O ar nosso de cada dia

por | maio 23, 2022 | Textos | 0 Comentários

    Já diria o meme: “tá pegando fogo, bicho!”. A frase, dita pelo apresentador Fausto Silva em 1994 e que viralizou nos últimos anos, representa literalmente o que temos visto diariamente nos jornais e redes sociais: inúmeros focos de queimadas pelo mundo afora, e principalmente, no nosso país. Muito se fala sobre como esses acontecimentos podem impactar o ambiente de modo geral e a saúde humana, de modo mais pontual. Mas, de fato, como essas alterações nos afetam? Nesse e no próximo material vamos falar um pouco mais sobre o assunto.

Cyntia Almeida, Letícia Sayuri Kurihara e Gildo Girotto

Onde há fumaça…

    Historicamente, os meses de inverno em regiões tropicais são marcados pelo tempo seco que, infelizmente, acentua o fenômeno das queimadas. Para além do aspecto natural do clima seco, a ação do ser humano é também uma forma de potencializar esse acontecimento.

    No início do mês de agosto de 2021, vimos inúmeras notícias sobre os incêndios florestais na Grécia, acontecimento gerado devido à elevadas temperaturas e tempo seco que acometeram a região, e a imagem da grande quantidade de fumaça que tomava conta do país provavelmente nos fez lembrar do dia em que o céu, em algumas regiões do estado de São Paulo, sudeste, escureceu no meio da tarde, graças à nuvem de fumaça gerada pelas queimadas no Pantanal, centro-oeste. A distância entre as regiões se aproxima de 1.000 km, o que parece ser um valor bastante alto. No entanto, com a ajuda de satélites constatou-se que a fumaça cobria uma região de alguns milhões de km2 e que fazia um percurso que a levava direto para o oceano, por correntes de ar.

    Até o atual momento (08/09/2021), o Brasil, apenas neste ano, apresentou cerca de 120.000 km2 de área queimada, somando todos os seus biomas. Segundo uma previsão de pesquisadores da USP, feita em 2005, a marca anual esperada de áreas queimadas era de 40 mil km2. Ou seja, não só dobramos a meta. TRIPLICAMOS!!!

    No mês de julho deste ano, segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que analisa por satélite os focos de queimadas, a Amazônia apresentou uma alta nos focos de incêndio e o número de acontecimentos representou o maior dos últimos 14 anos, sendo 2.306 focos. A última vez que a região sofreu com a presença de altos números foi em 2007, contabilizando 3.519 focos. No entanto, é importante ressaltar que no ano de 2020 os índices também apresentaram um aumento de aproximadamente 400 focos em comparação com o ano de 2019 e assim, temos um salto de 1.880 focos para 2.248.

    Com toda essa elevação nos níveis das queimadas, surgem algumas questões: Como isso tudo afeta o meio ambiente? Como afeta a saúde da população?

Fumaça nossa de cada dia

    Compreender a influência das queimadas parte de dois pontos principais: a influência imediata em nosso modo de vida e a influência a longo prazo. Vamos dar início ao texto falando da influência direta.

    Comecemos compreendendo do que o ar é formado. A atmosfera, camada de ar que envolve a Terra, é dividida conforme a altitude aumenta. A região mais próxima do solo é a troposfera, abaixo de 13 km2 de altitude. Sua composição se resume em nitrogênio (78% ~ 74%), oxigênio (20%), argônio (0,90%), vapor de água (0% ~ 4%) e o temido dióxido de carbono (0,035%), popularmente conhecido como gás carbônico.

    Porém o ar que respiramos diariamente não é composto apenas por esses componentes. Ele conta com a presença de poluentes que são divididos em algumas categorias: fumaça, partículas em suspensão, partículas inaláveis (MP10), partículas inaláveis finas (MP2,5), óxido de nitrogênio, monóxido de carbono, compostos orgânicos voláteis, ozônio e alguns outros. Essas substâncias vêm de diferentes fontes; algumas se formam naturalmente na atmosfera e outras são provenientes da queima de combustíveis ou das queimadas.

    Por exemplo, a fumaça é uma mistura de gases com partículas sólidas dispersas. É por isso que conseguimos vê-la. Se essa mistura fosse totalmente gasosa, a menos que o gás tivesse cor, não a veríamos. Essas pequenas partes que são geradas na queima de substâncias, como combustíveis, medem de 1 µm a 2,5 µm (equivalente a 0,000001 m) e podem ficar presentes no ar por um período que pode variar de dias a semanas sendo capazes de se espalhar por uma distância de milhões de km. Outros poluentes comuns são os óxidos de nitrogênio, formados por meio do processo de queima de combustíveis por veículos, sendo suas maiores concentrações em grandes cidades.

    Além dos poluentes que afetam a qualidade do ar, existem condições que agem como catalisadores, potencializando e acelerando a relação da poluição atmosférica com a sociedade. Questões meteorológicas, por exemplo, se encaixam nesse aspecto, pois influenciam fortemente para que a sociedade sinta as consequências da contaminação do ar.

    E como isso tudo interfere no cotidiano da população? Na sua saúde?

Diga o que respiras e te direi o que é…

    Os estudos sobre a influência da poluição do ar na saúde da população tiveram início em Londres, após milhares de mortes que ocorreram entre os anos de 1948-1952.

    No estado de São Paulo, no período pós Segunda Guerra Mundial, começaram a ocorrer as instalação das grandes indústrias, mas sem um controle da contaminação gerada por esse avanço, o que, com o tempo, começou a prejudicar a população, pois o acúmulo de poluentes produzia forte odor e gerava mal-estar.

