CANNABIS: POTENCIAL DE DESTRUIÇÃO OU DE CURA

por | ago 23, 2022 | Textos | 0 Comentários

O QUE VOCÊ NÃO SABIA SOBRE A MACONHA MEDICINAL

    O uso da chamada maconha ou marijuana como anestésico tem crescido desde meados do século passado. Contudo, os estudos sobre seus efeitos contra a dor ainda estão em fase inicial e, no aspecto social, há ainda um conjunto de preconceitos associados ao seu uso. Neste texto, buscamos trazer algumas informações a respeito deste tema.

Flávio Ghisini, Leonardo Marques, Kauã Galmacci, Juan Rosa, Hugo Rosa e Fernando Gabriel.

    O uso da Cannabis sativa, popularmente conhecida como haxixe ou maconha, tem sido muito discutido na área médica. Porém, uma conclusão efetiva ainda se encontra à deriva num mar de incertezas, uma vez que há estudos que apontam para sua eficácia e outros afirmam que o uso é ineficiente ou sem nenhuma conclusão definitiva. No entanto, algo é fato: existe a presença de um canal de receptores responsáveis pela degradação dos canabinoides no corpo humano, o Sistema Endocanabinóide. Logo, podemos nos questionar: A cannabis é realmente eficaz contra a dor?

    Como tudo que envolve o assunto, a resposta a essa pergunta está não é definitiva. De fato, a melhor resposta seria: DEPENDE. 

    Como exemplo, no tratamento da esclerose múltipla, estudos preliminares mostraram-se extremamente satisfatórios com o uso da cannabis agindo como anestésico. Mas, no que se refere à dor neuropática, os resultados foram limitados e inconsistentes, sendo recomendado apenas como terceira linha de tratamento.

    Segundo Luís Ricardo, biólogo e mestre pela Universidade do Rio Grande do Sul, dentre mais de cem substâncias fitoativas, presentes no extrato da planta, duas se destacam e tem sua eficácia comprovada: o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC). Contudo, ele ressalta a importância na continuidade dos estudos sobre essas substância. 

Figura 1: Cannabis encapsulada.
Fonte: UNSPLASH     

Figura 2:  Extrato de CBD para produção do medicamento
Fonte: FREEPIK      

    Outra questão levantada se refere a possibilidade da inserção desses medicamentos dentro da sociedade brasileira. Segundo Luís Ricardo, a resposta seria positiva. O pesquisador afirma que isso se dá devido ao “grande desenvolvimento desse mercado no Brasil. Um indicativo disso é que desde 2019 as indústrias farmacêuticas podem solicitar, para a ANVISA, a autorização de produção desses medicamentos contendo compostos derivados da cannabis e solicitar, inclusive, a venda desses medicamentos”.

Figura 3: Cannabis descarboxilada  em manuseio.
Fonte: FREEPIK         

    Outro ponto de destaque são os possíveis efeitos colaterais associados ao uso do CBD e do THC. Estudos apontam que os efeitos adversos são quase nulos a curto prazo e normalmente envolvem tontura, náuseas, euforia e sonolência, sem relatos de reações adversas graves. No entanto, é importante ter atenção quanto à escassez de estudos que revelem quaisquer efeitos a longo prazo. Também é interessante olhar com cuidado para o uso, principalmente do THC, que em idosos, uma vez que seu metabolismo é mais lento, pode estar associado a riscos de problemas cardiovasculares e surtos psicóticos. 

    Algo que fica claro em toda essa história é que os nossos conhecimentos sobre o uso da cannabis em tratamentos médicos ainda não são suficientes e novos estudos, com um conjunto maior de pessoas e mais longos, são necessários. 

    Apesar disso, o seu uso tem potencialidades principalmente para a redução dos chamados opióides, utilizados em medicamentos usados ​​para tratar dores fortes, como no caso do câncer. Devido aos problemas que podem acontecer com o uso de opióides, como dependência e efeitos colaterais graves, existem muitas dúvidas em torno destes medicamentos. A cannabis, nesse caso, atuaria como atenuante do uso desses outros medicamentos. 

    Em suma, vê-se vantajoso a emancipação de certos preconceitos a respeito da cannabis uma vez que a tendência é que ela apareça nas prateleiras das farmácias e até mesmo que ela seja receitada pelos médicos como mais um medicamento, já na próxima década. Como aponta o pesquisador Luís Ricardo, “Seria significativo, tanto para a comunidade farmacêutica quanto para o mundo, começar a olhar para a cannabis com um olhar menos proibitivo e mais científico e com o pensamento científico se sobrepondo a qualquer outro tabu ou dilema social, ético ou criminal”.  

Figura 4: Vaporizador de óleo concentrado
Fonte: UNSPLASH    


REFERÊNCIAS:

Pantoja-Ruiz, Camila et al. Cannabis and pain: a scoping review. Brazilian Journal of Anesthesiology [online]. 2022, v. 72, n. 01 [Accessed 17 August 2022] , pp. 142-151. Available from: <https://doi.org/10.1016/j.bjane.2021.06.018>. Epub 28 Feb 2022. ISSN 2352-2291. https://doi.org/10.1016/j.bjane.2021.06.018.

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Portenoy RK, Ganae-Motan ED, Allende S, et al. Nabiximols for opioid-treated cancer patients with poorly-controlled chronic pain: a randomized, placebo-controlled, graded-dose trial. J Pain. 2012;13:438-49.

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