O potencial hidrogeniônico da água e sua influência no organismo humano.

por | maio 23, 2022 | Textos | 0 Comentários

As informações básicas que você precisa saber.

    A ampliação de iniciativas que buscam aproximar os conhecimentos científicos das necessidades cotidianas é influenciada pelo crescente uso dos saberes da ciência de forma incorreta e perigosa. Este texto foi produzido durante o “Curso de textos de divulgação científica” (oferecido pelo Laboratório de Investigações em Ciências Naturais (LINECIN-USP), em maio de 2021) a partir de um artigo de revisão homônimo em relação a água básica, assunto comumente tratado de forma imprecisa.

Gian Carlo Guadagnin e Gildo Girotto Júnior.

Cotidiano e ciência

    Um exemplo muito comum de materiais populares que apresentam informações científicas incorretas são as mensagens divulgadas nas redes sociais e até em sites de cuidados pessoais que apresentam os benefícios do chamado “corpo alcalino”, atingível — supostamente — por meio do consumo de substâncias em uma “dieta alcalina”, composta de alimentos e água com pH básico.

    Esse tipo de ideia ganha força no mundo agitado em que vivemos, porque as pessoas não têm tempo para checar as informações que são bombardeadas de forma chamativa e simplificada na internet. Muitas vezes, procuramos soluções rápidas ou somos diretamente influenciados pelos termos técnicos, nomes e títulos de cientistas e médicos que prometem curas e soluções para muitos problemas que não sabemos como resolver. É o caso da tal “dieta alcalina”, que teria a capacidade de prevenir e curar doenças como o câncer.

    Considerando a disseminação dessas mentiras vestidas de ciência, cientistas da atualidade estão se debruçando sobre análises de artigos científicos publicados sobre o consumo de dietas alcalinas e as respostas do organismo. Um desses estudos, de Carlos A. N. de Almeida e Durval Ribas Filho, buscou sistematizar e compreender o conhecimento científico produzido sobre o potencial hidrogeniônico da água (pH) e sua relação com o funcionamento do organismo humano, com destaque para as doenças crônicas como osteoporose, câncer e doenças cardiovasculares.

    O trabalho analisou as bases de dados Medline/Pubmed e Environmental Engineering Abstracts (Proquest) em abril e maio de 2018, incluindo artigos em português e inglês sem limite de datas de publicação. Palavras-chave para a pesquisa dos dados incluíram termos como: acidez da água, alcalinidade da água, características físico-químicas da água, água alcalina e água ácida. Além de muitos dados sobre o pH (que você pode entender o que é aqui), os autores destacam uma informação interessante: o uso de água rica em bicarbonatos pode realmente ser benéfico para partes do organismo, como o sistema digestivo e os músculos. Mas o que isso quer dizer? Sabe-se que, em geral, a água com essas substâncias, os bicarbonatos, tende a ser mais alcalina. Então o negócio funciona mesmo? Calma, não é bem assim

Elucidando questões

    Almeida e Ribas, assinalam que não há menções sobre a influência, positiva ou negativa, do potencial hidrogeniônico dos alimentos e bebidas sobre o funcionamento do corpo. Então não é possível dizer que apenas uma dieta alcalina, ou o consumo de suplementos e sais alcalinos, seja suficiente para prevenir essas enfermidades, sequer que seja simplesmente o caráter ácido das substâncias derivadas da dieta moderna o causador de doenças como osteoporose ou câncer.

    Na verdade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as principais doenças crônicas têm causas relacionadas à união de múltiplos fatores, como os movimentos de transição econômica, rápida urbanização e mudanças no estilo de vida, dietas não saudáveis e com consumo excessivo de calorias e gorduras, sedentarismo, consumo de álcool e fumo; ter um modo de vida mais saudável é um caminho que pode auxiliar na prevenção de doenças.

    A análise feita por Almeida e Ribas destaca que estudos médicos controlados associam a água rica em bicarbonatos, ou o consumo de bicarbonatos separadamente da água, ao controle de acidez estomacal, de refluxo e de ácido úrico. Também relacionam a substância à eliminação de nitrogênio do corpo durante atividades físicas, contrabalançando a produção de ácido lático nos músculos (que pode causar cãibras).

    No entanto, os estudos modernos revisados não apontam ou suportam a ideia de que os benefícios do consumo de água alcalina estão ligados ao seu pH, mas sim a compostos de bicarbonatos que estão dissolvidos nela. Contudo, as diferenças entre as populações estudadas e entre as experiências feitas dificultam a generalização dos resultados obtidos. Assim, os autores consideram interessante a continuidade dos estudos, para que se avalie o efeito isolado do pH da água no organismo humano.

Água boa de beber

    É importante lembrar que no nosso organismo o pH não é um só para o corpo todo: essa diferença está diretamente relacionada com as funções e a forma como nosso organismo responde a cada substância que entra nele. Alterar o pH do corpo, ou de partes dele, pode não ser benéfico e causar úlceras estomacais, acidose e alcalose (sobre o que você pode saber mais aqui).

    Então, tenha cautela e, ao se deparar com algum defensor da “água básica” por aí, procure saber quais são as fontes que ele utiliza para embasar seu discurso e se há comprovações científicas sobre os benefícios alegados.

Referências:

Potencial hidrogeniônico da água e sua influência no organismo humano: um artigo de revisão. – International Journal of Nutrology n. 11, sup. S 01, S16-S23, 2018. Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/328595554_Potencial_hidrogenionico_da_agua_e_sua_influencia_no_organismo_humano_um_artigo_de_revisao

Acidose e Alcalose; Disponível em: https://labtestsonline.org.br/conditions/acidose-e-alcalose

A desinformação azeda sobre o limão na COVID-19. Disponível em:
https://salacincoiq.wixsite.com/salacinco/post/desinforma%C3%A7%C3%A3o-covid-19-e-lim%C3%A3o-1

Bicarbonato. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/eqpv/article/download/896/746/3058

FURONI, R. et al. Distúrbios do equilíbrio ácido-base. Revista da Faculdade de Ciências Médicas. Sorocaba. v.12. n.1. p. 5-12. 2010. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/RFCMS/article/view/2407

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