    Devido a esse aumento brusco na liberação de poluentes e às dificuldades encontradas, em 1960 foi criada a CICPAA (Comissão Intermunicipal de Controle da Poluição das Águas e do Ar), que cuidava de alguns municípios da região metropolitana de São Paulo. A Comissão passa por algumas mudanças, até que, em 1975, é transferida para a CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), que inicialmente media apenas o SO2.

    Em 1981, acontecem melhorias na Companhia, que passou então a analisar os demais poluentes. Em âmbito nacional, os padrões foram estabelecidos em 1990 pelo IBAMA (Instituto de Meio Ambiente), e aprovados pelo CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente), por meio da resolução 03/90.

    Em 2005, a ONU (Organização das Nações Unidas) publicou um documento que estipulava valores guia que ajudariam a manter a qualidade do ar e, por consequência, trariam benefícios à vida da população. No entanto, a organização não estipulou como deveria ser feito, deixando que cada país criasse meios de desenvolver esse processo de maneira que levasse em consideração a viabilidade econômica e técnica, mas resultando no menor valor possível de concentração dos contaminantes no ar.

    No dia 22 de setembro de 2021, a OMS (Organização Mundial da Saúde) atualizou seus índices com base em mais de 500 estudos que comprovaram que a concentração prejudicial à saúde é ainda menor do que se imaginava. Foi recomendado, então, que a quantidade de MP2,5 fosse reduzida pela metade, já que é extremamente prejudicial, sendo capaz de causar problemas na corrente sanguínea.

    Os MP10 e MP2,5, que são compostos por um mistura de sólidos dispersos no ar, tem também intenso efeito na saúde humana. O MP2,5, principalmente, por ser constituído de partículas menores e, desta forma, alcança mais facilmente os pulmões, alvéolos pulmonares, brônquios, entre outros. Assim, em 2010, o MP2,5 se tornou o poluente que apresenta o sexto maior risco de mortalidade prematura. A OMS, e, em 2013, a IARC (Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer) classificaram os materiais particulados como uma ameaça às pessoas que possuem contato com poluição atmosférica, ou seja, todo mundo.

    Além dos MPs, outros poluentes liberados na atmosfera podem trazer prejuízos diversos se diretamente inalados. A cerração que é observada quando o tempo está mais seco, por exemplo, ocorre devido à presença dos óxidos de nitrogênio, como o NO e o NO2. Estes, por sua vez, influenciam na formação dos oxidantes fotoquímicos, como o ozônio, gás extremamente irritante à pele, aos olhos e as vias respiratórias. O ser humano, quando exposto a altos níveis de ozônio, apresenta diversas reações, desde ataques de asma à inflamação pulmonar.

Calma, respira fundo

    Gostaríamos, claro, de finalizar dizendo que as coisas estão melhorando (como fazem alguns políticos por aí), mas estaríamos propagando fake news. Como vimos no decorrer desse texto, o índice de áreas queimadas vem crescendo dia após dia e a cada ano as porcentagens estão maiores. Mas, não deixemos passar a boiada pois ainda existem formas de minimizarmos alguns impactos. Continuemos a nos informar para que possamos adotar hábitos mais sustentáveis em nossas regiões e, na imensidão do país, tenhamos um “Agro pop” sem precisar que o “Agro queime tudo”. Ah, por sinal, esse é o assunto do próximo texto. Até lá!

Referências:

CETESB – Companhia ambiental do estado de São Paulo. Qualidade do ar. 2021. Disponível em: <https://cetesb.sp.gov.br/>

FREITAS, S. LONGO, K. DIAS, M. DIAS, P. Emissões de queimadas em ecossistemas da América do Sul. Dossiê Amazônia Brasileira l. 2005. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ea/a/ZfsSpwwxFSnvnwFGWPbswTP/?format=html&lang=pt>

INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Portal de monitoramento de queimadas e incêndios florestais. 2020. Disponível em: < https://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal>

G1 – Vale do Paraíba e região. Nuvem de fumaça provocada por queimadas no Pantanal chega ao céu de São Paulo. Setembro. 2020. https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2020/09/18/nuvem-de-fumaca-provocada-por-queimadas-no-pantanal-chega-ao-ceu-de-sao-paulo.ghtml

LIAKOS, C. LABROPOULOU, E. WOODYATT, A. Grécia enfrenta ‘desastre de proporções sem precedentes’ com incêndio. CNN Internacional. Agosto. 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/grecia-enfrenta-desastre-de-proporcoes-sem-precedentes-com-incendios/>

GONÇALVES, K. CASTRO, H. HACON, S. As queimadas na região amazônica e o adoecimento respiratório. Revista Ciência e Saúde Coletiva. 2012. Disponível em:
<https://www.scielosp.org/article/ssm/content/raw/?resource_ssm_path=/media/assets/csc/v17n6/v17n6a16.pdf>

RIBEIRO, H. ASSUNÇÃO, J. Efeito das queimadas na saúde humana. Queimadas. 2002. Disponível em:
<https://www.scielo.br/j/ea/a/5KxLnbYV6c8kRph4Dxd49rv/?lang=pt>

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Departamento de Ciência Atmosférica. Composição Química da atmosfera. Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas. USP – Universidade de São Paulo. Disponível em:
<http://www.dca.iag.usp.br/material/fornaro/AGM5823/AGM5823_primeira_ago2019.pdf>

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<https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/345329/9789240034228-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y>

ROCHA, L. Como fica o Brasil após a recomendação da OMS para a redução da poluição do ar. CNN – Brasil. Setembro. 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/como-fica-o-brasil-apos-a-recomendacao-da-oms-para-a-reducao-da-poluicao-do-ar/>

BURIGO, S. Análise da emissão de fumaça preta em obras de construção e montagem de industrial no Brasil. Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e pesquisa de engenharia. UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2012. Disponível em:
<http://www.ppe.ufrj.br/images/Stefano_Damian_Burigo.pdf>

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