evidências, como registros, observações ou exemplares encontrados. Até hoje, não há provas de criaturas gigantes como as descritas em muitas lendas. Mesmo conhecendo apenas parte do oceano, é bastante provável que animais desse tipo já tivessem sido encontrados se realmente existissem.

Mas isso não significa que o mar seja menos surpreendente. Na verdade, muitos animais que vivem nas profundezas parecem tão estranhos que poderiam facilmente ter inspirado histórias de monstros.

Criaturas que parecem monstros

Um deles é a chamada lula-vampiro. Apesar do nome assustador, ela é pequena e vive em regiões muito profundas do oceano. Seu corpo escuro e uma espécie de “capa” que liga seus braços dão a impressão de algo saído de um filme de fantasia.

Outra criatura curiosa é a lula Magnapinna, que possui tentáculos extremamente longos e finos, que se estendem pelo escuro do mar como fios quase invisíveis.

Foto de Magnapinna filmada pelo DSV Alvin, possivelmente uma Magnapinna sp. adulta. Fonte: Wikipedia.

 Há também o chamado peixe-diabo, que vive nas profundezas e possui uma pequena “luz” na cabeça para atrair presas no ambiente escuro.

Um dos exemplos mais impressionantes é o tubarão-duende. À primeira vista ele já parece estranho: tem um focinho longo e achatado que se projeta para frente, quase como uma lâmina. Mas o que realmente chama atenção é a boca. Quando captura uma presa, sua mandíbula se projeta para fora da cabeça, quase como se “saltasse” para frente, revelando fileiras de dentes finos e pontiagudos.

E os oceanos do passado foram ainda mais impressionantes. Entre os animais extintos estão o Dunkleosteus, um enorme peixe com placas ósseas que funcionavam como uma armadura, e o Mosasaurus, um gigantesco réptil marinho que dominava os mares muito antes dos humanos existirem.

Talvez não existam monstros exatamente como nas lendas. Mas, diante de tantas criaturas surpreendentes que habitam, ou já habitaram, os oceanos, fica difícil negar que a realidade pode ser tão impressionante quanto a imaginação. No fim das contas, talvez nossos ancestrais só tenham contado uma boa história de pescador e exagerado um pouco, porque essas criaturas extraordinárias sempre estiveram aqui, escondidas nas profundezas do mar.

O oceano ainda guarda muitos segredos

Como vimos ao longo do texto, o oceano abriga uma diversidade impressionante de formas de vida, muitas delas ainda pouco conhecidas. Ao mesmo tempo, esse ambiente também enfrenta pressões como a poluição e as mudanças no clima, que podem afetar muitos desses ecossistemas. 

E talvez a parte mais impressionante seja justamente essa: mesmo depois de séculos explorando os mares, ainda sabemos muito pouco sobre a vida que existe ali. Imagine quantas espécies ainda podem existir e quantas podemos perder antes mesmo de conhecê-las.

Para saber mais…

Longo, L. de L., & Amado Filho, G. M. (2014). O conhecimento da fauna marinha bentônica brasileira através dos tempos. História, Ciências, Saúde-manguinhos, 21 (3), p. 995–1010, 2014.

NATIONAL Geographic (2024). Qual é a profundidade do oceano? A ciência segue investigando estes números, National Geographic.

Perez, J. A. A. (2010). Biodiversidade marinha: uma herança ameaçada?. Ciência e Cultura, v. 62, n.3, p.42-44, 2010.

Rossi, R. H. C & Bruno, C. E. M. (2024). Avaliação da incidência de plástico em conteúdo gastrointestinal de elasmobrânquios desembarcados no município de Caraguatatuba, São Paulo, Brasil. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v.7, n.3, p.1-15, 2024.

Santana, R. C. B. et al (2016). A importância das Unidades de Conservação do Arquipélago Fernando de Noronha. HOLOS, v.7, p.15-31, 2016.

Autoria

Jennifer Laysla é aluna de graduação em Ciências Biológicas pela Unicamp, com interesse em conservação, manejo e restauração da biodiversidade nativa.

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